26 março, 2012

A culpa não foi do Thor

___No último dia 17, Thor Batista, o filho do homem mais rico da América do Sul, atropelou e matou o ciclista Wanderson Pereira dos Santos. A reação de grande parte da sociedade foi de atacar e condenar o rapaz. Eu, por outro lado, venho aqui defendê-lo. Mais do que isso, afirmo que a culpa não foi de Thor.
___Não estou dizendo que o que Thor Batista fez foi correto. O resultado do inquérito ainda não saiu e, portanto, culpado ou inocente, por enquanto, ele nem tem como ser. O que venho aqui afirmar é que grande parte do que aconteceu não foi causado por Thor, mas, sim, por toda a sociedade.
___Foi a sociedade como um todo que montou o cenário para essa tragédia. Fomos nós que permitimos tal violência. Nós que apertamos o acelerador da Mercedes SLR McLaren.
___Para começar do básico, ensinamos para Thor que sua cor de pele, suas roupas e sua conta bancária fariam com que a polícia só se aproximasse dele como força protetora, auxiliadora, nunca repressora. Thor recebeu sempre, automaticamente, o respeito e a ajuda dos policiais. Não foi à toa que, nesse último acontecimento, por mais que seja importantíssimo manter a cena do acidente o mais intacta possível para averiguações policiais, o carro foi retirado do local e, mais ainda, hoje se encontra em poder do investigado, e não nas dependências da polícia. Ao contrário do que acontece com muita gente, o poder público não suspeita de Thor, confia nele e acredita que nada será alterado no veículo.
___Nós demonstramos para Thor o que significa impunidade. No período probatório, mesmo sem poder cometer nenhuma infração, o filho de Eike Batista cometeu 5 por excesso de velocidade e, mesmo assim, conseguiu sua habilitação definitiva. Depois disso, cometeu mais infrações por excesso de velocidade, atropelou outro ciclista e disse publicamente em uma entrevista que fez “280 quilômetros por hora na Dutra”. Nem o poder público, nem seu pai – que não vê nada de errado quando o filho comete irregularidades –, fez nada para punir minimamente o rapaz.


GTA - Thor - por Kibe Loco e Anões em Chamas


___Por fim, vivemos em uma sociedade carrocrata. Caso seja necessário alguma explicação sobre isso, cito aqui uma construção que eu adoro de Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa:




“Assim como os antigos sacrificavam colheitas, gado e até os filhos a ídolos e ícones aos quais seus sacerdotes atribuíam poderes imensos e uma profundidade insondável, a humanidade da era industrial sacrifica tempo, espaço, riquezas naturais e, às vezes, as próprias vidas a essas máquinas às quais os publicitários atribuem virtudes igualmente mágicas. Até as guerras empalidecem ante as estatísticas do trânsito, sem que isso inspire tanto horror quanto seria de esperar. Trata-se de sacrifícios humanos socialmente aceitos.”*.



___Louvamos os automóveis e ignoramos os problemas que eles causam. Associamos carros não a burrice, falta de liberdade, perda de tempo, pensamos da maneira contrária, associamos automóveis a poder. Em um país cujo limite máximo de velocidade é 120 Km/h, temos carros que chegam a 170, 200, até mais de 330, como no caso do carro que Thor dirigia. Como é permitido uma bizarrice dessas? Só mesmo em uma sociedade que, ao invés de dirigi-los, é dirigida pelos automóveis.
___Vivendo em uma realidade assim, bombardeado por todos os lados para pensar segundo a mentalidade carrocrata, Thor não vê nada de errado em andar com o seu carro. Considera que atropelamentos são acidentes, fatalidades que acontecem. Thor sente-se másculo correndo. O resultado de tudo isso pôde ser visto no último dia 17 – ou em incontáveis outros “acidentes” causados por excesso de velocidade e afins por ruas e estradas Brasil afora. Podem apostar que teríamos um quadro razoavelmente diferente se aparecesse nos comerciais, na mesma proporção em que aparecem propagandas de carros velozes em ruas sem trânsito, vídeos como esse aqui.


[embed width="500"]http://www.youtube.com/watch?v=v2vDCucSxJo[/embed]


___Portanto, meus queridos, enquanto perpetuarmos um classismo e um racismo imbecil, encararmos a impunidade e truques para se burlar a lei como algo aceitável e continuarmos a louvar automóveis, quadros como esse só vão se repetir – e a culpa não poderá ser atribuída apenas ao riquinho inconsequente. A verdade é que, em maior ou menor grau, nós todos somos cúmplices do que aconteceu.


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P.S.: Antes que alguém resolva me bater nos comentários, recomendo a leitura dos ótimos textos de Eliane Brum e de Maria Paola de Salvo.


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* Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa, “O totem do capital”. In.: Carta Capital. Abril, 2007.

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