26 julho, 2014

"Jagunços"

___Escrever é algo que demanda muito cuidado. Dependendo do seu público, o cuidado deve ser dobrado. E-mails para o chefe e convites para a sogra, por exemplo, precisam de um cuidado gigantesco. Livros didáticos também. 
___Dia desses, preparando uma aula sobre a Guerra de Canudos, peguei o livro didático que foi distribuído para os alunos da escola pública em que eu trabalho (História Geral e do Brasil, de Cláudio Vicentino e Gianpaolo Dorigo. São Paulo: Scipione, 2012.). Em meio a um texto aceitável sobre o tema, encontro a seguinte imagem:

"quatrocentos 'jagunços' feitos prisioneiros"

___Atentem para a legenda. “Imagens do Arraial de Canudos (1897): acima, quatrocentos jagunços feitos prisioneiros”. Até mesmo uma frase pequena deve ser escrita com o maior dos cuidados. Uma palavrinha pode colocar tudo a perder. 
___Segundo o Dicionário Priberam, jagunço é o “Homem que serve de guarda-costas a uma personalidade. / Pessoa de mau caráter.”. O Houaiss define como “cangaceiro, criminoso foragido ou qualquer homem violento contratado como guarda-costas por indivíduo influente”. Olhem a imagem com atenção. Essas definições se aplicam a ela? São mesmo “quatrocentos jagunços feitos prisioneiros”?
___Deixem-me fazer alguns recortes. 

Canudos: sobreviventes capturados (detalhe)

___Serão essas mulheres do canto esquerdo um “homem violento contratado como guarda-costas por indivíduo influente”? Ou serão simplesmente “Pessoa(s) de mau caráter”?

Canudos: sobreviventes capturados (detalhe)

___E essas crianças na parte da frente da foto? Qual delas será um jagunço sanguinário? A pelada esquelética ou a com cara de morta de fome?
___Algumas pessoas podem dizer que esse é apenas um detalhe bobo. Eu, como professor de História, sei bem a força que palavras podem ter para influenciar a forma das pessoas pensarem e agirem. Querer enxergar todos os moradores da aldeia de Belo Monte como jagunços é algo podre. Provavelmente tão podre quanto tratar como criminosos todos os ativistas que ousaram se levantar contra o governo durante a Copa

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P.S.: Quando a imprensa carioca e baiana falava sobre a Guerra de Canudos, no final do XIX, ela se referia a todos os seguidores de Antônio Conselheiro como jagunços. Entretanto, isso não é desculpa para um livro didático tratar os pobres moradores do local dessa forma pejorativa. 
P.P.S.: Falei tudo isso no texto, mas vale ressaltar que, apesar dessa escorregada, o livro didático História Geral e do Brasil, do Cláudio Vicentino e do Gianpaolo Dorigo, não é ruim. 

09 julho, 2014

Posso usar essa música para dançar?

___Uma das perguntas mais comuns que alunos de dança de salão costumam fazer é se eles podem usar determinada música para bailar aquela dança que eles dominam um pouco mais. Uma resposta simples, excetuando raríssimas exceções, é que "Sim, você pode.".
___Uma resposta um pouquinho mais elaborada explicaria para o aluno que os passos de cada dança de salão foram pensados para se dançar determinado estilo de música, para interpretá-lo. Exatamente por se encaixarem bem, os dançarinos passam a usar mais e mais aqueles passos para se dançar aquele estilo, inventam variações com aquela mesma base e, com o tempo, aqueles movimentos se tornam próprios daquela dança, viram passos tradicionais. Porém, se bem utilizados, aqueles passos podem ser usados em outros estilos musicais, em outras danças. Não é à toa que são incontáveis os passos que surgiram em uma dança e acabaram sendo incorporados (mesmo que com pequenas variações) em outras danças.
___Talvez alguém mais purista torça o nariz para tudo o que eu falei e venha dizer que as danças mais tradicionais não aceitam essa suruba coreográfica que eu defendo. Eu poderia até retrucar dizendo que acho bacana conhecer a tradição de cada dança, mas não ficar preso a ela. Mas, ao invés disso, prefiro simplesmente linkar este vídeo de uma milonga em que dançaram um tango forrozeado. A música é um forró e os passos, utilizados com uma boa musicalidade, são próprios do tango.

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Nota I: Peço desculpas. Como o vídeo está no Facebook, não consegui postá-lo aqui. Por isso, fica apenas o link
Nota II: Agradeço imensamente à Ro Costa, leitora antiga e fiel, pela indicação do vídeo.


07 julho, 2014

Prosa: A Divina Tradução (resposta)

___Em resposta à minha postagem "Prosa: A Divina Tradução", a Anna Gicelle Garcia Alaniz fez um pequeno comentário em seu blog. Como ela levantou um ponto bem interessante, achei que valia a pena colar a resposta aqui:
Obrigada Ulisses, gostei muito do seu texto, passei a maior parte da vida defendendo a prosa, sempre preferi ler a poesia no original, foi somente depois dos quarenta anos que me tornei mais tolerante. Vendo o trabalho de Fernando Pessoa ao traduzir Edgar Alan Poe e dos irmãos Campos com diversos poetas de fora, compreendo que o que se forma nesse tipo de tradução é uma nova obra. Se as pessoas tivessem a disponibilidade, o ideal seria ler o original e a tradução e comparar as escolhas, teríamos muito a ganhar. Mas na vida real… Mas, de qualquer modo agradeço muito sua crítica, se todos os meus críticos fossem tão gentis, minha vida seria muito mais agradável. Um grande abraço!!!

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___Caso alguém se interesse, aqui estão algumas das famosas traduções do Pessoa (com os originais).

06 julho, 2014

Superprotetora

___Minha irmã coloca o meu sobrinho para dormir e volta para a sala com um dedo nos lábios fazendo sinal de silêncio. Diminuímos o volume das conversas e ela se senta. Começo a puxar um assunto:
___– Você se considera uma mãe superprotetora?
___Abruptamente, minha irmã se levanta e corre para os quartos. 
___Segundos depois, volta. Por conta do olhar inquiridor de todos, ela se explica: 
___– Não foi nada, gente. Só achei que o bebê havia espirrado. – Voltando-se para mim, ela pergunta. – Desculpa, Ulisses, o que é mesmo que você havia perguntado?
___– Nada não. Esquece. 

04 julho, 2014

Prosa: A Divina Tradução

___A historiadora Anna Gicelle Garcia Alaniz faz um trabalho muito fofo e didático para quem se interessa por História no seu blog Compartilhando Histórias. Recentemente, em um dos vídeos da série “Cantinho da História”, a Anna falou sobre “O imaginário de Dante”, fazendo diversos comentários interessantes e fornecendo algumas indicações bibliográficas. No final do vídeo, entretanto, ela começou a dar dicas sobre o tipo de traduções da Divina Comédia que devem ser procuradas. Como eu discordo das escolhas que a Anna fez, achei que valia uma postagem com alguns comentários.*

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___A Anna diz que “É importante que [a tradução da Divina Comédia] esteja em verso.”. Já eu defendo que, para uma leitura de lazer (e até mesmo para a leitura crítica de um leitor comum), deve-se escolher uma tradução em prosa.** Por um lado, o formato do texto será diferente, a rima deixará de existir. Por outro lado, o leitor vai ganhar muito com uma tradução de melhor qualidade, com uma compreensão mais aprofundada da obra. 
___É óbvio que existem traduções em verso de ótima qualidade.*** Mesmo assim, o pobre infeliz que se prestou a traduzir a Divina Comédia em versos – quase um morador de algum círculo infernal – teve de se deparar com inúmeros problemas (14233 problemas, para ser exato) que os tradutores em prosa não se depararam. 
___Como a Anna bem lembrou, a poesia “é composta deliberadamente de escolhas, a escolha do verso, na rima”. Quem traduziu a Divina Comédia em verso precisou escolher a palavra final de cada verso para compor a rima. A tradução em verso também precisou obedecer a métrica. O resultado é que o tradutor teve de fazer diversos malabarismos literários (como escolher uma palavra obscura ou deixar as frases em ordem atípica) e o texto, com isso, acabou sofrendo.  
___As traduções em prosa não precisaram obedecer nenhuma métrica, não tinham de seguir uma rima. O tradutor, então, teve a chance de escolher as palavras que se encaixavam melhor ao que estava dito no original, mesmo que fosse uma palavra muito grande ou que não rimasse. A mensagem do texto é que se tornou o ponto principal, não um arroubo literário. 

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___Minhas reflexões sobre a validade de uma tradução em verso ou em prosa valem bem para a Divina Comédia – que se trata de um poema épico, de uma história com início, meio e fim. Provavelmente, eu poderia defender outros elementos se o assunto fosse algum poema cuja forma fosse mais importante do que o conteúdo. Essa avaliação tem de ser feita, literalmente, caso a caso. 
___De resto, mesmo com essa minha pequena discordância, volto a elogiar o trabalho da Anna. E, claro, também dizer o quanto acho admirável o trabalho dos pobres traidores tradutores. ;-)

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P.S.: Aproveitando o assunto, o Helder da Rocha fez um trabalho lindo traduzindo – online e gratuitamente – a Divina Comédia. Infelizmente, o trabalho está inacabado (ele parou no começo do Paraíso). Felizmente, a tradução é em prosa. 
P.P.S.: Caso alguém discorde de mim, por favor apenas comente. Não precisa me esfaquear

"Russo amante de poesia esfaqueia até a morte colega que defendeu a prosa"

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Atualização (7/VII/2014): A interessante resposta da Anna.

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* Minha postagem é exatamente para falar sobre a escolha de uma tradução. Claro que eu (como a Anna) defendo a leitura no original. Porém, não sendo possível, tomo a defesa dos elementos de que trato no texto. 
** Para empreender um estudo histórico ou literário aprofundado é obvio que o original é imprescindível. 
*** A minha preferida é a do Cristiano Martins, que ainda conta com um conjunto espetacular de notas de rodapé.

01 julho, 2014

O grevista

___Final da tarde, caminhando pela Avenida Paulista lotada, vejo, de longe, um mendigo que, a plenos pulmões, faz um inflamado discurso. Com o barulho dos carros e das gentes, não ouço nada até chegar bem perto. Quando estou quase ao lado do homem, ouço:
___– ...go que não podemos mais aceitar isso. Toda essa situação é completamente insustentável...
___Como todos que estão pela rua, não me detenho. Continuo caminhando até que ouço o mendigo dizer.
___– ... e por isso eu me declaro em greve! 
___Greve!? De quê? Ele vai se recusar a aceitar esmola? 
___Espantado, paro e olho para o pobre homem. Percebendo meu olhar inquiridor o mendigo levanta o saco de lixo que está segurando e diz:
___– Sou um operário do setor de reciclagem!

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P.S.: Sobre a vida de mendigo, indico o ótimo De vagões e vagabundos, do Jack London. Inclusive publiquei um elogio aos trabalhos dos mendigos usando essa obra nesta minha postagem de 2009

28 junho, 2014

Igual a todo mundo

___– Bacana o Alves, né? 
___– Sei lá. Apesar de gay, ele é igual a qualquer outra pessoa.
___– Deve ser porque gays são iguais a quaisquer outras pessoas. 
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