24 março, 2014

Presidenta ou presidente? Lição básica para não agir como um idiota

___Eu sei que seria bem mais confortável se a realidade fosse sempre do jeito que nos interessa, que seria muito mais bacana se nossos desafetos sempre errassem. No entanto, lamento dizer, o mundo não é assim. Lamento mais ainda dizer que existe até quem trabalhe na grande mídia e não saiba disso. 


___Arnaldo Jabor, por exemplo, trabalha como comentarista político na CBN. Chega a ser folclórico ver como ele consegue em uma crônica sobre o Putin e as Olimpíadas de Inverno atacar o governo brasileiro e se mostrar homofóbico. Praticamente um sanduíche especial em uma rede de fast food. Mas, não é por isso que eu estou escrevendo. Vim mostrar que o ódio do Jabor para com a Dilma o leva a ver erros até onde não existe. Ou, simplesmente, para mostrar a ignorância do cronista que quer chamar os outros de ignorantes. 
___Ouçam pelo menos os 20 primeiros segundos da crônica que Jabor fez no dia 13/III/2014: “Qual a diferença da Venezuela para a Ucrânia?”.


___Por mais que seja divertido – para quem é machista ou não gosta do PT – imaginar que a Dilma errou ao se alcunhar de presidenta, na verdade ela acertou. A flexão feminina da palavra presidente existe e Jabor poderia ter descoberto isso conferindo no dicionário (tanto no Houaiss, quanto no Aurélio). Uma atitude simples que teria evitado o cronista de passar vergonha. 
___Antes que algum defensor do Jabor venha gritar NEOLOGISMO! na minha orelha, eu também recomendaria uma olhada no Novo Diccionário da Língua Portuguesa, de Candido de Figueiredo, de 1899. O verbete presidenta já aparece por lá e, vale lembrar, as palavras que aparecem em um dicionário existiam antes da sua edição.* 
___Se citar todos esses dicionários não resolveu o problema, tenho mais uma citação do século XIX. Machado de Assis usou a palavra presidenta em seu Memórias Póstumas de Brás Cubas, livro de 1880. Sério mesmo. Pode conferir no capítulo LXXX. Será que o Jabor também vai dizer que o Machado escrevia errado “para agradar o povão que não sabe falar português direito”?


___Por fim, para terminar a lição básica para não agir como um idiota, vai uma receitinha que funciona muito bem: se a pessoa pede para ser chamada de determinada forma, respeite. Se a governante do país pede para ser chamada de presidenta, não seja mal-educado: use presidenta. Não “presidenta”, presidenta (sic), presidentA ou qualquer variação que demonstre a sua falta de traquejo com dicionários. Se uma pessoa trans se apresenta com um nome diferente do registrado em cartório quando do nascimento, use o nome que a pessoa trans escolheu. Se o seu colega de futebol disse para você não chamá-lo por determinado apelido, respeite. Pode apostar que, depois da quarta série, essa regrinha não falha. 
___Tanto que eu até chamo o Arnaldo Jabor de cineasta. Mesmo achando que as pornochanchadas que ele produziu não mereçam o nome de produção cinematográfica. 

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* Infelizmente, não consegui uma cópia virtual da edição de 1899. Entretanto, o pessoal do lindo Project Gutenberg digitalizou a edição de 1913, em que também aparece o verbete presidenta. 

17 março, 2014

Para inglês ver

___Segue o primeiro vídeo que eu publico na internet (os vídeos que eu gravo com a minha esposa são de caráter mais privado). Assunto: contar sobre o surgimento e alguns usos da expressão “Para inglês ver”.


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Imagens utilizadas:
- “Para inglês ver”. 

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Estatísticas para o desembarque estimado de africanos no Brasil:
Brasil: 500 anos de povoamento (IBGE)

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Trilha sonora: 
Maybe”, de Free Mickey.

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Leitura recomendada: 
Uma lei para inglês ver: a trajetória da lei de 7 de novembro de 1831”, de Argemiro Eloy Gurgel. In.: Revista Justiça e Historia. Vol. 6, nº 12. Rio Grande do Sul, 2008. 


08 março, 2014

Paparicada...

___Hoje, sábado, 8 de março, saí cedo de casa para trabalhar. Cheguei ao cursinho em que eu leciono, cumprimentei os professores que já haviam chegado e me sentei em um canto para ler. Poucos minutos depois, chega a nova professora de Física, toda alegre.
___– Bom dia, gente!
___Após alguns "ois", a professora começa a contar que está feliz porque "Hoje, Dia Internacional da Mulher, eu serei paparicada.". 
___– Paparicada?, pergunta a professora de Matemática.
___– Sim! Já que é dia 8 de março, o meu marido disse que hoje vai lavar a louça. 
___Sem me aguentar, perguntei:
___– Quem lava nos outros dias?
___– Eu. 
___– E o seu marido, faz o quê?
___– Oras, ele trabalha. 
___Cai o pano. 

04 março, 2014

“Não posso lutar agora. Isso é ruim?”

___Uma aluna estudiosa e participativa, atenta e responsável, carinhosa e educada me mandou um e-mail, agora, em meio à greve da escola em que ela estuda. Reproduzo-o abaixo e, logo em seguida, colo a minha resposta. 

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Olá professor. 
Sou a C. do 3º Ômega. Eu estou escrevendo para falar uma coisa sobre a greve.
Começo agradecendo ao senhor por tudo o q vc me ensinou. Adoro as suas aulas e aprendi muito com vc desde o 1º ano. Vc é um dos melhores professores q eu já tive, sem dúvida o melhor de História (com h maiúsculo kkkk). Foi por sua causa q eu me tornei feminista, q eu aprendi a lutar pelo q eu acho certo. Por sua causa li mais livros nos últimos 3 anos do q em toda a minha vida. Vou sempre lembrar de vc com todo carinho do mundo. 
Acho q os professores são realmente mal remunerados. Vcs trabalham em condições péssimas e ganham muito pouco. Mesmo assim alguns professores como o senhor dão ótimas aulas. Acho q a greve de vcs é muito justificada e torço muito para q vcs consigam até mais do q querem. Acho q não deveriam ser só vcs, acho que toda a sociedade deveria lutar por isso.
Só q agora eu estou no 3º ano. Tenho vestibular neste ano e quero muito passar. Estou estudando muito desde o ano passado para conseguir entrar na USP. Queria estar apoiando vcs, indo para as manifestações, mas não dá. Estou aproveitando o tempo sem aulas e estou em casa estudando (tb estou faltando as aulas dos professores pelegos). Tenho q estudar muito. Não posso lutar agora. Queria me desculpar. 
Professor, eu estou errada? Estou sendo uma pessoa ruim? Agindo assim eu estou decepcionando vc? 
Sei q parece um e-mail bobo e sentimental. Responda por favor. Quero muito ouvir a sua opinião. 
Obrigada por tudo. Espero q quando acabar a greve vc continue sendo um professor atencioso comigo.
Beijos.
C.. 

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Oi, C..
___Como está?
___Para começar, obrigado pelos elogios. É sempre muito bom ouvir esse tipo de coisa.
___Agora vamos às suas perguntas. 
___Em primeiro lugar, é claro que você não está me decepcionando. Como professor eu quero fazer com que meus alunos sejam pessoas livres, que pensem e tomem decisões por eles mesmos. Quero que usem os conhecimentos históricos que adquiriram comigo para escolher os caminhos que irão seguir. Se você refletiu, pesou todos os pontos e decidiu que, mesmo achando a greve correta, não poderia participar de uma manifestação, respeito a sua escolha. Quem deve decidir o rumo que a sua vida deve tomar, quais as suas atitudes é você. E você decidiu.
(Mais do que isso, nem tinha como eu estar decepcionado. Como você mesma disse, você está boicotando as aulas dos professores que estão furando a greve. Acho a atitude admirável e corajosa, não decepcionante.)
___Não é errado não participar de algum movimento que você concorde, não lutar por algo que você acha importante. O motivo simples: não dá para lutar por tudo. Tive uma professora na faculdade chamada Zilda Márcia Grícoli Iokoi. Além de dar ótimas aulas, a Zilda era uma pessoa engajada em inúmeras causas. Certa vez, em meio a um debate, perguntaram para ela: 
___– Por que a senhora não está lutando por tal outra coisa?
___Ela fez uma cara triste, suspirou e disse que gostaria de lutar por aquilo também, que achava a causa justa, mas não tinha como, naquele momento, dedicar-se a mais aquela luta, que ela não tinha tempo. O ponto, C., é exatamente esse: não existe tempo hábil para se lutar por tudo o que você acha certo. 
___Se agora você não pode lutar porque está se dedicando ao vestibular, eu entendo perfeitamente. Torço para que consiga passar e, como sempre, pode vir tirar dúvidas ou pedir indicações de livros sempre que precisar. Só um porém: cuidado para não deixar todas as lutas que você acha importantes para depois. 
___“Acho lindo adotar animais de abrigos. Mas, agora não posso porque o meu emprego ocupa muito do meu tempo.”; “No meu próximo apartamento eu vou conhecer melhor os porteiros.”; “Quero muito acompanhar o político que eu elegi, só que não dá porque tenho de cuidar do meu filho. Depois que ele crescer eu faço isso.”; “Assim que eu terminar o meu doutorado, juro que vou fazer trabalho voluntário.”; “Quando eu comprar a minha casa, pode apostar que vou ajudar os moradores de rua da região.”; “Ano que vem eu vou libertar a princesa Peach das garras do Bowser.”.
___Não importa qual seja a luta que você acha importante, C., ruim vai ser se você nunca conseguir se dedicar a ela de nenhuma maneira. Alguns momentos da sua vida podem impedir você de fazer determinadas coisas e isso é completamente compreensível. Só cuidado para não deixar sempre para segundo plano aquilo que você acha que merece atenção. 
___Espero ter ajudado um pouco.
Beijos.
Ulisses.

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P.S.: Como extra, deixo um vídeo do Rafucko sobre um viciado em protestos



01 março, 2014

Variações de um mesmo tema – exemplo musical

___Admiro bastante quem trabalha como ator. Mesmo assim, é uma profissão que eu nunca teria. Não suportaria ficar repetindo o mesmo texto, sem nenhuma variação, noite após noite. Exatamente por isso, gosto de preparar aulas diferentes a cada vez que eu vou abordar um conteúdo. Por menor que seja a diferença, é uma delícia encontrar infinitos modos de se falar sobre a Revolução Francesa. Músicos parecem ter a mesma vantagem de poder variar dentro do mesmo tema. Só não é fácil de encontrar quem o faça de maneira bem feita. 
___Uma amiga querida me deu um par de ingressos para assistir Palavra de mulher, dirigida por Fernando Cardoso*. Trata-se de um espetáculo leve, de cerca de uma hora e meia, com três músicos e três cantoras interpretando músicas de Chico Buarque feitas para eus líricos femininos. Ambientado em um cabaré, as três cantoras revezam e cantam em grupo, proporcionando um show gostoso para quem aprecia as músicas do Chico. 
___Por mais bacana que tenha sido o espetáculo, o que realmente o fez valer a pena para mim foi presenciar o desempenho de Virgínia Rosa

Virgínia Rosa

___Além de cantar de maneira espetacular, Virgínia interpretava suas músicas de maneira ímpar: movimentava bem o seu corpo, mexia suas roupas segundo as músicas e modificava sua voz dependendo da situação. E foi exatamente pelos malabarismos que Virgínia Rosa fazia com a própria voz que eu pude ver uma cantora variando espetacularmente dentro de um tema que eu conheço bem – as canções de Chico Buarque. 
___Mesmo com o preço salgado, recomendo Palavra de mulher para quem gosta das músicas do Chico Buarque. Exatamente pelo espetáculo que Virgínia Rosa proporciona, recomendo Palavra de mulher para quem gosta de música. 

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Serviço:
Palavra de mulher
Alameda Santos, 2233 (São Paulo).
Horário: sextas 21h30; sábados 21h; domingos 18h. Até 23/III/2014.
Ingressos: sexta R$ 50,00; sábado R$ 80,00; domingo R$ 70,00.

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* Fernando Cardoso fez parte da direção de produção da horrível peça de dança-de-salão-autoajuda Seis Aulas de Dança em Seis Semanas. Mas, não deixem que isso deponha contra o atual espetáculo. 

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