12 janeiro, 2015

A Ditadura da Mentira

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___Atualmente, o Museu da Língua Portuguesa, em seu andar de exposições temporárias, abriga alguns dos trabalhos do 41º Salão Internacional de Humor de Piracicaba – ganhando o andar a brincadeira de que “Esta sala é uma piada”. Infelizmente, a sala também conta com uma piada de muito mau gosto. 
___Uma parede antes dos trabalhos do 41º Salão Internacional de Humor de Piracicaba, estão expostas algumas charges e tiras publicadas pelo jornal Folha de São Paulo criticando a Ditadura Civil Militar. Por mais geniais que sejam algumas daquelas obras, a seleção de imagens (quase todas do final da década de 1970 e do início da de 1980) procura passar a imagem de que a Folha foi um jornal que combateu a Ditadura.


___Infelizmente, o jornal paulista foi um notório apoiador do Regime Civil Militar. Vide, por exemplo, o escrotérrimo editorial “Presos Políticos?”, publicado pela Folha, em 30/VI/1972. Anos depois, quando da abertura política, quando a Ditadura já estava abrindo as pernas, a Folha de São Paulo mudou de lado, passou para o grupo de críticos ao Regime. Diga-se de passagem, não foi exatamente todo o jornal, só alguns membros dele – como, por exemplo, os cartunistas. 
___Então, hoje, querendo apagar (ou maquilar muito bem) o seu passado, a Folha patrocina uma exposição* tentando posar de democrata, de crítica à Ditadura. É um ato covarde. Para um jornal é principalmente um ato feio, porque é uma atitude desinformativa. Pelo menos honra o nome da exposição que originou a parede anti-Ditadura da Folha: “Este Jornal também é uma piada”. 

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* Não muito grande, vale dizer. Talvez tenha faltado material. ;-)

10 janeiro, 2015

Diógenes, o Mendigo

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___Diógenes de Sinope, mais conhecido como Diógenes, o Cínico, foi um importante filósofo da Antiguidade, que viveu mais ou menos entre 404 e 323 a.C.. As lendas sobre sua vida como filósofo-mendigo são quase tudo o que restou de sua obra. Entre essas histórias, as minhas preferidas são as conversas de Alexandre, o Grande, com o filósofo. Encontrá-las não é nada difícil. Por isso mesmo, ao invés de simplesmente contá-las, resolvi adaptá-las para Sampa dos dias de hoje. 
___Diógenes, como era de seu feitio, fica sendo um mendigo. Alexandre, o Grande, nesta adaptação, fica como um executivo de sucesso. 


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___Irritado, Alexandre sai do edifício espelhado para as calçadas da avenida Paulista, quase nove da noite. Foi um dia estressante: reunião atrás de reunião, clientes ao telefone a cada intervalo e ainda seria necessário fazer um pouco de serviço em casa. Enquanto afrouxava a gravata, o executivo olha para o lado e vê um mendigo deitado na calçada, ocupado em fazer carinho em um cachorro vira-lata. 
___Alexandre sorri, o mendigo sorri de volta. Talvez mais à vontade por conta da interação, talvez para desestressar-se um pouco, o executivo diz:
___– Queria ter uma vida tranquila como a sua. 
___– Por que você não tem?
___– Talvez um dia. Ainda tenho muito que conquistar. Quero viajar, ter dinheiro para garantir o meu descanso futuro, ter outro apartamento. Essas coisas. 
___– Se você precisa de mais alguma coisa –, responde o mendigo –, você nunca vai ter o que eu tenho. 
___O executivo sorri e pergunta o nome do mendigo. 
___– Diógenes. 
___– Diógenes do quê?
___– Só Diógenes já me basta. Não preciso de mais nada. 

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___Saindo de uma unidade do Itaú Personnalité, Alexandre coloca seus óculos escuros e sai a caminhar. Não anda nem meio quarteirão e encontra Diógenes encostado em uma parede. Ainda positivamente impressionado com a conversa que tiveram alguns dias antes, Alexandre para na frente do mendigo, coloca a mão no bolso, segurando a carteira e diz:
___– Diógenes, diga-me: o que você quer? Posso lhe dar dinheiro, trabalho, lugar para morar. Peça e eu darei. 
___– Só não me tire o que você não pode me dar. –, respondeu Diógenes, deslocando-se um pouco para o lado para voltar a pegar sol. 
___Percebendo, então, que havia tirado o sol que aquecia o mendigo, Alexandre, envergonhado, pega uma nota de cinquenta reais, coloca no chão e se vai. 
___Diógenes não pega o dinheiro. 

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___Perto do trabalho, Alexandre vê dois outros executivos rindo de Diógenes, que dorme, sujo e seminu, na calçada. Irritado, Alexandre diz:
___– Se eu não fosse o executivo de maior sucesso da nossa empresa, gostaria de ser aquele mendigo. 

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P.S.: As estórias desta postagem existem graças a Diógenes, o Cínico, à minha amiga Fernanda e ao lindo SP Invisível


04 janeiro, 2015

Por que você não gosta do natal?

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Nota introdutória: Deixei esta pequena postagem para depois das festas para ser simpático com todos os leitores. E, antes que alguém pergunte, não é um texto indireta para ninguém. Trata-se apenas de uma reflexão simples.

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___Se você é uma pessoa que não gosta das festas de natal, sugiro uma pequena reflexão: por que você não gosta do natal? 
___É porque você odeia juntar vários parentes que você não viu o ano todo e, agora, só por conta dessa festa, você é obrigado a suportar? É por causa das piadas chatas daquele seu tio? Daquela sua tia que pergunta “E as namoradas?”? Do cachorro mala da sua irmã? Daquela criançada toda gritando e correndo? Por achar constrangedor? Por você não estar interessado no que a sua avó vai contar sobre o seu primo de segundo grau? É porque você odeia dar votos falsos? São sempre festas chatas?
___Se você respondeu positivamente para algumas das questões acima, talvez valha a pena pensar um pouco que seu problema pode não ser exatamente com a festa de natal. O seu problema, caro leitor, é com a sua família. Você talvez até goste do natal, o que você não gosta é de ficar junto com os seus familiares. 
___Boas festas. 

02 janeiro, 2015

Pessoas porcas

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___Enquanto espero o ônibus, uma mulher de uns 50 anos para do meu lado e acende um cigarro. Uma moça, bufando para o cigarro da mulher, sai de perto. Eu, sem ligar, continuo a esperar o ônibus, alternando meu olhar da rua para o meu livro. 
___– Como as pessoas são porcas! –, diz a mulher. 
___Levanto os olhos do livro para ver se ela está falando comigo. 
___– Como as pessoas são porcas, né?
___Meio sem jeito, solto um fraco "É...". 
___Ela sorri para a minha resposta e, animada, entre uma tragada e outra, começa reclamar: no ano novo as pessoas bebem e jogam a latinha no chão; ninguém pega o cocô do próprio cachorro; tem moleque que cospe até chiclé no chão. A mulher segue por alguns minutos tocando apenas uma nota: quanta gente existe por aí que joga lixo na rua.
___Então, o ônibus dela chega. A mulher faz sinal, dá uma última tragada e joga o cigarro no chão. 

31 dezembro, 2014

Romantismo, passado idílico e chocolate

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___Como historiador, tenho de dizer: o passado é uma ferramenta com muitas utilidades. Uma das mais comuns é utilizar as glórias do passado para propagandear algo do presente. E, vale dizer, esse passado nem precisa ter existido de verdade. 
___Na segunda metade do século XIX, o Brasil queria evidenciar sua independência da metrópole. É verdade, nós havíamos nos livrados do domínio de Portugal em 1822, na primeira metade do XIX, mas dom Pedro I, nosso primeiro imperador, além de usar um bigode engraçado, era português. O fantasma de voltar para as mãos lusitanas causava um medo constante. 
___Com dom Pedro II, um imperador nascido e criado no Brasil, a nação brasileira podia respirar mais aliviada. Nação? Realmente éramos uma nação? Tínhamos um passado como brasileiros para nos conclamarmos Brasileiros? Ou nosso passado era simplesmente um passado completamente atrelado a Portugal?
___Então vieram os escritores românticos. No Brasil, o Romantismo, movimento literário forte em grande parte do 2º Reinado (1840-89), foi buscar os seus heróis em duas fontes: nos indígenas e no regionalismo. Duas fontes separadas de Portugal. 
___Os índios foram vistos pelos românticos brasileiros de maneira absurdamente idealizada. Puros, fortes, corajosos, inteligentes, tesudos. Perfeitos em tudo. Os indígenas foram os grandes heróis. Se existem portugueses na estória, é para corrompê-los. 


___Por mais bacanas que os nativos do Brasil sejam, eles nunca foram tão fantásticos quanto o “moço guerreiro, o velho Tupi”, do I-Juca-Pirama, ou o famoso Peri.* Mas a ideia era mostrar um passado glorioso para a “nação” brasileira, mostrar que os moradores do Brasil são fantásticos desde sempre. O passado – mesmo que apenas idealizado – é utilizado para justificar o presente. 

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___As glórias do passado, claro, também podem ser reais. E a utilização dessas glórias pode ser menos... hum... gloriosa do que “unir uma nação”. 
___Um dos grandes orgulhos da Itália é ter sido o local de nascimento de Dante Alighieri. Mesmo sendo um acontecimento do século XIII, até hoje os italianos festejam esse “feito”. E, para relembrar esse passado glorioso, vale fazer edições mais baratas da Divina Comédia, montar museus sobre o escritor, auxiliar financeiramente escolas homônimas em outras partes do mundo.
___Outro dia, uma conhecida que está morando na Itália, veio visitar os pais aqui no Brasil. Como mimo, trouxe uns chocolates italianos para os amigos. Depois de me deliciar com os bombons, percebi que, junto ao embrulho, vinham uns papeizinhos extras. Para minha diversão, os papéis vinham com citações de Dante. 


___Pode ser esquisito, mas glórias do passado podem servir até para vender mais chocolate.  

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* Este ano, o herói invencível do romantismo que eu mais gostei de conhecer, foi o Jão Fera, do livro Til, de José de Alencar. O exemplo dele é bem característico e não é só porque Jão bateria fácil no Super-Homem. Jão Fera é forte, corajoso, intrépido, caso perfeito de herói regional, do interior brasileiro, mas, também, é conhecido como Jão Bugre, “pela tez bronzeada, que distinguia aquela raça indígena.” (Terceira parte, capítulo I), mostrando sua ligação com os índios e a sua perfeição.

29 dezembro, 2014

Cachorra anormal

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___No meio do passeio matinal com as minhas cachorras, uma senhora pára para mexer com a Isabel Allende (minha cachorra sociável). Depois de alguns afagos, ela pergunta:
___– De que raça que ela é?
___É vira-lata. –, respondo. – As duas são. 
___– E quanto cobram por uma vira-lata nas lojas?
___– Não cobraram nada. Peguei ela em um centro de adoção, numa ong que acolhe animais de rua
___A mulher parou de acarinhar a Isabel Allende. Levantou, olhou nos meus olhos com uma expressão muito séria e disse:
___– Prefiro comprar os meus cachorros. Vai saber se esses cachorros que estão dando de graça por aí são normais. 

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P.S.: Caso alguém queira saber como eu descobri se a Isabel Allende era "normal" antes de adotá-la, recomendo este meu texto, do ano passado. 


01 dezembro, 2014

Vestibular (a)poético

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___Caso alguém apareça para atacar o modo como são feitos os vestibulares, saiba que eu concordo. Se vierem dizer que se trata de uma instituição segregacionista, também vou assinar embaixo. Podem, também, com a minha anuência, dizer que os vestibulares prejudicam a Educação, pois acabam obrigando-a a se adequar às provas.* Porém, isso não significa que não há nada de bom nos vestibulares. Muito menos que não podem existir questões bacanas. 
___Olhem, por exemplo, que questãozinha fofa estava na prova da Fuvest de ontem:

Examine a figura.



Os versos de Carlos Drummond de Andrade que mais adequadamente traduzem a principal mensagem da figura acima são:

a) Stop.
A vida parou
ou foi o automóvel?

b) As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

c) Um silvo breve. Atenção, siga.
Dois silvos breves: Pare.
Um silvo breve à noite: Acenda a lanterna.
Um silvo longo: Diminua a marcha.
Um silvo longo e breve: Motoristas a postos.
__(A este sinal todos os motoristas tomam lugar nos
__seus veículos para movimentá-los imediatamente.)

d) proibido passear sentimentos
ternos ou sopɐɹǝdsǝsǝp
nesse museu do pardo indiferente

e) Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.

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Nota: Caso alguém precise de ajuda, a resposta é D. 

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* Por exemplo, seria lindo um curso de História, para o Ensino Médio, focado todo em destrinchar a mitologia ameríndia ou a História do Vietnã; seria extremamente enriquecedor um curso de Literatura voltado apenas para o teatro grego. O problema é que os alunos desses cursos acabariam prejudicados nos vestibulares por terem de resolver questões sobre os assuntos tradicionais. 


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