23 abril, 2013

Ponto de vista

___Aproveitando uma janela entre as aulas, sentei em um dos computadores da sala dos professores e comecei a redigir algumas questões de prova. Em meio à seleção de textos, dei risada. Outro professor, também em janela, perguntou:
___– O que você está fazendo?
___Concentrado na minha tarefa, respondi simplesmente “Trabalhando.”.
___– Trabalhando e rindo?, retrucou ele. – Assim nem parece trabalho.
___O pior é que, no fim das contas, temos o mesmo trabalho.


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As segundas-feiras não são ruins
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* Caro Coala, não leve esta postagem para o lado pessoal. ;-)


20 abril, 2013

Manifesto – ETESP

___Eu sei que a postagem de hoje foge um tanto do padrão de textos que eu escrevo aqui no blog. Trata-se da divulgação de um manifesto escrito pelos professores de uma das escolas em que eu trabalho contra o sindicato pelego e a vergonhosa política do governo estadual para com os funcionários do Centro Paula Souza.
___Se os leitores habituais não estiverem interessados, este aviso fica aqui no início para que esta postagem seja ignorada. Para quem quiser se informar um pouco mais sobre como o PSDB, apesar dos discursos de campanha, não cuida das ETECs e FATECs, fica o manifesto e, abaixo, alguns links de textos que eu publiquei sobre o assunto aqui no blog.


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Nós, professores e demais funcionários do Centro Paula Souza, da unidade Etec de São Paulo (ETESP),


Vimos por meio desta apresentar nossa profunda discordância em relação aos critérios estabelecidos pelo Centro Paula Souza no que se refere à política do “bônus-resultado” vigente. Não obstante, entendemos que, além de insuficiente, deve-se reformular o plano de carreira dos funcionários capaz de integrar maiores benefícios e estabilidade na carreira. Compreendemos que a prestação de serviço educacional não pode ser tratada como mera mercadoria, abordagem típica do universo empresarial.


Nos posicionamos a favor de uma convergência dos docentes e demais funcionários de todas as unidades do Centro Paula Souza a se mobilizarem em torno da discussão das condições de trabalho, plano de carreira e atual política do “bônus-produtividade” meritocrática.


As reformas de Estado, de cunho neoliberal, têm orientado a realidade educacional brasileira. O processo de precarização social do trabalho docente e das formas flexíveis de contratação (professores horistas, trabalho por tempo parcial) são dominantes no Centro Paula Souza. A desatenção com os direitos sociais dos professores agravada pela desmoralização social da carreira desvela o grau de precarização em que se encontram os professores e funcionários.


Na oportunidade em que repudiamos a política salarial no Centro Paula Souza, temos ciência da necessidade de se combater a burocracia sindical do SINTEPS e reivindicar o controle da base sobre os dirigentes. O confronto de opiniões, visões de mundo, críticas, reivindicações, controle, transparência devem formar a tônica da organização sindical, em especial no ramo educacional público, o que definitivamente não é o caso do SINTEPS.


Por fim, nos posicionamos:


1- Contra o bônus-produtividade, não apenas seus critérios da gestão empresarial;


2- Por um plano de carreira claro e que permita ao docente sentir melhorias efetivas em seus ganhos salariais;


3- Aumento real de salários;


4- Livre escolha, por parte dos funcionários do Ceetps, dos contratos de trabalho (CLT ou estatutário);


5- Mudança na jornada de trabalho;


6- Luta pela reeducação da organização e politização docente e desburocratização sindical;


7- Por um sindicato atuante, presente e que represente efetivamente os funcionários do Ceetps;


8- Em repúdio a Superintendência do Centro Paula Souza e à política educacional do governo do Estado de São Paulo;


Movimento de Oposição Sindical à direção do Sinteps e de organização dos professores pela reivindicação de melhores condições de trabalho junto a Superintendência do Ceetps.


São Paulo 19 de abril de 2013.



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Leituras recomendadas:
- “Serra e a educação”;
- “ETESP: mentiras e verdades na melhor escola pública de São Paulo”;
- “Novilíngua – e a ausência de Sociologia e Filosofia”;
- “‘Boas’ condições de trabalho”.

17 abril, 2013

Insistência

___Em uma das passagens bacanas do filme Um sonho de liberdade, de Frank Darabont, Andy, a personagem principal, escreve insistentemente para o Legislativo solicitando mais verba para a biblioteca do presídio. No conto em que o filme foi baseado, “Rita Hayworth e a redenção de Shawshank”, de Stephen King, o trecho que conta esse episódio é assim:




___– Vá em frente e escreva suas cartas. Eu até coloco no correio para você, se pagar o selo. [–, disse, em 1954, o diretor Stammas.]
___(...) Os pedidos de Andy de verbas para a biblioteca foram sistematicamente recusados até 1960, quando recebeu um cheque de duzentos dólares – o Senado provavelmente o enviou na esperança de que ficasse quieto e desaparecesse. Esperança vã. Andy sentiu que tinha dado o primeiro passo, e redobrou seus esforços; duas cartas por semana em vez de uma. Em 1962 conseguiu quatrocentos dólares, e pelo resto da década a biblioteca recebeu setecentos dólares anuais regularmente. Por volta de 1971, tinha aumentado para mil dólares.*



___Pode ser algo chato, mas insistir insistentemente muitas vezes pode trazer resultados.


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___Moro com minha esposa no Bixiga, em um apartamento construído na década de 70. A idade do apartamento tem vantagens e desvantagens. Entre as vantagens está o tamanho do imóvel. Entre as desvantagens, o fato de que algumas partes do apartamento já passaram da hora de serem trocadas. As janelas certamente entravam nessa categoria. Quando chovia muito forte, vazava tanto que era possível até treinar natação sem sair de casa.
___Juntamos dinheiro, pesquisamos e contratamos uma empresa chamada Qualifac para instalar as novas janelas. O serviço não ficou perfeito, mas duas ou três ligações e um pouco de paciência fez com que a empresa deixasse tudo como queríamos.


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___Como contei, no dia 26 de dezembro, aqui no blog, eu ganhei de natal um par de tênis de dança. Ofensivamente, o par era formado por dois pés esquerdos.


Tênis novos - sola


___O tênis foi comprado na loja virtual Marnet Danças, a “Distribuidora Oficial da Capezio”. Por isso mesmo, comecei entrando em contato com a empresa. Simpaticamente, ela me sugeriu que eu, com os meus recur$o$, lhes enviasse o tênis para “averiguação”. Como eu não gostei muito da sugestão, decidi entrar em contato direto com a Capezio.
___Isso fez com que as pessoas doces e atenciosas dessas lindas empresas ficassem dizendo que eu era muito especial, que eles estavam pensando muito em mim, mas que “Ainda não temos o seu número.”, “Tente pedir na filial do Acre.”, “Desculpe-me. Você trouxe o formulário azul claro. O correto para solicitar uma troca é o formulário azul calcinha, em três vias.”.


Uma das notas fiscais da Capezio prometendo que, um dia, entregaria o meu tênis


___Mesmo assim, eu continuei pentelhando insistindo e, finalmente, no dia 15 de abril eu recebi o meu tênis. Depois de quase quatro meses eu recebi no conforto do meu lar, com o frete bancado pelas empresas que erraram ao mandar dois pés esquerdos? Não...! Eu recebi em mãos, quando fui pessoalmente a uma das lojas, depois de ligar pela 69ª vez perguntando se o meu tênis havia chegado.


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___Qual a lição que se tira disso?
___Continue insistindo? Talvez. Realmente pode dar certo. Só que eu acho que é possível para acrescentar um ponto aí: também vale a pena escrever um texto difamando a empresa que atendeu mal o cliente. Dá até para terminar indicando a concorrente.
___Portanto, caros leitores, se quiserem comprar algum produto relacionado a dança, indico a Só Dança.


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P.S.: Sobre consumidores reagindo contra empresas desonestas, incompetentes e afins, nada melhor do que indicar o Otário A. Anonymous. Se não conhecem, vale a visita.
P.P.S.: O meu exemplo preferido fora do Brasil é o do músico Dave Carroll. Fica um link para quem quiser saber um pouco mais do caso e ouvir sua mais famosa composição – “United Breaks Guitars”.


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* Pessoalmente, achei que o filme narrou esse episódio de maneira melhor que o livro. Mesmo assim, para fins de indicação, achei que valia a pena citar as duas versões.


11 abril, 2013

O segredo do sucesso

___Comecei a namorar a minha esposa em 2005. Na época ela morava quase em frente ao Hospital Igesp. Hoje, apenas minha sogra mora lá.
___Por conta proximidade, pude acompanhar, da rua, as mudanças no hospital. E, desde 2005, a Igesp cresceu bastante. O hospital se tornou dono de uma parte maior do quarteirão em que foi fundado, praticamente dobrou de tamanho. Comprou, também, várias casas em quarteirões próximos.
___Eu sei que saúde, como negócio, pode ser bem lucrativo, mas era só esse o segredo do crescimento da Igesp?


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___Meu abril de 2013 começou com uma manhã tranquila indo ao trabalho. Chegando lá, do nada, comecei a sentir fortes dores. Com o passar dos minutos, o meu quadro apenas piorou. Por conta disso, uma professora muito atenciosa acabou me levando ao Hospital Santa Isabel, da Santa Casa.


Santa Casa, por Quino


___Cheguei lá completamente transtornado, sem nem conseguir falar direito. Mesmo assim, fui diagnosticado rapidamente, recebi um analgésico na veia e comecei a me sentir melhor. Todo o tempo, enfermeiras vinham ver como eu estava. Para confirmar o diagnóstico, procurar mais algo de errado e ver o que era necessário fazer, fizeram exame de sangue, urina, ultrassom. Depois no ultrassom, não ouvi um “É uma menina!”, mas, sim, “Você está com uma pedra no rim.”.


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No meio do rim tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do rim
tinha uma pedra
no meio do rim tinha uma pedra.
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Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minha lombar tão fatigada.
Nunca me esquecerei que no meio do rim
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do rim
no meio do rim tinha uma pedra

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___Em casa, tentando repousar, tive outra crise de cálculo renal. Acreditando já saber do que se tratava, tomei remédio e tentei ficar no meu canto até melhorar. Algumas horas – e o banheiro vomitado – depois, tive de ir para o hospital. Dessa vez, acompanhado da minha sogra, acabei indo parar na Igesp.
___Cheguei ao hospital bastante mal e me amaldiçoei por não ter em mãos os exames que já tinha para mostrar aos médicos. Como demoraram bastante para me atender, eu piorei e, quando cheguei ao médico, não consegui falar para lhe passar as informações que eu tinha.
___Recebi um forte analgésico na veia e fui deixado em um canto. Com exceção do momento em que o médico me atendeu e do instante em que o enfermeiro colocou o remédio no meu braço, ninguém mais se dirigiu a mim para nada, nem para ver se eu havia reagido bem ao analgésico.


ERRARE HUMANUM EST, por Quino


___O soro acabou, sangue começou a voltar pelo tubo e eu, meio grogue, fiquei esperando. Depois de mais de uma hora sem ninguém olhar para mim, tentei chamar algum enfermeiro. Não foi fácil, acho que o número de enfermeiros não é o bastante para dar atenção aos pacientes.
___Fui encaminhado novamente para o médico que disse que não dava para saber com certeza o que eu tinha, que provavelmente era pedra no rim. “Vá para casa e tome tal remédio. Se você voltar a sentir uma dor muito forte, volte aqui.”. Assim mesmo, sem nenhum exame feito, sem nenhuma atenção dispensada.


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Médico que resolve, por Quino


___A conta, para mim, foi exatamente a mesma em ambos os hospitais. O gasto com o paciente, entretanto, foi bem diverso. Acho que eu descobri como o Hospital Igesp cresceu tanto desde 2005.


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Nota: As imagens que ilustram esta postagem são do maravilhoso Quino, o cartunista argentino autor da Mafalda, e fazem parte do livro Quinoterapia. Aproveito esta nota para agradecer a querida Marili, que me mostrou que o Quino não fazia tiras apenas da Mafalda.


01 abril, 2013

Como se referir à Quartelada de 1964

___Um ex-aluno muito querido me escreveu perguntando se, em um artigo acadêmico, ele deveria escrever “Golpe Militar” ou “Revolução de 1964”. Como achei a resposta interessante (e também porque hoje é 1º de abril, aniversário daquela quartelada ridícula e assassina), pensei que seria bacana publicá-la aqui.


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___Tanto Revolução de 1964, quanto Golpe Militar podem ser utilizados e considerados corretos por quem for ler o seu artigo. Só que a escolha, a expressão que você utilizar com mais frequência no texto, vai deixar clara a visão que você tem sobre o assunto, sua escolha de lado.
___Se você chamar de Golpe Militar de 1964, você estará dizendo que os militares tomaram o poder de maneira ilegal, não-democrática, não-constitucional. Vai deixar claro que a tomada de poder que os milicos fizeram foi a derrubada ilegal de um governo constitucionalmente legítimo.
___Se chamar de Revolução de 1964, você estará dizendo que os militares fizeram uma reforma, uma transformação em nossa sociedade. Provavelmente vai até remeter ao “fato” de que eles salvaram o Brasil do “Mal Comunista”. Existem até outras formas mais pesadas de mostrar simpatia a eles: é possível chamar o Golpe de 1964 de “Revolução Gloriosa” e toda a Ditadura de “A Redentora”. É meio ridículo, mas existe gosto para tudo.
___Voltando para o lado da crítica, é possível humilhar mais ainda os militares utilizando as expressões Quartelada ou Golpe do 1º de Abril de 1964. O primeiro é um termo pejorativo para rebeliões vazias feitas por militares. O segundo é uma maneira de lembrar que os militares foram estúpidos o bastante para perpetrar um golpe de Estado exatamente no Dia da Mentira.*
___Por fim, também é possível chamar de Golpe Civil-Militar, enfatizando que os militares só deram o golpe porque tinham amplo apoio civil. Golpe Civil-Militar, vale dizer, é o termo mais usado pela nova historiografia e também passa a mensagem de que a culpa de todo aquela desgraça não foi de apenas dos militares.


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Quartelada de 1964, por Laerte
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___Talvez você pergunte: “Professor, existe algum termo completamente isento para utilizar no meu artigo?”. Se você perguntar isso, serei obrigado a dar um sorriso irônico e responder:
___– Se você quer ser completamente isento, fique à vontade para utilizar qualquer uma dessas expressões. Só não se esqueça de mudar o seu nome para “Ingênuo”.


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* Mais tarde, percebido o ridículo da situação, os milicos fizeram questão de mentir enfatizar que o Golpe havia sido dado “na noite do dia 31 de março”.


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