09 julho, 2014

Posso usar essa música para dançar?

___Uma das perguntas mais comuns que alunos de dança de salão costumam fazer é se eles podem usar determinada música para bailar aquela dança que eles dominam um pouco mais. Uma resposta simples, excetuando raríssimas exceções, é que "Sim, você pode.".
___Uma resposta um pouquinho mais elaborada explicaria para o aluno que os passos de cada dança de salão foram pensados para se dançar determinado estilo de música, para interpretá-lo. Exatamente por se encaixarem bem, os dançarinos passam a usar mais e mais aqueles passos para se dançar aquele estilo, inventam variações com aquela mesma base e, com o tempo, aqueles movimentos se tornam próprios daquela dança, viram passos tradicionais. Porém, se bem utilizados, aqueles passos podem ser usados em outros estilos musicais, em outras danças. Não é à toa que são incontáveis os passos que surgiram em uma dança e acabaram sendo incorporados (mesmo que com pequenas variações) em outras danças.
___Talvez alguém mais purista torça o nariz para tudo o que eu falei e venha dizer que as danças mais tradicionais não aceitam essa suruba coreográfica que eu defendo. Eu poderia até retrucar dizendo que acho bacana conhecer a tradição de cada dança, mas não ficar preso a ela. Mas, ao invés disso, prefiro simplesmente linkar este vídeo de uma milonga em que dançaram um tango forrozeado. A música é um forró e os passos, utilizados com uma boa musicalidade, são próprios do tango.

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Nota I: Peço desculpas. Como o vídeo está no Facebook, não consegui postá-lo aqui. Por isso, fica apenas o link
Nota II: Agradeço imensamente à Ro Costa, leitora antiga e fiel, pela indicação do vídeo.


07 julho, 2014

Prosa: A Divina Tradução (resposta)

___Em resposta à minha postagem "Prosa: A Divina Tradução", a Anna Gicelle Garcia Alaniz fez um pequeno comentário em seu blog. Como ela levantou um ponto bem interessante, achei que valia a pena colar a resposta aqui:
Obrigada Ulisses, gostei muito do seu texto, passei a maior parte da vida defendendo a prosa, sempre preferi ler a poesia no original, foi somente depois dos quarenta anos que me tornei mais tolerante. Vendo o trabalho de Fernando Pessoa ao traduzir Edgar Alan Poe e dos irmãos Campos com diversos poetas de fora, compreendo que o que se forma nesse tipo de tradução é uma nova obra. Se as pessoas tivessem a disponibilidade, o ideal seria ler o original e a tradução e comparar as escolhas, teríamos muito a ganhar. Mas na vida real… Mas, de qualquer modo agradeço muito sua crítica, se todos os meus críticos fossem tão gentis, minha vida seria muito mais agradável. Um grande abraço!!!

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___Caso alguém se interesse, aqui estão algumas das famosas traduções do Pessoa (com os originais).

06 julho, 2014

Superprotetora

___Minha irmã coloca o meu sobrinho para dormir e volta para a sala com um dedo nos lábios fazendo sinal de silêncio. Diminuímos o volume das conversas e ela se senta. Começo a puxar um assunto:
___– Você se considera uma mãe superprotetora?
___Abruptamente, minha irmã se levanta e corre para os quartos. 
___Segundos depois, volta. Por conta do olhar inquiridor de todos, ela se explica: 
___– Não foi nada, gente. Só achei que o bebê havia espirrado. – Voltando-se para mim, ela pergunta. – Desculpa, Ulisses, o que é mesmo que você havia perguntado?
___– Nada não. Esquece. 

04 julho, 2014

Prosa: A Divina Tradução

___A historiadora Anna Gicelle Garcia Alaniz faz um trabalho muito fofo e didático para quem se interessa por História no seu blog Compartilhando Histórias. Recentemente, em um dos vídeos da série “Cantinho da História”, a Anna falou sobre “O imaginário de Dante”, fazendo diversos comentários interessantes e fornecendo algumas indicações bibliográficas. No final do vídeo, entretanto, ela começou a dar dicas sobre o tipo de traduções da Divina Comédia que devem ser procuradas. Como eu discordo das escolhas que a Anna fez, achei que valia uma postagem com alguns comentários.*

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___A Anna diz que “É importante que [a tradução da Divina Comédia] esteja em verso.”. Já eu defendo que, para uma leitura de lazer (e até mesmo para a leitura crítica de um leitor comum), deve-se escolher uma tradução em prosa.** Por um lado, o formato do texto será diferente, a rima deixará de existir. Por outro lado, o leitor vai ganhar muito com uma tradução de melhor qualidade, com uma compreensão mais aprofundada da obra. 
___É óbvio que existem traduções em verso de ótima qualidade.*** Mesmo assim, o pobre infeliz que se prestou a traduzir a Divina Comédia em versos – quase um morador de algum círculo infernal – teve de se deparar com inúmeros problemas (14233 problemas, para ser exato) que os tradutores em prosa não se depararam. 
___Como a Anna bem lembrou, a poesia “é composta deliberadamente de escolhas, a escolha do verso, na rima”. Quem traduziu a Divina Comédia em verso precisou escolher a palavra final de cada verso para compor a rima. A tradução em verso também precisou obedecer a métrica. O resultado é que o tradutor teve de fazer diversos malabarismos literários (como escolher uma palavra obscura ou deixar as frases em ordem atípica) e o texto, com isso, acabou sofrendo.  
___As traduções em prosa não precisaram obedecer nenhuma métrica, não tinham de seguir uma rima. O tradutor, então, teve a chance de escolher as palavras que se encaixavam melhor ao que estava dito no original, mesmo que fosse uma palavra muito grande ou que não rimasse. A mensagem do texto é que se tornou o ponto principal, não um arroubo literário. 

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___Minhas reflexões sobre a validade de uma tradução em verso ou em prosa valem bem para a Divina Comédia – que se trata de um poema épico, de uma história com início, meio e fim. Provavelmente, eu poderia defender outros elementos se o assunto fosse algum poema cuja forma fosse mais importante do que o conteúdo. Essa avaliação tem de ser feita, literalmente, caso a caso. 
___De resto, mesmo com essa minha pequena discordância, volto a elogiar o trabalho da Anna. E, claro, também dizer o quanto acho admirável o trabalho dos pobres traidores tradutores. ;-)

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P.S.: Aproveitando o assunto, o Helder da Rocha fez um trabalho lindo traduzindo – online e gratuitamente – a Divina Comédia. Infelizmente, o trabalho está inacabado (ele parou no começo do Paraíso). Felizmente, a tradução é em prosa. 
P.P.S.: Caso alguém discorde de mim, por favor apenas comente. Não precisa me esfaquear

"Russo amante de poesia esfaqueia até a morte colega que defendeu a prosa"

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Atualização (7/VII/2014): A interessante resposta da Anna.

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* Minha postagem é exatamente para falar sobre a escolha de uma tradução. Claro que eu (como a Anna) defendo a leitura no original. Porém, não sendo possível, tomo a defesa dos elementos de que trato no texto. 
** Para empreender um estudo histórico ou literário aprofundado é obvio que o original é imprescindível. 
*** A minha preferida é a do Cristiano Martins, que ainda conta com um conjunto espetacular de notas de rodapé.

01 julho, 2014

O grevista

___Final da tarde, caminhando pela Avenida Paulista lotada, vejo, de longe, um mendigo que, a plenos pulmões, faz um inflamado discurso. Com o barulho dos carros e das gentes, não ouço nada até chegar bem perto. Quando estou quase ao lado do homem, ouço:
___– ...go que não podemos mais aceitar isso. Toda essa situação é completamente insustentável...
___Como todos que estão pela rua, não me detenho. Continuo caminhando até que ouço o mendigo dizer.
___– ... e por isso eu me declaro em greve! 
___Greve!? De quê? Ele vai se recusar a aceitar esmola? 
___Espantado, paro e olho para o pobre homem. Percebendo meu olhar inquiridor o mendigo levanta o saco de lixo que está segurando e diz:
___– Sou um operário do setor de reciclagem!

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P.S.: Sobre a vida de mendigo, indico o ótimo De vagões e vagabundos, do Jack London. Inclusive publiquei um elogio aos trabalhos dos mendigos usando essa obra nesta minha postagem de 2009

28 junho, 2014

Igual a todo mundo

___– Bacana o Alves, né? 
___– Sei lá. Apesar de gay, ele é igual a qualquer outra pessoa.
___– Deve ser porque gays são iguais a quaisquer outras pessoas. 

24 junho, 2014

A resposta

___Pela enésima vez, recebi um daqueles e-mails tristes que tentam justificar a manutenção da desigualdade enumerando exceções. Citando um trechinho, é algo mais ou menos assim: 
Eis aqui a pergunta mais desafiadora que ouvi nos últimos tempos...
O rei do futebol é negro...
___E, então, coloca uma foto do Pelé. 
O político mais poderoso do mundo é negro...
___Mostra o Obama.
A mulher mais rica e influente na mídia é negra.
___A Oprah.
O mais inteligente astrofísico na face da terra é negro.
___O Neil deGrasse Tyson.
___E continua nesse lengalenga até o fim do e-mail, quando, com tudo em maiúsculas, pergunta: 
POR QUE SÓ NO BRASIL OS NEGROS PRECISAM DE COTAS???
___Caso alguém se interesse pela leitura completa, um monte de blogs publicaram o texto pela internet. Tá aqui um na íntegra

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___O mais escroto de um texto desse tipo é que ele finge não saber que se resolvessem enumerar os casos de pessoas brancas, principalmente de homens brancos bem sucedidos, o texto poderia ser praticamente infinito. Só de presidentes dos Estados Unidos, seriam mais de 40 neguinhos branquelos. Se fossem citar os “políticos brancos mais poderosos da história”, então, eu não saberia nem como começar a contar. 

A cor dos presidentes dos Estados Unidos

___O texto também é mentiroso. Não só porque certos pontos como “o mais inteligente astrofísico [d]a face da terra” é algo bem difícil de definir, mas por fornecer – por ignorância ou maldade – informações indubitavelmente incorretas. Ao terminar perguntando “POR QUE SÓ NO BRASIL OS NEGROS PRECISAM DE COTAS???”, o autor do texto (e quem o compartilha) esquece que a política de cotas não foi uma invenção brasileira. Nos Estados Unidos* as cotas são adotadas em alguns locais desde a década de 1960. 

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___Defender a manutenção da desigualdade e, mais ainda, imputar a culpa da desigualdade nos membros das minorias que não obtiveram “sucesso” (“Aquele negro conseguiu, você só não consegue porque não se esforçou o bastante.”) é um discurso tão escroto que daria orgulho até no Bolsonaro. Mas, não me levem a sério. Vejam um dos exemplos de sucesso citados, o grande Neil deGrasse Tyson, falando sobre o assunto:


___Selecionei o vídeo acima por achá-lo melhor legendado. Esta outra versão, mesmo com uma legenda mais malfeita, tem a vantagem de mostrar a questão completamente machista que resultou na resposta do Neil deGrasse: “Qual o problema das minas com a Ciência?”**. Ficou difícil de ver como a pergunta foi machista? Faça a mesma transformação que o Neil fez: “Por que existem tão poucos cientistas pretos? É a falta de habilidade natural da raça?”.
___Se fosse uma palestra minha, eu teria começado a resposta dizendo que “Suportar comentários machistas de pessoas como você costuma ser um dos problemas que as mulheres acabam tendo nas carreiras científicas.”. E, como bem disse o Neil deGrasse, essas forças sociais realmente afastam negros/mulheres. Basicamente, a mesma premissa desta campanha fofa da Verizon.


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* Local de nascimento do Obama, da Oprah e do Neil deGrasse. 
** Minha tradução para a pergunta pode não ter sido a melhor, mas passa bem o tom da pergunta e das risadas causadas por ela. Veja por si próprio

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