24 de março de 2020

Dever de crítica

___Em 2017, descobri que Laura, minha aluna à época, é filha do cartunista Cláudio de Oliveira (que, atualmente, trabalha no Agora). Achei a informação interessante e, sem falar mais nada, comecei a acompanhar o trabalho do Cláudio. 
___Alguns meses depois, em uma prova de História que a sala da Laura iria fazer, coloquei a seguinte questão:

___Depois que Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito presidente, em 2002, o cartunista Cláudio de Oliveira publicou a seguinte charge no Pasquim 21:

___Agora, em 2017, Cláudio afirma que o mesmo valeu para Dilma e vale para Temer, “Penso que o chargista não tem o direito de crítica, mas o dever de crítica. Esse é o seu trabalho.” (http://chargistaclaudio.zip.net/arch2017-01-08_2017-01-14.html#2017_01-09_11_57_05-2424842-0).*
___Em 1831, um dos mais ferrenhos críticos do imperador d. Pedro I foi o jornalista Líbero Badaró. Muitos à época acreditaram que essas críticas que fizeram Badaró ser assassinado e culparam o autoritarismo do imperador. Também foi utilizado à época para apontar o autoritarismo de Pedro I
a) a existência do Poder Executivo, que dava plenos poderes ao imperador.
b) o direito ao voto, expresso na constituição de 1824.
c) a fuga da família real lusitana para o Brasil.
d) o fato de que ele outorgou a constituição de 1824.
e) o golpe da maioridade, com o qual Pedro se tornou imperador com apenas 14 anos.**
 

___A lembrança dessa história é completamente doce para mim porque, ao terminar a prova, a Laura, sem falar mais nada, veio me dar um abraço. 
___Lembro disso agora porque me impressiona muito os constantes escândalos do presidente Jair Bolsonaro contra a imprensa que o critica. Está aqui um vídeo com um dos exemplos mais marcantes, mas dá para achar o maluco ladrando contra a imprensa que o critica quase que diariamente. Para se ter uma ideia, é mais fácil achar o Bolsonaro batendo na imprensa do que miliciano na vizinhança do condomínio em que ele mora. 
___Não estou dizendo que um jornalista ou um cartunista não possam falar sobre coisas bacanas, inclusive do governo. No entanto, vale lembrar, quem só elogia o governo, está mais para marqueteiro do que qualquer outra coisa. Creio que fica fácil saber que tipo de imprensa o Bolsonaro deseja. Ou melhor, que tipo ele tenta impor. 

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* O link foi colocado exatamente assim na prova. Infelizmente, o endereço não existe mais. O Cláudio ainda publica boa parte do seu trabalho online. Parte pode ser encontrada neste link e seus livros podem ser comprados pela Amazon
** Caso seja necessário para alguém, a resposta é a letra D: dom Pedro I foi criticado como um governante autoritário por outorgar a Constituição de 1824. 

29 de fevereiro de 2020

Agredindo na empolgação

___Mesmo vivendo em uma realidade completamente opressiva, as pessoas da sociedade de 1984, o romance distópico de George Orwell, tinham um momento bem específico para extravasar: os “Dois Minutos de Ódio”. Colocadas todas juntas e sendo expostas àquilo que eram ensinadas a odiar, elas literalmente entravam em uma catarse coletiva. 

___No segundo minuto o ódio chegou ao frenesi. Os presentes pulavam nas cadeiras, e berravam a plenos pulmões, esforçando-se para abafar a voz que saía da tela. A mulherzinha do cabelo de areia ficara toda rosa, e abria e fechava a boca como peixe jogado à terra. Até o rosto másculo de O’Brien estava corado. Estava sentado muito teso na sua cadeira, o peito largo se alteando e agitando como se resistisse ao embate duma onda. A morena atrás de Winston pusera-se a berrar ‘Porco! Porco! Porco!’. De repente, apanhou um pesado dicionário de Novilíngua e atirou-o à tela.

___Quando vejo um grupo de pessoas vociferando de maneira semi-irracional, atacando alguém quase que por puro comportamento de grupo, costumo me lembrar desse trecho. A última vez aconteceu quando a Cris Bartis e Juliana Wallauer, as doces moças que apresentam o podcast Mamilos, lançaram o episódio de “Finanças pessoais”. Algum problema aconteceu entre elas e a Nath, uma das convidadas, e, por conta disso, um número enorme de pessoas começou a atacá-las virtualmente. Não dá para saber direito o que aconteceu porque, no fim das contas, elas deletaram o episódio. Querendo ouvi-lo, comecei a procurar pela internet. Tudo que encontrei foram pessoas sendo extremamente violentas com as duas. 
___Antes desse dia, eu só havia ouvido manifestações positivas em relação ao Mamilos. Não teve como não associar a reação das diversas pessoas que estavam xingando com os Dois Minutos de Ódio, do Orwell. No entanto, o que me espantou mesmo, foi ver pessoas que eu também considerava doces batendo na Ju e na Cris. Só para citar um exemplo, fiquei boquiaberto ao ver o Gustavo Gitti aproveitando o momento para descer a lenha


___Para falar a verdade, não sei porque fiquei espantado. Se eu associei a reação das pessoas ao trecho do 1984, eu deveria ter lembrado que, poucas linhas depois, Orwell descreve a personagem principal do romance, o cético Winston, entrando na catarse coletiva: 

Num momento de lucidez, Winston percebeu que ele também estava gritando com os outros e batendo os calcanhares violentamente contra a trave da cadeira. O horrível dos Dois Minutos de Ódio era que, embora ninguém fosse obrigado a participar, era impossível deixar de se reunir aos outros. Em trinta segundos deixava de ser preciso fingir. Parecia percorrer todo o grupo, como uma corrente elétrica, um horrível êxtase de medo e vingança, um desejo de matar, de torturar, de amassar rostos com um malho, transformando o indivíduo, contra a sua vontade, num lunático a uivar e fazer caretas.

___Com isso eu estou dizendo que o Gitti está errado em criticar a Ju e a Cris? Não. As críticas dele podem até ser válidas, mas escolher a hora em que as pessoas estão apanhando para bater não é exatamente a atitude mais admirável do mundo. Atacar qualquer erro que alguém cometeu em um momento em que a pessoa já está sendo criticada por algo completamente diferente parece a fúria que as pessoas, no fim das contas, sentiam nos Dois Minutos de Ódio: “a fúria que se sentia era uma emoção abstrata, não dirigida, que podia passar de um alvo a outro como a chama dum maçarico.”*.

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P.S.: “E a sua atitude em bater publicamente no Gitti? Acha certo, seu monstro?”. Para começar, só usei ele como o exemplo de alguém que me espantou por estar atacando. Se fosse o Carlos Cardoso ou o Eli Vieira batendo em alguém, eu só diria “Ah, terça-feira.”. Em segundo lugar, que eu saiba, ninguém está batendo no Gitti. Parece um momento em que ele não está frágil, nem na defensiva e pode refletir sobre o assunto. Ou pode só me mandar à merda. 
P.P.S.: “Você está escrevendo esse texto só para apoiar suas amigas do Mamilos!”. Usei o caso só como um exemplo. Troque a situação e as personagens e o exemplo continuará válido, seja na Oceania, no Brasil, na internet ou no seu trabalho. Além disso, não conheço as moças do Mamilos. Elas nem sabem quem eu sou na fila do pão, muito menos que a padaria perto da minha casa fechou. 
P.P.P.S.: O texto, como de costume, é só uma reflexão. Não pretendo atacar ninguém. Todas as pessoas citadas, sem exceção, eu admiro de alguma forma. Mas, nem por isso, acho que alguma delas é perfeita. 

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* Todas as citações do 1984 foram retiradas do capítulo 1.

29 de janeiro de 2020

Corrente do bem: ajudando cachorros com dificuldade para ficar em pé

___É muito fácil ver as coisas de maneira maniqueísta, como se existisse apenas o Bem e o Mal. A realidade, no entanto, acaba tendo muito mais tons de verde do que essa divisão própria de um filme antigo da Disney. É fácil pensar, por exemplo, que empresas pensam apenas no lucro. No entanto, na academia de dança em que trabalho, vi, há alguns anos, um chefe meu recusar um grupo de clientes por apresentarem atitudes abertamente racistas na organização de um baile.



___Cleópatra VII foi minha cachorra até o ano passado. No final da vida, ela começou a ter cada vez mais dificuldade para andar. Minha esposa e eu tentamos os mais diversos modos de ajudá-la, mas, no fim das contas, foi necessário colocar um peitoral nela que nos permitisse levantá-la utilizando – muita – força. Apesar da dor nas costas, dos calos nas mãos e dos constantes ataques à minha autoestima de homem forte, a Cleópatra conseguia ainda passear (muito lentamente) todos os dias. Esses passeios melhoraram muito graças à coleira da Cuscoloko que nós compramos.




___Esta pode parecer uma postagem patrocinada, mas nada está mais longe disso. Em primeiro lugar porque são tão poucas as pessoas que me leem atualmente, que seria melhor alguém gastar o dinheiro do patrocínio em jujubas do que comprando um texto meu aqui. Em segundo lugar, escrevo estas linhas por ter gostado do produto e porque a empresa foi linda de tantas formas que achei que eles mereciam uma propaganda grátis. Ou, pensando bem, talvez fosse melhor eu mandar jujubas para eles. 
___Como não estou planejando mandar jujubas, começo elogiando a Cuscoloko porque o peitoral com suporte para levantar cachorros com dificuldade locomotora  (Total Up) realmente facilitou os meus passeios. Minhas mãos passaram a doer menos (graças a alça acolchoada) e minha autoimagem de homem forte vive hoje um pouco menos para baixo. A Cleópatra VII passou a ser erguida com mais facilidade e, após ficar em pé, era mais fácil mantê-la andando. A única dificuldade foi que, como se tornou mais perceptivo que eu estava andando com uma cachorra com necessidades especiais por conta do peitoral, mais pessoas me paravam para perguntar o que a Cleópatra tinha (“É, principalmente, velhice...”), o que aumentava um bom tanto o tempo dos passeios. 
___Como extra, achei o peitoral realmente bonito. Após comprá-lo, a Cuscoloko me enviou um e-mail falando sobre os diversos artistas brasileiros que eles contrataram para ilustrar os modelos de coleiras. Contrataram os artistas, remuneraram e os divulgaram. Linda atitude. Aposto que até o Di Vasca iria curtir.  


___Mais lindo ainda foi que, quando a coleira que compramos chegou, ela não ficou de um tamanho bom para a Cleópatra VII. Tá, isso não parece muito legal. Mandamos um e-mail para a empresa e eles prontamente enviaram outra de tamanho maior (que ficou ótima) e falaram para aguardar os dados para devolver o peitoral que havia ficado pequeno.
___Aí vem outra parte linda e doce. Os Correios não conseguiram fazer a parte deles direito e não foi possível reenviar a coleira. OK, essa parte foi feia e azeda. Só que as pessoas da Cuscoloko sugeriram, então, que nós doássemos o peitoral para algum cachorro que estivesse precisando (e ofereceram até ajuda, caso não encontrássemos algum). Encontramos o Bobby, doamos, e ficou tudo muito melhor para ele, até o final da vida. 


___Como eles haviam começado uma corrente para que ajudássemos outras pessoas, depois que a Cleópatra VII morreu, também doamos a coleira dela. Não deu certo para uma golden. Mesmo assim, a dona dela gostou do material extremamente resistente e disse que iria comprar uma maior. Nós, pessoalmente, ficamos felizes de ajudar com uma nova venda. 
___Continuamos a procurar e, atualmente, a ex-coleira da ex-Cleópatra VII está ajudando o Gohan. 


___Claro que as pessoas da Cuscoloko querem lucrar. Eles precisam pagar a conta da padaria. No entanto, é lindo ver que eles não colocam o dinheiro em primeiro lugar. Parecem, mesmo, colocar os seus clientes caninos. Fica este singelo textinho de apoio a atitude bacana. Caso a empresa não goste do texto, posso enviar jujubas.

25 de dezembro de 2019

Papai Noel?

___Henfil se foi em 1988 e muitas de suas tirinhas, infelizmente, continuam extremamente atuais. 



___Feliz natal...

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P.S.: Aproveitando o assunto feriado/desigualdade, vai aqui uma das minhas preferidas, do Angeli, sobre o Dia da Consciência Negra:


17 de novembro de 2019

Cada um no seu quadrado - vídeo e onomatopeia

___Sempre me incomodo quando estou ouvindo um podcast ou um programa de rádio e as pessoas que estão apresentando falham miseravelmente em tentar fazer os ouvintes entenderem uma cena ou uma imagem que apenas quem está gravando consegue ver. Da mesma forma, ao assistir um vídeo, acho sempre um tanto triste quando percebo uma tentativa completamente vã de tentar fazer quem está assistindo captar uma imagem literária complexa, algo que seria necessário uma leitura lenta, reflexiva, que normalmente não cabe em um vídeo. 
___Eu adoro escrever e queria falar da função poética da linguagem, mostrar um monte de efeitos literários onomatopaicos bacanas, mas sei muito bem que grande parte do que eu queria mostrar se perderia se eu apenas escrevesse aqui. Por isso mesmo, resolvi gravar um vídeo. Aproveitem. 


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Edição: M. Ulisses Adirt e Mms.
Músicas utilizadas: - "Greenery", Silent Partner.
- "Intimate tango", Doug Maxwell/Media Right Productions.