28 novembro, 2011

Slow...

___Dia desses, pouco antes da publicação do texto “A Guerra do Arquiduque e a Maconha”, eu estava conversando virtualmente com o meu amigo Caio. Inteligente e dono de um gosto literário apuradíssimo, Caio é leitor do Incautos do Ontem – e estava curioso para saber se eu iria publicar mais algo sobre a USP.




M. Ulisses Adirt: Vc acha, por acaso, q parte da tarde do meu domingo não está sendo dedicada para revisar um artigo do Incautos compartilhando links e ideias?
Caio Romero: Eba! :D
M. Ulisses Adirt: Só q, vc me conhece... ainda acho q tem de melhorar mto... Estou lapidando as palavras.
Caio Romero: ‎=D mas poste o mais rápido possível.



___Quanto o Caio pediu pressa, lembrei do Ítalo Calvino, no lindo Se um viajante numa noite de inverno, classificando escritores. Respondi que eu sou um escritor lento, que tem dificuldade e sofre para escrever cada linha. Ao que o Caio me responde:




Caio Romero: slow writer. tem um movimento chamado slow science, já ouviu falar? acho bem interessante.
M. Ulisses Adirt: Não o conheço. Mas, tenho de dizer q são extremamente porcos esses “intelectuais” q, para manter um bom número de publicações, reeditam infinitamente a mesma pesquisa. Dá nojo. Por isso eu gosto tanto do Hilário, q, como intelectual, é um exemplo.
Caio Romero: eu vi seu post sobre o Hilário. gostei! acho que você pegou o espírito do Slow Science; é isso: ter tempo para fazer ciência, de fato.
M. Ulisses Adirt: ‎:-) Eu sou, então, a favor do “slow teaching”, com professores tendo muito tempo livre para ler, ir ao teatro, museus, cinema e afins (para que consigam o máximo de cultura possível), para preparar cada uma das aulas, para atender os alunos. Mais ou menos o que eu faço, mas sem precisar fazer os meus sacrifícios salariais.
Caio Romero: sou a favor do slow tudo, na verdade...
M. Ulisses Adirt: Puxa... eu adoro fast food... ;-)
Caio Romero: hahaha



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___A piadinha final, serve só para diversão mesmo. O restante da conversa, entretanto, conta com pontos muito importantes sobre o que eu penso sobre Ciência, sala de aula e afins. Achei que valia a pena publicar.
___Além disso, publicando o diálogo, posso divulgar um pouco mais o movimento da Slow Science, que eu achei bem interessante. Ficam os links do seu site oficial e de traduções do Slow Science Manifesto.

24 novembro, 2011

Incautos X Capitalismo

___Meu querido e pobre blog tem tido alguns problemas com o servidor nos últimos dias. Ficou a semana toda fora do ar. Mesmo agora que voltou ao ar, podem ver, o template está todo desconfigurado.*
___Nem imagino o que aconteceu de errado. Mesmo assim, adorei a hipótese que um aluno levantou:


Incautos X Capitalismo


___Sendo assim, grandes corporações, tremam! Mesmo desconfigurado, o Incautos do Ontem está de volta.


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* Claro, só dá para ver entrando no blog. Quem lê por feed, acho que está tudo igual.

19 novembro, 2011

Escrever, verbo intransitivo

___Lendo, vendo uma exposição, andando na rua, conversando no metrô, eis se não quando, aparece a Ideia. Um pouco tímida, olhando de lado, fingindo que não está lá; calejado, o Autor arruma qualquer lugar em que possa anotar e pega o nome, telefone, e-mail da doce Ideiazinha.
___Depois de entrar em contato, encontros são marcados. O texto vai surgindo fácil, interessante. Até mesmo um título o Autor conseguiu – isso ainda no terceiro parágrafo do rascunho. Tudo parece andar às mil maravilhas.
___Querendo aprofundar o relacionamento, o autor começa a escrever o texto verdadeiro. Começa a escolher as palavras com atenção, a moldar cada uma das frases, a pesquisar. Então acontece a desgraça: em meio a pesquisa, o Autor descobre que aquela Ideia linda, para a qual ele havia dedicado horas, pagado jantar, mandado flores, aquela Ideia de que ele tanto gostava, é inconsistente.
___Ele deveria ter percebido. Estava tudo indo bem demais. Revoltado, pega o telefone, liga, esbravejando, tarde da noite, para a pobre Ideia. A discussão leva horas. Impaciente, o Autor grita:
___– Sua dissimulada! Capitu! Como assim você não me contou sobre a sua inconsistência.
___Apesar de triste, a Ideia tenta se fazer de durona. Engole o choro e retruca:
___– Como? Eu nunca escondi minha inconsistência. Ela sempre estava aí para quem quisesse ver. Você que não olhou direito.
___O Autor sabia; era verdade. Se ele tivesse prestado mais atenção, lido um pouco mais antes de se jogar em cima da Ideia, ele teria percebido. Infelizmente, ingênuo, ele se entregou e só veio a notar o problema quando aquele belo relacionamento já havia caminhado texto adentro.
___Na cama, o Autor vira para todos os lados, não consegue dormir. A Ideia, mesmo que inconsistente, não lhe sai da cabeça. Sem outro remédio, ele levanta da cama, abre a garrafa de sátira, mistura com um pouco de ironia, amassa uma rodela de humor no fundo do copo e coloca duas pedras de metonímia. Toma tudo de uma vez. Repete a dose, mistura com alguns outros elementos. Lá pelo quarto copo, o Autor percebe que talvez dali saia algo mais consistente. Esperançoso, talvez alto pelo efeito da bebida, ele se lança em mais um texto.


15 novembro, 2011

Like a Rodas

___Entre as brincadeiras que fizeram por conta da violência que o reitor da USP, João Grandino Rodas, tem utilizado contra os estudantes, a mais interessante é o Tumblr like a boss, like a rodas. Uma das melhores piadas postadas por lá até agora foi publicada no dia 10 de novembro.


Like a Rodas - Wall Street


___Infelizmente, agora não é mais piada.


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P.S.: Já que o assunto está no salão, fica o link para o Acampa Sampa/Ocupa Sampa.

13 novembro, 2011

A Guerra do Arquiduque e a Maconha

___Sinto um pouco de vergonha alheia quando vejo as pessoas falando sobre os atuais problemas entre muçulmanos e judeus no Oriente Médio como um “briga milenar”. Santa falta de conhecimento histórico, Batman! Judeus e muçulmanos não se agrediam antes de 1948. Só a partir de então, com a divisão da Palestina e a criação de Israel (uma decisão unilateral da ONU), é que os conflitos começaram.
___Vergonha alheia parecida eu sinto quando vejo hordas de bobos pelo mundo dizendo que “Esses estudantes maconheiros da USP têm mesmo de apanhar. Ao invés de estudar, ficam aí brigando porque querem um lugar para queimar erva.”.


Como reagir aos maconheiros da USP? - Latuff


___Sabem o que parece? Parece a famosíssima Guerra do Arquiduque.
___O que foi? Nunca ouviram falar desse conflito? É simples, meus queridos pupilos, a Guerra do Arquiduque foi aquele famoso conflito entre a Tríplice Aliança e a Tríplice Entente, ocorrido entre 1914 e 1918. Tudo começou quando Francisco Ferdinando, arquiduque do Império Austro-Húngaro, foi assassinado. Entenderam? Todo o conflito aconteceu só porque assassinaram o herdeiro do Império Austro-Húngaro, por isso Guerra do Arquiduque.


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___Deixando a brincadeira retórica de lado, como qualquer pessoa que entenda um pouco de História sabe, a I Guerra Mundial não aconteceu só porque mataram o arquiduque Francisco Ferdinando. As nações francesa e alemã estavam intoxicadas com um grande revanchismo; as potências industriais europeias disputavam, fazia tempos, colônias na África e Ásia; preocupadas com as disputas, as nações europeias começaram a formar alianças militares e a se armar. Em meio a esses e muitos outros fatores, a Europa era, já diria uma expressão absurdamente consagrada, um barril de pólvora. A morte do arquiduque foi apenas o estopim que fez o famigerado barril explodir na Grande Guerra.
___O caso da USP é exatamente o mesmo. O clima dentro da Universidade não estava bom por diversos fatores: tal qual Paulo Maluf durante a Ditadura Militar,* José Serra empossou como reitor João Grandino Rodas e não Glaucius Oliva, o docente mais votado pela comunidade USP;** Rodas, que já havia apresentado graves problemas como diretor da Faculdade de Direito da USP, ainda foi acusado de diversos casos de corrupção; de maneira arbitrária, a Polícia Militar (que apenas dois anos antes reprimiu violentamente alguns manifestantes dentro da Universidade) foi colocada no Campus. Isso tudo, somado com vários outros elementos, fez da USP um barril de pólvora. O caso dos policiais enquadrando três estudantes que fumavam maconha, simplesmente serviu de estopim para o início de tudo que aconteceu depois.
___A briga toda, não foi porque “os alunos da Universidade de São Paulo estão acima da lei”, não foi pela “liberdade de se fumar maconha dentro da USP”. Resumir o que está acontecendo na Universidade a isso só pode ser ignorância ou má fé. Ou alguém acha mesmo que a I Guerra aconteceu só por causa da morte do arquiduque Francisco Ferdinando?


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P.S.: Falando de má fé, alguém pode me explicar como é que alguém tem a cara de pau de criticar os estudantes e não falar nada da polícia abusando do poder quando atacou a moradia dos estudantes (o CRUSP) no meio da madrugada? Alguém pode me dizer por que diabos a imprensa não noticia (como eu já havia apontado) que os policiais, em operações de enfrentamento, aparecem sem identificação?


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* Em 1981, Paulo Maluf, como governador de São Paulo, empossou Antônio Hélio Vieira, o quarto colocado na eleição de candidatos a reitor.
** Vale perguntar: o governador Geraldo Alckmin, do PSDB, não tem vergonha de dizer que os estudantes precisam de uma aula de democracia? Democracia, por acaso, é quando, arbitrariamente, o senhor José Serra, também do PSDB, empossa como reitor o candidato que não foi o mais votado?

11 novembro, 2011

Entrincheirado

___Faz alguns meses, contei que, em sala de aula, eu já analisei até soldadinhos de plástico com os alunos. Inclusive, indiquei um site ótimo para quem se interessa pelo assunto, o Plastic Soldier Review.
___Pois bem, agora, finalzinho do ano, repeti a aula. E uma aluna tirou uma foto ótima. Fiquem com ela; e riam à vontade da minha cara.

Mauricio Ulisses Trida em aula

06 novembro, 2011

Menos sendo mais

___Hilário Franco Júnior é um dos maiores medievalistas do país, não há como não admirar o seu trabalho –, principalmente depois de ler a sua mais bem acabada pesquisa, o livro Cocanha: a história de um país imaginário*. No entanto, mesmo babando pela sua produção acadêmica, um dos momentos em que mais o admirei, foi um instante que não lhe deu o menor trabalho como pesquisador.


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___Em meados de 2001, viajei para Minas Gerais para participar do IV Encontro Internacional de Estudos Medievais.
___Depois de muitas horas de viagem, por volta das 17h, finalmente pisei em Belo Horizonte. O evento começaria às 20 horas. Corri para o local em que eu iria me hospedar, deixei as malas, tomei banho e voei para o Encontro. Mesmo ficando um pouco longe, cheguei no horário. Fiz o credenciamento e entrei.
___Para o meu ódio de rapaz que morreu de pressa, o início, como não é difícil de acontecer nesse tipo de evento, atrasou. Um bom tanto depois, auditório cheio, finalmente alguém pega o microfone e anuncia e apresenta quais serão os medievalistas que irão compor a mesa. 5 ou 6, se não me engano.
___O coordenador da mesa começa agradecendo a presença de todos – tanto público, quanto professores à mesa. Agradece à universidade em que estávamos, por ter cedido o espaço; as outras universidades, pela propaganda; aos patrocinadores; à prefeitura; ao governo do estado; aos funcionários; ao orientador, a mãe, o pai e a Xuxa.
___Após os longos agradecimentos, o coordenador da mesa olha o relógio e pede que cada convidado fale por apenas 15 minutos, pois, depois de determinada hora, não passariam mais ônibus pelo local. Antecipadamente, ele pede desculpas – o horário tinha de ser obedecido rigidamente, mesmo que as falas precisassem ser interrompidas.
___A ideia era que cada um dos medievalistas presentes à mesa fizesse alguma reflexão sobre a Idade Média, falasse da própria pesquisa ou algo que o valha, qualquer coisa interessante que servisse como marco para o início do congresso. O problema é que o tempo era curto e todos, cada um a sua vez, perdeu pelo menos 5 minutos da própria fala com longos agradecimentos ao chefe da mesa, aos outros medievalistas, ao público, às instituições que lhes patrocinavam as pesquisas, a própria universidade, às outras universidades, ao cachorro, ao vizinho e a Dona Maria, proprietária da melhor loja de frango da região. Até o Maguila sentiria inveja de tantos agradecimentos.
___No fim das contas, ninguém estava falando nada de interessante. Grande parte do tempo era perdido com agradecimentos inócuos e, na hora de falar algo sobre a Idade Média, mal os medievalistas introduziam, o mediador interrompia, desmanchando-se em desculpas. Não se falava nada mesmo. Parecia que aquela noite havia sido perdida; não havia nada para se aproveitar.
___Então, chegou a vez do Hilário, último medievalista da mesa a falar.


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___Em “Vidas Breves” (uma das interessantes séries dos quadrinhos de Sandman, de Neil Gaiman), Sonho e Delírio partem em busca de seu irmão Destruição. Quando finalmente o encontram, os três se sentam para jantar e, longamente, por duas páginas e muitos quadrinhos, Delírio conta, de maneira confusa e alucinada, a peregrinação dela e de Sonho até acharem o parente.


Sandman #48a
Sandman #48b
Sandman #48c
Sandman #48d
Sandman #48e
Sandman #48f
Sandman #48g
Sandman #48h
Sandman #48i
Sandman #48j
Sandman #48k
Sandman #48l
Sandman #48m


___Por mais interessante que a narrativa tenha sido para quem leu a série, por melhor que tenha sido o trabalho de Jill Thompson, Vince Locke e Danny Vozzo nos desenhos e nas cores de Delírio se transmutando durante a narração, tudo pôde ser muito bem resumido no último quadrinho, em uma única frase de Sonho:


Sandman #48n


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___Depois de várias falas, com muitos agradecimentos e nada sobre a Idade Média, chega a vez do professor Hilário Franco Júnior falar. Sem pestanejar, ele pega o microfone e diz:
___– Agradeço a todos que já foram citados até agora.
___Em seguida, o Hilário começou a única fala de verdade da noite toda sobre o medievo.** Podia ser só uma reflexão simples e já teria valido a pena, mas, verdade seja dita, foi uma tremenda aula, mesmo que só por 15 minutinhos. Cravados, vale dizer.


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* Prêmio Jabuti 1999, categoria Ciências Humanas.
** “Modelo e imagem: o pensamento analógico medieval.”. In.: LEÃO, Ângela Vaz e BITTENCOURT, Vanda O. (org.). Anais do IV Encontro Internacional de Estudos Medievais. Belo Horizonte: PUC Minas, 2003. pp. 39-58.

01 novembro, 2011

PM na USP (parte II): bandidos e mocinhos

___Um dos comentários do último artigo foi de um leitor (?) muito simpático chamado bitu. Talvez alguns de vocês tenham alguma dificuldade para entender a profundidade da mensagem do rapaz, mas, mesmo assim, vou reproduzi-la: “vai si foder. defensor de maconheiro!”. Como eu não fui eleito presidente do Grupo de Apoio à Reprodução dos Maconheiros Marinhos em Época de Desova, acredito que o bem articulado comentarista falou isso por conta do meu questionamento ao modo como a imprensa tratou o caso do conflito entre estudantes e policiais na última semana.
___Para fornecer uma versão além da que foi dada pela imprensa (já que o meu texto foi de análise de versão, não uma versão) aproveito para indicar a pequena entrevista que o grande Leonardo Sakamoto fez com os diretores do Diretório Central dos Estudantes da USP. Como já diria qualquer professor a um grupo de alunos querendo criticar algo, Vale a pena conhecer outros lados.

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