28 fevereiro, 2017

Efeito do “Escola sem Partido”, relato de caso

___2016 foi um ano em que parte das discussões sobre Educação estiveram envoltas nas conversas sobre o projeto “Escola Sem Partido”. Tenho dúvidas se os debates são ingênuos ou falsos. Ingênuos porque é completamente impossível que se ensine certos assuntos sem escolher um lado. Falsos porque o caráter direitista, homofóbico, conservador e religioso do movimento e do projeto “Escola Sem Partido” deixa bem claro como esse debate é partidário.
___O objetivo deste texto, entretanto, não é esmiuçar o projeto.* Pretendo, simplesmente, relatar um caso pessoal. 

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___Ano passado, fui o professor de História do 1º ano do Ensino Médio Integrado ao Técnico em Informática, da Escola Técnica Estadual de São Paulo. Mandei, como leitura para as férias de julho, o livro Questão agrária no Brasil, de João Pedro Stédile. Caso alguém não tenha reconhecido, o Stédile é um membro da direção do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Por conta disso, um pai, cego pelo seu ódio, entrou com uma reclamação formal contra mim na ouvidoria da instituição de ensino. Bem próximo do modus operandi aconselhado por Miguel Nagib, criador do “Escola sem Partido”. 
___Apesar de um maluco ficar gritando “Vai para Cuba!” cada vez que eu entro na escola, nada aconteceu. A leitura estava muito bem inserida no assunto do curso. 
___Estudantes do 1º ano do Ensino Médio, no terceiro bimestre, costumam aprender sobre Roma Antiga e, portanto, sobre os Irmãos Graco. Dissecar, com os estudantes, um livro sobre a questão agrária no Brasil já seria rico. Fazer isso ao mesmo tempo em que se aprende sobre a luta pela reforma agrária, empreendida pelos tribunos da plebe Tibério e Caio Graco, no século II AEC, é muito mais enriquecedor. Só não é capaz de ver isso alguém que não sabe sobre o conteúdo do curso ou um maluco cego pelo seu DDDA (Distúrbio Direitista de Déficit de Atenção).
___Vale acrescentar, o mesmo pai que reclamou na ouvidoria quando escolhi um livro de João Pedro Stédile para o segundo semestre, não se manifestou quando escolhi, para o primeiro, um livro de Platão, o Apologia de Sócrates

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___Pessoalmente, recomendo o diálogo. Não gosta da leitura que o professor está dando para o seu filho? Converse com o professor. Converse com o seu filho. Existe uma boa chance que você consiga melhores resultados e aprenda mais com isso do que ladrando para a ouvidoria ou ameaçando os outros com processos

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* Algo já muito bem feito pelo Pirula

31 janeiro, 2017

"Ei, tira a mão daí!" – Como a forma de se segurar o par na dança de salão foi se modificando com o passar do tempo

___Quando se olha um casal dançando, dificilmente se imagina como os padrões morais das sociedades anteriores influenciaram centenas de detalhes daquela aproximação. Onde a mão deve ficar, quão perto um casal dança, se os rostos podem se encontrar, parecem apenas pequenos detalhes estéticos, mas foram caminhos tortuosos pelos quais os pares tiveram de caminhar ao longo dos séculos. Muito se pensou, muito se testou, muito se ousou para que toques – hoje – simples pudessem ser praticados.
___Só o fato de um casal, que pouco se conhecia, ter a chance de ficar juntos, inacessíveis aos ouvidos familiares, durante alguns minutos já foi bastante mal-visto no século XVIII. Não muito aceita pelos setores mais tradicionais da sociedade, a valsa concedeu, aos seus praticantes, uma liberdade praticamente inimaginável. Corpos que se encostavam, braço direito do cavalheiro enlaçando a cintura da dama, mas com rostos que se mantinham a uma distância respeitosa (era bom não esquecer que os parentes estavam no mesmo salão e podiam ver o que acontecia).
___Aos poucos, aquele tipo de atividade foi sendo cada vez mais aceita. Não é à toa que grande parte das danças de salão que foram praticadas durante os séculos XVIII e XIX acabavam por seguir os mesmos padrões. Porém, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, e as transformações pelas quais o mundo passa não deixam de influenciar o que se praticava em um salão de baile.
___O século XX, já diria o historiador Eric Hobsbawm, começa com a I Guerra Mundial (1914-18). Claro que o contato de uma geração com os horrores da guerra começou a modificar a forma de se pensar. No entanto, mais do que isso, as roupas também mudam absurdamente. As mulheres adquirem uma liberdade no vestir impossível no século anterior. Para substituir os homens que estavam lutando na Guerra, muitas mulheres tiveram de trabalhar na parte pesada da produção fabril. Tal função exigia muito do corpo, necessitava de movimentos livres –, algo completamente incongruente com vestidos de camadas e espartilhos. Não só as roupas ganharam um caráter mais leve, como, também, o uso do sutiã começou a ser disseminado.*
___É nesse contexto que surge o Lindy Hop, dança mais ágil e pulada, com giros, movimentos rápidos de pernas e até passos aéreos. Porém, a liberdade de movimentos que as roupas passaram a permitir, também trouxeram mudanças na maneira de segurar o par. Com o grosso espartilho por baixo das roupas, um cavalheiro segurando a cintura da dama não sentia mais do que um monte de tecidos nas mãos. O uso de roupas leves e sutiã transformou aquele enlace tradicional da dança em algo despudorado. Segurando a cintura da dama, o homem quase sentia sua pele, podia sentir o calor do seu corpo – “Ei, tira a mão daí!”.
___Não só os casais acabaram tendo de ficar mais distantes do seu par, como, também, a mão do cavalheiro, antes na cintura, sobe para o alto das costas, pouco abaixo da escápula da dama. Essa mudança não atinge apenas o Lindy Hop; grande parte dos estilos de dança que vieram depois dele acabaram por seguir os mesmo padrões. Vide, por exemplo, a salsa.
___Claro que esses são apenas alguns poucos elementos de como as sociedades e suas épocas influenciaram uma atividade lúdica e artística. Mesmo assim, pode ser uma pequena base para se questionar sobre o que é ou não imoral, despudorado e desrespeitoso em danças.

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* Cf.: P. GHIRALDELLI JUNIOR. A filosofia como crítica da cultura. São Paulo: Cortez, 2014. Cap. 7. 

31 dezembro, 2016

Podcast, cirandas e a ditadura da direita

___É maravilhoso começar a ler um livro e, no meio da obra, perceber que aquela leitura está valendo cada minuto dedicado a ela. Mais fantástico ainda é pegar outro livro do mesmo autor e descobrir que as outras obras também valem a pena. É mais ou menos assim que eu me sinto com o podcast Naruhodo, do Altay de Souza e do Ken Fujioka. Cada episódio que eu escuto parece um tempo muito bem empregado (ainda mais porque eu lavo a louça enquanto os ouço).
___Cada episódio do Naruhodo tem em média uns 15 minutos (tá bem... nem sempre dá tempo de acabar de lavar a louça) e os temas são muito variados: enigmas, curiosidades, questionar o senso comum e (os meus preferidos) corrigir o modo como a imprensa noticia artigos científicos. 
___Se você está aqui no meu blog porque gosta de ler o que eu escrevo, consigo matar duas galinhas com uma cajadada só: indico um ótimo podcast e ainda dou a chance de que você ouça uma parte de mais um textinho que eu escrevi. Mandei uma pergunta para o Naruhodo e ela foi muito bem recebida e respondida. 
___Portanto, para saber se cirandas infantis giram todas para o mesmo lado, clique aqui. Espero que você aprecie tanto quanto eu. 

30 novembro, 2016

Questão de História: 2º Reinado, proclamação da República. Meu Monarca Favorito.

___Em vida de professor, final de ano é sempre uma correria de terminar matérias, corrigir provas, participar de reuniões, resolver vestibulares, ouvir alunos chorando e sofrer ameaças. Entre as atividades, está a de formular questões para provas e simulados. Claro, sempre é possível selecionar questões que existem por aí, mas, sendo possível, gosto de criar as minhas. 
___Como auxílio para a criação, a internet sempre ajuda muito, fornecendo livros, arrumando figuras, permit [Olha, um vídeo de gatinho....................... Opa... hora de voltar a trabalhar.]. Entre as ondas da internet, encontrei um blog com tirinhas sobre dom Pedro II, chamado Meu Monarca Favorito. As tirinhas são fofas, com um apreço doce, quase ingênuo sobre a monarquia brasileira, e que me permitiu algumas boas questões. Vai um exemplo. 

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___Meu Monarca Favorito, tirinha do cartunista Tiburcio.
Meu Monarca Favorito, por Tiburcio.
___É possível afirmar que a proclamação da república brasileira, em 15 de novembro de 1889, não foi uma revolução, pois
a) não aconteceu uma luta armada.
b) não teve as ideias da Revolução Francesa como base. 
c) com exceção da esfera política, quase nada mudou na sociedade brasileira. 
d) ela foi proclamada pelo filho do rei de Portugal.
e) mesmo com as ideias de liberdade e igualdade, manteve a escravidão.

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___Caso seja necessária uma explicação, vamos à resolução. 
___Uma revolução é uma transformação, uma reforma, uma grande mudança. Como é possível perceber pela tirinha (e conhecendo um tanto da história da república brasileira), a mudança da República não foi exatamente uma mudança tão grande assim. Portanto, a melhor resposta, a que combina com os fatos históricos e com a tirinha, seria a letra “C”, que “É possível afirmar que a proclamação da república, em 15 de novembro de 1889, não foi uma revolução, pois, com exceção da esfera política, quase nada mudou na sociedade brasileira.”. 
___Caso alguém precise de mais algum comentário sobre a questão, é só escrever nos comentários.

30 outubro, 2016

Dona Aranha

___Meu sobrinho, com 2 anos e tanto, adora a música da "Dona Aranha":


A Dona Aranha subiu pela parede...
Veio a chuva forte e a derrubou.

___Brincando um pouco com o meu cabelo, minha esposa desenhou uma teia de aranha.

Teia de aranha - corte de cabelo

___Fui todo contente mostrar o corte para o meu sobrinho. Ele olhou, olhou e quis saber: "Cadê aranha?". 
___Não tem aranha e eu não tenho cabelo o bastante para prender uma. Talvez tenha vindo "a chuva forte e a derrubou.". 

30 setembro, 2016

Convivendo na Cidade

___Ao escrever “O bonde passa cheio de pernas: / pernas brancas pretas amarelas. / Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração. / Porém meus olhos / não perguntam nada.”, Carlos Drummond de Andrade expressou o assombro de se olhar o caos de uma cidade grande. Muitas pessoas –, muitas pernas – e pouco contato humano. 
___Essa visão um tanto melancólica da vida em cidade não é incomum. Algo bastante compreensível: é fácil sentir-se só em meio a uma multidão, ser empurrado e ignorado em um bonde ônibus lotado. Em outras palavras, é fácil olhar para a vida urbana de maneira triste, “comovido como o diabo.”. 

Tira de Rafael Sica

___Por isso mesmo, foi maravilhoso assistir o espetáculo Mapas Urbanos, da Caleidos Cia. de Dança, dirigido por  Isabel Marques e codirigido por Fábio Brazil. Um lindo trabalho de dança e comunhão com o público, que tem como foco a vida na cidade. 

Mapas Urbanos

___Dividido em 5 cenas bem distintas, o público se vê, o tempo todo, interpretando a mensagem passada pelos dançarinos e participando. Com o passar da peça, cada vez mais clara vai ficando a ideia de boa convivência no ambiente urbano, seja permitindo que uma faixa de pedestres seja um lugar seguro (e, portanto, gostoso para brincadeiras), seja dividindo guarda-chuvas (sempre em menor número do que as pessoas) ou participando de uma manifestação (sem violência policial). 

Mapas Urbanos

___A mensagem de convivência harmônica que a peça passa e a própria participação cada vez mais natural do público faz tudo parecer doce. Chega a ser difícil sair da peça sem pensar no quanto é importante dividir o espaço urbano. Não foi à toa que, na saída do espetáculo, eu consegui arrumar uma carona simplesmente pedindo entre as pessoas da plateia. Mesmo sem lua e sem conhaque. Poesia pura. 

Tira de Liniers

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P.S.: Então, depois de escrever um texto elogiando o Mapas Urbanos, faço um post scriptum anticlimático: eu fui ver o espetáculo na última semana em cartaz. Por enquanto, não dá para assistir.
P.P.S.: Por outro lado, a Caleidos Cia. de Dança, neste ano, está revisitando seu repertório (exatamente o caso do Mapas Urbanos, que é de 2011). Em outubro, eles vão apresentar Mairto, de 2015. Em novembro e dezembro, dois espetáculos inéditos. Informem-se pelo site

31 agosto, 2016

Patriotismo... e sangue

___Em meio a uma competição das olimpíadas, aparece um argentino competindo. As pessoas, em frente à televisão, fazem comentários do tipo:
___– O brasileiro pode até perder, mas é bom que fique na frente desse argentino. 
___– É bom que todo mundo fique na frente do argentino. 
___Uma das pessoas levanta a voz e diz:
___– Parem de falar isso! Eu tenho sangue argentino!
___– Sério?
___– Claro. No meu para-choques. Atropelei um hoje de manhã. 
___Todos caem na gargalhada. 

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___Desde que o meu sobrinho nasceu, a minha irmã tem a mania (que eu adoro) de compartilhar com a família as coisas fofas que ele faz. Recentemente, por conta das olimpíadas, minha irmã compartilhou um vídeo com o meu sobrinho, em pé, com a mão no peito, enquanto o hino nacional tocava na televisão. Todo mundo achou a coisa mais fofa do universo e, efusivamente, elogiaram a professora da creche: “Tá ensinando direitinho!”. Sinceramente, achei horrível.  
___É correto ensinar um menininho de dois anos e meio a “portar-se corretamente” durante o hino? A honrar a pátria? A amar o seu país? A pobre criança não é capaz de discernir perfeitamente o que é certo e o que é errado e, nesse estágio do desenvolvimento, já sofre essa imensa lavagem cerebral. Não consigo achar bonito. Acho medonho. 
___Mais ainda, como minha irmã (e o restante da minha família) pode achar correto ensinar – em uma fase em que a criança não questiona nada – todo esse amor à pátria? Não passa pela cabeça deles que crescer nacionalista pode significar, no futuro, lutar e morrer em uma guerra? 
___Mesmo sem apelar para um exemplo tão sangrento, é exatamente essa forma irrefletida de patriotismo que leva as pessoas a rejeitarem os argentinos. Ou algum bobo que xinga as pessoas da Argentina sabem explicar o motivo da rixa? 
___Ainda é cedo, mas não tenham dúvidas que, assim que for possível, vou conversar tudo isso com o meu sobrinho. E, se ele quiser escolher ser patriota, que seja. Desde que ele escolha, não os outros. 

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