12 dezembro, 2015

The Hunger Games

___Reuniãozinha familiar com a família da minha esposa. Depois da refeição, as pessoas decidem escolher um filme no Netflix e acabamos por assistir Jogos Vorazes
___Assim que o filme termina, revoltada, uma das pessoas comenta:
___– Meus Deus! Quanta bobagem. Até parece que uma sociedade inteira iria permitir esse tipo de maldade. 
___Quando me preparei para argumentar algo, já fui interrompido: 
___– Ah, nem me venha com essa coisa de historiador, Ulisses. As pessoas faziam isso na Roma Antiga, mas não fazem mais. A nossa sociedade não aceita esse tipo de absurdo!
___Dei uma leve risada e, tentando não falar sobre História, respondi:
___– A nossa sociedade só permite que um grupo gigantesco de pessoas seja pobre e passe fome, frio e afins. E o grupo privilegiado que não passa por esses problemas ainda tem coragem de criticar os mais pobres, chamá-los de vagabundos e coisas do tipo. 
___– Ah, não! –, minha interlocutora retrucou, revoltada. – Se a pessoa é vagabunda e não trabalha, ela tem mesmo é que passar fome. Quero mais é ver ela se foder!
___– ... Ah... bem... E aí, pessoal, agora vamos jogar baralho? 

Capa da edição portuguesa: The Hunger Games / Os Jogos da Fome

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P.S.: Caso alguém esteja curioso, não sou nenhum grande defensor do Jogos Vorazes ou algo do tipo. Não cheguei nem perto de ter contato com os livros. Só achei que o diálogo acima valia o texto. 

16 novembro, 2015

O educador do ano

Frank Underwood

___Frank Underwood é a personagem protagonista da série House of Cards. Exemplo de político manipulador, ele conseguiu fazer com que um pai, que o culpava pela morte da filha, mudasse de lado e se convertesse em apoiador. Mesmo tendo acompanhado Underwood fazendo essas manobras por três temporadas, tenho de dizer: ele tem muito a aprender com Geraldo Alckmin. 
___É, no mínimo, impressionante que Alckmin, governando mal, tenha conseguido se reeleger no primeiro turno. Reeleito, com o PSDB, seu partido, governando o estado de São Paulo desde 1995,* Geraldo Alckmin conseguiu deixar mais de 60% dos paulistanos sem receber água em algum momento. Para quem tiver estômago, vale muito ler o falecido – e atual – Boletim da Falta d'Água em SP
___Então, contra todas as expectativas (e torneiras secas), Geraldo Alckmin recebeu um prêmio de gestão hídrica na câmara dos deputados.  

Frank Underwood

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___A educação pública estadual, nos ensinos fundamental e médio, continua vergonhosa. O único caso real de resultado excelente, a Escola Técnica Estadual de São Paulo, a ETESP, acaba servindo como propaganda positiva do governo e, tristemente, acaba prejudicando toda a educação do estado. 
___A propaganda positiva é mentirosa, já que os bons resultados da escola estão ligados ao vestibulinho disputado e não ao investimento do governo estadual.** A educação estadual como um todo acaba sendo prejudicada, pois o governo aproveita o bom resultado de uma escola técnica para abrir outras escolas técnicas por São Paulo. O problema é que não são os mesmos alunos bem preparados que entram nessas outras escolas e, portanto, o resultado delas obviamente não é tão bom. Além disso, os professores das escolas técnicas recebem menos benefícios do que os das escolas estaduais tradicionais: proliferar escolas técnicas é tornar a classe dos professores ainda mais mal remunerada.
___Agora, o governador Geraldo Alckmin resolveu “reorganizar” algumas das escolas estaduais tradicionais. A maioria das escolas será separada em unidades de ensino fundamental I, de fundamental II e de ensino médio. Com isso, um grande número de estudantes e professores acabará sendo realocado, algumas escolas fecharão e algumas, curiosamente, irão se tornar escolas técnicas. Reagindo a isso, alguns estudantes, lindamente, resolveram ocupar suas escolas. Como costuma ser modus operandi da PM com qualquer oposição ao governo do PSDB, a violência policial comeu solta. 

Violência da PM #OcupaEscola

___Será que, com tudo isso, vão acabar premiando o Alckmin como Educador do Ano?

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P.S.: Textinho curto e muito acertado da Bárbara Carneiro sobre o #OcupaEscola.
P.P.S.: Como combina muito com este texto, tenho de compartilhar essa reportagem: “Sem água, escolas estaduais dispensam alunos mais cedo”. 
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Atualização (18/XI/2015): Outro texto lindo, agora da Vanessa Rodrigues, sobre o #OcupaEscola. 


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* E, sendo assim, tendo tido a chance de fazer incontáveis obras, melhorias e manutenções que teriam evitado a crise de abastecimento hídrico.  
** Apesar de reportagens malfeitas dizerem, literalmente, “Escola pública melhor classificada no Enem investe na formação e remuneração do professor”, a ETESP passou por uma grande greve no ano passado e um dos motivos foi, exatamente, a má remuneração. Os bons resultados obtidos estão ligados à rígida seleção para entrar na escola e a alguns poucos professores dedicados.

28 outubro, 2015

Procedimento de emergência

___Vale a pena registrar o surrealismo desse e-mail, enviado pelo convênio médico Unimed Paulistana, aos seus clientes:*

Comunicado Unimed

___Deixa-me ver se eu entendi direitinho: caso a pessoa tenha alguma urgência ou emergência médica, algo que tenha de ser resolvido na hora, ela deve enviar um e-mail! Não tinha nenhuma opção mais lenta e sem esperança de pronto atendimento do que e-mail? Quem sabe uma carta registrada? Talvez o Ponny Express?
___Sinceramente, só consegui imaginar algo mais ou menos assim:

Caro convênio,
___Caí da escada aqui de casa e acabei quebrando a minha perna. Eu não sou médico, mas acredito que seja algo bastante grave, pois consigo ver meu osso fora da minha pele e tem mais sangue na minha sala do que em filme do Tarantino.
___Lamento muito, mas já foi muito difícil me arrastar até o computador para digitar este e-mail. Não tenho o pedido médico e estou me sentindo um tanto fraco para conseguir tirar as cópias que vocês pediram. Mesmo assim, será que vocês podem me enviar uma ambulância?
___Obriggggggggggggggggggggggggggggggggggggggg


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* Enviado depois que a Agência Nacional de Saúde Suplementar obrigou a Unimed a fechar suas portas, mas estabeleceu um prazo em que o convênio ainda seria obrigado a prestar assistência aos seus clientes. 

14 outubro, 2015

A viúva de Che e o gato Mingau Castro

___Dia desses, chegou à minha caixa postal mais um daqueles exaltados e-mails denunciando os absurdos comuno-bolivarianos deste governo PTralha: “VIÚVA DE ‘CHÊ’ APOSENTADA PELO BRASIL....”. Fiquei até impressionado que a manchete em CAIXA ALTA terminou com reticências infinitas ao invés de pontos múltiplos de exclamação. 
___Abri o e-mail e vi que a notícia vinha em formato de imagem. Posto-a abaixo: 

Nãotícia sobre o governo

___Dei risada, mas, como imaginei que me mandaram o e-mail acreditando na notícia, resolvi ser didático e, educadamente, explicar. (Explicar não apenas para quem havia me mandado, mas para todas as pessoas que iam compartilhando uma com a outra – e que vinham copiadas no corpo do e-mail.)

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Pessoas queridas, 
___É sempre bom lembrar de pesquisar um pouco antes de espalhar notícias. Como vocês podem ler aqui, a notícia de que a "Viúva do Che Guevara recebe do Brasil, aposentadoria por viuvez já há 10 anos" (sic) é falsa.* 
___Além disso, é bom ressaltar: mesmo sem pesquisar, seria possível perceber que a notícia não é séria simplesmente lendo o texto com atenção. A "notícia" informa que "Aleida March, que vive atualmente em Cuba, foi denunciada pela blogueira Yoani Sánchez, que ouviu o ocorrido do gato Mingau Castro, que vive na mansão presidencial." (grifo meu). E o texto continua: "'O gatinho disse que o Brasil transfere o valor direto para a conta de Aleida March.'".
___Alguém realmente levou a sério uma notícia que usa um gato como fonte? O que falta agora? Levar a sério a Veja
___Portanto, pessoas queridas, cuidado para não permitir que seu ódio contra o governo e sua ideologia política acabe causando cegueira. Não é porque você gosta de uma notícia que ela se torna real. 
Abraços.
Ulisses Adirt. 

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___Infelizmente, ninguém me respondeu o e-mail. Será que pelo menos aprenderam alguma coisa?

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* Diga-se de passagem, como tratamento contra a crendice dogmática em qualquer tresloucado boato internético, recomendo a leitura do E-farsas 3 vezes ao dia. Caso você prefira se afastar da internet depois da vergonha de mandar e-mails assim para os seus amigos, leia o livro O mundo assombrado pelos demônios, do Carl Sagan. 


04 setembro, 2015

Diferentes abordagens

___Eu estava calmamente passeando com as minhas cachorras, quando passei por uma moça simpática que veio me entregar o panfleto de um barzinho
___– Não deixe de ir – propagandeou. É um bar ótimo, com cervejas artesanais e importadas. 
___Minhas cachorras pararam para cheirar alguma coisa meio metro depois e eu pude continuar a observar a moça. Para cada pessoa que passava ela dizia a mesmíssima coisa: “Não deixe de ir. É um bar ótimo, com cervejas artesanais e importadas.”. 
___Até que passou um casal de velhinhos. Ela entregou o panfleto para eles e disse:
___– Não deixem de ir. É uma lanchonete ótima, aqui pertinho. 

28 agosto, 2015

A liberdade da pobreza

___Sempre me impressiona como existe gente que vê as coisas de maneira tão diferente de mim. 
___Noutro dia, indiquei o doce SP Invisível para uma professora de Língua Portuguesa que trabalha comigo. Na semana seguinte, a professora, revoltada, veio bronquear comigo: “Que inutilidade aquele site que você me indicou! É só um monte de histórias sem pé nem cabeça de uns mendigos loucos. Tenho tanta coisa de literatura para ler, não vejo motivo para perder tempo com coisas assim.”. 
___Acho lindo o trabalho do SP Invisível dando voz a pessoas que costumam ser esquecidas pela sociedade e fiquei triste por ver uma professora falando assim. Triste, também, por saber que, trabalhando com literatura, ela desconhece o respeitado internacionalmente Quarto de despejo*, de Carolina Maria de Jesus. 
___Deixo para George Orwell o retruque: “As regiões pobres de Paris são um ponto-de-encontro de gente excêntrica, pessoas que caíram nas trilhas solitárias e meio-loucas da vida desistiram de tentar ser normais ou decentes. A pobreza liberta-as dos padrões habituais de comportamento, assim como o dinheiro liberta os homens do trabalho.”**.

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Postagens relacionadas:

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* Que, em alguma edições, tem como subtítulo “Diário de uma favelada”. 
** Primeiro capítulo do Na pior, em Paris e em Londres

20 agosto, 2015

Abacateiro

Eu: Olha, uma árvore frutífera! Adoro encontrá-las pela rua
Amiga: No meu trabalho tem um abacateiro. 
Eu: Que legal. Em uma das escolas em que eu leciono, também tem um. 
Amiga: O abacateiro só atrapalha um pouco porque, na época em que os abacates caem, isolam a área para ninguém se machucar. 
Eu: Na escola em que eu leciono, na época em que os abacates caem, os abacates caem... 

30 julho, 2015

Ausência de faixas: entre o desrespeito e o cuidado

As faixas de pedestre esquecidas - Argentina (Bariloche)
As faixas de pedestre esquecidas - Argentina (Bariloche)

___Viajei recentemente para uma cidade argentina que, praticamente, não tinha faixa de pedestres. Para falar a verdade, de quando em vez, em algumas ruas era possível perceber uma faixa, no canto, quase toda apagadinha, relegada a um quase esquecimento.

As faixas de pedestre esquecidas - Argentina (Bariloche)

___Inicialmente, considerei o fato um desrespeito atroz. Como pode uma cidade ter tão pouco cuidado com os pedestres que nenhum lugar é feito para as pessoas atravessarem as ruas? Esqueceram os pedestres deste lugar? Que desrespeito. Maldito mundo carrocrata!
___Só que minha estada na cidade foi se alongando, fui conhecendo as pessoas e seus costumes e, então, comecei a ver alguns pontos extras. 
___Para começar, a velocidade marcada pelas placas parecia realmente respeitada. Não era como São Paulo – em que uma placa marca que aquela rua residencial deve ter uma velocidade de 30 km/h e os carros andam a 60 km/h. Os carros realmente pareciam não correr pela cidade. Além disso, seja por cuidado, por costume ou por dó, os motoristas diminuíam ou paravam quando as pessoas começavam a atravessar.*

As faixas de pedestre esquecidas - Argentina (Bariloche)

___Claro que esperar que o bom senso dos cidadãos resolva todas as questões (ainda mais no trânsito), não é o melhor caminho. Porém, não deixou de ser interessante perceber que, quando o desrespeito estatal foi muito grande, as próprias pessoas acrescentaram um pouco mais de cuidado.

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P.S.: É óbvio que este texto não se trata de um estudo científico sobre a reação dos motoristas em determinado lugar do mundo. Apenas dividi com os leitores deste blog um pouco da minha observação como pedestre em um local um tanto diferente da minha cidade. 
P.P.S.: Vale lembrar: o artigo 69 do Código de Trânsito Brasileiro garante aos pedestres o direito de atravessar uma via que não tenha nenhuma faixa.** Os motoristas é que tem a obrigação de parar e zelar pelos pedestres. Pena que é mais fácil um fusca falar do que encontrar algum motorista que conheça (e respeite) essa lei.  

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* Outra diferença se compararmos com Sampa, vale dizer. Por aqui, infelizmente, não é incomum que os motoristas deem uma acelerada ou uma roncada mais forte no motor para “ultrapassar” os pedestres ou vê-los terminar mais rapidamente de atravessar a rua –, mesmo na faixa. 
** Ou que a passagem ou faixa de pedestres esteja a uma distância superior a 50 metros.

14 junho, 2015

Não coma anima

___Entro no vagão do metrô lendo, desatento ao que se passa à minha volta. Paro de ler e procuro um lugar. Encontro, no canto do vagão, ao lado de um rapaz magro, branquelo, cabelo raspado. Assim que me sento, em um movimento rápido, ele recolhe a mão para junto do corpo. Pelo visto, o rapaz estava rabiscando uma das paredes do vagão. Até aquele ponto, ele havia escrito “Não coma anima”. 
___Depois de alguns segundos, peguei meu livro e voltei a ler. Encorajado pela minha falta de foco nele, o rapaz continuou a rabiscar a parede do vagão com uma chave. Acrescentou o “is” à palavra “animais” e se recostou, relaxado. 
___Como sou um problemático maluco, falei:
___– Aproveite e escreva também: “Não deprede o transporte público.”.
___– Ah, vai tomar no seu cu! Todo mundo faz isso. 
___– É... –, respondi. – E “todo mundo” come animais. 

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P.S.: Antes que apareça por aqui algum ataque desmedido, recomendo a leitura da minha série “Muros, ironia e espaço público”: parte I, parte II e parte III

07 junho, 2015

Propaganda que funciona

___O objetivo de uma propaganda é convencer as pessoas a comprar determinado produto. As propagandas de dia dos namorados, entretanto, não costumam funcionar comigo. Mesmo se forem muito convincentes, fofas e com o público inteiro fazendo ooooooohhhhuuumm
___Já faz dez anos que eu e minha esposa estamos juntos e, pela graça da boa Clio, nós nunca ligamos muito para datas. Não jantamos em restaurantes chiques no dia dos namorados, não trocamos presentes no natal, nem nada do tipo. Sendo assim, as propagandas açucaradas apenas me entretêm, nunca me convencem a comprar. 
___Neste ano, o Boticário fez uma propaganda saindo um pouco dos padrões: não mostraram apenas casais heterossexuais.* Confiram.


___Mesmo sendo bacana a iniciativa, a propaganda não foi o bastante para que eu, que nunca compro nada no dia dos namorados, ficasse minimamente tentado a comprar um perfume do Boticário. Então, veio a segunda parte. 
___Como era de se esperar, os grupos mais reacionários começaram a zurrar contra a propaganda. Mais ainda, o pastor Silas Malafaia veio a público pedir para que outros preconceituosos, outros que pensam como ele, boicotem a marca. Tá aqui um link para o vídeo, caso alguém queira ver. 
___Eu sei que foi uma propaganda negativa, sei que, infelizmente, ele vai convencer muita gente a boicotar o Boticário e, também, sei que o número de pessoas que seguem o Malafaia é grande. Porém, para mim, a propaganda negativa foi positiva. Até deu vontade de comprar alguma coisa do Boticário. 

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P.S.: Para quem viu o vídeo do Malafaia e quer ver algum outro para desanuviar, recomendo este vídeo do Estêvão Slow.

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* Quando eu digo “saindo um pouco dos padrões”, não se trata de uma força de expressão. Por mais bacana que seja fazer uma propaganda mostrando casais homossexuais, queira ou não é uma propaganda de dia dos namorados só com abraços, sem nenhum beijo. Sem contar que outros tipos de namoros (como os poliamorosos), como sempre, são ignorados. 

28 maio, 2015

A incrível congregação de vapores

___Existe muita porcaria na internet. E, mais do que porcaria, existe muita gente reclamando que existe muita porcaria. Por isso mesmo, é fantástico apontar quantas coisas legais e bacanas vão surgindo pela internet a fora. No ano passado, no mundo dos blogs, foi iniciado, pela maravilhosa Camila Pavanelli, o importantíssimo Boletim da Falta d'Água em SP; entre os vídeos, eu descobri o ótimo Nerdologia, do  Atila Iamarino;  e, nos podcasts, em maio do ano passado, foi lançado o Promontório Estéril, feito pelo simpático Fabricio Soares. E é exatamente do Promontório que eu resolvi falar hoje. 
___Para anunciar o aniversário de um ano de vida do podcast, o Fabricio fez um episódio especial contando curiosidades sobre aniversários. Esse é um dos pontos mais bacanas do Promontório Estéril: mesmo sendo um podcast de biografias, quase qualquer tema tratado é cheio de curiosidades (ou dito de forma bem interessante, com boa trilha sonora e ótimos efeitos de sonoplastia). 
___No episódio de aniversário, aos 6’33”, Fabricio fala sobre o brigadeiro e conta que o doce “ganhou esse nome graças ao brigadeiro Eduardo Gomes, político que disputou a presidência, em 1945. As eleitoras e fãs criaram o doce, que foi nomeado com sua patente, para ganhar votos.”. Adoro essa curiosidade e sempre divirto meus alunos com ela. Em sala, conto, também, sobre o slogan que usaram durante a campanha de Eduardo Gomes: com o objetivo de arrecadar os votos femininos (já que aquela seria a primeira eleição presidencial com mulheres votando) se dizia “Vote no brigadeiro que, além de bonito, é solteiro.”.*
___Deixando minhas tergiversações de lado, escrevo esta postagem para indicar o podcast – que é uma das maravilhas produzidas pela internet hoje. E, claro, para parabenizar o Fabricio Soares e desejar que o Promontório Estéril dure por muitos outros anos. 

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* Não deixa de ser digno de nota o tratamento bizarro destinado às eleitoras. 

14 maio, 2015

Irrequieta

Pintor: Moça, por favor, fique quieta.
Modelo: Desculpa...
Pintor: Tá aí. De novo. 
Modelo: Mas, eu não me mexi. 
Pintor: Você riu. 
Modelo: Desculpa. É que eu acho o senhor engraçado. 
Pintor: Não fiz graça nenhuma.
Modelo: A sua barba. Ela é engraçada. 
Pintor: Esqueça minha barba! Tente olhar para outra coisa. Nem olhe para mim.
Modelo: Tá bom. 
Pintor: Olhaí... Olha o que você fez! Errei o fundo. 
Modelo: A culpa não é minha. Eu não controlo o cenário.
Pintor: É culpa sua, sim. Você fica me desconcentrando. Cada vez que eu olho para você seu rosto está diferente. Tô corrigindo tanto que o quadro vai acabar borrado. 
Modelo: Ninguém vai ver muito esse quadro mesmo...
Pintor: Então fique quieta que eu termino rápido. 
Modelo: Sei, sei... 
Pintor: E pare de rir que eu não consigo acertar a sua boca. 

Mona Lisa (A Gioconda), de Leonardo da Vinci (1503-06)


10 maio, 2015

Patrões e escravos

___Semana passada a Unicamp (e sua maravilhosa Olimpíada de História) me deu a oportunidade de conhecer uma ilustração de Jean Baptiste Debret que eu ainda não havia tido a oportunidade de ver: Cena de Rua (patrão e escravo).* 

Cena de Rua (patrão e escravo), de Jean Baptiste Debret

___Os trabalhos de Debret são fantásticos para conhecer um pouco sobre a vida no Brasil durante as primeiras décadas do século XIX. Infelizmente algumas das cenas por ele retratadas, como a aquarela acima, ainda assombram o Brasil das primeiras décadas do século XXI. 
___Moro ao lado de um prédio pertencente ao Poder Judiciário. Dia desses, a chuva caia forte e eu estava à janela, com a minha cachorrinha, olhando exatamente a tal repartição pública. Enquanto eu observava, um carro chique parou próximo à parte coberta. O motorista abriu a porta, o guarda-chuva e desceu do carro; deu a volta no veículo e foi para o coberto. Pouco depois ele volta e abre a porta traseira do carro, do lado do passageiro. Ao tentar se deslocar de volta para pegar sua passageira, o motorista percebe que a porta vai acabar fechando. Para evitar o fechamento da porta, ele passa a segurá-la com uma mão e, com a outra, estica o guarda-chuva para a senhora que aguardava no coberto. 
___Mesmo desprotegido, tomando uma torrencial chuva à cabeça, o rapaz permanece impassível. A senhora bem trajada começa a ir em direção à porta aberta e o motorista vai protegendo-a com o guarda-chuva. Então, alguém, no coberto, chama a mulher. Ela se vira e começa a conversar. 
___A conversa durou alguns minutos. A mulher não se preocupou em voltar para o coberto, pois estava protegida pelo guarda-chuva. O interlocutor também não deve ter se preocupado, já que não se molhava. O motorista, tal qual o escravo retratado por Debret, ficou parado, esquecido, resguardando à pessoa de casta superior. 

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* Pintada entre 1817-1829. 

01 maio, 2015

Tatuagem e etiqueta II

___No final do ano passado, eu publiquei um texto por aqui perguntando, para pessoas tatuadas, qual é a etiqueta para se olhar tatuagens de desconhecidos em lugares públicos. Agradeço às respostas, se bem que ainda mantenho minhas dúvidas. 


___Hoje, venho aqui relatar um pequeno ocorrido sobre tatuagens e dividir com os leitores minha reação. Vamos à narrativa.

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___Encontrei uma moça que estudou comigo no colegial. Aquele tipo clássico de encontro de antigos conhecidos: ela gritou meu nome, eu olhei, demorei um pouco para reconhecê-la e, depois de alguns minutos, estávamos relembrando o passado e comentando sobre a vida pós-escola. 
___Ela, que sempre foi muito tradicional e recatada na escola,* estava bem mais solta. E, também, estava toda tatuada. Comentei que havia gostado das tatuagens nos braços. Animada, ela se virou, levantando o cabelo e dizendo “Essa foi a minha última!”. Eu, que gosto de ver tatuagens, fiquei sem reação: o carpe diem que ela havia tatuado no pescoço estava escrito errado. 
___Fui assolado por um turbilhão de pensamentos. Eu deveria falar alguma coisa? Adiantaria falar de um erro em uma tatuagem, em algo que seria difícil de ser apagado ou corrigido? Se soubesse do erro, ela tentaria saná-lo ou só ficaria chateada? Se ela não soubesse, a tattoo poderia virar motivo de escárnio? 
___Quando ela se virou, com o olhar ávido, esperando para ver minha reação, engoli em seco e disse:
___– Acho muito legais essas letras rebuscadas que são usadas nas tatuagens...
___Não sei se agi bem. Mas, pelo menos, ela sorriu. 

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P.S.: Aproveitando o ponto, vale lembrar que erros também podem ser propositais. Ou alguém pode afirmar, com certeza, que o fuck the system da tatuagem acima não foi uma escolha completamente consciente? 

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* Na década de 1990. 

12 abril, 2015

Unanimidade

___– Ai, professor, estou muito triste. 
___– O que foi, querida? –, perguntei. 
___– Sempre gostei de literatura, das aulas, até já pensei em fazer Letras, mas, agora, li Machado de Assis e não gostei. 


___– O que você leu dele?
___Memórias Póstumas de Brás Cubas
___– Calma. Foi só um livro. Leia outros. Ou leia alguns dos contos. Quem sabe dos contos você gosta. Indico “A Cartomante”, “Pai contra mãe”...
___A aluna me interrompeu dizendo: 
___– Já tentei alguns contos, professor. E não gostei. O que tem de errado comigo?
___Sorrindo, respondi:
___– Calma. Não tem nada de errado com você. É completamente normal não gostar de algum autor... 
___– Ah, professor, você vai me desculpar, mas é o senhor que está errado. Não é aceitável não gostar de Machado de Assis! 

24 março, 2015

Tirando um selfie com a PM

___Ouvi aos quatro ventos o quanto os protestos do dia 15 de março foram lindos, uma festa da democracia e coisas do tipo. Não concordo muito,* mas o objetivo deste texto não é ficar em críticas gerais. Quero me focar em um fenômeno específico que me incomodou bastante: os selfies com policiais


___Para começar, é obvio que os policias podem ter suas opiniões políticas. Mais óbvio ainda é que eles podem (e devem) ter um bom relacionamento com a população. O problema é a polícia só tratar bem determinado grupo de pessoas. 
___Não importa se as pessoas, no dia 15, foram bem tratadas porque eram da “elite branca”, por concordarem politicamente com os policiais, porque já comeram caviar ou porque estavam salpicadas com adoradores da Ditadura Civil-Militar. O fato é que, em outras manifestações, os policiais não estavam tão carinhosos e receptivos. 
___Antes que apareça algum maluco dizendo que o protesto do dia 15 não provocou a PM, acho importante lembrar que policiais devem ser treinados para não perderem a paciência, para resguardar a população, não para agredi-la. Sem contar que foram muitos os exemplos de pessoas pacíficas que foram agredidas em outras manifestações – como é possível ver neste vídeo em que a tropa de choque atira em pessoas gritando “Sem violência!”. Tente imaginar qual seria a reação da PM, nas manifestações contra a Copa, se alguém tivesse tomado uma atitude parecida com a que essa menina tomou no dia 15. 



___“Ah, Ulisses, mas, no dia da manifestação pelo impeachment da Dilma, as pessoas estavam se sentindo seguras. Para elas, a presença da PM foi positiva.”. 
___OK, eu consigo entender isso. O ponto é que a presença da polícia não deveria trazer insegurança, não deveria ser negativa para quem participa de outras manifestações. Vale lembrar que se manifestar não é um crime, é um direito. E é muito errado que a PM vá pronta para reagir violentamente contra determinadas manifestações pacíficas.  
___Não reclamar de uma polícia que trata você bem, mas agride, injustamente, os outros, é tão desonroso quanto um político que é conivente com a corrupção de outros políticos. Acho até que deveriam fazer manifestações contra pessoas que agem assim. 

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P.S.: Aproveitando o assunto “fotos problemáticas”, coloco abaixo a imagem de uma dançarina que já trabalhou comigo. Ela publicou a foto no Instagram, no dia 15, com a legenda “Eu fui”. 


___Pobrezinha, não sabe escolher cenário. Ou pior, talvez saiba. 

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* Não concordo porque é vergonhoso saber que 82% das pessoas que protestaram na grande “festa da democracia” da Paulista foram eleitores do Aécio; não concordo porque, ao contrário do que muita gente disse, os protestos não foram pacíficos em todos os lugares; e, claro, tenho um gigantesco nojo para os muitos pedidos de golpe “intervenção” militar. E, antes que esta nota aliene leitores para o resto do texto, é bom lembrar que eu não apoio as atitudes da nossa presidenta


14 março, 2015

A imparcialidade da imprensa

___Foi bastante triste ver os protestos de ontem procurarem uma temática extra para justificarem a sua existência. O motivo real das passeatas foi mostrar apoio à Dilma, foi repudiar os clamores de impeachment. Porém, vergonhosamente, parece que foram necessárias mais desculpas para se sair às ruas. Grande parte dos discursos (orais e por escrito), diziam que as manifestações de ontem eram “em defesa da Petrobrás”. 


___Mais triste e vergonhoso ainda é ver uma imprensa tão cega no seu ódio que, até quando noticia essas manifestações de apoio ao PT, consegue ilustrar – em destaque – os grupos contrários. Deem uma olhada como está o Yahoo! Notícias, noticiando que “Milhares saem às ruas do país em apoio à Dilma e Petrobras”:


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___Fico até pensando como seriam ilustradas outras manchetes, se a imprensa estivesse sempre tão abertamente enviesada.

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Aliados vencem a II Guerra Mundial


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Astronautas norte-americanos pisam na Lua


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Marechal Deodoro da Fonseca proclama a República


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Lenhador salva Chapeuzinho Vermelho


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P.S.: Procurando imagens para ilustrar esta postagem, encontrei esse fantástico conjunto de cartazes soviéticos sobre a corrida espacial. 

06 março, 2015

I want to...

___– Professor, você acredita em OVNIs?
___– Claro. Eu acredito que existem Objetos Voadores que Não conseguiram Identificar.
___– É... Sim, sim... Mas, assim, e discos voadores? Você acredita que eles existem?
___– Sim, é óbvio. Já joguei frisbee várias vezes.
___– Professor, eu acho a sua aula de História muito boa. Porém, se continuar com essa atitude, você nunca vai conseguir um emprego no History Channel.




22 fevereiro, 2015

Duas bolinhas, uma boca

___Não sou muito fã de vir até aqui só para colocar um vídeo ou uma imagem. Às vezes faço isso, mas prefiro sempre escrever algo, contextualizar. Mesmo assim, o que eu queria hoje é simplesmente compartilhar o vídeo, mostrar como é divertido ver a Isabel Allende, minha cachorra, tentando pegar duas bolinhas ao mesmo tempo


___E, no fim das contas, escrevi umas linhas. :-)

13 fevereiro, 2015

O Caroço da Cabeça e os Assentos Preferenciais

___Desde que o prefeito Fernando Haddad resolveu aumentar muito o número de ciclovias pela cidade de São Paulo, a mídia (bem sustentada por empresas de automóveis) e os carrodependentes em geral têm chorado como se lhes houvessem arrancado as pernas. Pessoalmente, acho importante refletir: por que as ciclofaixas são necessárias? A resposta é simples: pelo mesmo motivo que os assentos preferenciais são necessários. 


___Se você pensar bem, todo assento é preferencial. Principalmente em um transporte público. É óbvio que uma pessoa sentada, ao perceber que um velhinho subiu no ônibus ou que uma mulher grávida entrou no vagão, deve se levantar e ceder lugar. Infelizmente, isso não acontece o tempo todo. 
___Quem está confortavelmente sentado prefere “não ver” aquela moça segurando o bebê de colo. Exatamente por conta dessa falta de respeito e empatia, tornou-se necessária a criação de assentos preferenciais.* O lugar com uma plaquinha e/ou com uma cor diferente não resolveu o problema, mas ajudou a estimular o cuidado com o próximo. 


___E é aí que entram as ciclovias. Quem está sentado deve oferecer o lugar para uma pessoa idosa; como não se costuma oferecer, torna-se imprescindível a criação de um assento preferencial para estimular o cuidado com o próximo. Quem está no veículo maior, mais potente, que tem mais chance de matar alguém deve** zelar pela segurança dos veículos menores. Entre os veículos menores, que devem ser respeitados nas ruas, estão as bicicletas. Como, normalmente, os motorizados não zelam pela segurança dos ciclistas como deveriam, tornou-se necessária a criação de faixas exclusivas para ciclistas. 
___Portanto, caro motorista, se você e seus companheiros carrocratas respeitassem os ciclistas, nenhuma ciclofaixa seria necessária. E quanto mais rápido os motorizados aprenderem a zelar pelos ciclistas, mais rápido as ciclovias poderão desaparecer. Aí, só vai faltar motorizados e ciclistas aprenderem zelar pelos pedestres. 

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* Por mais fofo que seja imaginar um passado idílico, dizendo “Antigamente, as pessoas cediam lugar. Existia mais respeito.”, vale dizer que as coisas não eram bem assim. Faça um pequeno exercício de História Oral e se surpreenda. 
___A título de curiosidade, vale citar que o município de São Paulo destina assentos preferenciais para idosos em transporte público desde meados da década de 1980. 
** Deve por respeito e por força da lei. Vide o parágrafo segundo, do Artigo 29, do Código Brasileiro de Trânsito. 

02 fevereiro, 2015

As flores de plástico não morrem


___É clássico, principalmente em estreias, que o público jogue flores no palco em que uma cantora acabou de apresentar um espetáculo. Só que, por vezes, a obra de arte que foi apresentada merecia flores, mas o público não as tinha. Ou o espetáculo e o público eram outros. 
___Dançarinos, às vezes, cultivam alguns costumes diferentes de outros artistas. Como já comentei por aqui, no teatro não se deve desejar boa sorte para um ator. O educado seria desejar um doce “Quebre a perna.”. Para um dançarino, entretanto, esse desejo pode ser um pouco perigoso. Deseja-se, então, o carinhoso “Merda.”. 
___O mesmo acontece com as flores. A não ser que o foco seja uma dança exageradamente estereotipada, não se costuma levar rosas para um salão de baile. 


___O que fazer, então, se alguns dançarinos se apresentarem de maneira tão espetacular e merecerem mais do que simplesmente aplausos? Bem... se quem dança valoriza as pernas, também deve valorizar os pés. Portanto, nada mais natural que a homenagem venha dos sapatos. Ao invés de se jogar flores, é possível jogar sapatos. 
___Deleitem-se com o exemplo dos franceses William e Maeva dançando lindy hop


31 janeiro, 2015

Tentando de tudo


___Depois de assistir Filadélfia com uma amiga, começamos a conversar sobre doenças degenerativas, mortes dolorosas e outros assuntos tristes. J., física de formação, ateia e cética, começou a defender o direito à eutanásia. Concordei e a conversa continuou rolando, até que ela disse que morre de medo de ficar doente daquela maneira. 
___– Quer saber? Se eu pegasse uma doença degenerativa grave, que não tivesse cura, eu tentaria de tudo. Até coisas que, hoje, saudável e consciente, eu sei que são bobagens. 
___– Como o quê? –, perguntei. 
___– Ah, sei lá. Homeopatia. 
___– Então você também aceitaria rezar e ir à missa todo domingo?
___– Eu tô falando sério! –, respondeu ela, exasperada. 
___– Eu também estou falando sério, J.. Se você disse que vai tentar de tudo, por que não tentar pedir para uma divindade salvar você? 
___– ... –, ela pensou por alguns segundos e disse: – Quer saber, Ulisses?
___– Hum?
___– Você é um babaca. 


28 janeiro, 2015

Pacientes...

___Consulta marcada para as 8h da manhã. Chego por volta das 7h50min. A secretária chega umas 8h10min para abrir o consultório. Pacientes vão chegando e se aglomerando na sala de espera. Lá pelas 9h15min, finalmente, aparece o médico. 
___Deve ter alguma coisa no Juramento de Hipócrates sobre isso. 

12 janeiro, 2015

A Ditadura da Mentira

___Atualmente, o Museu da Língua Portuguesa, em seu andar de exposições temporárias, abriga alguns dos trabalhos do 41º Salão Internacional de Humor de Piracicaba – ganhando o andar a brincadeira de que “Esta sala é uma piada”. Infelizmente, a sala também conta com uma piada de muito mau gosto. 
___Uma parede antes dos trabalhos do 41º Salão Internacional de Humor de Piracicaba, estão expostas algumas charges e tiras publicadas pelo jornal Folha de São Paulo criticando a Ditadura Civil Militar. Por mais geniais que sejam algumas daquelas obras, a seleção de imagens (quase todas do final da década de 1970 e do início da de 1980) procura passar a imagem de que a Folha foi um jornal que combateu a Ditadura.


___Infelizmente, o jornal paulista foi um notório apoiador do Regime Civil Militar. Vide, por exemplo, o escrotérrimo editorial “Presos Políticos?”, publicado pela Folha, em 30/VI/1972. Anos depois, quando da abertura política, quando a Ditadura já estava abrindo as pernas, a Folha de São Paulo mudou de lado, passou para o grupo de críticos ao Regime. Diga-se de passagem, não foi exatamente todo o jornal, só alguns membros dele – como, por exemplo, os cartunistas. 
___Então, hoje, querendo apagar (ou maquilar muito bem) o seu passado, a Folha patrocina uma exposição* tentando posar de democrata, de crítica à Ditadura. É um ato covarde. Para um jornal é principalmente um ato feio, porque é uma atitude desinformativa. Pelo menos honra o nome da exposição que originou a parede anti-Ditadura da Folha: “Este Jornal também é uma piada”. 

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* Não muito grande, vale dizer. Talvez tenha faltado material. ;-)

10 janeiro, 2015

Diógenes, o Mendigo

___Diógenes de Sinope, mais conhecido como Diógenes, o Cínico, foi um importante filósofo da Antiguidade, que viveu mais ou menos entre 404 e 323 a.C.. As lendas sobre sua vida como filósofo-mendigo são quase tudo o que restou de sua obra. Entre essas histórias, as minhas preferidas são as conversas de Alexandre, o Grande, com o filósofo. Encontrá-las não é nada difícil. Por isso mesmo, ao invés de simplesmente contá-las, resolvi adaptá-las para Sampa dos dias de hoje. 
___Diógenes, como era de seu feitio, fica sendo um mendigo. Alexandre, o Grande, nesta adaptação, fica como um executivo de sucesso. 


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___Irritado, Alexandre sai do edifício espelhado para as calçadas da avenida Paulista, quase nove da noite. Foi um dia estressante: reunião atrás de reunião, clientes ao telefone a cada intervalo e ainda seria necessário fazer um pouco de serviço em casa. Enquanto afrouxava a gravata, o executivo olha para o lado e vê um mendigo deitado na calçada, ocupado em fazer carinho em um cachorro vira-lata. 
___Alexandre sorri, o mendigo sorri de volta. Talvez mais à vontade por conta da interação, talvez para desestressar-se um pouco, o executivo diz:
___– Queria ter uma vida tranquila como a sua. 
___– Por que você não tem?
___– Talvez um dia. Ainda tenho muito que conquistar. Quero viajar, ter dinheiro para garantir o meu descanso futuro, ter outro apartamento. Essas coisas. 
___– Se você precisa de mais alguma coisa –, responde o mendigo –, você nunca vai ter o que eu tenho. 
___O executivo sorri e pergunta o nome do mendigo. 
___– Diógenes. 
___– Diógenes do quê?
___– Só Diógenes já me basta. Não preciso de mais nada. 

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___Saindo de uma unidade do Itaú Personnalité, Alexandre coloca seus óculos escuros e sai a caminhar. Não anda nem meio quarteirão e encontra Diógenes encostado em uma parede. Ainda positivamente impressionado com a conversa que tiveram alguns dias antes, Alexandre para na frente do mendigo, coloca a mão no bolso, segurando a carteira e diz:
___– Diógenes, diga-me: o que você quer? Posso lhe dar dinheiro, trabalho, lugar para morar. Peça e eu darei. 
___– Só não me tire o que você não pode me dar. –, respondeu Diógenes, deslocando-se um pouco para o lado para voltar a pegar sol. 
___Percebendo, então, que havia tirado o sol que aquecia o mendigo, Alexandre, envergonhado, pega uma nota de cinquenta reais, coloca no chão e se vai. 
___Diógenes não pega o dinheiro. 

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___Perto do trabalho, Alexandre vê dois outros executivos rindo de Diógenes, que dorme, sujo e seminu, na calçada. Irritado, Alexandre diz:
___– Se eu não fosse o executivo de maior sucesso da nossa empresa, gostaria de ser aquele mendigo. 

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P.S.: As estórias desta postagem existem graças a Diógenes, o Cínico, à minha amiga Fernanda e ao lindo SP Invisível


04 janeiro, 2015

Por que você não gosta do natal?

Nota introdutória: Deixei esta pequena postagem para depois das festas para ser simpático com todos os leitores. E, antes que alguém pergunte, não é um texto indireta para ninguém. Trata-se apenas de uma reflexão simples.

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___Se você é uma pessoa que não gosta das festas de natal, sugiro uma pequena reflexão: por que você não gosta do natal? 
___É porque você odeia juntar vários parentes que você não viu o ano todo e, agora, só por conta dessa festa, você é obrigado a suportar? É por causa das piadas chatas daquele seu tio? Daquela sua tia que pergunta “E as namoradas?”? Do cachorro mala da sua irmã? Daquela criançada toda gritando e correndo? Por achar constrangedor? Por você não estar interessado no que a sua avó vai contar sobre o seu primo de segundo grau? É porque você odeia dar votos falsos? São sempre festas chatas?
___Se você respondeu positivamente para algumas das questões acima, talvez valha a pena pensar um pouco que seu problema pode não ser exatamente com a festa de natal. O seu problema, caro leitor, é com a sua família. Você talvez até goste do natal, o que você não gosta é de ficar junto com os seus familiares. 
___Boas festas. 

02 janeiro, 2015

Pessoas porcas

___Enquanto espero o ônibus, uma mulher de uns 50 anos para do meu lado e acende um cigarro. Uma moça, bufando para o cigarro da mulher, sai de perto. Eu, sem ligar, continuo a esperar o ônibus, alternando meu olhar da rua para o meu livro. 
___– Como as pessoas são porcas! –, diz a mulher. 
___Levanto os olhos do livro para ver se ela está falando comigo. 
___– Como as pessoas são porcas, né?
___Meio sem jeito, solto um fraco "É...". 
___Ela sorri para a minha resposta e, animada, entre uma tragada e outra, começa reclamar: no ano novo as pessoas bebem e jogam a latinha no chão; ninguém pega o cocô do próprio cachorro; tem moleque que cospe até chiclé no chão. A mulher segue por alguns minutos tocando apenas uma nota: quanta gente existe por aí que joga lixo na rua.
___Então, o ônibus dela chega. A mulher faz sinal, dá uma última tragada e joga o cigarro no chão. 
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