30 de abril de 2019

Mudando a perspectiva

Aviso: Texto com um pequeno spoiler de Game of Thrones

___As imagens com brincadeiras de perspectivas fascinam as pessoas pelo menos desde a época do Renascimento. Não é à toa que essa forma de se produzir imagens afeta a produção iconográfica até hoje, seja com pinturas, desenhos infantis ou jogos de videogames. E existem os mais interessantes caminhos para se brincar com isso. Quem sabe, em um dia de bom humor, eu não coloco um tapete assim no corredor do meu apartamento:


___Trabalhar com perspectivas pode servir para fazer uma imagem impressionante. 


___Ou dar uma indireta sobre o caminho que uma governante está seguindo. 
___Por vezes, uma pintura com um fundo simples e preto pode levar o observador a esquecer a ideia de perspectiva. Um exemplo disso é a Moça com o Brinco de Pérola, pintura de 1665, de Johannes Vermeer.


___No entanto, mesmo com o fundo preto, a perspectiva está lá. Não entre a moça e o fundo, mas no próprio rosto da moça com o brinco de pérola. Observe a imagem e veja de onde vem a luz. Perceba, então, que a perspectiva faz com que pareça que parte do rosto da moça está mais à frente, tanto que recebe luz. Por seu lado, a outra parte do rosto parece estar mais para trás, por isso mesmo aparece mais escura, pois a luz não a atinge. 

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___Grande parte disso veio à minha cabeça ao descer as escadas da estação Tiradentes do metrô paulistano. Lá está acontecendo, até dia 3 de junho, a exposição Gente de papel. Nela, estão expostas esculturas de papel machê da artista Madalena Marques. A minha preferida é exatamente a Moça com o Brinco de Pérola
___Quando se desce as escadas para a plataforma do metrô, na linha dos olhos, bem ao fundo, fica a Moça com o Brinco de Pérola recebendo a mesma luz do quadro, com o fundo preto e tudo. É uma experiência de perspectiva bem bacana. A obra fica ainda mais interessante quando se visita a exposição e se vê a escultura de perto. Madalena Marques pensou nessa questão da luz atingindo parte do rosto que eu falei alguns parágrafos acima. Só que, como se trata de uma escultura e não de uma pintura, é possível ver a parte não iluminada do rosto da Moça com o Brinco de Pérola. E acaba se ficando com uma sensação de estranhamento e deslumbramento. Recomendo.

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P.S.: Não é porque eu gostei da exposição que ela não merece uma crítica. Todo o cuidado para fazer um trabalho que lembrasse (e desvendasse) os detalhes do quadro original da Moça com o Lenço Azul na Cabeça Brinco de Pérola que eu elogiei, acabou não sendo o mesmo em todas as esculturas. A que mais me incomodou foi a escultura representando uma das personagens da pintura Samba, do Di Cavalcanti. A versão da exposição é bem mais moralista. 

Madalena Marques / Di Cavalcanti

Serviço:
Exposição: Gente de Papel
Artista: Madalena Marques
Curadoria: Ana Cláudia Cermaria e João Paulo Berto
Período: 7 de abril a 3 de junho de 2019
Local: Sala MAS/Metrô Tiradentes 
Estação Tiradentes do Metrô – São Paulo – SP
Horários: Terça-feira a domingo, das 9 às 17h
Ingresso: Grátis aos usuários do Metrô


31 de março de 2019

Manifestação a favor da "Revolução" de 1964

___Na tarde deste domingo, 31 de março de 2019, eu estava passeando com os meus cachorros pela rua. Um homem, com a camisa da seleção brasileira, chega perto de mim e pergunta:
___– Oi. Você sabe onde está acontecendo a manifestação a favor da Revolução de 1964
___Olho espantado e respondo, com toda sinceridade:
___– Nem imagino. Tenta virar ali à direita. 

28 de fevereiro de 2019

O rosnado da divindade

___O herói Agamemnon comandava o cerco grego à Tróia. No nono ano da guerra, Crises, sacerdote de Apolo, foi até ele, de maneira extremamente respeitosa, oferecendo o pagamento de um resgate por sua filha. Cego pela própria arrogância, sentindo-se poderoso por comandar o exército grego, Agamemnon disse: 
___– Velho, dê o fora daqui! Estou pouco me fodendo que você está carregando esse cetro com os símbolos de Apolo. Escravizei a sua filha e vou levá-la para minha terra, onde ela ficará até o fim da vida. Vou estuprá-la e usar dos seus serviços ao meu bel prazer. Suma daqui antes que eu mate você.*
___É fácil ver que a abordagem do comandante grego não foi nada delicada. Existem tantos pontos errados na atitude de Agamemnon que fica até difícil de pontuar. Entretanto, para os gregos da Antiguidade, o exagero esteve no desrespeito ao deus Apolo. Não foi à toa que Apolo mandou uma praga para assolar os exércitos gregos. 

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___Henrique Stein Sciascio, o vice-prefeito de Sumaré, interior de São Paulo, resolveu tirar os radares móveis da cidade. Para começar o “serviço”, Henrique, com uma delicadeza que daria inveja em Agamemnon, resolveu postar em suas redes sociais um vídeo em que aparece chutando um radar da cidade. 


___Por conta de algumas críticas que recebeu, Henrique e o prefeito de Sumaré gravaram um vídeo dizendo que o bronco se excedeu. Mas, advogam, os radares fazem uma fiscalização “injusta e imoral”. Até mesmo um jornalista de Campinas, ao apresentar a notícia do vice-prefeito agindo como um babuíno, aproveita para criticar “a indústria da multa”. 
___O que toda essa gente parece não perceber é que injusto e imoral são motoristas dirigirem acima da velocidade de uma via e colocar a vida de mais pessoas em risco. Castigar um motorista infrator aplicando uma multa, não é errado. Criminoso é lutar contra isso.** 
___A arrogância de Agamemnon custou a vida de diversos soldados gregos. A arrogância do vice-prefeito de Sumaré (e de idiotas que pensam como ele) custa a vida de muita gente, todo dia. 

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* Homero, Ilíada. Canto I, versos 26-32. Tradução completamente livre. 
** Inclusive, também são criminosas as pessoas escrotas que usam aplicativos para avisar quando existe um radar para, só então, diminuir a velocidade. 


31 de janeiro de 2019

Menos aulas de História: “Está tudo normal...”


___Leciono História para os alunos da Escola Técnica de São Paulo desde 2009. Nos meus primeiros anos de Etesp, eu ensinei para os estudantes do Ensino Médio, que tinham aulas apenas no período matutino. Obviamente, as aulas de História eram dadas para os três anos do Ensino Médio. Apenas duas aulas de História por semana, mas, mesmo assim, aulas de História nos três anos.
___Nos últimos anos, o Centro Paula Souza, a autarquia do governo do estado que manda nas escolas técnicas, começou a abolir o Ensino Médio simples nas escolas técnicas. Comecei, então, a dar aula para as turmas do ETIM: Ensino Médio Integrado ao Técnico. Meus estudantes passaram a ter aula de manhã e à tarde, mas continuavam a ter aulas de História nos três anos do Ensino Médio (Integrado ao Técnico). Apenas duas aulas de História por semana, mas, mesmo assim, aulas de História nos três anos.
___Na última reunião pedagógica a direção anunciou que o ETIM de Informática seria substituído pelo de Desenvolvimento de Sistemas. “Qual a diferença?”, algum incauto perguntou. “Ah...”, responderam aparentando completa normalidade, “é só uma atualização do curso de Informática. Vai continuar um Ensino Médio junto com o Técnico, com três anos e tudo. Só vão modificar algumas coisinhas.”. Entre as “coisinhas” que vão modificar está o ponto que as aulas de História só serão dadas nos dois primeiros anos. Apenas duas aulas de História por semana, mas, agora, aulas de História somente por dois anos.
___Alguém acha que isso vai beneficiar os estudantes? Que vai fazer bem para a formação deles? Que isso é bom para a sociedade?

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___A proposta de lei do “Escola sem Partido” é um dos temas que mais tem afetado as instituições de ensino nos últimos anos. Tenho duras restrições a esse projeto que apenas finge não ter partido, porém não é isso que quero comentar neste texto. Como o próprio site deles diz “O Programa Escola sem Partido é uma proposta de lei que torna obrigatória a afixação em todas as salas de aula do ensino fundamental e médio de um cartaz com o seguinte conteúdo:”


___Quero atentar para uma parte do terceiro item. “O Professor não... incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos e passeatas.”. Portanto, para os defensores do “Escola sem Partido”, eu não devo, talvez nem aqui no meu blog, incitar meus alunos a se manifestarem contra a bizarrice que vai ser extirpar um ano completo de aulas de História da formação deles. 


___Gostaria muito de ouvir quem pode achar a eliminação de aulas de História algo positivo. Agora, se ninguém achar que isso é bom, penso que talvez seja mais do que hora de começar a incitar os estudantes a participarem “de manifestações, atos públicos e passeatas.”. 

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P.S.: Caso alguém precise de algum tipo de justificativa para se estudar História, recomendo um vídeo do Oldimar Cardoso:


31 de dezembro de 2018

A necessidade das leis trabalhistas: relato pessoal

___No final de um ano em que deputados, governadores e até o presidente eleito vociferam contra os direitos trabalhistas, achei que valia a pena contar um pequeno caso pessoal. Isso não significa, claro, que minha história encerra a questão ou algo do tipo, mas vale para se refletir um pouco mais sobre o assunto. 

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___De meados de 2008 até dezembro de 2017, eu ensinei História em um colégio particular chamado Rumo. Tratava-se de uma escola bastante boa, com muito mais pontos positivos do que negativos. O colégio oferecia plantões de dúvidas, suporte para os professores, atividades extras e contava com alguns funcionários fabulosos, que realmente se preocupavam com a educação dos alunos. 
___O dono do Rumo costumava ser muito presente. Ex-professor de Física, ele sempre aparecia na sala dos professores e conversava com todos sobre os mais variados temas. Entre seus assuntos preferidos, no entanto, figuravam os direitos trabalhistas. Ou, sendo mais claro, o problema, o empecilho que eram os direitos trabalhistas.
___Assim como um deputado recentemente eleito, meu ex-chefe dizia o quanto os direitos trabalhistas atravancavam as relações entre patrões e empregados, como era necessário pagar um monte de impostos, que ter empregados no Brasil era muito caro, que falta fazia não ser chamado mais de sinhô, que isso não era o verdadeiro capitalismo, que diversos direitos pagos a empregados não faziam sentido, que patrões e empregados deveriam negociar livremente e coisas do tipo. Uma ou outra vez cheguei a responder, citando exemplos históricos de como a situação dos trabalhadores era infinitamente mais precária antes desses direitos, mas, vale lembrar, ele era meu chefe. Ficar discordando do patrão não é das atividades mais salutares. Então, na maior parte das vezes, eu simplesmente ouvia, meneava com a cabeça ou respondia com grunhidos e monossílabos. 
___Opiniões do meu ex-chefe à parte, o colégio estava indo por um bom caminho. Tanto que, no final de 2016, meu ex-patrão resolveu ampliá-lo. Literalmente, ele dobrou o espaço físico da escola com uma enorme reforma. O problema é que a reforma custou mais caro do que ele pensava e, no final de 2017, meu ex-chefe estava completamente endividado. Se dobrar o tamanho do colégio tivesse dado certo, os lucros, como bem prega o capitalismo, seriam todos do meu ex-chefe. Como as coisas não deram certo, o prejuízo foi dividido entre todos. Como bem prega o capitalismo?
___Em dezembro de 2017, meu chefe anunciou a falência da escola e não pagou o que devia para quase ninguém. Muitos funcionários foram pegos de calças curtas e contas longas. Acabaram tendo um final de 2017 dificílimo. Além disso, saindo à procura de emprego só a partir da desagradável surpresa, o 2018 de muitos dos meus ex-colegas de trabalho também não foi dos mais fáceis. 
___Férias, 13º, a grana que viria com uma demissão e até algumas parcelas do FGTS nunca pingaram na minha conta. Os adversários dos direitos trabalhistas talvez olhem com desprezo para essa minha reclamação. O ponto é que nem os últimos salários de meses completamente trabalhados foram pagos. O único dinheiro que eu vi foi do FGTS, o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, que foi depositado durante os vários anos em que trabalhei no colégio. 
___Em suma, meu ex-chefe criticava os direitos trabalhistas, mas quando ele não conseguiu pagar nem o salário dos seus funcionários, foi apenas um direito trabalhista que ajudou financeiramente os trabalhadores caloteados. E, vale lembrar, não foram os direitos trabalhistas que fizeram o colégio falir, foi um erro de cálculo dele. Meu ex-patrão pode até não apreciar minhas justificativas históricas para a necessidade dos direitos trabalhistas, mas, para mim, ele só ajudou a demonstrar a necessidade desses direitos. 

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P.S.: Eu não processei meu ex-chefe, mas outros professores fizeram. O resultado foi esse aqui:

Telegrama - processo 1

Na qualidade de advogada nos autos da reclamação trabalhista movida em 2018 contra Rumo Vestibulares LTDA ... [este telegrama] tem a presente finalidade de informar-lhe que estamos com dificuldade em dar seguimento à execução de seu processo devido a não localização de bens da empresa e de seus sócios.

___E, como uma demonstração de que a situação dos trabalhadores frente aos patrões só tem se tornado mais dura, alguns parágrafos depois a advogada escreve:

Telegrama - processo 2

Ademais, cumpre informar que com o advento da Lei 13.467/2017, reforma trabalhista, se dentro de 2 anos, do despacho do juiz que solicita indicação de bens do executado, não for apresentado nenhum bem será decretado a prescrição intercorrente, ou seja, o processo não poderá mais ser executado.

___Resumindo: o trabalhador foi à empresa e trabalhou, fez a sua parte. O patrão não pagou, não fez a sua parte, e, por conta da mudança das leis em 2017, em apenas dois anos do fim do processo ele estará livre e perdoado pela lei brasileira. Só mesmo alguém muito escroto para defender esse tipo de coisa. 
P.P.S.: Para não ficar apenas em um relato pessoal, recomendo o texto “Leis trabalhistas, pra quê?”, do meu querido Alex Castro