29 de julho de 2022

Confinada

 

            A HQ que mais me divertiu (e me acolheu) no período de isolamento social, foi a Confinada, de TriscilaOliveira e Leandro Assis. Divido aqui meu trecho preferido.

            Depois de ser cancelada virtualmente, Fran joga o seu celular na parede e vai espairecer na fazenda dos pais. Ju, a empregada doméstica que se isolou para servir a patroa, revoltada com tudo que viu e passou nos meses anteriores, pega o celular quebrado e grava um vídeo nas redes sociais da patroa soltando o verbo. Segue o trecho:

 



 

            Fran, dentro da senzala, dizendo “Minha vida deve muito a esse lugar.” sem que a personagem perceba a ironia, é impagável.

30 de junho de 2022

A influência do solo nos passos de dança de salão

     Uso este blog para me divertir e vivo colocando aqui coisas aleatórias que eu produzo. Publico crônicas que me dão vontade de escrever, críticas, indicações diversas, contos rejeitados em outros lugares (porque eu mesmo não vou rejeitar meus contos, no meu blog)... Passei 2020 e 2021 postando videoaulas e podcasts que eu gravei para meus estudantes por conta das aulas online. Sendo assim, se você está aqui porque aprecia qualquer dessas produções minhas, hoje vou linkar uma acadêmica. 

        No fim do mês passado, saiu publicado na revista O Mosaico, da Universidade Estadual do Paraná, um artigo científico que eu escrevi sobre a influência do solo, do chão, no surgimento dos passos de dança de salão. É parte do meu trabalho como historiador de História da Dança. Fica o link do meu "Cuidado onde pisa"

        Boa leitura. 

31 de maio de 2022

Depósitos de gente e a sociedade que fecha os olhos

 

            Desde que Michel Foucault resolveu falar de prisões e de escolas, a associação entre instituições prisionais e educacionais tornou-se frequente. Uma comparação, entretanto, que as pessoas esquecem de fazer é a de que os funcionários de ambas as instituições são colocados para trabalhar em péssimas condições: salários ruins, necessidade de mais de um trabalho para se sustentar, número excessivo de pessoas para tomar conta/ensinar, falta de material... Infelizmente, as prisões, nas condições em que elas estão, não servem para reabilitar. Infelizmente, as escolas, nas condições em que elas estão, não servem para ensinar. Ambas, no entanto, servem como depósito de gente.

            Estou lendo o humano e doce Carcereiros, livro do humano e doce Drauzio Varella. A reflexão do primeiro parágrafo foi apenas uma das que me ocorreu enquanto Drauzio descrevia as péssimas condições de trabalho dos funcionários das prisões.



Em determinado trecho, foi impossível não pensar em algo que acabou de acontecer na nossa triste realidade: a morte de Genivaldo de Jesus Santos, sufocado no porta-malas de uma viatura por policiais rodoviários federais.

“Um dos episódios mais infelizes da história das prisões brasileiras ocorreu em fevereiro de 1989, quando houve um início de motim no 42º Distrito Policial, situado no Parque São Lucas, zona leste de São Paulo, local em que estavam encarcerados 63 homens em xadrezes com capacidade para 32. Com o intuito de puni-los e de evitar que os distúrbios prosseguissem, os policiais enjaularam cerca de cinquenta presos numa cela-forte de um metro por três, no interior da qual jogaram gás lacrimogêneo: dezoito homens morreram asfixiados.” (VARELLA, Drauzio. Carcereiros. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 129.)

            Sabendo que o caso é recente e o quanto isso acaba gerando a revolta das pessoas no momento da desgraça, vale citar outro trecho. Drauzio conta sobre certa vez que precisou atender um doente na “Masmorra”, local da prisão em que ficavam os presos jurados de morte por outros prisioneiros:

Uma das vezes em que fui chamado para ver um doente na Masmorra, o funcionário que me acompanhou pediu que não reparasse na desordem, porque um curto-circuito apagara as luzes do setor e o clima andava tão carregado que precisávamos ficar atentos, preparados para sair depressa ao menor movimento suspeito.

Quando a última porta de acesso foi aberta e a lanterna iluminou a galeria, um exército de ratos cinzentos interrompeu o jantar e bateu em retirada. Três ou quatro deles, tão graúdos quanto ousados, limitaram-se a correr até a parede do fundo, junto à qual se postaram imóveis, com os olhos brilhantes a observar nossos passos. O chão estava forrado de restos de arroz, feijão, pedaços de ovo frito e de linguiça calabresa que extravasaram das quentinhas atiradas para fora das celas em protesto contra a falta de luz e a má qualidade das refeições servidas. O cheiro azedo da comida misturado com o que vinha dos xadrezes era de virar o estômago. Quando me reconheceram, as cabeças esgueiradas através dos guichês começaram a falar ao mesmo tempo. Pediam que eu testemunhasse a insalubridade do recinto, a má qualidade da comida, e que os ajudasse a conseguir transferência para outro presídio. Reivindicavam com tamanha veemência, que parei para ouvi-los e levei tempo para chegar até o doente sufocado por um ataque de asma.

Na saída, fui direto para a sala da diretoria. Impossível não haver vagas no Sistema Penitenciário do estado de São Paulo para aqueles quarenta homens. O diretor, dr. Walter Hoffgen, tirou da gaveta uma pasta com todas as cópias das solicitações feitas à Secretaria nos meses anteriores. Depois acrescentou desanimado:

— As pessoas que morrem de medo de andar na rua vão se preocupar com esses quarenta infelizes ameaçados de morte?

E lamentou a hipocrisia social:

— Depois vem o pessoal da Corregedoria e dos Direitos Humanos cobrar da gente um tratamento mais digno para o sentenciado. Eu também gostaria de melhorar, deixar todo mundo bonito, cada um em sua cela, mas cadê os recursos? No fim, somos nós os responsáveis pelos maus-tratos ou é a sociedade que despeja os bandidos aqui e fecha os olhos? (VARELLA, Drauzio. Carcereiros. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. pp. 133-4.)

Mesmo sabendo o quão difícil fica o clima depois desses trechos e sabendo, também, que a situação no sistema prisional é dantesca, volto à Educação. Nossa sociedade sabe que colocar 40 estudantes em uma sala de aula atrapalha o aprendizado por lá. Parafraseando o dr. Walter Hoffgen: no fim, são os professores os responsáveis pelo ensino deficiente ou é a sociedade que despeja os estudantes na escola e fecha os olhos?

30 de abril de 2022

Tintim e Hergé: aprendendo a deixar o preconceito de lado

     Fui convidado para dar uma palestra sobre Tintim, personagem clássica do belga Hergé. Por conta disso, sentei para ler todos os álbuns. Infelizmente, os primeiros são muito, muito ruins. Ruins e preconceituosos. Recheados dos lugares comuns e preconceitos dos europeus do início do século XX. 

    Veja em Tintim no Congo (1931), o branco, civilizador, colocando os preguiçosos negros para trabalhar (sem trabalhar, é claro):


    Com o passar do tempo, Hergé e sua personagem foram melhorando e os preconceitos diminuindo. Meia década mais tarde, em O Lótus Azul (1936), são os vilões que inferiorizam os não-europeus  e são reprendidos por Tintim:


    Junto com a diminuição dos preconceitos, a qualidade dos livros também melhorou bastante. Ainda bem, ou não existiriam motivos para que fossem quadrinhos tão aclamados. 

31 de março de 2022

Separando a igreja do Estado... Até parece...

 

    Em uma realidade na qual é possível encontrar, no mercado, "Bolo caseiro" industrializado, temos o Presidente da Frente Parlamentar Evangélica dizendo que "Nós, evangélicos, não aceitamos mistura da igreja com o Estado".