30 abril, 2014

Homens de bem

Atenção: Texto com spoilers do livro Maigret e os homens de bem, de Georges Simenon. 

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___Depois de um jantar regado a conversas do tipo "Direitos humanos para humanos direitos.", "Índio Bandido bom é bandido morto." e outras ideias um tanto indigestas, cruzo com o livro de mistério Maigret e os homens de bem, de Georges Simenon. Esperançoso de que vou encontrar uma crítica social interessante a essa visão distorcida sobre quem é uma pessoa de bem, pego o livro avidamente.

Maigret e os homens de bem, de Simenon

___Poucas páginas depois, corpo baleado no meio da sala e pessoas de bem suspeitas, já sinto o jantar descendo melhor. Meio da obra, pessoas de bem tentando enganar a polícia, metendo-se com atividades suspeitas. Leio animado, pensando em presentear quem estava à mesa do jantar. 
___Final do livro: criminoso é uma pessoa que até então não havia sido citada na obra, o típico ser humano que não seria chamado por grupo algum de homem de bem. Crítica social praticamente inexistente; todas as minhas expectativas frustradas. 
___Os "homens de bem" venceram novamente. 

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P.S.: Textinho fofo da Camila Pavanelli falando de algumas pessoas que realmente parecem ser de bem.
P.P.S.: Caso alguém goste do Comissário Jules Maigret, saiba que ele já apareceu mais duas vezes aqui no Incautos


25 abril, 2014

Festiva e educada

___A piada da semana foi um artigo do direitista Luiz Felipe Pondé intitulado “Por uma direita festiva”. Nele, o filósofo reclama que esquerdistas tem muito mais facilidade para “pegar mulher” do que os coitados jovens liberais/de direita. 
___Qualquer pessoa sensata e com um bom nível de leitura descobriria facilmente porque alguém com o discurso do Pondé afastaria as mulheres. Só para exemplificar rapidamente, vejam o terceiro parágrafo em que o filósofo direitista diz que “Os cursos em que você encontra jovens liberais (economia, administração de empresas, engenharia e afins) têm muito poucas mulheres e as que têm não têm muito interesse em papo cabeça e política.” (grifos meus). Dizer que uma moça é despolitizada e não se interessa por conversas inteligentes deve causar tanta atração quanto um pavão abrindo sua calda. Só que não. 
___No mesmo parágrafo, o homem que está a dar dicas de sedução diz que “O celeiro de meninas que curtem papo cabeça e política são cursos como psicologia, letras, ciências sociais, pedagogia e afins, todos de esquerda.” (grifos meus). O celeiro! O celeiro!. O horror! O horror!. Só faltou dizer que é importante avaliar os dentes do animal antes do abate. É o cúmulo da falta de senso. 



___Portanto, tenho uma dica para os meus caríssimos leitores de direita, liberais ou qualquer outro grupo que leve a sério o que o Pondé diz: não fale dessa forma sobre mulheres. Nunca! Nem pense dessa maneira. Só com esse pequeno passo você já vai conseguir ser menos repulsivo para qualquer pessoa pela qual você esteja interessado. 

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P.S.: Vale dizer, faz tempo que eu digo que o discurso do Pondé afasta as mulheres


17 abril, 2014

Eu sei pelo que é importante lutar!

___– Credo! Que cara é essa?
___Com os olhos cheios de lágrimas, a pessoa responde:
___– Tô muito triste. O meu cachorro morreu.
___– Ah, caralho! Peloamordedeus! Tanta coisa grave acontecendo no mundo, tanta gente passando fome e você aí chorando porque a porra do seu cachorro morreu? Tenha dó.

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___Existem muitas formas de uma pessoa demonstrar que se acha o centro de tudo. Poucas são mais claras do que decretar quais são os problemas importantes, quem pode fazer algo, quais são as lutas que merecem ser lutadas. E o maior problema é que essas atitudes deixam bem claro o quanto seu autor não consegue (ou não quer) considerar o outro. 

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___No final do mês passado, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) publicou os resultados de uma pesquisa sobre Tolerância social à violência contra as mulheres. Entre os resultados estava o de que 65% dos entrevistados concordavam que “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas” e que 58,5% disseram que “Se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”. 


___Por conta desses números, a jornalista Nana Queiroz (foto acima) iniciou um protesto online com a hashtag #NãoMereçoSerEstuprada. A iniciativa foi muito bem aceita e, em pouco tempo, surgiram inúmeras fotos com a mesma mensagem.* 








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___Depois que o protesto já havia ganhado muita notoriedade, apareceram alguns poréns. Não falo de pessoas criticando os métodos da pesquisa, sua validade e coisas afins; tudo isso é esperado e até bem aceitável quando uma pesquisa qualquer é feita. O porém que, creio eu, tem de ser assinalado é o das críticas à existência do protesto, aos motivos da luta, à forma de se protestar, a quem está lutando. Vejam um exemplo bem didático:


___Para começar, o cidadão da foto começa com um ataque infantil a quem está protestando, um fraco argumentum ad hominem. Escolhe quem deve ter o direito de protestar (as mulheres – que ele considera – bonitas) e marca, como extra, o seu moralismo tacanho. 
___No segundo cartaz, deixando clara sua visão de que é o dono da Verdade, o rapaz decreta qual luta que é legítima de ser lutada: deve-se brigar contra o governo. Não contra o machismo, o moralismo, o estupro ou a falta de empatia, mas contra o governo. Claramente, o cidadão da foto afirma que as outras lutas não têm importância, que os sofrimentos alheios não são sérios. E, como cereja do bolo, termina chamando os outros – não ele – de egoístas. 
___Se o Jim Carrey segurasse uns cartazes de filmes que ele estrelou, talvez conseguisse se mostrar tão, pretensamente, centro de tudo.  


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____“Isso significa que o cara não pode incitar um protesto contra o governo?”. Claro que pode. Só que existem maneiras menos escrotas de fazer isso. Tentar chamar um protesto desdenhando dos outros e da luta alheia, com certeza não é a melhor maneira. 

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P.S.: Selecionar fotografias do #NãoMereçoSerEstuprada fez com que eu admirasse ainda mais quem participou. Foi impressionante ver que, em grande parte das fotos, apareciam vários comentários de pessoas raivosas agredindo a moça que estava se expondo. Fez com que eu achasse mais necessário ainda publicar este texto. 

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* Dias depois, no dia 4/IV, o IPEA divulgou uma errata dizendo que a porcentagem real de entrevistados que achavam que “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas” é de 26%. Para o ponto que pretendo trabalhar neste texto, essa mudança de dado não altera minha argumentação. Além disso, considero que o protesto #NãoMereçoSerEstuprada continua sendo completamente válido, já que a porcentagem de 58,5% que concordavam que “Se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros” continua sendo correta. E, mais do que isso, não há nada para se criticar no foco do protesto – já que 26% ainda é uma porcentagem bem alta, praticamente uma em cada quatro pessoas. 

10 abril, 2014

Adiantada para a segunda aula

___Sou aberta e assumidamente um professor encrenqueiro. Um dos motivos para isso é que sei a importância e adoro o que faço. Acho o fim do mundo ver quem não trabalha direito gastando o importante tempo de vida dos estudantes. A coordenadora pedagógica de uma das escolas em que eu trabalho também é uma professora bastante dedicada, mas, ao contrário de mim, parece bastante séria e nada aberta a brincadeiras. 

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___Faz uns dias, eu estava pegando um mapa antes do início da primeira aula enquanto a coordenadora, olhando a grade de horário, começou a conferir se todos os professores do dia estavam presentes. 
___– Hum... Ainda falta o professor de Física e a professora de Biologia. Ele sempre chega em cima da hora mesmo... 
___Não me aguentei. Assim que ela, pensativa, suspirou, eu completei:
___– E a professora de Biologia sempre chega uns quinze minutos depois da hora...
___Ela virou para mim com a cara fechada. Quando eu já estava pronto para ouvir uma reprimenda, a coordenadora abriu um sorriso e disse:
___– Só quinze? Você está bonzinho hoje, Ulisses.

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___É sempre bom encontrar cúmplices por aí. 

03 abril, 2014

Saindo do papel: provas e outras mídias

___A grande vantagem de pedir para que os alunos façam uma avaliação em casa é poder acrescentar mídias e cobrar leituras que dificilmente poderiam estar presentes no tempo e em um espaço de avaliação tradicional. Uma das questões que eu fiz recentemente é extremamente exemplar nesse ponto. 

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Relacione o vídeo “Somos um Rio, a Vila Autódromo é outro.” (http://youtu.be/MJPCVKYqdus) com as leis abolicionistas feitas no Brasil Império (1822-89).*  


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P.S.: Acho que o trabalho do Rafucko é maravilhoso. Por isso mesmo, faço questão de divulgá-lo. Aproveitando a divulgação, vale citar que o Rafucko está fazendo uma vaquinha para arrecadar fundos para o seu talk show. Conheça o projeto
P.P.S.: Para quem gosta de ver questões de História, nos idos de 2007 eu publiquei, aqui no Incautos, uma série com questões que tinham como base textos tirados de blogs. Respectivamente, postagem 1, 2, 3 e 4

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