31 de julho de 2019

Dentro de uma caixa

___Faz uns dois anos, fez sucesso no YouTube (nacional e internacional) umas pessoas se enviando pelo correio dentro de caixas – ou algo do tipo. É fácil de achar procurando pelo assunto, mas não recomendo, pois a maior parte desses vídeos vale pelo inusitado e pouco mais do que isso. Mesmo assim, o que foi feito só pela bizarrice, pode valer como introdução para um fato histórico interessante. 
___Henry Brown foi um escravo norte americano no século XIX. Tentando escapar da situação de cativo, em 1849, com a ajuda de alguns companheiros, ele se enviou pelo correio. E, por mais de um dia, ficou dentro de uma caixa, sendo transportado do estado escravista da Virgínia para o endereço de uma sociedade antiescravista na Pensilvânia. 
___Sua forma de pensar fora da caixa deu tão certo que, livre, ele passou a ser conhecido como Henry “Box” Brown, palestrar contra a escravidão e, em 1951, foi para a Inglaterra ganhar a vida como showman. O único problema é que a fama do episódio acabou dificultando sua replicação por outras pessoas escravizadas.

Fac-símile obtido no site UConn Today, garimpado pela estudiosa Martha J. Cutter.

___De qualquer modo, não deixa de ser digno reflexão saber que alguém arriscou sua vida, no século XIX, pela liberdade e, agora, no século XXI, outras pessoas se arriscam por 15 minutos de fama.


1 de junho de 2019

Não conhecendo o inimigo: de Napoleão aos colégios militares brasileiros

___Napoleão Bonaparte, liderando o exército francês, conseguiu subjugar a Europa continental. Porém, ao invadir a Rússia em 1812, Bonaparte demonstrou não conhecer bem seu inimigo e acabou derrotado. Teve de sair do vasto território russo com o rabo e o orgulho entre as curtas pernas. 
___Sabendo da superioridade militar dos franceses, os russos decidiram evitar os conflitos diretos. Por onde quer que as tropas napoleônicas avançassem, os russos recuavam. Não apenas recuavam, recuavam e não deixavam nada. Destruíam o local, queimavam as plantações, envenenavam a água: uma tática de terra arrasada. Eles destruíram, inclusive, Moscou, sua própria capital. 
___Enquanto Bonaparte ocupava uma Moscou destruída por mais de um mês, os russos se mantinham longe, apenas se preocupando em atacar as linhas de abastecimento. Mal abrigados em uma cidade arrasada e sem conseguir renovar seus suprimentos, inclusive nos locais conquistados, os franceses foram se enfraquecendo. E o tempo foi passando... E – let it go, let it go –, o inverno chegou. 

A retirada de Napoleão de Moscou, de Adolph Northen

___Com a chegada do inverno, as tropas napoleônicas, mal abrigadas e mal alimentadas, começaram a ser atacadas pelos russos. Bem mais acostumados aos rigores do inverno do próprio país, os russos expulsaram os franceses. Não conhecer o próprio adversário custou muito caro para Napoleão Bonaparte, que, bem enfraquecido por conta da campanha russa, acabou, pouco tempo depois, exilado na Ilha de Elba. 

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___Sempre vi com certa desconfiança as competições entre estudantes. Da mesma forma que podem servir para empolgar e estimular os alunos, elas podem acabar descambando para uma violência e um trato com o próximo bastante problemático. Entretanto, quase qualquer crítica que eu tivesse a fazer contra competições estudantis acabaram sendo vencidas pela maravilhosa Olimpíada Nacional em História do Brasil, da Unicamp. 
___Meus estudantes são convidados a participar da Olimpíada de História desde a sua primeira edição (atualmente, está acontecendo a 11ª). O evento é riquíssimo e proporciona um aprendizado ímpar, que dificilmente um professor sozinho poderia proporcionar aos seus estudantes. 
___Por conta das Olimpíadas de História, os meus alunos fizeram trabalhos de História Oral, analisaram documentos históricos obscuros, tentaram ler textos escritos à mão em outros séculos, descobriram formas diversas de montar linhas do tempo, conheceram melhor o patrimônio histórico das próprias cidades, leram textos de historiadores importantes e diversas outras atividades que permitiram que a formação deles fosse ainda melhor. Tudo é tão bem montado, com uma diversidade tão grande, que eu não poderia imaginar que alguma instituição de ensino poderia ser contra um evento tão bacana. Só que, nos obscuros dias de hoje, até isso é possível encontrar.
___Neste ano, no meio da primeira fase da Olimpíada de História, os alunos de colégios militares acabaram sendo proibidos de participar do restante da atividade. A justificativa do Sistema Colégio Militar do Brasil é que a Olimpíada “não atende à proposta pedagógica do sistema”. Em outras palavras, a tal desculpa de que os estudantes estão sendo “doutrinados” e o exército quer evitar isso com os seus indefesos e frágeis alunos. 
___Acho que seria muito mais produtivo que o Sistema Colégio Militar do Brasil confiasse nos próprios professores. Entretanto, como não parece ser o caso, creio que é recomendável permitir que os alunos participem no próximo ano, nem que seja para conhecer um pouco mais o próprio inimigo.*

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* É óbvio que não acho que as pessoas fofas que montam a Olimpíada de História são inimigos de alguém. Porém, dada a visão obtusa do exército, talvez seja bom usar esse termo.  

7 de maio de 2019

Falta de lugar

___Está cada vez mais difícil achar um bom lugar para sentar nos vagões do metrô. Sempre é possível, então, levar um lugar de casa... 


30 de abril de 2019

Mudando a perspectiva

Aviso: Texto com um pequeno spoiler de Game of Thrones

___As imagens com brincadeiras de perspectivas fascinam as pessoas pelo menos desde a época do Renascimento. Não é à toa que essa forma de se produzir imagens afeta a produção iconográfica até hoje, seja com pinturas, desenhos infantis ou jogos de videogames. E existem os mais interessantes caminhos para se brincar com isso. Quem sabe, em um dia de bom humor, eu não coloco um tapete assim no corredor do meu apartamento:


___Trabalhar com perspectivas pode servir para fazer uma imagem impressionante. 


___Ou dar uma indireta sobre o caminho que uma governante está seguindo. 
___Por vezes, uma pintura com um fundo simples e preto pode levar o observador a esquecer a ideia de perspectiva. Um exemplo disso é a Moça com o Brinco de Pérola, pintura de 1665, de Johannes Vermeer.


___No entanto, mesmo com o fundo preto, a perspectiva está lá. Não entre a moça e o fundo, mas no próprio rosto da moça com o brinco de pérola. Observe a imagem e veja de onde vem a luz. Perceba, então, que a perspectiva faz com que pareça que parte do rosto da moça está mais à frente, tanto que recebe luz. Por seu lado, a outra parte do rosto parece estar mais para trás, por isso mesmo aparece mais escura, pois a luz não a atinge. 

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___Grande parte disso veio à minha cabeça ao descer as escadas da estação Tiradentes do metrô paulistano. Lá está acontecendo, até dia 3 de junho, a exposição Gente de papel. Nela, estão expostas esculturas de papel machê da artista Madalena Marques. A minha preferida é exatamente a Moça com o Brinco de Pérola
___Quando se desce as escadas para a plataforma do metrô, na linha dos olhos, bem ao fundo, fica a Moça com o Brinco de Pérola recebendo a mesma luz do quadro, com o fundo preto e tudo. É uma experiência de perspectiva bem bacana. A obra fica ainda mais interessante quando se visita a exposição e se vê a escultura de perto. Madalena Marques pensou nessa questão da luz atingindo parte do rosto que eu falei alguns parágrafos acima. Só que, como se trata de uma escultura e não de uma pintura, é possível ver a parte não iluminada do rosto da Moça com o Brinco de Pérola. E acaba se ficando com uma sensação de estranhamento e deslumbramento. Recomendo.

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P.S.: Não é porque eu gostei da exposição que ela não merece uma crítica. Todo o cuidado para fazer um trabalho que lembrasse (e desvendasse) os detalhes do quadro original da Moça com o Lenço Azul na Cabeça Brinco de Pérola que eu elogiei, acabou não sendo o mesmo em todas as esculturas. A que mais me incomodou foi a escultura representando uma das personagens da pintura Samba, do Di Cavalcanti. A versão da exposição é bem mais moralista. 

Madalena Marques / Di Cavalcanti

Serviço:
Exposição: Gente de Papel
Artista: Madalena Marques
Curadoria: Ana Cláudia Cermaria e João Paulo Berto
Período: 7 de abril a 3 de junho de 2019
Local: Sala MAS/Metrô Tiradentes 
Estação Tiradentes do Metrô – São Paulo – SP
Horários: Terça-feira a domingo, das 9 às 17h
Ingresso: Grátis aos usuários do Metrô


31 de março de 2019

Manifestação a favor da "Revolução" de 1964

___Na tarde deste domingo, 31 de março de 2019, eu estava passeando com os meus cachorros pela rua. Um homem, com a camisa da seleção brasileira, chega perto de mim e pergunta:
___– Oi. Você sabe onde está acontecendo a manifestação a favor da Revolução de 1964
___Olho espantado e respondo, com toda sinceridade:
___– Nem imagino. Tenta virar ali à direita.