31 de janeiro de 2019

Menos aulas de História: “Está tudo normal...”


___Leciono História para os alunos da Escola Técnica de São Paulo desde 2009. Nos meus primeiros anos de Etesp, eu ensinei para os estudantes do Ensino Médio, que tinham aulas apenas no período matutino. Obviamente, as aulas de História eram dadas para os três anos do Ensino Médio. Apenas duas aulas de História por semana, mas, mesmo assim, aulas de História nos três anos.
___Nos últimos anos, o Centro Paula Souza, a autarquia do governo do estado que manda nas escolas técnicas, começou a abolir o Ensino Médio simples nas escolas técnicas. Comecei, então, a dar aula para as turmas do ETIM: Ensino Médio Integrado ao Técnico. Meus estudantes passaram a ter aula de manhã e à tarde, mas continuavam a ter aulas de História nos três anos do Ensino Médio (Integrado ao Técnico). Apenas duas aulas de História por semana, mas, mesmo assim, aulas de História nos três anos.
___Na última reunião pedagógica a direção anunciou que o ETIM de Informática seria substituído pelo de Desenvolvimento de Sistemas. “Qual a diferença?”, algum incauto perguntou. “Ah...”, responderam aparentando completa normalidade, “é só uma atualização do curso de Informática. Vai continuar um Ensino Médio junto com o Técnico, com três anos e tudo. Só vão modificar algumas coisinhas.”. Entre as “coisinhas” que vão modificar está o ponto que as aulas de História só serão dadas nos dois primeiros anos. Apenas duas aulas de História por semana, mas, agora, aulas de História somente por dois anos.
___Alguém acha que isso vai beneficiar os estudantes? Que vai fazer bem para a formação deles? Que isso é bom para a sociedade?

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___A proposta de lei do “Escola sem Partido” é um dos temas que mais tem afetado as instituições de ensino nos últimos anos. Tenho duras restrições a esse projeto que apenas finge não ter partido, porém não é isso que quero comentar neste texto. Como o próprio site deles diz “O Programa Escola sem Partido é uma proposta de lei que torna obrigatória a afixação em todas as salas de aula do ensino fundamental e médio de um cartaz com o seguinte conteúdo:”


___Quero atentar para uma parte do terceiro item. “O Professor não... incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos e passeatas.”. Portanto, para os defensores do “Escola sem Partido”, eu não devo, talvez nem aqui no meu blog, incitar meus alunos a se manifestarem contra a bizarrice que vai ser extirpar um ano completo de aulas de História da formação deles. 


___Gostaria muito de ouvir quem pode achar a eliminação de aulas de História algo positivo. Agora, se ninguém achar que isso é bom, penso que talvez seja mais do que hora de começar a incitar os estudantes a participarem “de manifestações, atos públicos e passeatas.”. 

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P.S.: Caso alguém precise de algum tipo de justificativa para se estudar História, recomendo um vídeo do Oldimar Cardoso:


31 de dezembro de 2018

A necessidade das leis trabalhistas: relato pessoal

___No final de um ano em que deputados, governadores e até o presidente eleito vociferam contra os direitos trabalhistas, achei que valia a pena contar um pequeno caso pessoal. Isso não significa, claro, que minha história encerra a questão ou algo do tipo, mas vale para se refletir um pouco mais sobre o assunto. 

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___De meados de 2008 até dezembro de 2017, eu ensinei História em um colégio particular chamado Rumo. Tratava-se de uma escola bastante boa, com muito mais pontos positivos do que negativos. O colégio oferecia plantões de dúvidas, suporte para os professores, atividades extras e contava com alguns funcionários fabulosos, que realmente se preocupavam com a educação dos alunos. 
___O dono do Rumo costumava ser muito presente. Ex-professor de Física, ele sempre aparecia na sala dos professores e conversava com todos sobre os mais variados temas. Entre seus assuntos preferidos, no entanto, figuravam os direitos trabalhistas. Ou, sendo mais claro, o problema, o empecilho que eram os direitos trabalhistas.
___Assim como um deputado recentemente eleito, meu ex-chefe dizia o quanto os direitos trabalhistas atravancavam as relações entre patrões e empregados, como era necessário pagar um monte de impostos, que ter empregados no Brasil era muito caro, que falta fazia não ser chamado mais de sinhô, que isso não era o verdadeiro capitalismo, que diversos direitos pagos a empregados não faziam sentido, que patrões e empregados deveriam negociar livremente e coisas do tipo. Uma ou outra vez cheguei a responder, citando exemplos históricos de como a situação dos trabalhadores era infinitamente mais precária antes desses direitos, mas, vale lembrar, ele era meu chefe. Ficar discordando do patrão não é das atividades mais salutares. Então, na maior parte das vezes, eu simplesmente ouvia, meneava com a cabeça ou respondia com grunhidos e monossílabos. 
___Opiniões do meu ex-chefe à parte, o colégio estava indo por um bom caminho. Tanto que, no final de 2016, meu ex-patrão resolveu ampliá-lo. Literalmente, ele dobrou o espaço físico da escola com uma enorme reforma. O problema é que a reforma custou mais caro do que ele pensava e, no final de 2017, meu ex-chefe estava completamente endividado. Se dobrar o tamanho do colégio tivesse dado certo, os lucros, como bem prega o capitalismo, seriam todos do meu ex-chefe. Como as coisas não deram certo, o prejuízo foi dividido entre todos. Como bem prega o capitalismo?
___Em dezembro de 2017, meu chefe anunciou a falência da escola e não pagou o que devia para quase ninguém. Muitos funcionários foram pegos de calças curtas e contas longas. Acabaram tendo um final de 2017 dificílimo. Além disso, saindo à procura de emprego só a partir da desagradável surpresa, o 2018 de muitos dos meus ex-colegas de trabalho também não foi dos mais fáceis. 
___Férias, 13º, a grana que viria com uma demissão e até algumas parcelas do FGTS nunca pingaram na minha conta. Os adversários dos direitos trabalhistas talvez olhem com desprezo para essa minha reclamação. O ponto é que nem os últimos salários de meses completamente trabalhados foram pagos. O único dinheiro que eu vi foi do FGTS, o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, que foi depositado durante os vários anos em que trabalhei no colégio. 
___Em suma, meu ex-chefe criticava os direitos trabalhistas, mas quando ele não conseguiu pagar nem o salário dos seus funcionários, foi apenas um direito trabalhista que ajudou financeiramente os trabalhadores caloteados. E, vale lembrar, não foram os direitos trabalhistas que fizeram o colégio falir, foi um erro de cálculo dele. Meu ex-patrão pode até não apreciar minhas justificativas históricas para a necessidade dos direitos trabalhistas, mas, para mim, ele só ajudou a demonstrar a necessidade desses direitos. 

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P.S.: Eu não processei meu ex-chefe, mas outros professores fizeram. O resultado foi esse aqui:

Telegrama - processo 1

Na qualidade de advogada nos autos da reclamação trabalhista movida em 2018 contra Rumo Vestibulares LTDA ... [este telegrama] tem a presente finalidade de informar-lhe que estamos com dificuldade em dar seguimento à execução de seu processo devido a não localização de bens da empresa e de seus sócios.

___E, como uma demonstração de que a situação dos trabalhadores frente aos patrões só tem se tornado mais dura, alguns parágrafos depois a advogada escreve:

Telegrama - processo 2

Ademais, cumpre informar que com o advento da Lei 13.467/2017, reforma trabalhista, se dentro de 2 anos, do despacho do juiz que solicita indicação de bens do executado, não for apresentado nenhum bem será decretado a prescrição intercorrente, ou seja, o processo não poderá mais ser executado.

___Resumindo: o trabalhador foi à empresa e trabalhou, fez a sua parte. O patrão não pagou, não fez a sua parte, e, por conta da mudança das leis em 2017, em apenas dois anos do fim do processo ele estará livre e perdoado pela lei brasileira. Só mesmo alguém muito escroto para defender esse tipo de coisa. 
P.P.S.: Para não ficar apenas em um relato pessoal, recomendo o texto “Leis trabalhistas, pra quê?”, do meu querido Alex Castro

29 de novembro de 2018

Como fazer amigos

___Faz mais de dez anos, contei aqui no blog que fui a uma entrevista de emprego e, na sala de espera, junto com os outros candidatos, estava um rapaz com um livro intitulado Como trabalhar pra um idiota – Aprenda a evitar conflitos com seu chefe. Até hoje não acredito na falta de noção de alguém que vai para um ambiente de trabalho, para uma entrevista de emprego com um livro desses. E olha que eu não sou conhecido por ter muita noção. 

Capa do livro Como trabalhar pra um idiota – Aprenda a evitar conflitos com seu chefe

___Sou bastante cético com livros de autoajuda. O pouco que eu li desse tipo de obra me pareceu ou um monte de obviedades, ou a mais pura enganação. Um livro sobre “evitar conflitos com o seu chefe” deveria explicar para o leitor que chamar o próprio chefe de idiota não é um bom caminho. Sendo assim, a introdução do livro deveria dizer para nunca levar aquele livro para o trabalho. Se essa pequena dica não fizer parte da obra, talvez ela não ajude muito a evitar conflitos com o chefe. 
___Semana passada convidei uma amiga para jogar board games aqui em casa. Ela me perguntou se poderia levar o primo dela. Eles chegaram. Eu, minha esposa e minha amiga ficamos jogando na mesa. Por mais que eu tenha insistido, o primo dela não quis jogar. Ficou apenas no sofá, lendo. 
___Em determinado momento, eu saí da mesa para oferecer alguns petiscos para o rapaz. Ao chegar perto, descobri que ele estava lendo o livro Como fazer amigos e influenciar pessoas

Como fazer amigos e influenciar pessoas

___Nunca serei autor de um livro desse tipo. Mas, aproveito para dar duas dicas básicas para leitores do Como fazer amigos e influenciar pessoas: (1) procure não ler um livro com esse título na frente dos outros. E, mais importante, (2) se for à casa de alguém, tente interagir um pouco com as pessoas. 

31 de outubro de 2018

Censurando pela educação

Fac-símile da capa da revista Cultura Política – Revista Mensal de Estudos Brasileiros, revista de propaganda do Estado Novo
___No 4º número da revista Cultura Política, publicada durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, fez-se uma reflexão sobre a “importância educativa do rádio”. Em pleno ano de 1941, auge da ditadura Vargas, o resultado não poderia ser diferente: mais censura do que em novela da Record. Cito alguns trechos.
___“Podem existir, ao lado das emissoras oficiais, as emprêsas fiscalizadas pelo govêrno. Mesmo proque as democracias modernas condicionam, como nos Estados Unidos, a liberdade de radiodifusão ao ‘interesse, conveniência e necessidade do público’*.” Entre os fatores ligados à “necessidade do público”, estava a doce necessidade de calar as críticas ao governo. 
E essa limitação, fazendo-se mais em "superfície" do que propriamente em "profundidade", apresenta-se como uma função legítima e, mais do que isso, indispensável à finalidade educativa do rádio. A intervenção estatal não se faz apenas em sentido negativo de censura e proibição. Faz-se, ao contrário, em um rumo positivo, estabelecendo um serviço especial de propaganda educativa. (CASTELO, Martins. “Rádio”. In: Cultura Política – Revista Mensal de Estudos Brasileiros. Número 4. Rio de Janeiro: DIP, 1941. p. 284.)
___Usar “o que deve ser ensinado às nossas ingênuas crianças” como desculpa para censurar, não é novidade agora, nem era na década de 1940. Hoje a censura ligada à Educação pode vir de projetos de leis pretensamente apolíticos, de ataques a exposições artísticas com execrações públicas, com ameaças de processos ou de deputadas eleitas querendo intimidar professores. O quadro é triste e o futuro parece negro. Mas, ficar quieto e não dar trabalho para essa corja de censuradores com certeza não é o caminho para resolver a questão.  

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P.S.: Vale sempre lembrar que a censura é nojenta em qualquer lado. Mesmo considerando o Guilherme Boulos o melhor candidato na disputa eleitoral deste ano, achei deplorável sua tentativa de censurar alguns vídeos do Canal Hipócritas (por mais abominável que eu considere o humor que esse canal pratica).  

30 de setembro de 2018

Enterro de um ateu

___O velho pai de um amigo querido morreu. Eu não costumo ir a enterros, não sou religioso e por vezes acho que o pouco que faço indo pode ser piorado pelo fato de que, de quando em vez, passo mal em eventos assim. No entanto, esse meu amigo tem enfrentado tempos muito duros, perdeu o movimento de uma das pernas, tem tido incontáveis problemas familiares e mazelas do tipo. Achei que valia a pena comparecer para ver como meu amigo estava. 
___Ateu convicto e comunista militante, meu amigo não permitiu nenhum tipo de manifestação religiosa no velório. Nenhum símbolo religioso foi exposto, nem mesmo velas. Haviam apenas pessoas em volta do caixão chorando e, outras, mais afastadas conversando. Mesmo assim, pouco antes do corpo ser sepultado, um funcionário se aproximou perguntando se não queriam mesmo alguém para fazer uma oração antes do enterro. Meu amigo negou e, lentamente, claudicando com as muletas, aproximou-se do caixão. 
___Todos pararam para olhar. Ele se aproximou do pai, olhou-o e começou a falar. Contou sobre sua vida de sindicalista, das greves que participou, das campanhas políticas nas quais panfletou. Eu não conheci o morto, mas pareceu alguém que, se estivesse vivo e saudável, estaria fazendo campanha e também deixando clara e pública sua rejeição a nomes como João Amoedo, Geraldo Alckmin e, claro, Jair Bolsonaro. 
___Quando meu amigo terminou de falar da trajetória e das convicções do pai, os presentes estavam atentos e respeitosos. Foi uma cerimônia bonita. E eu não passei mal. 

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P.S.: Aproveito para indicar o belo conto “Kadish para um dirigente comunista”, de Bernardo Kucinski.