27 de setembro de 2012

Não paro de pensar em você...

___Termino de dar a minha aula na academia de dança. Na saída, cumprimento rapidamente Luane, a professora da turma seguinte. No caminho de volta para casa, recebo a seguinte mensagem no celular:


Não paro de pensar em você...


___Fico boquiaberto. Nosso relacionamento nunca passou do profissional. Já dançamos várias músicas bem agarradinhos, mas sempre interpretei aquele entrelaçar de corpos como algo próprio da dança, um aproximar necessário para a boa execução dos passos. Mesmo me sentindo confuso, fiquei lisonjeado.
___Cheio de mim, sorrindo e cantarolando “I'm too sexy for my shirt”, recebo uma nova mensagem.


Não paro de pensar em você...


___Já me sentindo bem menos sexy, recebo outras mensagens explicando que o namorado da moça também chama Ulisses. Precavida, Luane ainda enviou umas mensagens extras, só para garantir que eu não usasse a confusão dela como motivo para o início de uma paquera.


Não paro de pensar em você...
Não paro de pensar em você...
Não paro de pensar em você...


___Namorado ciumento, que não gosta que ela dance e que luta jiu-jitsu? Acho que eu vou pedir para o meu chefe mudar o horário das minhas aulas.


#####


P.S.: Piadinha de fim de texto à parte, eu gostaria de entender por que uma professora de dança começa a namorar um idiota ciumento que briga quando ela sai para dançar?


21 de setembro de 2012

Elas não estão preparadas para publicar! Veja as “equipes jornalísticas” que pagam mico com “reportagens”

___Não é necessário ser o Pedro Cardoso para sentir nojo de sites de fofoca. Depois de olhar duas “reportagens” seguidas em antros desse tipo, fica difícil não sentir ânsia de vômito. É tanta inutilidade, textos mal escritos, chamadas vazias, nãotícias que fica complicado até justificar a existência desses negócios.* Por isso mesmo, por aqui, eles praticamente são não-assuntos.
___Infelizmente, também não costuma ser infrequente encontrar “reportagens” ofensivas, preconceituosas, misóginas produzidas por essa indústria da fofoca. A última que me caiu em mãos tem como título “Elas não estão preparadas para o Verão! Veja as famosas que pagam mico de biquíni”.


Eles não estão preparados para publicar! Veja as “equipes jornalísticas” que pagam mico com “reportagens”


___A reportagem é apenas um conjunto de fotos de mulheres famosas na praia, com comentários misóginos suscitados – teoricamente – por conta de celulites ou biquínis mal escolhidos. Como bem disse o pessoal do Feminismo na rede, “só 1% das mulheres se consideram bonitas. Isso é porque nem as famosas da elite são aceitas como são. Muitas mulheres deixam de ir a praias, piscinas, festas, e até ao médico por vergonha do próprio corpo.”.
___Pelo menos acho bacana que, mesmo sabendo que uma imprensa inútil vai fotografá-las e humilhá-las publicamente, as mulheres citadas na reportagem não tiveram vergonha, colocaram biquínis e foram aproveitar a praia. Eu só gostaria de saber se os “jornalistas” que produzem esse tipo de “conteúdo” têm coragem de mostrar para familiares e amigos o trabalho que eles fazem.


#####


P.S.: Sei que o pessoal do Feminismo na rede não se dá muito bem com o Rafinha Bastos, mesmo assim achei que seria válido citar o vídeo dele sobre “Como funcionam os sites de fofoca”.


[embed width="500"]http://www.youtube.com/watch?v=X6sAzVt6od4[/embed]


 

__________
* Não precisam se preocupar em me explicar, eu sei que o motivo principal da existência desses sites e revistas de fofoca é o lucro.

15 de setembro de 2012

Mago Merlin, o cristão

___Bons exemplos são ferramentas extremamente úteis para se conseguir resultados positivos em sala de aula. Infelizmente, nem sempre é fácil encontrá-los. Por vezes, quando preparo uma aula, lembro-me de uma cena de um filme, de uma música, de uma pintura que encaixariam perfeitamente com o assunto; infelizmente, quando vou procurá-las, nem sempre as encontro ou preciso de muitos dias de garimpo para achar.*


Desvendando o universo Arthuriano


___Tenho dado, na ETESP, um curso sobre Ciclo Arthuriano com outra professora. Em uma aula, quis mostrar para os alunos a existência de elementos cristãos e pagãos completamente interligados em muitas das narrativas.
___Peguei para ler e ver se era possível encontrar algo do tipo no A História do Mago Merlin, de Dorothea e Friedrich Schlegel. Elementos pagãos, seria algo simples: tratando-se de uma história sobre Merlin, feitiços, dragões, espadas encantadas, magia e outros elementos do tipo apareceriam fartamente. Mas, será que eu conseguiria encontrar algum elemento cristão fácil de identificar e de passar para os alunos?
___Sem que eu tivesse trabalho algum, logo na primeira página encontrei o que eu precisava. O livro começa assim:




_____O Maligno estava irado por Jesus Cristo ter descido ao inferno e libertado Adão e Eva, junto com todos os que com eles lá estavam. ‘Quem é esse homem’, perguntaram os demônios, cheios de temor, ‘que deita abaixo os portões do inferno, e a cujo poder não podemos resistir? Jamais pudemos crer que um ser humano, nascido de uma mulher, não nos pertencesse... e esse aí vem e destrói nosso reino. Como pôde ele ter nascido sem que nós o tenhamos maculado com o pecado, como acontece com todos os outros homens?’ A isso um outro respondeu: ‘Ele nasceu sem pecado, e não do sêmen de um homem, mas foi concebido pelo Espírito Santo no corpo de uma virgem, segundo a vontade de Deus. Por isso seria bom que também achássemos um meio de gerar, no corpo de uma mulher, um ser, feito à nossa imagem e semelhança, que aja segundo a nossa vontade e que saiba, como nós, de tudo o que aconteceu, acontece e é dito. Um tal homem nos seria de grande valia. Temos, pois, que nos empenhar em encontrar uma forma de recuperar o que o Redentor dos homens nos roubou.’



___Alguns dias, encontrar bons exemplos pode ser um grande desafio. Outras vezes, a Sorte sorri para um pobre professor.


__________
* Menção honrosa à professora Diana Luz Pessoa de Barros, com quem aprendi Semiótica na faculdade. Além de dar uma aula muito boa, a professora Diana tinha uma compilação gigantesca com os melhores exemplos para cada assunto que ela iria tratar em sala.

14 de setembro de 2012

Venda de carros em São Paulo

___Eu estava lendo um livro na sala dos professores quando outro professor solta um animado “Aha!”. Abaixo o livro e olho. Satisfeito por ter chamado minha atenção, ele sai da frente da tela do computador e me mostra a manchete “Venda de carros no estado de SP é maior que a de Minas, Paraná e Rio juntas”.


Venda de carros em SP


___Sem esconder todo o seu ufanismo regional, o professor diz: “É por isso que eu me orgulho de São Paulo.”.
___Esboço um semi-sorriso e digo: “É por isso que eu tenho pena de São Paulo.”.

8 de setembro de 2012

O candidato de Maomé

___Noite. Ônibus vazio. Apenas quatro pessoas: o motorista, o cobrador e dois passageiros, um na frente, outro perto da catraca.
___O passageiro mais próximo do condutor, animado para conversar, pergunta:
___– Ei, motorista, em quem você vai votar?
___– Ah, não sei bem. Como sou muito religioso, acho que vou votar naquele muçulmano que está bem nas pesquisas.


###


P.S.: Alá que me perdoe, mas para quem ainda não se tocou, o motorista estava falando do arrogante, machista, corrupto Celso Russomanno. Triste, né?


Russomano Malufinho

3 de setembro de 2012

Compacto, menos nos lucros.

___Liçãozinha básica de vendas: diga o que o cliente quer ouvir. Se falando a bobagem do momento você conseguir lucrar mais ainda, perfeito.


Regra do marketing, por André Dahmer
###


___Nos últimos anos, o discurso ecológico tem estado na moda. Verde para cá, sustentabilidade para lá, e as empresas, interessadas em vender cada vez mais, praticamente vomitam ervilhas. É tanta cara-de-pau que existem até carros “Eco”. Não vou me espantar se aparecer uma propaganda de uma serra-elétrica – movida a gasolina – que ajuda as árvores.


Surf Hype, por André Dahmer


___Meu último contato com a Onda Verde foi no papel higiênico (e o motivo disso não foi um jantar mal digerido).
___Estava a fazer compras no mercado quando vejo, além dos papéis higiênicos habituais, vários modelos em formato amassado. Ou melhor, usando a palavra que os marqueteiros escolheram: compacto. Por que o papel estava sendo vendido amassado? Claro, para ser ecologicamente correto.


Papel higiênico amassado


___A justificativa estava já estampada nos pacotes: “Permite uma economia média de 13% de material plástico [utilizado para embalar o papel].” e “Permite transportar, em média, 18% mais produtos no caminhão, reduzindo a emissão de gases do efeito estufa.”.


Papel higiênico amassado - justificativa


___Bonito, né? Menos poluição e mais economia de recursos naturais. E, é bom lembrar, uma economia de 13% de material plástico que as empresas de papel higiênico iriam gastar; melhor ainda, há, também, redução dos gastos com caminhões. Já no preço... Não há nenhuma porcentagem de diminuição.


###


___Sala de reunião de uma empresa de papéis higiênicos.
___– Chefe, o que o senhor acha de amassarmos o papel higiênico? Assim, ocupando menos espaço, gastaremos menos dinheiro para embalá-lo e para transportá-lo.
___– Gosto da ideia, mas talvez os consumidores achem ruim de comprar papel higiênico amassado.
___Atento, o rapaz do marketing diz:
___– Calma. É tudo uma questão de discurso. Para começar, não podemos dizer que o papel higiênico estará amassado. Devemos dizer que estará... hum... menor. Não, não... Ah, COMPACTO!
___– Muito bom... – fala o chefe, com um tom de voz pensativo.
___Aproveitando a aprovação inicial, o rapaz do marketing continua.
___– E ainda podemos posar de ecologicamente corretos! Dizemos que estamos gastando menos transporte e menos plástico para salvar o planeta.


Sustentabilidade - Salvando o mundo, por André Dahmer


___Todo mundo aprova com a cabeça. Rabiscando em um papel, a moça da contabilidade diz:
___– Nossa! Se reduzirmos 10% do plástico, 10% do transporte e ainda vendermos mais com esse discurso de sustentabilidade, os lucros neste semestre serão astronômicos!
___Enquanto todos parecem animados, alguém meio anônimo, no canto da mesa de reuniões, toma a palavra e pergunta:
___– E vamos repassar parte desse lucro para os consumidores (reduzindo o preço) ou para os funcionários (aumentando o salário)?
___Todos na sala gargalham copiosamente.