31 julho, 2012

O inferno são os nomes dos outros

___Talvez por gostar de ler, talvez por ser professor, vivem me pedindo indicações. Quando o pedido é feito ao vivo, evito indicar pessoas que não sei escrever o nome.* Acho mais fácil explicar a filosofia de Friedrich Wilhelm Nietzsche, do que soletrar o seu nome. Que Dostoiévski, Turguenev, Bakhtin e Tchekhov me perdoem, mas autores russos são um completo inferno para se escrever na lousa.
___Ao falar de cinema, prefiro dizer que o filme que eu acabei de citar é dirigido “pelo mesmo cara dO Sexto Sentido.”, simplesmente porque eu não sei pronunciar Manoj “Night” Shyamalan. Dia desses, um aluno me pediu uma indicação de algum vlogueiro legal que eu assisto e eu tive de pedir para o estudante me mandar um e-mail porque eu nem imaginava como escrever Clarion de Laffalot.
___Por isso, para facilitar a vida dos meus queridos leitores, anuncio que, quando pedirem para vocês a indicação de um bom blog, vocês já podem ficar descansados e, simplesmente, lembrar o nome deste Incautos do Ontem. A partir de agora, é possível acessar este blog pelo endereço incautosdoontem.com. Bem mais fácil que pedir CD de banda irlandesa em livraria.


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P.S.: Todos os nomes difíceis publicados neste texto foram descaradamente googleados antes de aparecerem aqui.
P.P.S.: Antes que alguém pergunte, o Incautos não mudou de endereço, nem nada parecido. Ainda é possível acessá-lo utilizando o http://incautosdoontem.opsblog.org/. Simplesmente, após ouvir atentamente as dicas de alguns amigos, como o Gabriel Cunha, comprei o domínio www.incautosdoontem.com.
P.P.P.S.: Já que eu citei o Gabriel, vale dizer que ele é o autor do ótimo (e de nome fácil e doce) Ciensinando.
P.P.P.P.S.: Continuo sendo um ignorante digital. Ao digitar incautosdoontem.com, primeiro vocês vão cair no endereço primeiro do blog, incautosdoontem.blogspot.com, para depois cair aqui. Não consegui configurar para cair direto aqui. Mas, pelo menos agora ficou mais fácil lembrar o endereço do Incautos.


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* Antes que alguém venha com alguma pedra na mão, leia com atenção: “evito indicar” é bem diferente de “não indico”.

29 julho, 2012

Com que roupa? – Comentários

___Os comentários do texto “Com que roupa?” não foram muitos, mas foram bem bacanas. Faria minhas as palavras do Leonardo Xavier (aqui) e da Ashen Lady (aqui). No entanto, faço uma nova postagem para ressaltar o comentário de duas pessoas que, diretamente, trabalham com música clássica.
___(Claro, a opinião preconceituosa do Cabo Tobias e da sua Tia Carlota são válidas (para eles), mas, já que o assunto do texto é como ir vestido a um concerto, acredito eu que as opiniões dos profissionais da área são um tanto relevantes.)
___O primeiro comentário foi feito aqui no blog, pelo músico Otávio K.




Hehehe, me orgulho de não ir a concertos de calça (a não ser quando vou tocar, afinal sou músico de orquestra). Vou sempre de shorts, e só uma vez um segurança encanou, mas dei uma despistada nele. E, por precaução, sempre levo uma calça na mochila.
O público já não é expressivo, então acho que barrar alguém por não estar de social é um pouco de burrice.



___O segundo comentário foi feito no meu Facebook, por uma amiga, cantora lírica:




Vá de bermuda, vá de tênis, vá de salto alto e paetês... seja qual for o seu estilo, nós músicos ficamos felizes se você comparecer e prestigiar a música clássica!



___O ponto é simples e é o mesmo: é mais importante ir ao concerto, mesmo se você não puder trajar as “roupas certas”. Principalmente depois de ver músicos falando isso, fica difícil discordar, né?


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___Agora apliquem o ponto a outras questões/locais. O quão doente, idiota, elitista, classista, preconceituosa, excludente, burra é uma sociedade que impede alguém de frequentar o Congresso, um tribunal, uma biblioteca, um centro de comércio, uma escola, um museu, por causa de roupa?
___Termino com duas tirinhas do maravilhoso Laerte falando do antigo Hugo, atual Muriel.


Muriel, do Laerte - Não pode entrar nestes trajes


Muriel, de Laerte - O X-Y da questão

26 julho, 2012

Meu cachorro comeu o dever de casa

___Pela segunda vez, adotei como leitura de férias para os meus alunos o livro de crônicas Liberal Libertário Libertino, do Alex Castro. O resultado, assim como na vez anterior, tem sido ótimo.
___Com um texto fluído e bastante provocativo, os estudantes devoram o livro e debatem sobre o que foi lido o tempo todo. E, para complementar, docemente o Alex aceitou aparecer um dia na escola para conversar com os alunos.


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___Infelizmente, não são todos os alunos que leem. Sempre aparece aquele garoto “fez o dever”, mas o cachorro comeu.
___Como o Liberal Libertário Libertino não costuma ser encontrado facilmente em livrarias, é necessário encomendá-lo e recebê-lo pelo correio. Sendo assim, mal as férias acabaram, já veio um aluno me falar que ainda não leu porque o carteiro foi assaltado.


O cachorro comeu o meu dever

21 julho, 2012

Com que roupa?

___Fui contratado para dançar em um dos dias que o André Rieu se apresentou em São Paulo.* Ao telefone, pegando as informações do serviço com a moça que estava me contratando, perguntei:


André Rieu


___– Que roupa que eu devo usar?
___– Ah, fica tranquilo. É para parecer que você e a sua parceira resolveram dançar embalados pela música, como se fosse completamente espontâneo e natural. Vá com a mesma roupa que você usaria para ver um concerto de música clássica.


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___Não sou o maior frequentador de concertos de música clássica, mas já fui diversas vezes. Minha média é de mais ou menos um a cada dois meses.
___Para quem nunca foi, falo rapidamente sobre as roupas que as pessoas usam. Sempre existe um pessoalzinho que não dispensa roupa social e umas pessoas mais à vontade – de jeans e camiseta. Se muito não me engano, tirando ao ar livre, nunca vi ninguém de chinelo, bermuda e afins. Engraçado mesmo são as óperas: enquanto algumas pessoas como eu vão de jeans, já vi mulheres de vestido longo e homens de smoking. (Não, não era o maestro.).


Escravo da roupa, por Troche


___Sempre tentei entender por que diabos alguém vai a uma ópera que dura, por vezes, mais de três horas com um vestido que não é nada confortável, que não vai deixar você sentar a vontade. Parece (Só parece?) que é mais importante ostentar riqueza, ostentar a roupa, ostentar a ida à ópera, ostentar a própria idiotice, do que apreciar o que vai ser representado no palco.


Escrava da roupa, por Troche
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___– Ah, que bom –, falei para a moça que estava me contratando –, posso usar a mesma roupa que eu usaria para ir a um concerto normal? Achei que eu não poderia usar calça jeans.
___– Credo, Ulisses! É claro que você não pode usar calça jeans. Vai ter uma orquestra lá.


Roupas e o preconceito de classe, por Troche


___Fiquei com vontade de perguntar se uma orquestra merecia me ver com roupas “melhores” do que o Emicida, os meus alunos, a minha esposa, o motorista do ônibus, o médico do SUS, o Mestre Yoda ou a presidenta, mas, pelo bem da minha contratação, desculpei-me e fui para o armário conferir como estava a minha roupa social.


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P.S.: Os quadrinhos que ilustram esta postagem pertencem ao fantástico cartunista argentino Gervasio Troche. Seu trabalho me lembra um pouco o do brasileiro Rafael Sica. Recomendo ambos entusiasticamente.


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* Antes que me perguntem, respondo aqui no rodapé: Os músicos não são ruins, mas o show em si é só uma reunião do que existe de mais famoso na música clássica e alguns extras. Se você ouvir por mais de duas vezes, vai parecer banda de festa de casamento/formatura: sempre o mesmo repertório. Por fim, o pior de tudo é que o Rieu desce a música clássica ao patamar da auto-ajuda: tudo é “O mais lindo!”, “Essa música vai fazer vocês felizes para sempre!”, “Vocês são o melhor público que eu já tive!”, “Adoro o Brasil!”, “Depois de ouvir esta valsa você vai influenciar pessoas, fazer amigos, liderar como Jesus Cristo, ter um pai rico e comer o queijo do seu chefe!” e mais um incontável número de exclamações elogiosas para tudo.

18 julho, 2012

Conta pra gente

___O Laerte é sempre tão simples, doce e delicado. Em poucas palavras resolve muitas questões e ainda aproveita para dar um pequeno recado em época de eleições. Aproveitem.


Conta pra gente, de Laerte

15 julho, 2012

A culpa é do espírito

___O livro de um autor-novato caiu na minha mão, entregue pelo próprio autor, cheio de sorrisos e boa vontade. A alegria do moço ao me entregar a obra foi tanta que eu, também cheio de boa vontade, logo sentei para ler.
___Antes da obra começar, nos agradecimentos, o autor conta o que o levou a publicar todas aquelas páginas: um espírito o incentivou. Aquilo me brochou tanto que, três páginas depois, larguei o livro e fui ler o Quincas Borba (que, diga-se de passagem, tenho lido e adorado).
___Hora dessas tomo coragem e sento para ler novamente o autor-novato. No entanto, caso o encontre antes e acabe por ouvir o questionamento se eu já li, acho que vou responder que, quando comecei a ler, um espírito me incentivou a deixar para mais tarde.

11 julho, 2012

O que as pessoas vão pensar de você?

Amigo: O que as pessoas vão pensar se souberem que você faz isso?
Eu: Não sei. Mas, eu sei o que eu vou pensar de mim se eu não fizer.


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P.S.: Adorei escrever "eu" três vezes na mesma frase. Fez com que eu me sentisse muito mais egocêntrico.

07 julho, 2012

Jean Wyllys é flagrado com garotão em Brasília


Após declarar-se homossexual, deputado Jean Wyllys é fotografado saindo com um homem. Cadê sua namorada, Jean?



___Imaginem tudo isso na capa de um grande portal. O título-manchete, já digo, é fictício; tal qual a chamada que vai abaixo dele. Ficção ou não, todo o conjunto merece estranhamento. Vou demonstrar.
___O primeiro estranhamento deveria vir logo no título “Jean Wyllys é flagrado com garotão em Brasília”. Que raio de nãotícia é essa? Que diferença faz se o Jean Wyllys saiu com um garotão, com um coroa boa pinta ou com uma lhama? Por que diabos alguém noticiaria isso? Claro, isso é notícia porque o público se interessa pelas pessoas famosas.
___Continuando, a primeira frase da chamada diz que “Após declarar-se homossexual, deputado Jean Wyllys é fotografado saindo com um homem.”. Existe uma famosa máxima do jornalismo que diz que um cachorro mordendo um homem não é notícia, mas que um homem mordendo um cachorro é. Todo mundo sabe que cachorros podem morder pessoas e casos de mordidas não são infrequentes. Portanto, um cachorro morder alguém não deveria nem ser noticiado. Já o contrário, pelo inusitado, valeria uma reportagem. Sendo assim, se Jean Wyllys já se declarou homossexual, se constantemente, como deputado, luta pelos direitos dos homossexuais, não me parece bem uma notícia ele saindo com um homem.
___Por fim, o comentário bizarro do fim da chamada: “Cadê sua namorada, Jean?”. Se todo mundo já sabe que o cara é homossexual, se a própria chamada já ressalta isso, perguntar sobre uma namorada para o Jean Wyllys não faz o menor sentido. Parece, simplesmente, que o redator da chamada é um bruta de um preconceituoso.
___Vocês vão me retrucar que uma idiotice dessas não acontece? Pois saibam que, hoje, quando fui checar o meu e-mail no Yahoo!, antes de clicar no link que me levaria ao login, deparei-me com a seguinte chamada:


Casamento aberto, a fila e os preconceitos




Zilu é flagrada com garotão em Miami
Após declarar que vive casamento aberto, esposa de Zezé é fotografada com homem mais novo. A fila anda!



___Vamos à análise. A manchete fala de uma pessoa com nome – Zilu – que foi flagrada com alguém sem nome – o tal garotão. Teoricamente entraria naquele princípio de que é notícia porque fala de alguém famoso. Desafortunadamente, além de parecer um relato noticioso desnecessário, eu ainda nem imaginava quem é Zilu. Lendo a chamada, descobri que se trata de uma das noras de Francisco.
___Além da informação sobre quem diabos é Zilu, o início da chamada torna a própria notícia inútil: “Após declarar que vive casamento aberto, esposa de Zezé é fotografada com homem mais novo.”. Oras, se a mulher já disse que vive um casamento aberto, não faz sentido noticiar que ela está saindo com alguém além do marido. Talvez pudesse ser notícia algo como “Após declarar que vive casamento aberto, esposa de Zezé só é flagrada saindo com o próprio marido. Será Zilu uma monogâmica?”.


A fila anda


___Só que é o fim da chamada que esconde a maior barbaridade. Após ressaltar que Zilu vive um casamento aberto, o portal fecha com “A fila anda!”. O que andou? Se o casamento é aberto, a mulher do Zezé di Camargo pode estar com o marido e com outras pessoas sem problema algum. O filho de Francisco não perdeu lugar na fila, a fila não andou. No máximo existe mais de uma pessoa recebendo atendimento no balcão.
___De todas as revelações que a manchete fez, a mais patente é a do preconceito do jornalista. Pena que a fila de pessoas para substituir um idiota desses não andou.

03 julho, 2012

Guia Politicamente Incorreto da Filosofia, de Luiz Felipe Pondé: um livro de utilidade indiscutível

___Ano passado, na faculdade de História, conheci Rosa. Linda, culta, sexy, inteligente e muito esquerdista. Rapidamente fiquei interessado na moça. Como companhia, ela era ótima. Como caso, infelizmente, Rosa era horrível: mandona, possessiva, grudenta, briguenta, escandalosa. Não suportei ficar com ela nem um mês.


Rosa

___Só que, como eu disse, Rosa era grudenta. Mesmo com o fim do relacionamento, ela continuava atrás de mim. Todo dia eu recebia um SMS, um e-mail, uma mensagem no Facebook, uma ligação. O assunto, sempre o mesmo: reatar. Pelo menos até a última quarta-feira.
___Eu estava caminhando pela Avenida Paulista, indo para a Livraria Cultura. No meio do caminho, ouço o meu nome e, quando me viro, lá está Rosa, sorrindo. Ela fala da sorte de me encontrar, pergunta para onde estou indo; agarra o meu braço, diz que tem tempo e vai me acompanhar. Eu queria fugir, mas não via como poderia fazê-lo de maneira educada.
___Na livraria, porém, encontrei a minha pedra de salvação. Lá, todo glorioso e chamativo, em uma pilha de exemplares, estava o novo livro do nojento do Luiz Felipe Pondé, o Guia Politicamente Incorreto da Filosofia. Não tive dúvidas: peguei o livro todo animado, virei para Rosa e disse:

Guia politicamente incorreto da Filosofia, de Luiz Felipe Pondé

___– Nossa, Rosa! Eu li esse livro na semana passada. É maravilhoso! Fantástico! Você precisa ler também. Abriu a minha mente.
___Rosa nunca mais me ligou.

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P.S.: O Laerte é tão maravilhoso que só fez as pessoas se aproximarem de mim, nunca consegui afastar ninguém com ele. Mesmo assim, o Laerte é autor da tira que melhor explica o “pensamento” do Pondé. Aproveitem.

O contrário de "vazio", por Laerte
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