28 agosto, 2015

A liberdade da pobreza

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___Sempre me impressiona como existe gente que vê as coisas de maneira tão diferente de mim. 
___Noutro dia, indiquei o doce SP Invisível para uma professora de Língua Portuguesa que trabalha comigo. Na semana seguinte, a professora, revoltada, veio bronquear comigo: “Que inutilidade aquele site que você me indicou! É só um monte de histórias sem pé nem cabeça de uns mendigos loucos. Tenho tanta coisa de literatura para ler, não vejo motivo para perder tempo com coisas assim.”. 
___Acho lindo o trabalho do SP Invisível dando voz a pessoas que costumam ser esquecidas pela sociedade e fiquei triste por ver uma professora falando assim. Triste, também, por saber que, trabalhando com literatura, ela desconhece o respeitado internacionalmente Quarto de despejo*, de Carolina Maria de Jesus. 
___Deixo para George Orwell o retruque: “As regiões pobres de Paris são um ponto-de-encontro de gente excêntrica, pessoas que caíram nas trilhas solitárias e meio-loucas da vida desistiram de tentar ser normais ou decentes. A pobreza liberta-as dos padrões habituais de comportamento, assim como o dinheiro liberta os homens do trabalho.”**.

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Postagens relacionadas:

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* Que, em alguma edições, tem como subtítulo “Diário de uma favelada”. 
** Primeiro capítulo do Na pior, em Paris e em Londres

20 agosto, 2015

Abacateiro

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Eu: Olha, uma árvore frutífera! Adoro encontrá-las pela rua
Amiga: No meu trabalho tem um abacateiro. 
Eu: Que legal. Em uma das escolas em que eu leciono, também tem um. 
Amiga: O abacateiro só atrapalha um pouco porque, na época em que os abacates caem, isolam a área para ninguém se machucar. 
Eu: Na escola em que eu leciono, na época em que os abacates caem, os abacates caem... 

30 julho, 2015

Ausência de faixas: entre o desrespeito e o cuidado

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As faixas de pedestre esquecidas - Argentina (Bariloche)
As faixas de pedestre esquecidas - Argentina (Bariloche)

___Viajei recentemente para uma cidade argentina que, praticamente, não tinha faixa de pedestres. Para falar a verdade, de quando em vez, em algumas ruas era possível perceber uma faixa, no canto, quase toda apagadinha, relegada a um quase esquecimento.

As faixas de pedestre esquecidas - Argentina (Bariloche)

___Inicialmente, considerei o fato um desrespeito atroz. Como pode uma cidade ter tão pouco cuidado com os pedestres que nenhum lugar é feito para as pessoas atravessarem as ruas? Esqueceram os pedestres deste lugar? Que desrespeito. Maldito mundo carrocrata!
___Só que minha estada na cidade foi se alongando, fui conhecendo as pessoas e seus costumes e, então, comecei a ver alguns pontos extras. 
___Para começar, a velocidade marcada pelas placas parecia realmente respeitada. Não era como São Paulo – em que uma placa marca que aquela rua residencial deve ter uma velocidade de 30 km/h e os carros andam a 60 km/h. Os carros realmente pareciam não correr pela cidade. Além disso, seja por cuidado, por costume ou por dó, os motoristas diminuíam ou paravam quando as pessoas começavam a atravessar.*

As faixas de pedestre esquecidas - Argentina (Bariloche)

___Claro que esperar que o bom senso dos cidadãos resolva todas as questões (ainda mais no trânsito), não é o melhor caminho. Porém, não deixou de ser interessante perceber que, quando o desrespeito estatal foi muito grande, as próprias pessoas acrescentaram um pouco mais de cuidado.

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P.S.: É óbvio que este texto não se trata de um estudo científico sobre a reação dos motoristas em determinado lugar do mundo. Apenas dividi com os leitores deste blog um pouco da minha observação como pedestre em um local um tanto diferente da minha cidade. 
P.P.S.: Vale lembrar: o artigo 69 do Código de Trânsito Brasileiro garante aos pedestres o direito de atravessar uma via que não tenha nenhuma faixa.** Os motoristas é que tem a obrigação de parar e zelar pelos pedestres. Pena que é mais fácil um fusca falar do que encontrar algum motorista que conheça (e respeite) essa lei.  

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* Outra diferença se compararmos com Sampa, vale dizer. Por aqui, infelizmente, não é incomum que os motoristas deem uma acelerada ou uma roncada mais forte no motor para “ultrapassar” os pedestres ou vê-los terminar mais rapidamente de atravessar a rua –, mesmo na faixa. 
** Ou que a passagem ou faixa de pedestres esteja a uma distância superior a 50 metros.

14 junho, 2015

Não coma anima

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___Entro no vagão do metrô lendo, desatento ao que se passa à minha volta. Paro de ler e procuro um lugar. Encontro, no canto do vagão, ao lado de um rapaz magro, branquelo, cabelo raspado. Assim que me sento, em um movimento rápido, ele recolhe a mão para junto do corpo. Pelo visto, o rapaz estava rabiscando uma das paredes do vagão. Até aquele ponto, ele havia escrito “Não coma anima”. 
___Depois de alguns segundos, peguei meu livro e voltei a ler. Encorajado pela minha falta de foco nele, o rapaz continuou a rabiscar a parede do vagão com uma chave. Acrescentou o “is” à palavra “animais” e se recostou, relaxado. 
___Como sou um problemático maluco, falei:
___– Aproveite e escreva também: “Não deprede o transporte público.”.
___– Ah, vai tomar no seu cu! Todo mundo faz isso. 
___– É... –, respondi. – E “todo mundo” come animais. 

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P.S.: Antes que apareça por aqui algum ataque desmedido, recomendo a leitura da minha série “Muros, ironia e espaço público”: parte I, parte II e parte III

07 junho, 2015

Propaganda que funciona

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___O objetivo de uma propaganda é convencer as pessoas a comprar determinado produto. As propagandas de dia dos namorados, entretanto, não costumam funcionar comigo. Mesmo se forem muito convincentes, fofas e com o público inteiro fazendo ooooooohhhhuuumm
___Já faz dez anos que eu e minha esposa estamos juntos e, pela graça da boa Clio, nós nunca ligamos muito para datas. Não jantamos em restaurantes chiques no dia dos namorados, não trocamos presentes no natal, nem nada do tipo. Sendo assim, as propagandas açucaradas apenas me entretêm, nunca me convencem a comprar. 
___Neste ano, o Boticário fez uma propaganda saindo um pouco dos padrões: não mostraram apenas casais heterossexuais.* Confiram.


___Mesmo sendo bacana a iniciativa, a propaganda não foi o bastante para que eu, que nunca compro nada no dia dos namorados, ficasse minimamente tentado a comprar um perfume do Boticário. Então, veio a segunda parte. 
___Como era de se esperar, os grupos mais reacionários começaram a zurrar contra a propaganda. Mais ainda, o pastor Silas Malafaia veio a público pedir para que outros preconceituosos, outros que pensam como ele, boicotem a marca. Tá aqui um link para o vídeo, caso alguém queira ver. 
___Eu sei que foi uma propaganda negativa, sei que, infelizmente, ele vai convencer muita gente a boicotar o Boticário e, também, sei que o número de pessoas que seguem o Malafaia é grande. Porém, para mim, a propaganda negativa foi positiva. Até deu vontade de comprar alguma coisa do Boticário. 

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P.S.: Para quem viu o vídeo do Malafaia e quer ver algum outro para desanuviar, recomendo este vídeo do Estêvão Slow.

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* Quando eu digo “saindo um pouco dos padrões”, não se trata de uma força de expressão. Por mais bacana que seja fazer uma propaganda mostrando casais homossexuais, queira ou não é uma propaganda de dia dos namorados só com abraços, sem nenhum beijo. Sem contar que outros tipos de namoros (como os poliamorosos), como sempre, são ignorados. 

28 maio, 2015

A incrível congregação de vapores

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___Existe muita porcaria na internet. E, mais do que porcaria, existe muita gente reclamando que existe muita porcaria. Por isso mesmo, é fantástico apontar quantas coisas legais e bacanas vão surgindo pela internet a fora. No ano passado, no mundo dos blogs, foi iniciado, pela maravilhosa Camila Pavanelli, o importantíssimo Boletim da Falta d'Água em SP; entre os vídeos, eu descobri o ótimo Nerdologia, do  Atila Iamarino;  e, nos podcasts, em maio do ano passado, foi lançado o Promontório Estéril, feito pelo simpático Fabricio Soares. E é exatamente do Promontório que eu resolvi falar hoje. 
___Para anunciar o aniversário de um ano de vida do podcast, o Fabricio fez um episódio especial contando curiosidades sobre aniversários. Esse é um dos pontos mais bacanas do Promontório Estéril: mesmo sendo um podcast de biografias, quase qualquer tema tratado é cheio de curiosidades (ou dito de forma bem interessante, com boa trilha sonora e ótimos efeitos de sonoplastia). 
___No episódio de aniversário, aos 6’33”, Fabricio fala sobre o brigadeiro e conta que o doce “ganhou esse nome graças ao brigadeiro Eduardo Gomes, político que disputou a presidência, em 1945. As eleitoras e fãs criaram o doce, que foi nomeado com sua patente, para ganhar votos.”. Adoro essa curiosidade e sempre divirto meus alunos com ela. Em sala, conto, também, sobre o slogan que usaram durante a campanha de Eduardo Gomes: com o objetivo de arrecadar os votos femininos (já que aquela seria a primeira eleição presidencial com mulheres votando) se dizia “Vote no brigadeiro que, além de bonito, é solteiro.”.*
___Deixando minhas tergiversações de lado, escrevo esta postagem para indicar o podcast – que é uma das maravilhas produzidas pela internet hoje. E, claro, para parabenizar o Fabricio Soares e desejar que o Promontório Estéril dure por muitos outros anos. 

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* Não deixa de ser digno de nota o tratamento bizarro destinado às eleitoras. 

14 maio, 2015

Irrequieta

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Pintor: Moça, por favor, fique quieta.
Modelo: Desculpa...
Pintor: Tá aí. De novo. 
Modelo: Mas, eu não me mexi. 
Pintor: Você riu. 
Modelo: Desculpa. É que eu acho o senhor engraçado. 
Pintor: Não fiz graça nenhuma.
Modelo: A sua barba. Ela é engraçada. 
Pintor: Esqueça minha barba! Tente olhar para outra coisa. Nem olhe para mim.
Modelo: Tá bom. 
Pintor: Olhaí... Olha o que você fez! Errei o fundo. 
Modelo: A culpa não é minha. Eu não controlo o cenário.
Pintor: É culpa sua, sim. Você fica me desconcentrando. Cada vez que eu olho para você seu rosto está diferente. Tô corrigindo tanto que o quadro vai acabar borrado. 
Modelo: Ninguém vai ver muito esse quadro mesmo...
Pintor: Então fique quieta que eu termino rápido. 
Modelo: Sei, sei... 
Pintor: E pare de rir que eu não consigo acertar a sua boca. 

Mona Lisa (A Gioconda), de Leonardo da Vinci (1503-06)


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