31 maio, 2011

Esquecimento, sem nenhum riso: parte II – A educação

Escola


___A pedido de um aluno, republico, abaixo, o meu editorial do Ops! desta semana.


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Mais do mesmo e mais de coisa nenhuma



___Um dos grandes assuntos deste mês de maio foi o depoimento dado pela professora Amanda Gurgel, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte. Falando com muita propriedade, (algo que não isenta a fala dela de críticas), Amanda dissertou um pouco sobre a péssima situação na qual vivem os professores do país. Para quem não viu, fica o vídeo do discurso.


httpv://www.youtube.com/watch?v=yFkt0O7lceA


___Amanda apareceu em canais de televisão, foi compartilhada a torto e a direito pelas redes sociais, deu entrevista para jornais impressos. Mesmo gostando do discurso da moça, não vejo motivo para tanta repercussão. O que foi falado é tão lugar comum, é tão simples, todo mundo já ouviu tantas vezes que equivale a demonstrar espanto por gatos miando, montanhas ficando paradas ou religiosos acreditando em bobagens.


___Não sou só eu que falo isso. A própria Amanda, em fala repercutida pelo RS Urgente, diz “Fico surpresa com toda essa repercussão porque o meu discurso não trazia nada de novo. Qualquer professor conhece aquelas situações descritas.”. Não só qualquer professor. Dificilmente alguém que já frequentou uma escola desconhece essa situação. Blogs de professores falam disso a todo momento. Até o Chico Anysio, fazendo comédia, lembrava: “E o salário, ó!”, enquanto fazia sinal de pequeno com os dedos.


Professor Raimundo e o salário


___Só me chateia muito saber que essa repercussão em cima da fala na Assembleia Legislativa é só revolução de sofá – nada mais vai ser feito além de se comentar o problema. Um dos grandes assuntos deste mês de maio foi o depoimento dado pela professora Amanda Gurgel. Agora, queridos leitores, podem se preparar que o assunto já está pronto para ser esquecido no mês de junho que entra.


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Educação no Brasil


___Aqui no Incautos, além de republicar o texto, aproveitei para acrescentar algumas charges (todas bem anteriores à fala da professora Amanda).


Educação


___Além disso, também acrescentei um título para o conjunto do post: “Esquecimento, sem nenhum riso”. O texto original (a parte I), era simplesmente uma paródia de um parágrafo do Kundera; o de hoje, é só para relembrar o esquecimento dado à educação e como isso não tem a menor graça.

28 maio, 2011

Colocando as cartas na mesa

___Adoro expressões idiomáticas. Acho uma graça a junção de palavras aparentemente desconexas, mas que fazem sentido em determinados contextos, culturas, grupos. Como historiador, acho quase impossível não babar com todo o significado histórico que existe em “fazer nas coxas”, “vitória de Pirro”, “pomo da discórdia”, “ficar na mão”, “paciência de Jó”, etc..


Expressões Idiomáticas


___Por mais que eu adore essas expressões, acho mais interessantes ainda aquelas que, mesmo sem conhecimento histórico ou ideia da cultura local, são passíveis de serem interpretadas. Minhas duas preferidas são “valer a pena” e “sei lá”.
___Algo trabalhoso, ou chato, ou incomodo, pode resultar em algo maravilhoso. Então, literalmente, aquilo “valeu a pena”. Um doce feio, mas gostoso, vale a pena. Uma música ruim, que resulte em uma boa dança, vale a pena. Fila de motel... Acho que vocês já entenderam.
___Só acho importante não cair em uma armadilha comum que eu, por gostar muito da expressão, acabo por ser prisioneiro: o uso indevido.
___Exemplificando. Algum conhecido pergunta: “O que você achou de tal filme?”. Tendo gostado, respondo, sem refletir muito, “Valeu a pena.”. A pessoa entende que eu aprovei o filme, mas minha mania de usar a expressão pode dar a entender que, de alguma forma, ter visto o filme foi um fardo. Ainda assim, como realmente ela me agrada, no fim das contas vale a pena usá-la.
___O “sei lá”, por sua vez, tem a beleza própria de quem quer aprender, dos sonhadores, dos cientistas. Ele vai além do simples não saber algo, supera a ignorância pura e simples. “Sei lá” significa que você não sabe algo agora, mas, talvez, , quando você estiver em outro lugar, em outra época, talvez você saiba. Queria eu que todas as ignorâncias dos meus alunos fossem desse tipo, um não-saber de quem, um dia, saberá.


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___Agora, queridos leitores, não me deixem com as mãos abanando. Digam-me, aí nos comentários, quais as expressões idiomáticas preferidas de vocês.

24 maio, 2011

Notícia manipulada

___Quando se aprende minimamente a analisar textos, fica bem fácil perceber manipulações baratas para convencer os leitores. Há mais ou menos um ano, fiz uma análise de um texto do portal Terra mostrando isso e, creio eu, vale a pena repetir o exercício.


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___Por conta das condições de trabalho precárias, dos salários ridículos, dos direitos não pagos (assunto sobre o qual falei, também, no ano passado), alguns profissionais das Escolas Técnicas e das Faculdades de Tecnologia do estado de São Paulo, administradas pelo Centro Paula Souza, resolveram entrar em greve. O assunto foi praticamente ignorado pela grande imprensa. Para chamar um pouco mais de atenção para o movimento, os apoiadores da greve fizeram, na última sexta, um pequeno ato na Avenida Paulista.
___Ao noticiá-lo, o portal de notícias da Globo, o G1, posicionou-se, confortavelmente, à direita e, tentando parecer isento, transpirou partidarismo parcialidade. Seria possível analisar o artigo inteiro. Acredito, entretanto, que só a manchete e seu complemento já ilustram bem o que me interessa.
___A manchete, que esquece a participação de outros funcionários e alunos, é: “Em greve, professores das Fatecs e Etecs fazem protesto na Av. Paulista”. Mais ilustrativo ainda é o complemento “Cerca de 250 pessoas participam do movimento, segundo a PM. Categoria não aceitou reajuste salarial de 11% anunciado pelo governo.”.


Greve Etecs e Fatecs 2011 - Manchete do G1


___Logo depois do assunto básico da greve, o complemento cita os números baixos fornecidos pela PM –, deixando clara a mensagem de que se trata de uma greve com poucos interessados. Mais do que isso, a frase seguinte ressalta o aumento dado pelo governo –, desenhando um retrato dos grevistas como reclamantes de barriga cheia, já que um aumento já foi dado.
___Acreditar que citar números é agir de maneira isenta é quase tão ingênuo quanto levar a sério a virgindade de uma grávida. Mencionar – não só na manchete, mas no texto todo – apenas o número de participantes estimados pela PM (250), é tomar partido contra a greve. Uma organização que defende o governo obviamente calculará para baixo o número de sediciosos. Só para mostrar a diferença, o número de participantes calculado pelo Sindicato dos Trabalhadores do Centro Paula Souza (interessado em calcular para cima) foi de 2000 pessoas.
___Mais engraçado e digno de nota ainda, é que a reportagem do G1 diz que o número de manifestantes calculado pela PM é de “cerca de 250 pessoas”, enquanto o artigo do Correio do Brasil afirma que “De acordo com a Polícia Militar, o protesto teve cerca de 300 pessoas”. Sei que os milicos nunca foram muito famosos pelos seus talentos matemáticos; mesmo assim, essas citações são estranhas.


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___Já que o assunto é a greve das Etecs e Fatecs, vale ilustrar um pouco mais o texto com alguns dos cartazes divertidos que sempre surgem nesse tipo de movimento.


Greve - Etecs e Fatecs 2011
Greve Etecs e Fatecs 2011



Greve - Etecs e Fatecs 2011
Greve - Etecs e Fatecs 2011
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___É bom lembrar: fiz toda uma análise da manchete do G1, demonstrei um pouco como fazer uma leitura menos ingênua, etc.. Sendo assim, não sejam ingênuos, não citei os números que citei, não coloquei as imagens que escolhi à toa.
___Por fim, tenho de dizer: não consigo imaginar como alguém pode defender um governo que paga 10 reais por aula para professores trabalharem em salas de 40 alunos.

21 maio, 2011

Esquecimento, sem nenhum riso

___Desde a primeira vez que li Milan Kundera, fui invadido por um gigantesco sentimento de “Por que diabos eu não escrevi isso?”. Tudo que já li dele até agora me deixou alcandorado, babando, pedindo mais. Mais ou menos o mesmo efeito que eu adoraria causar em todas as mulheres para quem eu falo “oi”.
___Não escrevi nem uma linha da obra do Kundera (e nem todas as mulheres do mundo estão pedindo para ouvir meu “oi” novamente), mas posso reescrever algumas linhas para minha própria diversão.


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___Uma aluna querida me emprestou O livro do riso e do esquecimento – livro que Kundera publicou dois anos antes d’eu nascer. Ainda na primeira parte, morri de sorrisos pelo seguinte parágrafo:




___“O assassinato de Allende encobriu rapidamente a lembrança da invasão da Boêmia pelos russos, o sangrento massacre de Bangladesh fez esquecer Allende, a guerra no deserto do Sinai cobriu com seu alarido as lamentações de Bangladesh, os massacres do Camboja fizeram esquecer o Sinai, e assim por diante, até o esquecimento completo de tudo por todos.”.



___Como eu disse, morri de sorrisos, mas o parágrafo não é meu. Mesmo assim, nada me impede de brincar com ele. Só com o início de 2011, usando também acontecimentos nacionais, dá para escrever:




___“O sangrento massacre na Líbia encobriu rapidamente a lembrança do atropelamento dos ciclistas de Porto Alegre, o acidente nuclear do Japão fez esquecer a Líbia, o massacre em uma escola do Rio de Janeiro cobriu com seu alarido as lamentações do Japão, o assassinato de Osama bin Laden fez desaparecer da lembrança a escola de Realengo, e assim por diante, até o esquecimento completo de tudo por todos.”.



___Se o ponto fosse só o esquecimento de algumas desgraças que passaram e findaram, o parágrafo seria mais lindo ainda. O chato é que muitas delas só são esquecidas, mas não acabaram completamente. O triste, é que essas grandes desgraças fazem o mundo esquecer outras – que são diárias e, muitas vezes, até mais horríveis.


19 maio, 2011

Crônica (suja) em linha torta

___Raramente produzo poemas; se muito, faço algumas paródias. Quando tenho alguma poesia na cabeça, vez por outra utilizo-a em alguma situação cotidiana.
___Na minha época de faculdade, uma matéria (e uma aluna da carteira do lado) acabou fazendo com que eu decorasse uma parte do “Poema em linha reta”, do Fernando Pessoa – brincando de Álvaro de Campos. Não sei de cor grande coisa, apenas alguns dos primeiros versos. É pouco, mas é o bastante para uma piada interna.
___Quando o tempo começa a esfriar, aquele frio que dificulta mais ainda o levantar da cama e quase impossibilita o entrar no chuveiro, recito frequentemente o comecinho da segunda estrofe:




“E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho”



___Só que, como bem choramingou Álvaro de Campos, ele não tem “par nisto tudo neste mundo.”. Não vou chegar em um poema (ou em uma postagem em prosa) e dizer que, no frio, eu corro do banho. Admito, vontade de não tomar banho eu tenho, mas as convenções sociais são mais fortes e eu ligo o chuveiro. Talvez sejam as convenções sociais, ou talvez eu não tenha é culhões para agir de outra forma.
___Se algum dia eu tiver um heterônimo, ele não vai se envergonhar de ficar sujo.

15 maio, 2011

Análise documental

___Para os leitores que aparecem aqui porque gostam de saber da minha vida, tenho um brinde, hoje, para vocês. Para quem lê o Incautos porque se interessa pelo que eu falo, vez por outra, sobre Educação, também tenho um extra.
___Caio, o autor do blog Descremar, faz, atualmente, estágio comigo. Pelo que eu posso perceber, ele aprecia bastante o meu trabalho – e, acrescento, eu admiro bastante o trabalho dele como estagiário e historiador. Em seu último texto, em meio à reflexões sobre literatura e estudo histórico, Caio disse:




... acredito no valor da narrativa no ensino de História. Sem entrar em questões acadêmicas, dou um exemplo vivido no meu estágio de licenciatura. O professor com quem estagiei narrou aos alunos passagens da Ilíada e da Odisseia e depois recuperou as características históricas da Grécia Antiga nelas presentes. O interesse e a (grande) participação dos alunos me fez ver que aquilo havia dado certo. Ao invés de simplesmente dizer o que eram as obras e apontar suas características históricas, narrou passagens das mesmas, o que fez muita diferença.”.



___Fico contente com a percepção positiva do Caio ao meu trabalho e pela boa reação dos estudantes.
___Em breve, analisarei com os alunos o texto da peça Alceste, de Eurípedes, e torço para que a análise detalhada de um texto funcione tão bem quanto a narrada.


13 maio, 2011

Muros, ironia e espaço público: Parte III – De quem é esse muro?

Antes, leia a parte I e a parte II.

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___Banksy, um dos mais importantes artistas britânicos vivos, tornou muros (vulgo, entraves à paisagem) em paisagens (no caso, obras de arte).

Bird 1

___Além de gostosas brincadeiras, o trabalho feito por Banksy é sempre cheio de críticas – algumas mais camufladas...

Bird 2

... outras, nem tanto.

Take that!
no future
Dreams
Park

___Banksy e outros pichadores me lembram, todos os dias, a quem os muros pertencem.

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___Um historiador que eu admiro bastante, certa vez levantou a questão: “O dono da propriedade é, também, o dono da parte de fora do muro que cerca essa propriedade?”.
___Depois de acompanhar esta série sobre muros e pichações, talvez alguns leitores pensem que eu vou dizer que os muros pertencem aos artistas que nas paredes colocam suas obras. Admito que pensar em cidades como gigantescos museus a céu aberto, com grandes telas espalhadas por todo canto, livres para todos e propriedade de todos os artistas, é muito do meu agrado, mas, ainda assim, não acho que os grafiteiros e afins são donos dos muros.
___Docemente, vejo como dono do muro quem tem de conviver com ele, olhar para ele, sentar-se nele. Por dentro, o dono do muro pode ser o dono do imóvel, mas, por fora, todos são donos do muro. Quem grafita é dono do muro, quem namora apoiado na parede é dono também, quem desvia e quem olha – principalmente quem olha – é dono do muro.

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___Aí está mais um motivo para que eu adorar o Banksy. Ele foi um dos artistas que resolveu transformar o Muro da Segregação (aquele muro que Israel tem construído na Palestina Ocupada para garantir que vai surrupiar mais territórios palestinos) em uma gigantesca tela.


___O Muro da Segregação ainda é um crime contra a humanidade feito por Israel, mas, graças aos pichadores, hoje, ele pertence um pouco mais ao maltratado povo palestino.

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Série “Muros, ironia e espaço público”
- Parte I – Os muros de Marcelo Rubens Paiva
- Parte II – O muro de M. Ulisses Adirt
- Parte III – De quem é esse muro?

09 maio, 2011

Ônibus velho

___Eu estava parado, quase na porta de entrada, espremido dentro de um ônibus lotado. Como o trânsito não andava, o motorista, para a minha surpresa e de outros passageiros próximos, começou a tirar um sapato. Em seguida, inclinou-se e pegou, de uma sacola, algumas meias. Pacientemente, colocou-as, todas, no pé descalço. Com algum esforço, recolocou o sapato.
___Como o trânsito ainda não havia dado sinal de que iria se movimentar e os passageiros pareciam curiosos, ele explicou.
___– Vocês estão aí e não sabem, mas o meu pé já estava doendo. Esse pedal do acelerador esquenta prá burro.
___Algumas pessoas começaram a se virar, fingir que não era com elas, mas, empolgado ao ver alguns interessados, o motorista continuou.
___– Não adianta, ônibus velho é assim mesmo.
___Mal eu assenti com a cabeça, o motorista começou a falar de política.
___– Com o Kassab, os ônibus só são trocados a cada 10 anos. Este aqui só completa 10 em fevereiro. Então vou protegendo o meu pé. Com várias meias, ainda esquenta, mas não dói.
___Esbocei um sorriso e ele continuou.
___– Com a Marta prefeita, os ônibus eram trocados a cada 6 anos. Com o puto do Kassab, tem de esperar 10. Bruta falta de respeito.
___Aproveitando a deixa, comentei:
___– É... E o ônibus ainda subiu agora para 3 reais e, quando as pessoas protestam, o prefeito permite que a polícia bata nelas.
___O trânsito andou. O motorista levou o ônibus até o próximo ponto. A porta abriu, alguns passageiros começaram a entrar, alguns do fundo a sair. Enquanto eu acompanhava o fluxo em direção à roleta, o motorista ainda completou em voz alta:
___– E quer apostar que ainda reelegem esse merda do Kassab de novo?


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___Não sei se a informação da troca de ônibus a cada dez anos com o Kassab e a cada seis com a Marta é verídica. Mas, sei que a dor que um pobre trabalhador sentia – a ponto de colocar muitas meias em um pé só – era. Sei também verdadeiro, tanto que fui até eu que citei, o aumento do ônibus e a inação do prefeito quanto à violência policial.
___Enquanto isso, o ônibus anda.

06 maio, 2011

Fui eu que matei!

___Na terça-feira, publiquei, no Editorial do Ops!, um texto sobre a reação do Obama ao assassinato do Bin Laden. Como muita gente veio comentar comigo por e-mail, muitos alunos vieram falar do assunto e eu apreciei o que escrevi, segue, abaixo, uma versão modificada.


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___Como qualquer professor de Humanas do Ensino Médio que preste, acompanhei, com atenção, as notícias sobre a morte de Osama bin Laden. Como raramente escrevo sobre algo que acabou de acontecer, eu não iria postar nada por aqui. Até que, embasbacado, ouvi as falas dos líderes norte americanos sobre o assassinato.


___Claro que eu esperava algumas reações exageradas, claro que eu esperava gente se auto-promovendo com a morte, mas, talvez ingenuamente, eu não esperava uma reação como a do Obama.


Yes we kill


___Uma fala como “Pouco tempo depois que assumi a presidência, eu, diretamente, ordenei ao diretor da CIA que a morte ou captura de Bin Laden era a principal prioridade na guerra contra a Al-Qaeda.” não parece a fala de um presidente que sempre fez de tudo para se mostrar moderado. A reação de Barack Obama a esse assassinato parece a mesma de seu antecessor aos ataques às Torres Gêmeas.


Obama 2012


___Puxar para si tanto assim as glórias do assassinato de outro ser humano, soa muito estranho para alguém que ganhou o Nobel da Paz – tendo-o merecido ou não. Sinceramente, parece que, se fosse mesmo contar de maneira positiva, Obama diria “Fui eu que puxei o gatilho. Deem uma olhada, o sangue até respingou na manga do meu terno.”.


Eu matei!


___Isso deixa mais estranho ainda o fato de não mostrarem o corpo. Seria um grande extra nessa auto-promoção “Fui eu que matei!”. De qualquer modo, para alguns políticos, sem dúvida, Osama bin Laden vai fazer muita falta.



Osama deixará saudades


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___Terminei o Editorial do Ops! nesse ponto. Agora, republicando o texto aqui no meu blog, com alguns dias passados, tenho mais dois centavos de reflexão a tecer (com direito outras ótimas charges que arrumei por aí).


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___Ainda me impressiona bastante não terem apresentado nenhuma prova da morte do Osama. É uma questão por demais delicada para deixarem esse clima de “Acreditem na nossa palavra.”. Desculpas como “Não mostramos porque são imagens muito pesadas”, só deixa mais engraçado ainda esse quadrinho do Latuff:


O cara que matou Bin Laden


___Mesmo assim, repetindo o que respondi para estudantes a semana toda, acredito que devem ter matado mesmo o Bin Laden. Existe muita coisa em jogo. Não dá para o Obama aparecer dizendo “Olhem, eu matei o Osama e ainda mijei na água do mar em que jogamos o corpo.” e, algumas semanas depois, o Bin Laden aparecer, todo pimpão, segurando um jornal dizendo que ele está morto. O Barack Obama iria levar mais pancadas e renunciar mais rápido do que o Nixon.


___Mesmo assim, é interessante ver as atitudes de quem está no poder e se acostumou a deixar as pessoas trancadas em um porão.


A morte do grande terrorista

01 maio, 2011

Muros, ironia e espaço público: Parte II – O muro de M. Ulisses Adirt

Parte I aqui.

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___Em meados de 2009, um artista resolveu pegar um muro sujo, longo e maltratado, próximo à minha casa, e colar uns cartazes. Eu apreciei bastante. Aquele lugar feio e perigoso tornou-se mais interessante.

Cartazes e o Muro

___Depois de anos ignorando o muro, o “dono”, talvez incomodado com os cartazes e algumas outras pichações, resolveu pintá-lo.

Muros, ironia e espaço público – O muro de M. Ulisses Adirt

___Foi o convite que os pichadores e grafiteiros estavam esperando. Quiçá incomodados com a eliminação dos cartazes, grafites e afins, quem sabe empolgados pela tinta recente, eles capricharam no trabalho e forraram o muro de escritos.

Muros, ironia e espaço público – O muro de M. Ulisses Adirt

___O “dono” da parede mandou ver na tinta.

Muros, ironia e espaço público – O muro de M. Ulisses Adirt

___No entanto, olhem com atenção a imagem acima. Os grafiteiros, mal a tinta havia secado, acrescentaram um trabalho novo. Deixo a obra em destaque.

Muros, ironia e espaço público – O muro de M. Ulisses Adirt

___E não pararam por aí. Poucos dias depois, novos grafites surgiram, continuando o trabalho do primeiro.

Muros, ironia e espaço público – O muro de M. Ulisses Adirt

Muros, ironia e espaço público – O muro de M. Ulisses Adirt

___Mais algumas semanas e novas pichações despontaram pelo local.

Muros, ironia e espaço público – O muro de M. Ulisses Adirt

___Além dos trabalhos tradicionais, resolveram colocar alguns em alto-relevo – com papéis, plásticos, massinhas, tampinhas e afins.

Muros, ironia e espaço público – O muro de M. Ulisses Adirt

___Depois de um mês e pouco, chego em casa e vejo o muro pintado (por sinal, muito mal pintado).

Muros, ironia e espaço público – O muro de M. Ulisses Adirt

___O interessante, entretanto, é que a mão de tinta que foi passada ignorou completamente a existência da obra em alto-relevo. Sem ligarem para a diferença entre ela e os outros trabalhos, simplesmente passaram tinta em cima.

Muros, ironia e espaço público – O muro de M. Ulisses Adirt

___O recado estava dado: o alto-relevo podia ficar. Valia a pena até pintá-lo novamente.

Muros, ironia e espaço público – O muro de M. Ulisses Adirt

___Mais do que isso. Os artistas do muro resolveram fazer várias novas obras com materiais atípicos.

Muros, ironia e espaço público – O muro de M. Ulisses Adirt

Muros, ironia e espaço público – O muro de M. Ulisses Adirt

Muros, ironia e espaço público – O muro de M. Ulisses Adirt

___O “dono” e suas monocores ainda não reagiram às intervenções artísticas.
___De qualquer modo, atualmente o muro vive. Graças aos artistas, aquele muro não é mais uma parede esquecida, não é apenas um feio entrave à visão. Ainda é um local perigoso de se andar à noite, mas, queira ou não, é um lugar mais agradável.

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Série "Muros, ironia e espaço público"

- Parte I – Os muros de Marcelo Rubens Paiva
- Parte II – O muro de M. Ulisses Adirt
- Parte III – De quem é esse muro?
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