28 novembro, 2012

Ajudando...

___Eu e minha esposa estávamos em um ponto de ônibus cheio da Avenida Brigadeiro Luís Antônio. Nem imagino como, uma velhinha perdeu o equilíbrio e caiu em cima de um ônibus que estava parado e, em seguida, estatelou-se no asfalto, perto de uma das rodas traseiras. Sem nem pensar, corri até a senhora, segurei-lhe o braço e a puxei para a calçada. Só depois que ela já estava em segurança é que apareceram outras pessoas para me ajudar com ela.
___Momentos depois, comento com a minha esposa, um pouco consternado, que ninguém (nem ela) foi ajudar. “E se o ônibus passasse por cima da velhinha? Ninguém pensou nisso?”, falei, um pouco amargurado.
___– Amor – ela respondeu, ajudando a restaurar um pouco da minha fé na humanidade –, você reagiu tão rápido que, quando as pessoas viram o que estava acontecendo, já não era necessário correr até a velhinha.
___– É... Você tem razão.
___– Além disso, pouco depois de você, umas duas pessoas correram até o motorista do ônibus para impedi-lo de colocar o veículo em movimento.
___Gostei daquilo. Em momento algum, nem revendo os acontecimentos na minha cabeça, eu teria tido a ideia de correr para parar o motorista. Quando eu estava quase sorrindo pensando como essa ajuda foi importante, um homem alto à nossa frente me lembrou como a humanidade também pode mesmo ser uma droga.
___– Eu vi que aquilo ia acontecer. Deixam esses velhos andando por aí. Culpa do governo e da família que não cuidam como deveriam. Aposto que a velha caiu porque se entupiu de remédio em casa. Você não acha?
___Não respondi nada. Só abracei a minha esposa e fingi que eu não havia escutado.


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___Dois pequenos complementos à crônica. Primeiro, um par de quadrinhos em que a personagem Rorschach, de Alan Moore, conta sobre o caso de Kitty Genovese e a (não-)reação das pessoas.*


Rorschach conta sobre o caso de Kitty Genovese.
Rorschach conta sobre o caso de Kitty Genovese.


___Depois, uma doce crônica da Camila Pavanelli** – fingindo que vai falar sobre lavar louça.


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* Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons. Número 6.
** A escritora que eu disse que fala “de maneira gostosa sobre qualquer coisa”.

 

21 novembro, 2012

Fábrica de sonhos*

___Faz alguns dias, o Fabio Ferreira, do Comida na rede, enviou-me uma tirinha triste.


stuff dreams are made of, de Asaf Hanuka


___A princípio, nem soube o que dizer. Mais tarde, lembrei-me da ótima abertura dos Simpsons feita pelo Banksy. Posto-a aqui como resposta.


[embed width="500"]http://www.youtube.com/watch?v=DX1iplQQJTo[/embed]
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P.S.: Aproveitando, a tirinha que o Fábio me enviou fez com que eu pudesse conhecer o interessantíssimo trabalho de Asaf Hanuka. Deixo outra imagem que também pode ajudar a pensar os efeitos do capitalismo.


Mural, de Asaf Hanuka


 

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* Texto escrito no meu iPad.

 

15 novembro, 2012

Isso não é um vampiro de verdade!

___Hoje estreia a última parte da chamada “Saga Crepúsculo” e um dos efeitos é que inúmeros não-fãs começam a reclamar dos vampiros que brilham. De inúmeras críticas que poderiam ser feitas, sempre me espanta encontrar gente que reclama que “Esses carinhas brilhantes não são vampiros de verdade!”.


Vampiro de verdade não brilha
Vampiro de verdade não brilha
Vampiro de verdade não brilha


___Por conta disso, tentando colocar um ponto final nesse assunto, convidei para uma pequena entrevista três grandes autoridades em vampiros: Max Schreck, que interpretou Nosferatu em 1922; Anthony Stewart Head, que interpretava Rupert Giles, a pessoa que mais entendia de vampiros no seriado Buffy – a caça-vampiros; e Brad Pitt, que interpretou Louis de Pointe du Lac no filme Entrevista com o vampiro.


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Incautos do Ontem: Sejam bem vindos. Começo agradecendo o tempo que todos vocês cederam para esta entrevista.
Anthony Stewart Head: Fico feliz de poder trazer mais conhecimento para quem está interessado no assunto.
Max Schreck: Eu ficarei feliz quando você depositar na minha conta bancária o prometido pela entrevista.
Incautos do Ontem: Claro, claro... bem... Vamos direto para o assunto: o que vocês acham do fenômeno Crepúsculo?
Max Schreck: O que é isso?
Brad Pitt: Trata-se, caro Max, de uma propaganda da ideologia religiosa mórmon que Stephenie Meyer, a autora da série, resolveu espalhar com uma historinha de vampiro.
Max Schreck: Ah...
Anthony Stewart Head: Mesmo gostando de livros, eu só aguentei ler o primeiro. Não entendo o motivo para esse sucesso todo. Mas, também nunca entendi bem o sucesso da Buffy.
Brad Pitt: Pessoalmente, quase tudo o que eu tenho a dizer sobre o fenômeno já foi dito por um tal de Felipe Neto.
Incautos do Ontem: E sobre as reclamações frequentes de que “Vampiros que brilham não existem!”, qual a opinião de vocês sobre essa polêmica?
Anthony Stewart Head: É claro que os vampiros brilham. Olha o sucesso que o Crepúsculo e um monte de livros, séries, jogos e filmes sobre vampiros já fizeram.
Brad Pitt: Não há dúvidas que é divertido falar que, como o Edward Cullen brilha, voa e mora na floresta, ele é uma fadinha, não um vampiro. Só que, falando sério, quem diz que algum tipo de vampiro existe – sejam os que brilham, sejam os que queimam ao sol –, precisa muito de um tratamento. É sério mesmo que existe gente que defende que existe algum tipo de vampiro “correto”? Seria a mesma coisa que brigar para dizer que a cor correta de um ork é verde-abacate e não verde-vómito-de-bebê.
Max Schreck: Alguém que está levando a sério uma entrevista, dada em 2012, com um cara como eu, que morreu em 1936, deve acreditar em vampiros que brilham, que se queimam com água benta, que sabem o e-mail do Batman, que tomam sopa de AB negativo e assim por diante.
Incautos do Ontem: Comparando as versões cinemat...
Brad Pitt: Desculpe-me, senhor Ulisses, mas está quase amanhecendo e eu preciso ir. Sabe como é, né? Eu ganho a vida como ator bonitão e o sol pode acabar fazendo mal para a minha pele sensível...
Incautos do Ontem: Ah... claro, senhor Pitt. Obrigado pela sua participação... Opa... Cadê o Max Schreck?
Anthony Stewart Head: Eu sei que vai ser difícil de acreditar, mas eu acho que ele virou aquele morcego que acabou de sair voando pela janela.
Incautos do Ontem: Quê?!? Tá brincando comigo?
Anthony Stewart Head: Não estou não. Com o sol surgindo eu pod... O que é aquela coisa brilhando lá fora?


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P.S.: Aproveitando o assunto, deixo uma imagem extra.


Twilight Moms

11 novembro, 2012

Jogue uma obra de arte no chão

___Acaba hoje a exposição Lygia Clark: uma retrospectiva, em cartaz no Itaú Cultural desde o dia 1º de setembro. Anunciá-la hoje neste blog seria sem sentido, já que muitos leitores não são de São Paulo e, mesmo os que são, provavelmente não vão ler esta postagem neste domingo (e muito menos ler e sair correndo para o museu).
___Mesmo assim, indico. O Itaú Cultural fez um bom trabalho não apenas na exposição física (na qual montou até obras inéditas, que até então só existiam nas anotações de Lygia Clark*), mas, também, na virtual. É possível acessar por este link um “museu virtual” e conhecer um pouco dos trabalhos da artista mineira.


Bicho de bolso, de Lygia Clark


___Nessa exposição virtual, o internauta poderá passear por trechos do Parque do Ibirapuera, conhecer algumas obras e ouvir explicações. “De que adianta ficar passeando virtualmente se grande parte das obras da Lygia são interativas?”, talvez algum fã da artista, revoltado, questione. Simples: mesmo não sendo o ideal, algumas obras, como as da série Bichos, podem ser “manuseadas” com o mouse. Quem gosta ou quer conhecer um pouco, é uma brincadeira legal; e, para quem odeia arte contemporânea, pode ser uma ótima oportunidade de pegar algumas obras e jogar no chão. É divertido.


Arte Moderna, por André Dahmer.
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Indicação de leitura:Queimar a arte para salvar a arte”, de Alex Castro.


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* Lygia Clark que morreu em 1988, vale lembrar.

05 novembro, 2012

No meio do caminho tinha uma pedra

___Domingo, final da tarde, caminhando pela rua com a minha esposa. No meio do caminho havia um policial e algumas faixas impedindo a passagem. Como era a nossa rota para o metrô, chegamos perto para descobrir o que estava acontecendo. Uma senhora muito educada perguntou se precisávamos mesmo fazer aquele trajeto, pois não era bom andar por ali naquele momento: “Um desses casos com o PCC aconteceu pela região e só estão permitindo o acesso de quem realmente precisa utilizar estas ruas.”.
___Caminhamos para outra direção. Alguns quarteirões depois, vimos um grupo grande de torcedores de futebol, todos com camisas de cores parecidas, ocupando a calçada e parte da rua, na frente de um boteco. Pouco depois que os avistamos, algo de ruim deve ter acontecido no jogo, pois vários deles começaram a gritar, xingar e agir como se estivessem em um salão da nobreza inglesa do século XVIII. Receosa, minha esposa nos fez desviar a rota novamente.
___Quando chegamos ao metrô, ela perguntou:
___– Se não tivéssemos outra escolha, você preferiria passar pelo lugar com o problema do PCC ou pela torcida organizada?
___– Depende da cor da camisa que eu estivesse usando.


 
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