30 novembro, 2016

Questão de História: 2º Reinado, proclamação da República. Meu Monarca Favorito.

___Em vida de professor, final de ano é sempre uma correria de terminar matérias, corrigir provas, participar de reuniões, resolver vestibulares, ouvir alunos chorando e sofrer ameaças. Entre as atividades, está a de formular questões para provas e simulados. Claro, sempre é possível selecionar questões que existem por aí, mas, sendo possível, gosto de criar as minhas. 
___Como auxílio para a criação, a internet sempre ajuda muito, fornecendo livros, arrumando figuras, permit [Olha, um vídeo de gatinho....................... Opa... hora de voltar a trabalhar.]. Entre as ondas da internet, encontrei um blog com tirinhas sobre dom Pedro II, chamado Meu Monarca Favorito. As tirinhas são fofas, com um apreço doce, quase ingênuo sobre a monarquia brasileira, e que me permitiu algumas boas questões. Vai um exemplo. 

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___Meu Monarca Favorito, tirinha do cartunista Tiburcio.
Meu Monarca Favorito, por Tiburcio.
___É possível afirmar que a proclamação da república brasileira, em 15 de novembro de 1889, não foi uma revolução, pois
a) não aconteceu uma luta armada.
b) não teve as ideias da Revolução Francesa como base. 
c) com exceção da esfera política, quase nada mudou na sociedade brasileira. 
d) ela foi proclamada pelo filho do rei de Portugal.
e) mesmo com as ideias de liberdade e igualdade, manteve a escravidão.

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___Caso seja necessária uma explicação, vamos à resolução. 
___Uma revolução é uma transformação, uma reforma, uma grande mudança. Como é possível perceber pela tirinha (e conhecendo um tanto da história da república brasileira), a mudança da República não foi exatamente uma mudança tão grande assim. Portanto, a melhor resposta, a que combina com os fatos históricos e com a tirinha, seria a letra “C”, que “É possível afirmar que a proclamação da república, em 15 de novembro de 1889, não foi uma revolução, pois, com exceção da esfera política, quase nada mudou na sociedade brasileira.”. 
___Caso alguém precise de mais algum comentário sobre a questão, é só escrever nos comentários.

30 outubro, 2016

Dona Aranha

___Meu sobrinho, com 2 anos e tanto, adora a música da "Dona Aranha":


A Dona Aranha subiu pela parede...
Veio a chuva forte e a derrubou.

___Brincando um pouco com o meu cabelo, minha esposa desenhou uma teia de aranha.

Teia de aranha - corte de cabelo

___Fui todo contente mostrar o corte para o meu sobrinho. Ele olhou, olhou e quis saber: "Cadê aranha?". 
___Não tem aranha e eu não tenho cabelo o bastante para prender uma. Talvez tenha vindo "a chuva forte e a derrubou.". 

30 setembro, 2016

Convivendo na Cidade

___Ao escrever “O bonde passa cheio de pernas: / pernas brancas pretas amarelas. / Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração. / Porém meus olhos / não perguntam nada.”, Carlos Drummond de Andrade expressou o assombro de se olhar o caos de uma cidade grande. Muitas pessoas –, muitas pernas – e pouco contato humano. 
___Essa visão um tanto melancólica da vida em cidade não é incomum. Algo bastante compreensível: é fácil sentir-se só em meio a uma multidão, ser empurrado e ignorado em um bonde ônibus lotado. Em outras palavras, é fácil olhar para a vida urbana de maneira triste, “comovido como o diabo.”. 

Tira de Rafael Sica

___Por isso mesmo, foi maravilhoso assistir o espetáculo Mapas Urbanos, da Caleidos Cia. de Dança, dirigido por  Isabel Marques e codirigido por Fábio Brazil. Um lindo trabalho de dança e comunhão com o público, que tem como foco a vida na cidade. 

Mapas Urbanos

___Dividido em 5 cenas bem distintas, o público se vê, o tempo todo, interpretando a mensagem passada pelos dançarinos e participando. Com o passar da peça, cada vez mais clara vai ficando a ideia de boa convivência no ambiente urbano, seja permitindo que uma faixa de pedestres seja um lugar seguro (e, portanto, gostoso para brincadeiras), seja dividindo guarda-chuvas (sempre em menor número do que as pessoas) ou participando de uma manifestação (sem violência policial). 

Mapas Urbanos

___A mensagem de convivência harmônica que a peça passa e a própria participação cada vez mais natural do público faz tudo parecer doce. Chega a ser difícil sair da peça sem pensar no quanto é importante dividir o espaço urbano. Não foi à toa que, na saída do espetáculo, eu consegui arrumar uma carona simplesmente pedindo entre as pessoas da plateia. Mesmo sem lua e sem conhaque. Poesia pura. 

Tira de Liniers

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P.S.: Então, depois de escrever um texto elogiando o Mapas Urbanos, faço um post scriptum anticlimático: eu fui ver o espetáculo na última semana em cartaz. Por enquanto, não dá para assistir.
P.P.S.: Por outro lado, a Caleidos Cia. de Dança, neste ano, está revisitando seu repertório (exatamente o caso do Mapas Urbanos, que é de 2011). Em outubro, eles vão apresentar Mairto, de 2015. Em novembro e dezembro, dois espetáculos inéditos. Informem-se pelo site

31 agosto, 2016

Patriotismo... e sangue

___Em meio a uma competição das olimpíadas, aparece um argentino competindo. As pessoas, em frente à televisão, fazem comentários do tipo:
___– O brasileiro pode até perder, mas é bom que fique na frente desse argentino. 
___– É bom que todo mundo fique na frente do argentino. 
___Uma das pessoas levanta a voz e diz:
___– Parem de falar isso! Eu tenho sangue argentino!
___– Sério?
___– Claro. No meu para-choques. Atropelei um hoje de manhã. 
___Todos caem na gargalhada. 

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___Desde que o meu sobrinho nasceu, a minha irmã tem a mania (que eu adoro) de compartilhar com a família as coisas fofas que ele faz. Recentemente, por conta das olimpíadas, minha irmã compartilhou um vídeo com o meu sobrinho, em pé, com a mão no peito, enquanto o hino nacional tocava na televisão. Todo mundo achou a coisa mais fofa do universo e, efusivamente, elogiaram a professora da creche: “Tá ensinando direitinho!”. Sinceramente, achei horrível.  
___É correto ensinar um menininho de dois anos e meio a “portar-se corretamente” durante o hino? A honrar a pátria? A amar o seu país? A pobre criança não é capaz de discernir perfeitamente o que é certo e o que é errado e, nesse estágio do desenvolvimento, já sofre essa imensa lavagem cerebral. Não consigo achar bonito. Acho medonho. 
___Mais ainda, como minha irmã (e o restante da minha família) pode achar correto ensinar – em uma fase em que a criança não questiona nada – todo esse amor à pátria? Não passa pela cabeça deles que crescer nacionalista pode significar, no futuro, lutar e morrer em uma guerra? 
___Mesmo sem apelar para um exemplo tão sangrento, é exatamente essa forma irrefletida de patriotismo que leva as pessoas a rejeitarem os argentinos. Ou algum bobo que xinga as pessoas da Argentina sabem explicar o motivo da rixa? 
___Ainda é cedo, mas não tenham dúvidas que, assim que for possível, vou conversar tudo isso com o meu sobrinho. E, se ele quiser escolher ser patriota, que seja. Desde que ele escolha, não os outros. 

29 julho, 2016

Uma dama talentosa e o presidente

___Em março, em meio à visita do presidente Barack Obama à Argentina, a dançarina Mora Godoy o convidou para dançar.* A dança, como qualquer atitude fora do protocolo de Obama, chamou uma enorme atenção da imprensa. Caso alguém não tenha visto, segue o vídeo


___Exatamente porque sou dançarino, inúmeros conhecidos meus me mandaram links do vídeo com a seguinte fala: “Nossa! Olha o Obama!!! Além de ser presidente dos Estados Unidos, ele ainda sabe dançar bem!!!!!!!!!!”. Normalmente as mensagens vinham com mais pontos de exclamação, mas o conteúdo era mais ou menos esse aí. 
___Eu, pessoalmente, achei o vídeo uma graça. Todos os participantes principais foram fofos. Só que, principalmente para quem não entende de dança, eu tenho de dizer: o Obama não dançou bem. 
___Claro, para um leigo, para alguém que nunca dançou tango, a dança do Obama com a Mora Godoy foi bem legal, entretanto não foi uma boa dança. Mesmo que pareça que foi ótima para quem não entende do assunto. 

Detalhe de uma das cenas de tango do filme True Lies

___A dança não foi boa porque o Obama, que devia ter o tango do True Lies como referência,** fez um movimento ao caminhar desconfortável para a pobre dama: caminhou “ao contrário”, deixando o braço da dama em uma posição levemente incomoda (38”). Além disso, quando Mora se aprumou em sua pose final, o Obama, sem querer, tirou seu equilíbrio (1’03”). 
___Eu sei que a Mora Godoy disse que o presidente americano dançou bem, que depois de algum tempo ela começou a segui-lo. Se eu estivesse no lugar dela teria dito o mesmo, mas seria apenas uma gentileza, não a verdade. Afirmo isso porque é possível perceber, aos 43 segundos do vídeo, Obama tentando parar e Mora acrescentando alguns passos chamativos para encorpar a dança.
___Por fim, vale repetir: escrevi essas desritmadas linhas só para mostrar alguns pontos curiosos para quem não conhece dança de salão. Claro, não estou aqui querendo atacar o Obama nem nada do tipo. Foi bacana e corajoso da parte dele, sabendo que o mundo todo estaria olhando, aceitar dançar. Mais bacana ainda foi ver a Mora Godoy ajudando ele a fazer bonito para a maior parte das pessoas que viram a cena.  

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* E seu parceiro, José Lugones, convidou a Michelle Obama.
** Talvez, em alguma reunião política, ele tenha até tomado aulas de tango com algum governador.  

05 julho, 2016

Índio com celular

Índio com celular

___Todo dia, ao acordar (e para acordar), eu tomo um banho. Sinto que começo o dia muito mais relaxado, saio de casa me sentindo bem. Não tomar banho de manhã é algo que realmente me incomoda. Por vezes, dependendo das minhas atividades diárias, tomo mais de um banho por dia.
___Minha esposa não costuma se maquilar. Porém, sempre que ela vai a um evento importante, não dispensa a pintura.
___Adoro comer mandioca, batata, milho, tapioca, açaí. Não acho que o meu bife ou o meu arroz com feijão ficam completos sem uma farofa por cima. Passei a minha infância adorando tomar guaraná.
___Trabalho como professor. Acho importantíssimo que as pessoas mais velhas passem seus conhecimentos para as mais novas. Acho, inclusive, uma obrigação social. Diga-se de passagem, sentar e contar histórias está entre as melhores coisas da vida.
___Também sou professor de dança. Sei o quanto é difícil ensinar alguém a dançar sem uma percussão bem marcada. E também sei como as danças funcionam bem melhor com muita gente dançando.
___Nos meus dias de folga, se a temperatura permite, passo o dia descalço. Meu cunhado, por sua vez, passa o tempo que pode sem camisa.
___Adoro ler e leio de tudo. Leio em praticamente qualquer lugar: de pé, deitado, andando, na biblioteca, no ônibus, na fila do banco. De longe, o meu lugar preferido para ficar lendo por horas é a minha rede.
___Eu, descendente de europeus, não vivo como as pessoas do “Velho Continente” viviam no século XV. Meus ancestrais adquiriram diversos costumes nesses últimos séculos, muitos desses costumes de gente que morava aqui no “Novo Mundo”. Costumes, vale dizer, que eu gosto. Agora, diga-me: eu tenho o direito de criticar um indígena por usar camiseta, celular ou por estudar Engenharia? 

02 julho, 2016

A neutralidade do galinheiro

Todo ovo
Que eu choco
Me toco
De novo.
Todo ovo
É a cara,
É a clara
Do vovô.
.
Mas fiquei
Bloqueada.
E agora,
De noite,
Só sonho
Gemada.

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___Dia desses, um professor de Sociologia amigo meu estava tirando sarro do fato de que o dono da instituição de ensino em que ele trabalha reclamou que a aula de Sociologia tinha um viés ideológico. Acredito que vale acrescentar a seguinte estória:
___Era uma vez uma escola que tinha meia dúzia de aulas de Matemática, umas quatro de Física, outras quatro de Química... Essa escola tinha só duas aulas de História; de Sociologia, uma. Mesmo assim, é bom ressaltar: essa escolha do número de aulas para cada matéria era apenas uma coincidência, não havia nada de ideológico nisso. Também não havia nenhuma escolha ideológica em colocar mais de quarenta alunos em cada sala de aula. E, então, todos os empresários viveram felizes para sempre.

Granja - Produção industrial

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A escassa produção
Alarma o patrão.
As galinhas sérias
Jamais tiram férias.
“Estás velha, te perdoo.
Tu ficas na granja
Em forma de canja.”.

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___Sabe aquela frequente pergunta de estudante? 
___– Para que que eu tenho de aprender isso?
___Dependendo da disciplina e de como ela é ensinada, é possível responder: 
___– Pode ser para que você seja um competente e comportado funcionário da empresa em que você for trabalhar. 
___Outras disciplinas (e a forma de ensiná-las) podem fazer com que esses estudantes aprendam a questionar o chefe, pedir melhores condições de trabalho, não aceitar abusos... Essas coisas mais humanas. Podem ensinar que esses estudantes não precisam de chefes, mas, se quiserem ter patrões, que podem ser funcionários extremamente competentes – mesmo sendo menos “comportados”. 

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Ah!!! É esse o meu troco
Por anos de choco???
Dei-lhe uma bicada
E fugi, chocada.
.
Quero cantar
Na ronda,
Na crista
Da onda.

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___Sempre fico chocado com comentários como o do patrão do professor de Sociologia. É impressionante que existam donos de escola que acreditam mesmo em imparcialidade. Será que donos de jornais e revistas também são caras-de-pau ingênuos assim? 

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Pois um bico a mais
Só faz mais feliz
A grande gaiola
Do meu país.

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P.S.: Caso alguma pobre alma não conheça o poeminha citado durante o texto, é de autoria do fantástico Chico Buarque (adaptando o texto de Sérgio Bardotti). Fica o link para uma ótima versão

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