29 abril, 2016

Pedido de doações para os estudantes que estão ocupando a sede do CPS

___Ontem, estudantes de escolas técnicas estaduais de São Paulo, protestando contra a falta de merenda, os cortes na Educação e a falta de diálogo com a direção do Centro Paula Souza (autarquia responsável pelas Etecs), ocuparam a sede administrativa do CPS. Como de costume, a Polícia Militar agiu de modo violento (atacando menores e jornalistas). Mesmo assim, os estudantes resistiram e passaram a noite no prédio. 

Ocupação da sede do Centro Paula Souza

___Hoje de manhã, fui à ocupação. Para meu orgulho e felicidade, encontrei vários dos meus alunos por lá. Infelizmente, não parece que o diálogo com o CPS acontecerá logo (e mais vagarosamente ainda devem vir as soluções do incompetente governo estadual). Por conta disso, os estudantes, em assembleia, decidiram pedir algumas doações e empréstimos para quem for daqui da capital paulista e quiser e puder apoiar o movimento. Segue a lista:*  
- absorventes;
- escovas de dentes;
- pó de café;
- coador de café;
- filtro de café;
- liquidificador;
- temperos;
- álcool;
- miojo;
- chocolate em pó;
- pipoca;
- frutas;
- sopa pronta.
___O endereço da sede do Centro Paula Souza é rua dos Andradas, número 140. Perto do metrô Luz.

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* Os estudantes têm acesso apenas a um forno de micro-ondas. 

25 abril, 2016

Emily Dickinson, a casta

___Pego um livro de Emily Dickinson* na biblioteca. A bibliotecária diz que adora poesia, mas acha que "Essa poeta é tão casta que chega a ser sem graça.". Respondo que não conheço Emily Dickinson muito bem, que irei experimentar. 
___Sento no metrô, abro o livro e começo a ler. O terceiro poema é o seguinte:

A mais doce Heresia dada
Ao Homem e à Mulher –
A Mútua Conversão – embora
Só Dois para uma Fé –

Tão ocupados são os Templos –
Tão breve – o Ritual –
A Graça tão inevitável –
Infiel – é faltar –

___Dou um sorriso com o canto dos lábios e continuo a ler. Chego ao quinto poema.

No meu vulcão reserva a Relva
Um tranquilo rincão –
O Acre que um Pássaro queria
Decerto pensarão 

Tão rubra a Brasa lá debaixo
Tão inseguro o chão
Se eu me mostrar o medo invade 
A minha solidão.

___Avanço um tanto no livro e encontro:

Se um Amante é um Pedinte
Indigno é seu joelho 
Se um Amante for o Dono
Outra coisa é 

O que pediu é então Pedinte 
Oh disparidade 
O Pão Celeste vê na Oferta
Uma abjeção 

___Talvez a bibliotecária tenha razão e Emily Dickinson seja muito casta. Casta e religiosa, vale dizer. Talvez eu seja um pervertido. De qualquer modo, quando voltar para devolver o livro, vou indicar o Castro Alves e um poema casto chamado "Adormecida".

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* Alguns poemas, edição bilíngue, com tradução de José Lira. São Paulo: Editora Iluminuras, 2009. 

24 março, 2016

Bombas atômicas: culpa dos japoneses

“Quem controla o passado, controla o futuro; 
quem controla o presente, controla o passado.” 
(George Orwell)

___Sabem aquela máxima de que a História é escrita pelos vencedores? Ela é muito correta, mas, às vezes, fica um pouco descarado que os vencedores querem se pintar de heróis. Um ótimo exemplo disso, é o documentário Hiroshima, da BBC. 

Hiroshima, de Paul Wilmshurst

___Imagens originais ótimas, reconstituições de época aceitáveis; entrevistas interessantes e explicações didáticas. Tudo para ser um documentário, no mínimo, recomendável para estudantes. Se não fosse a tentativa vergonhosa do vencedor tentando reescrever o passado. 
___Uma boa parte do documentário tenta justificar, demonstrar que foi correta a atitude norte-americana de lançar as bombas atômicas. Incansavelmente, o filme repete que foi necessário atacar o Japão daquela forma ou os japoneses não desistiriam e, portanto, acabaria acontecendo um massacre.* 
___Por volta dos 10 minutos, o narrador afirma que “Toda população participaria da batalha contra os invasores. Até estudantes mulheres eram treinadas para atacar soldados americanos com lanças de bambu afiadas.” e repete o mantra “Um massacre parecia inevitável.”. 

“Toda população participaria da batalha contra os invasores. Até estudantes mulheres eram treinadas para atacar soldados americanos com lanças de bambu afiadas.”

___Será que Paul Wilmshurst, o diretor, não tem amigos para falar sobre a bizarrice que ele estava fazendo? Será que ninguém nem ao menos tirou um sarrinho dizendo “Oh, meu Deus! Menininhas com lanças de bambu! Vamos jogar bombas atômicas nesse país!”. 
___No fim do documentário tenta-se, mais ainda, eximir os vencedores da culpa: “A doença da radiação tornou-se o legado mais perturbador da bomba. Cientistas americanos sempre souberam que a bomba produziria radiação, mas a escala dos efeitos secundários veio como uma surpresa chocante.” (1º24’).
___Pior ainda, o penúltimo entrevistado do documentário, o tenente naval George Elsey, fala, com todas as letras, “A decisão final que resultou em duas bombas, Hiroshima e Nagasaki, não foi tomada em Potsdam. Não foi tomada por Truman. Foi tomada pelos militares japoneses quando rejeitaram a oportunidade de rendição das suas forças armadas e salvar ainda mais vidas.” (1º26’10”). Viram, leitores? Tudo culpa dos japoneses! Eles devem mesmo ter merecido aquelas bombas atômicas... 
___Seria bem mais digno fazer o documentário e relatar o que aconteceu, sem justificar. Claro, muito mais válido seria deixar claro o crime contra a humanidade que foi jogar duas bombas atômicas contra um país, mas se a escolha do diretor é defender os vencedores, então só relate o processo histórico, o fim da guerra e ponto. Não era necessário ficar cheio de malabarismos para demonstrar que lançar as bombas era a solução mais “humanitária”. 

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P.S.: Depois que eu já havia visto o documentário da BBC e estava pensando em escrever este texto, ouvi o especial do Scicast sobre Hiroshima e Nagasaki. Apesar de, muitas vezes, o pessoal Scicast gravar ótimos podcasts, dessa vez os participantes escorregaram: viram o documentário da BBC e, de maneira irrefletida, compraram completamente o discurso de que era necessário atacar o Japão com bombas atômicas. Praticamente uma demonstração de como que os vencedores conseguem escrever a História. 

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* Como se lançar duas bombas atômicas em cidades densamente povoadas já não fosse um massacre.


13 março, 2016

Imagina...

Enriqueta, por Liniers.

___Ler um livro e sentir sede enquanto a personagem principal peregrina no deserto. Jogar RPG e ficar assustado em um corredor escuro. Assistir uma aula de História praticamente sentindo o fedor cheiro da época. Montar uma coreografia de dança parado, apenas ouvindo a música repetidas vezes. 
___A imaginação é, para mim, uma dádiva maravilhosa. Não é à toa que quando alguém me agradece por algo, ao invés de responder com o clássico “De nada.”, prefiro dizer:
___– Imagina...
___Parece bem mais doce. Como se eu estivesse desejando algo de bom para a pessoa. E, para falar a verdade, realmente estou. 
___Por isso mesmo, não pude deixar de sorrir (e ter vontade de escrever esta pequena crônica) quando, em meio à leitura do Quincas Borba, de Machado de Assis, encontrei um meigo “No dia seguinte, Sofia acordou cedo, ao som dos trilos da passarada de casa, que parecia dar-lhe um recado de alguém. Deixou-se estar na cama, e fechou os olhos para ver melhor.”.

Quincas Borba, de Machado de Assis (folha de rosto da primeira edição)

25 fevereiro, 2016

Fixação

___Sala dos professores. Um professor de Geografia, após os bons dias iniciais, pergunta:
___– Ulisses, é verdade que você trabalha com dança?
___– Sim. É verdade. 
___– Ah! Pensei que você fosse homem! –, fala, batendo nas minhas costas, meio que dando risada. 
___Dou um sorriso amarelo e saio para pegar água, pensando “E eu pensei que você não fosse homofóbico...”.  
___Animado, o geógrafo me persegue e continua a conversa:
___– Me fala, você tem que usar collant?
___– Só quando vou combater o crime. 
___– Ha, ha. Sério, você usa collant?
___Respiro fundo e respondo: 
___– Não. Eu pratico dança de salão. Costumo dançar com roupas comuns, mais ou menos com as mesmas que venho dar aulas de História. 
___– Ah bom... Puxa, achei que você dançava ballet. –, acrescenta o geógrafo, parecendo realmente aliviado.
___– Eu não danço ballet. Mas, dancei por dois anos, para melhorar minha postura como dançarino de dança de salão. 
___– ...
___O silêncio parece acabar com o papo. Eu, que, desde o início, não estava querendo continuar com aquela conversa, termino de encher minha garrafa de água e volto para o meu canto inicial. Pego um livro. Antes que eu conseguisse abri-lo, o professor de Geografia se aproxima novamente e pergunta:
___– Mas... Você usava collant?

19 fevereiro, 2016

Escravinhos de estimação

Todos os animais são iguais,
mas alguns são mais iguais
que os outros
(George Orwell, A revolução dos bichos)

___A capa do número 97 do Le Monde Diplomatique Brasil, publicada em julho do ano passado, serviu como base para várias atividades com meus alunos. A capa, é essa: 

Paródia dO Jantar, de Jean-Baptiste Debret, feita pelo Le Monde Diplomatique Brasil

___Caso alguém não conheça, ela é uma paródia dO Jantar, de Jean-Baptiste Debret, desenhado na primeira metade do século XIX.

O Jantar, de Jean-Baptiste Debret

___A análise das imagens foi uma daquelas gratas surpresas de sala de aula, com todos os alunos interessados. Mais digno de nota ainda foi que, em todas as salas, sempre havia um grupo de alunos interessado no detalhe das crianças/dos cachorros, na parte inferior da imagem. 

Detalhe dO Jantar, de Jean-Baptiste Debret

Detalhe da paródia dO Jantar, de Jean-Baptiste Debret, feita pelo Le Monde Diplomatique Brasil

___Alguns alunos disseram que foi uma ótima comparação. Outros, mesmo gostando da imagem do Le Monde, acharam que foi um exagero. Alguns, por fim, ressaltaram que foi uma comparação de mau gosto. Como professor, adorei ver todas essas reações. 
___As reações, positivas ou negativas, foram muito interessantes porque os estudantes quase sempre consideravam o detalhe uma simples comparação, um paralelo entre o século XIX escravocrata e a elite do século XXI. O fato, entretanto, é que o detalhe é mais do que um simples paralelo. 
___Debret, no seu livro Viagem pitoresca e histórica ao Brasil, afirma que as crianças cativas viviam, até os seis anos, em “igualdade familiar”*. Vale lembrar que era uma igualdade bem relativa, já que não eram vestidas como as crianças brancas e, na hora de dormir, as crianças escravas iam dormir com os outros escravos ou em algum canto qualquer da casa, não em uma cama própria. 
___Para não me pautar apenas no comentário do Debret, creio que vale dar voz a alguém com mais gabarito. No artigo “O cotidiano da criança livre no Brasil entre a Colônia e o Império”, Mary Del Priore afirma que “Os mimos em torno da criança pequena estendiam-se aos negrinhos escravos ou forros vistos por vários viajantes estrangeiros nos braços de suas senhoras ou engatinhando em suas camarinhas. Brincava-se com crianças pequenas como se brincava com animaizinhos de estimação.”** (grifos meus).
___Ter crianças cativas tratadas como animais de estimação é, obviamente, horrível. Mais medonho ainda é saber que, pouco depois dos seis anos, assim que a criança se mostrava capaz de executar tarefas, qualquer tipo de mimo dedicado a um bichinho de casa desaparecia. Restava apenas a exploração. 

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P.S.: Para quem se interessa pelo assunto, recomendo, também o  artigo “Crianças escravas, crianças dos escravos”, de José Roberto de Góes e Manolo Florentino.*** 


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* DEBRET, Jean-Baptiste, Viagem pitoresca e histórica ao Brasil. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp, 1978. p. 195.
** PRIORE, Mary Del, “O cotidiano da criança livre no Brasil entre a Colônia e o Império”. In.: PRIORE, Mary Del (org.), História das Crianças no Brasil. São Paulo: Editora Contexto, 2007. p. 96. 
*** GÓES, José R. e FLORENTINO, Manolo, “Crianças escravas, crianças dos escravos”. In.: PRIORE, Mary Del (org.), História das Crianças no Brasil. São Paulo: Editora Contexto, 2007. pp. 177-191.

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