30 outubro, 2017

O Erro e o Erro em A Morte e a Morte de Quincas Berro Dágua

___Peguei A Morte e a Morte de Quincas Berro Dágua, de Jorge Amado, na biblioteca da escola pública em que eu trabalho. Quando sentei no metrô para ler, percebi que o título e o restante da obra chamava a personagem principal de Quincas Berro Dágua e não “D’Água” ou “d’Água”. Seria um erro da edição? Trata-se de uma edição de 2008, parte do Programa Nacional Biblioteca da Escola;* uma edição da Companhia das Letras. Mesmo não gostando de colocar as notas de rodapé no rodapé, a Cia das Letras é uma editora séria e costuma fazer livros caros de boa qualidade. 

Capa de A morte e a morte de Quincas Berro Dágua, de Jorge Amado.

___Cheguei em casa e, como sou maluco e ficava pensando no apóstrofo que faltava, fui procurar outras edições. Para minha surpresa, descobri que as editoras não tinham um consenso. Cada uma grafava como bem entendia. 

Capa de A morte e a morte de Quincas Berro Dágua, de Jorge Amado. Capa de A morte e a morte de Quincas Berro Dágua, de Jorge Amado. Capa de A morte e a morte de Quincas Berro Dágua, de Jorge Amado. Capa de A morte e a morte de Quincas Berro Dágua, de Jorge Amado. Capa de A morte e a morte de Quincas Berro Dágua, de Jorge Amado. Capa de A morte e a morte de Quincas Berro Dágua, de Jorge Amado.

___Continuei a ler o livro e cheguei à conclusão que “dágua” combinava mais com a personagem principal do que a mais culta “d’água”. Quincas Berro Dágua, mesmo tendo passado boa parte da vida vivendo com pessoas bem vistas pela sociedade, pessoas que escreveriam “d’água”, termina seus dias entre doces vagabundos, bêbados, prostitutas e afins, grupo que, se soubesse escrever, provavelmente escreveria “dágua”. Diga-se de passagem, foi exatamente vivendo entre o populacho que Joaquim Soares da Cunha acabou ganhando o apelido de Quincas Berro Dágua. 
___Entretanto, eu achar que “dágua” combina mais não significa nada. A opinião das editoras também não é importante. O que importa é como autor quis chamar a sua personagem. 
___Pois bem, aqui está o fac-símile das duas primeiras páginas,** provavelmente datilografadas pelo próprio Jorge Amado. 

Fac-símile das duas primeiras páginas de A morte e a morte de Quincas Berro Dágua
Clique para ampliar. 

___Percebam que, no original, antes de passar pela mão de qualquer editor, estava escrito “Quincas Berro Dágua”. 

Detalhe do fac-símile das duas primeiras páginas de A morte e a morte de Quincas Berro Dágua, grifos (em vermelho) meus.

___Muito provavelmente foi escolha do autor, não um erro de digitação. Digo isso não apenas porque o nome da personagem se repete em outros trechos do fac-símile e, sim, porque o texto datilografado está todo corrigido à caneta. Falo quase sem nenhuma dúvida que o “Dágua” foi consciente. 
___Quando as editoras resolveram escrever “d’água” corrigiram a obra e modificaram o que o autor havia escolhido. Podem ter acabado com uma brincadeira literária que serve mais ainda para descrever a personalidade de Quincas Berro Dágua. As editoras que “corrigiram”, privaram seus leitores de uma literatisse do Jorge Amado e pioraram um pouco a obra. Acharam que estavam arrumando um erro e erraram.

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* O PNBE, que está ligado ao FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação). 
** Presentes nas páginas 112 e 113 da edição da Cia das Letras.

27 setembro, 2017

Kahlando as pinturas de Frida

Quadro - Frida Kahlo

___Mais e mais eu vejo, por todo canto, pessoas mortas imagens de Frida Kahlo. 

Roupa - Frida Kahlo

___Não estou dizendo que encontro pinturas da mexicana pelo mundo, estou falando que vejo, a torto e a direito, um monte de imagens representando a cara dela. O rosto da pobre Frida se tornou um item altamente comercializável. 

Bolsa - Frida Kahlo

___Mesmo que, por um lado, eu me divirta vendo algumas brincadeiras pops sobre um artista, também me parece um pouco triste o fato de um pintor ter mais referências à própria cara do que às suas obras. O caso da Frida acaba sendo um pouco mais triste, já que mais de um terço de suas obras são exatamente autorretratos.

Las dos Fridas (1939), Frida Kahlo
Las dos Fridas (1939)

___Outro ponto que também me incomoda é o fato de que o sofrimento era um dos temas frequentes nos trabalhos de Frida. Entretanto, para tornar mais palatável para vendas, a Frida que aparece em produtos nunca demonstra sofrimento. E, pior, em alguns dos casos ela é, inclusive, embelezada – com a retirada do buço, por exemplo. 

Autorretrato con collar de espinas (1940), Frida Kahlo
Autorretrato con collar de espinas

___Um bom exemplo é o Autorretrato con collar de espinas, de 1940. Ela, literalmente, retratou-se com um colar de espinhos furando seu pescoço, sangrando e com um beija-flor morto como pingente. Nas imagens de camiseta “inspiradas” no quadro, não sobra nada da dor. 

Roupa - Frida Kahlo

___Já que a Frida era comunista de carteirinha, fica fácil de citar o Marx dizendo que “todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. (...) a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.”.

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P.S.: Caso não tenha ficado claro, acho que vale ressaltar no post-scriptum: o texto é simplesmente uma reflexão sobre utilizar imagens aleatórias com a cara da Frida Kahlo, ao invés das pinturas com autorretratos que ela mesma fazia. Não estou dizendo, de maneira alguma, que ninguém pode retratar a Frida como quiser ou usar camisetas com o rosto dela. Alguns artistas, inclusive, contam com trabalhos bem interessantes com a imagem da Frida: o fotógrafo (e seu ex-amante) Nickolas Muray e o ilustrador Fabian Ciraolo, com a já clássica Frida com a camiseta do Daft Punk. 

Frida Kahlo por Fabian Ciraolo

31 agosto, 2017

Civilizando selvagens pelo comércio

___Sempre que uma marca, empresa ou afim se mostra interessada em alguma causa social, costumo olhar com desconfiança. Marca de cosmético que defende que as pessoas devem ter aceitar sua beleza natural; mercados que lutam pela natureza (ou pela felicidade); refrigerantes que pregam uma vida mais saudável. Os exemplos bizarros são incontáveis. 
___Isso não significa que não seja importante lutar por essas causas. E, claro, é melhor a empresa se mostrar a favor desses pontos do que contra. Entretanto, não se deve esquecer que muito provavelmente o objetivo da marca com aquela campanha é simplesmente vender mais, não fazer um mundo melhor.
___É sempre interessante ver esse objetivo em outros momentos da história. Vejam essas Atas do Conselho Geral da Presidência, de 4 de novembro de 1829.

___A civilização dos selvagens que vagam nos sertões do nosso país é ao mesmo tempo recomendada pela religião, pela humanidade e pela política; e o mais profícuo meio de civilizar é criar neles necessidades, que não poderão satisfazer, senão no seio da sociedade. Promover comércio com eles, cujo objeto sejam coisas de fácil e reconhecida vantagem e cômodo para a vida, é criar essas necessidades, e ao mesmo tempo acostumá-los a olhar para nós como para amigos e benfeitores, outro meio assaz forte para os chamar ao grêmio da religião e da sociedade. O Conselho Geral desta província, movido por estas considerações propôs e aprovou a seguinte resolução, que espera que seja por v. m. imperial e constitucional [d. Pedro I] sancionada, e aprovada pela Assembleia Geral, vista a importância transcendente de sua matéria, e o pequeníssimo dispêndio exigido.

___Conselho Geral da província de São Paulo resolve:
___Artigo único.
___O governo fica autorizado a despender 100 mil-réis anuais em cada uma das vilas de Itapetininga, Faxina, Castro e Guarapuava, a fim de estabelecer algum gênero de comércio com os índios.
___Paço do Conselho Geral de São Paulo.
___São Paulo, 30 de dezembro de 1829.
[Assinam Manuel Joaquim Ornelas e Diogo Antônio Feijó.]*

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P.S.: Se alguém quiser refletir um pouco mais sobre o assunto, recomendo o episódio “Marketing de Causa”, do podcast Mamilos
P.P.S.: Vale linkar outro texto aqui do blog, de 2015
P.P.P.S.: Se alguém quiser se divertir com o assunto, recomendo também Obelix & Companhia, de Goscinny e Uderzo. 

Obelix & Cia

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* Retirado do livro Diogo Antônio Feijó, organizado por Jorge Caldeira (São Paulo: Editora 34, 1999, p. 237.).

31 julho, 2017

De onde você é?

___Viajei para um enorme congresso de dança na Suécia, com gente do mundo inteiro. Por conta disso, ao se dançar com uma pessoa nova, era bem comum perguntar: 
___– De onde você é?
___As respostas eram os mais variados países: França, Moçambique, Argentina, China, Finlândia, Alemanha, Chile... Só havia uma variação. Quando a pessoa era norte americana, a resposta era sempre o seu estado de origem: 
___– Sou da Carolina do Norte. 
___– Sou do Texas. 
___– Sou de Nova Iorque.  

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___Uma grande surpresa para mim foi saber que as mulheres da China dançam lindy hop muito bem. Depois de fazer amizade com uma delas, comentei isso:
___– Nossa, quase todas as moças da China com quem eu dancei são ótimas dançarinas. Nunca imaginei isso. 
___– E eu nunca imaginei que sabiam dançar swing no Brasil. 

30 junho, 2017

Culpado, até que se prove o contrário

___Eu estava escutando um podcast e tive de ouvir, literalmente, que “é complicado a justiça ficar tão cega, né? Realmente, como a estátua da justiça é cega com uma balança na mão e infelizmente não abre o olho pra ver que, com tantos depoimentos, ainda se quer provas.” (grifos meus). 
___Quando realmente não existem mais dúvidas, quando existe apenas a certeza de que alguém é culpado, é necessário que se punam os criminosos. No entanto, pergunto: o que faz com que não existam mais dúvidas? Segundo o que foi possível ouvir no podcast, não são as provas, mas, sim, muitos depoimentos. 
___Sendo assim, atesto: todas as religiões estão corretas. Sério, pode perguntar entre os fiéis mais devotos. Os milagres, mensagens divinas, incorporações, reencarnações e afins são todos verdadeiros. Por que não seriam? Existem inúmeros relatos dizendo que tudo isso aconteceu. Se deram muitos depoimentos dizendo algo, ainda se quer provas?  
___Outros depoimentos que acabam com qualquer dúvida é a vinda constante de extraterrestres para o nosso pálido planetinha azul. São facílimos de encontrar relatos de pessoas abduzidas, que conversaram com ETs, existem até algumas pessoas que juram terem tido filhos com extraterrestres. Por que diabos precisaríamos de alguma prova se já existem tantos depoimentos?

Grávida do ET

___Diga-se de passagem, eu também tenho certeza que a homeopatia funciona. E que se danem esses médicos babacas que querem fazer estudos para provar a sua eficácia. Além de inúmeros depoimentos, a minha própria sogra me disse que a homeopatia funciona. Ela já me relatou diversas curas. É óbvio que eu acredito na minha sogra, não é necessária mais nenhuma prova. 


___Quantos depoimentos são necessários para se formular uma Verdade? 
___Quantos relatos são necessários para se condenar alguém? 

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P.S.: Caso não tenha ficado claro, este texto não tem como objetivo defender nenhum político ou algo que o valha. Pretendi só lembrar que provas são necessárias. Ainda mais para se condenar uma pessoa. 
P.P.S.: Como extra, recomendo fortemente o filme The lost honour of Christopher Jefferies.

31 maio, 2017

Ontem

___Faz alguns anos, a Unicamp tem organizado um evento estudantil fabuloso: as Olimpíadas de História. Participei com meus alunos em todos os anos e eles se divertem, aprendem e trabalham bastante.*
___Refletindo sobre como o ensino de História tem sido atacado encarado com a atual reforma do ensino, uma das atividades da Olimpíada deste ano é que os estudantes entrevistem o próprio professor. Colo, abaixo, as perguntas e minhas respostas.

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POR QUE ESCOLHEU SER PROFESSOR DE HISTÓRIA?
___Sempre gostei de ler. Eu lia os livros que os professores mandavam de leitura obrigatória e, como meus amigos não liam, eu contava para eles o que acontecia na estória. Descobri que ensinar me agradava, mas ainda era algo muito incipiente. 
___Escolhi ser professor em meados do meu 2º ano do Ensino Médio. Comecei a perceber que, em breve, a escola iria acabar e eu adorava aquele ambiente de troca de conhecimento, de discussões, de aprendizado. Eu queria ficar e, então, percebi que ser professor seria um caminho natural para continuar naquele local. 
___Faltava, então, decidir o que ensinar. Eu gostava de História e de Literatura. Se eu me formasse em Letras, para ensinar Literatura, eu também teria de ensinar Gramática, algo que nunca me agradou. Por outro lado, se eu me formasse em História, eu poderia utilizar obras literárias em minhas aulas de História. Sendo assim, decidi ser professor de História.

O QUE VOCÊ MAIS GOSTA EM SUA PROFISSÃO?
___Adoraria responder: “O salário!”. Mas, não dá. Seria pelo menos uma consolação responder: “A valorização dada pela sociedade.”. Porém, também seria mentira (mesmo que a sociedade não admita isso). A pergunta não é sobre o que eu gostaria de responder, então vou parar de tergiversar. 
___Eu gosto de muitas coisas no meu trabalho de professor. Falar, discutir, debater, refletir sobre assuntos que aprecio. Tenho um monte de interlocutores para ouvir minhas ideias, ler livros que eu adoro, discordar de pontos de vista sobre os mais diversos temas. 
___Também é sempre maravilhoso perceber várias pessoas curiosas descobrindo coisas novas. Ver uma pessoa que tinha alguma dificuldade, superando-a. Saber que tudo o que está sendo ensinado será importantíssimo para a vida de todas as pessoas presentes na sala, mesmo que muitas não percebam isso. 

QUAL A IMPORTÂNCIA DO ENSINO DE HISTÓRIA DENTRO DA SOCIEDADE?
___Existem tantos pontos que tornam o ensino de História importante para a sociedade, que seria melhor colocar a pergunta no plural. Talvez algo como “Cite alguns exemplos da importância do ensino de História dentro da sociedade.”. 
___Não esquecer o que aconteceu no passado, serve como uma resposta resumida. Imagine que horror seria esquecermos tudo o que aprendemos, descobrimos, inventamos e fizemos. Tente conceber toda a humanidade sem saber nada sobre o seu passado, começando do zero todo dia. 
___O ensino de História pode servir para homenagear pessoas e acontecimentos. Da mesma forma, pode servir para criticá-las. Ensinar História é dar ferramentas para que estudantes possam comparar o Hoje com o Ontem. É assim que decisões podem ser bem tomadas, preconceitos combatidos, conceitos questionados, injustiças desfeitas.
___Por fim, o historiador francês Marc Bloch, no seu livro Apologia da História, não me deixa esquecer: estudar História é divertido. Porém, como eu já disse, o ensino de História serve para homenagear e, também, criticar. Sobre o tema, então, indico o maravilhoso vídeo “Isso é História – Função Social”, do Oldimar Cardoso.**


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*Foi por conta das Olimpíadas da Unicamp (e dos cursos que ela oferece para os professores) que eu escrevi esse plano de aula
** Indico, diga-se de passagem, todos os vídeos do Isso é História, o canal do Oldimar. Infelizmente o canal dele durou pouco tempo, mas todas as reflexões sobre História feitas lá são valiosíssimas.  

16 abril, 2017

Diálogo pós sexta-feira santa

Vizinho: Como foi o almoço na casa dos seus pais?
Eu: Foi tranquilo. Brinquei com o meu sobrinho, comi bacalhau...
Vizinho: Eu também comi bacalhau. Adoro. Também comeu peixe na janta?
Eu: Não. Na janta, comi aqui em casa. Só eu e minha esposa. Então, foi um jantar normal. Comemos até carne vermelha.
Vizinho: Credo! Mas, não pode comer carne vermelha na Sexta-Feira Santa!
Eu: Eu não sou religioso. 
Vizinho: E daí? É um desrespeito. Você não devia ter comido. 
Eu: Mas, você come carne bovina nos outros dias, não?
Vizinho: Sim, claro!
Eu: E não é uma falta de respeito com os hinduístas? 
Vizinho: Não tô nem ligando. Eu não sou hindu. 

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