30 abril, 2012

Fila do mercado

___Esperando minha vez de ser atendido na fila do mercado, presencio o seguinte diálogo entre o cliente da frente e a caixa que o atendia:
___– Moça, se eu esqueci um produto, eu posso ir correndo pegar.
___– Desculpe-me, senhor –, responde a caixa com a maior cara de “Vai dar merda...” –, mas existem outros clientes esperando.
___– E se for algo bem rápido? Ali, ó, não leva nem 10 segundos pr’eu ir e voltar.
___Meio sem graça, a funcionária responde:
___– Se for só até ali, pode...
___Ela continua a passar os produtos do rapaz; ele parado. Meio sem saber o que fazer, completamente sem graça, a caixa pergunta: “É... desculpe-me... O senhor não vai buscar o produto?”.
___Como se a atitude dele fosse a mais normal do universo, o cliente responde:
___– Não, não. Só queria saber se podia.


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P.S.: Aproveitando o assunto “bizarrices na fila do mercado”, leiam o “Devidisê”, do Rob Gordon.

27 abril, 2012

Citações e Ditaduras

___As tirinhas do André Dahmer são fabulosas. De quando em vez, entretanto, o grande espetáculo acaba sendo o comentário rápido que o Dahmer escolhe colocar acima das tirinhas. O último que muito me agradou foi o seguinte:


Sono, por André Dahmer


___Já que eu estou a citar o trabalho alheio – e a figura lamentável do Bolsonaro obviamente me lembra a Ditadura –, deixo mais algumas citações recentes sobre ditaduras.


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Ditadura da beleza
___A Lola, respondendo a uma leitora, disse:




___“Acho que há duas vertentes principais que respondem por que [nós mulheres] somos cobradas pela perfeição física. A mais óbvia é: pra consumir. Se a gente estivesse satisfeita com nossos cabelos, não gastaria um monte de dinheiro com cremes especiais, hidratação, pintura, cortes mil, chapinha, fivelinha, e sei lá o que mais se usa no cabelo. Fazer mulheres se sentirem feias dá muito dinheiro.
___“A outra vertente – que não necessariamente contraria a primeira – é que fazer com que as mulheres se preocupem unicamente com sua aparência nos distrai de pensar em coisas mais importantes, como, sei lá, mudar o mundo e ser igual a um outro gênero aí. Trata-se de uma forma de opressão extremamente eficiente.”.



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Ditadura carrocrata
___Voltando aos quadrinhos, deixo vocês com o Laerte.


Ditadura carrocrata, por Laerte Coutinho
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Ditadura do racismo
___Já que o assunto “cotas” foi muito discutido nos últimos tempos, o Alex reeditou um dos seus ótimos textos sobre raça.




“Dentre minhas realizações, quantas são exclusivamente por mérito meu e quantas são consequência direta da vida privilegiada que eu e meus antepassados levamos? Que tipo de dívida EU tenho com as pessoas que não tiveram tanta sorte?”.



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Ditadura heterossexual
___Dando mais um tapa na cara dos reacionários, o Fabiano empunhou o seguinte cartaz:


Meu cu é revolucionário, por Fabiano Camilo
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Ditadura Militar
___Por fim, uma citação sobre a Ditadura Militar brasileira. Defendendo a ideia completamente válida de se fazer uma correção semântica, Paulo Candido propõe que deixem de nomear a Lei 6683, de agosto de 1979, como “Lei da Anistia” e passem a chamá-la de “Lei da Tortura”.




___“A mudança de nome tem então uma função precisa, desfetichizar para as novas gerações o que realmente ocorreu. Um regime sanguinário com os dias contados decidiu realizar uma troca: ‘perdoou’ crimes que nunca existiram (pois não é crime resistir a facínoras que tomaram o poder pela força, derrubando um governo democraticamente eleito) em troca do esquecimento de seus crimes contra a humanidade. É preciso que se saiba que a ‘anistia’, se houve, não se voltou para o passado, mas para o futuro. Para hoje, mais exatamente.
___“O efeito também é didático: é preciso que todos aqueles que invocam orgulhosamente a ‘Lei da Anistia’ saibam que estão invocando a ‘Lei da Tortura’. E que a ‘Lei da Tortura’ serve para proteger gente que espancou prisioneiros até a morte, estupradores de mulheres grávidas, exemplos de coragem que aplicaram choques elétricos na vagina de garotas de 19 ou 20 anos, hérois militares que enfiaram cassetetes no ânus de rapazes amarrados.
___“Dessa foram ficará claro que todo aquele que invoca a Lei da Tortura como jurisprudência tem como objetivo inocentar os torturadores. Que todo aquele que fala em ‘reciprocidade’ está equiparando a resistência a um regime sanguinário e ilegítimo a criminosos da pior espécie. Que a defesa da Lei da Tortura é na verdade a defesa de crimes contra a humanidade praticados por duas décadas contra brasileiros que ousaram se opor a psicopatas com cargos públicos agindo sob as ordem de generais golpistas.”.



___E, para quem precisa de ajuda para entender como as coisas funcionam, deem uma olhada em uma linda foto de criminosos escondendo o rosto por conta dos seus crimes:


Dilma Rousseff e os criminosos

21 abril, 2012

O caminho para a Felicidade

___Queridos leitores, vocês já conseguiram ver o interessante comercial do Grand Siena, da Fiat? Vejam uma das versões abaixo (ou as outras duas aqui):


[embed width="500"]http://www.youtube.com/watch?v=lipEpng5bRw[/embed]


___Não é bacana? Como são bonzinhos os publicitários que nos ensinam que não é comprando uma margarina ou um odorizador que seremos felizes! Para mostrar que eu aprendi a lição, achei que valia a pena dar uma analisada no reclame após o “Ah, tá de sacanagem que você achou que eles estão felizes assim por causa dessa margarina/desse cheirinho/desse plano de celular aí, né?”.
___Logo depois de ensinar que não é um plano de celular ou uma margarina que vai fazer as pessoas felizes, a propaganda corta para um carro, no caso o Grand Siena –, mas podia ser qualquer outro que não faria muita diferença. A verdade é essa: não é um automóvel que vai fazer alguém feliz. Para ser sincero, existe mais chance do carro tornar alguém infeliz do que um odorizador. Nunca ouvi nenhum caso de uma pessoa acidentada ou com uma dívida impagável causada por um odorizador.
___As propagandas, logo depois que o automóvel entra em cena, anunciam que o novo carro é “Maior, mais bonito, mais tecnológico.” (grifo meu). Coincidência ou não, o primeiro adjetivo – “Maior”* –, é um dos grandes causadores de infelicidade que quem usa carro.


Espaço ocupado do trânsito


___Os carros, por todo o espaço que ocupam e pelo número pequeno de pessoas que transportam, são os maiores agentes do trânsito que tanto estressa e incomoda os motoristas. Já diria uma máxima cicloativista, “Você não está preso no trânsito. Você é o trânsito.”. Na propaganda do Grand Siena, por outro lado, tentando pintar uma felicidade que não existirá com frequência fora da ficção-propagandística, o automóvel roda livremente por idílicas ruas vazias, sem nenhum outro carro para barrar o seu caminho.
___Falando de “maior”, aposto que também não é por acaso que em todas as propagandas são homens – não mulheres – a dirigir o carro novo.** É interessante perceber como se mantém nos reclames a ideia de que ter um automóvel vai trazer a felicidade e os valores do macho provedor, alfa, com o maior penacho ou qualquer outra idiotice do tipo.


Beba com moderação, por André Dahmer


___Sabem de uma coisa? Eu escolhi não ter um carro para atrapalhar a minha vida e digo sem receio: nunca me arrependi. Para falar a verdade, saber que tenho uma margarina na geladeira me faz muito mais feliz do que a possibilidade de ter um carro na garagem.


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* Mesmo sabendo que, teoricamente, deve estar se referindo ao tamanho interno do veículo.
** Assim como não é por acaso que as qualidades do carro são ressaltadas com um tamanho de letra e a frase “Respeite a sinalização de trânsito.”, colocada no comercial por força da lei, com letras menores.

19 abril, 2012

O hábito, o monge e a atenção alheia

___Noite abafada. Eu, esparramado no sofá, com um caderno e caneta ao lado, um livro na mão, outro no chão. Traje: apenas cueca. Minha esposa chega e pergunta o que eu estou fazendo.
___– Preparando aula –, respondo.
___Ela sorri e responde: “Se eu fosse sua aluna e imaginasse você preparando aula assim, ficaria desconcentrada e não conseguiria prestar muita atenção.”.
___– Ou, talvez –, retruco –, acabaria prestando mais atenção.


14 abril, 2012

Quem dita a sentença não maneja a espada

___No começo do ano, assisti a primeira temporada do seriado Game of Thrones e saí com a mais positiva das impressões. Na mesma época, minha mãe ganhou de presente o livro que inspirou a série –, A Guerra dos Tronos, de George R.R. Martin –, mas o tamanho da obra a intimidou e ela deixou o livro na minha mão. Deixei-o como leitura de banheiro, para ler sem pressa, sem grandes preocupações. Sendo assim, ainda estou no começo, mas, admito, está me agradando.
___No primeiro capítulo, cruzei com um trecho lindo. Após assassinar um homem em uma execução pública, o lorde Eddard Stark aproxima-se do jovem filho Bran e lhe explica o que acabou de fazer. Após alguma conversa, Eddard diz:




“... os reis Targaryen também tiveram [carrascos] antes [do rei Robert]. Mas o nosso costume é o mais antigo. O sangue dos Primeiros Homens ainda corre nas veias dos Stark, e mantemos a crença de que o homem que dita a sentença deve manejar a espada. Se tirar a vida de um homem, deve olhá-lo nos olhos e ouvir suas últimas palavras. E se não conseguir suportar fazê-lo, então talvez o homem não mereça morrer. Um dia, Bran, será vassalo de Robb, mantendo um domínio seu para o seu irmão e o seu rei, e a justiça caberá a você. Quando esse dia chegar, não deve ter nenhum prazer na tarefa, mas tampouco deverá desviar os olhos. Um governante que se esconde atrás de executores pagos depressa se esquece do que é a morte.” (grifos meus)



___Mesmo se tratando de uma ficção, de uma realidade que não é a nossa, penso em como isso encaixa bem em muita coisa do que acontece hoje em dia. Só para citar alguns exemplos aqui de São Paulo, é fácil para um prefeito como o Gilberto Kassab permitir que a polícia disperse violentamente cidadãos que, ano passado, resolveram organizar manifestações contra o aumento da tarifa de ônibus. O mesmo para o governador Geraldo Alckmin e o tratamento criminoso dado aos ex-moradores do Pinheirinho.


Massacre do Pinheirinho, por Carlos Latuff

___Os dois ditaram as sentenças (e tinham poder para “desditá-las”), mas nenhum dos dois, nem Kassab, nem Alckmin, manejou a espada. Os dois se escondem atrás de burocratas, de assessores, de executores pagos e, portanto, rapidamente se isentam, se esquecem do sofrimento que causam. Esquecer, não se considerar culpado, deve ser bem importante para ajudar a manter o sorriso na próxima eleição.


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P.S.: Ironias da vida, o trecho que me trouxe essa reflexão, foi publicado na Veja. Sem dúvida, “Um governante que se esconde atrás de executores pagos depressa se esquece do que é a morte”.
P.P.S.: Para quem gosta do seriado Game of Thrones, aproveitando que eu falei da Veja, deem uma olhada como ficaria a capa da revista caso a historinha não fosse ficção:


Veja - Game of Thrones

09 abril, 2012

Incomodando os vizinhos

___Faz menos de um ano que eu e minha esposa nos mudamos para o nosso atual apartamento. Já que estamos adorando e pretendemos continuar a morar no mesmo lugar, fazemos de tudo para manter uma boa relação com os vizinhos. Mesmo assim, não sei se por dançarmos pelo apartamento, se por jogarmos sinuca na sala ou porque pulamos na cama – com direito a gemidos, gritos e solos de trompete – por horas afins, a vizinha do andar de baixo interfonou para o porteiro que, em um momento de silêncio monástico, veio bronquear conosco.
___– A senhora do 72 interfonou dizendo para vocês pararem de martelar a esta hora.


[embed width="550"]http://www.youtube.com/watch?v=ME13ySm_-iA[/embed]


___Martelar? Como não estávamos fazendo mais nada que fizesse barulho já fazia uma boa meia-hora, achamos estranho, mas nos desculpamos.
___Dia seguinte, o zelador veio dizer para tomarmos cuidado com o barulho ou estaríamos sujeitos a multas. Mais uma vez nos desculpamos.
___Para garantir que não teríamos encrenca com os vizinhos, no final de semana, fizemos um bolo e fomos levar um pedaço para a senhora do 72.
___Abriu a porta uma velhinha com uma bengala (demonstrando sua dificuldade para se locomover), óculos enormes (deixando clara sua dificuldade para enxergar), mas que, com certeza, não tem dificuldade para escutar.
___– Olá, somos os moradores do 82. Trouxemos um pedaço de bolo para nos desculparmos pelo barulho que incomodou a senhora no outro dia.
___– Que simpático! Muito obrigada.
___A velhinha continuou agradecendo por vários minutos, dizendo como era maravilhoso ter vizinhos tão simpáticos, que o Senhor deveria nos abençoar e assim por diante. Por fim, concluiu sua fala dizendo:
___– E vocês nem precisavam ter se preocupado. Foi só um barulhinho à toa...
___Nós sorrimos, mais uma vez pedimos desculpas e voltamos para o nosso apartamento.
___Tudo atualmente caminha na mais perfeita paz com os vizinhos, só que eu acabei incomodado. Não foram as broncas, ameaças, nem eu me rastejando em desculpas; tudo isso é um preço baixo pela paz e felicidade que eu e minha esposa temos desfrutado em nosso lar. O que realmente está sendo uma pulga atrás da minha orelha foi a vizinha de audição biônica ter dito que “...vocês nem precisavam ter se preocupado. Foi só um barulhinho à toa...”.
___Puxa vida! Se foi apenas “um barulhinho à toa”, por que diabos ela tinha de nos importunar?


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P.S.: Aproveito a deixa para linkar a doce resposta que Rubem Braga pode ter dado ao seu vizinho de baixo – em “Recado ao Senhor 903” – e para mostrar a atitude ainda mais doce de Simone – de autoria de Koostella.


Simone e seus vizinhos crentes, por Koostella

06 abril, 2012

“A eleição para reitor da USP é menos democrática do que a eleição do papa.”

___Não sei se concordo ou não com a afirmação do título desta postagem. De qualquer modo, a frase do professor Francisco Alambert –, pronunciada em uma entrevista à CULT, que eu li hoje de manhã, – acabou me valendo boas risadas.




“O problema é ser uma universidade pública na qual a imensa maioria de seus participantes (alunos, professores e funcionários) não tem “mérito” suficiente para escolher seus representantes e administradores. A eleição para reitor da USP é menos democrática do que a eleição do papa.”



___O pior é que eu não deveria estar aqui dando risada. Neste ano, a ETESP, a escola em que leciono e da qual tanto gosto, também vai ter eleição para diretor e o processo é tão “democrático” quanto o da USP. Acho melhor começar a pensar em virar cardeal.

03 abril, 2012

Influência: faixas de pedestre e eleições estudantis

___Já não é a primeira vez que eu consigo esse efeito. Em 2007, reclamei de uma esquina que ficou sem faixa de pedestres durante meses e, semanas depois, pintaram a faixa. Mês passado, falei sobre a bizarrice que foi diminuírem um par de faixas e, agora, repintaram-nas*.


Faixa repintada da rua São Carlos do Pinhal


___Existe uma chance de que algum leitor trabalhe na prefeitura; entretanto, não descarto a provável possibilidade de que pode ter sido uma enorme coincidência. De qualquer modo, sinto-me bem mais importante que o famigerado Reinaldinho, o blogueiro da Veja, que não conseguiu ganhar nem eleição estudantil.**


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* Repintaram na direção oposta da versão antiga, mas repintaram.
** O blogueiro da Veja fez muita força para que uma chapa direitista chamada Reação vencesse as eleições para o DCE da USP. Em uma eleição com muito mais votos que a anterior (13134), a Reação conseguiu apenas 2660 votos –, sendo derrotada pela esquerdista “Não vou me adaptar”, que recebeu 6964.

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