14 outubro, 2014

Todo o estado de São Paulo foi ocupado pelo PSDB

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___As histórias do Asterix costumam começar da mesma forma: um mapa do oeste da Europa, com a águia romana encravada no solo. No canto superior esquerdo, uma lupa ajuda a mostrar um pequeno trecho do mapa. Junto ao desenho, alguma variação dos seguintes dizeres: “Toda a Gália foi ocupada pelos romanos... Toda? Não! Uma pequena aldeia, habitada por irredutíveis gauleses, ainda resiste ao invasor.”.


___No último dia 5 de outubro, o sedento estado de São Paulo reelegeu o incompetente, corrupto e violento Geraldo Alckmin. Pior do que isso, Alckmin foi o mais votado em todas as cidades do estado


___Todo o estado de São Paulo foi ocupado pelo PSDB. Todo? Não! Uma pequena cidade, chamada Hortolândia, habitada por pessoas que sabem votar, resiste aos tucanos.


___Sabem qual é a única parte legal de tudo isso? Que os gauleses (ou, no caso, os eleitores de Hortolândia) são os heróis da historinha. 

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P.S.: Brincadeiras políticas à parte, para quem gosta de Asterix e seus irredutíveis companheiros, fica o link para dois textos, que eu publiquei em 2009, com as melhores porradas que os gauleses já desferiram nos romanos.  

02 outubro, 2014

Lutar contra a homofobia: uma prioridade

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Levy Fidelix fala sobre Homossexuais (Debate Record - 29/IX/14), por Laerte

___Na última madrugada de domingo para segunda, Levy Fidelix, candidato à presidência pelo PRTB, proferiu um discurso homofóbico que daria inveja no Bolsonaro. Caso você não tenha visto (ou tenha vontade de sentir nojo novamente), assista o vídeo abaixo. 


___A reação foi imediata. De tweets a postagens de blogs, de beijaços a processos. Reações, em sua maioria, muito corretas e necessárias. E, como era de se esperar, graças à 3ª Lei Internética de Newton, para toda reação há sempre outra reação. E é exatamente um tipo comum dessas re-reações que eu gostaria de comentar. 
___Enquanto crescia o clamor contra o discurso homofóbico de Levy Aerotrem Fidelix, começou a surgir a turma do “Isso não é tão importante assim.”. Bem na corrente do “Tanta gente passando fome e você reclamando dessa coisinha.”. 

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___Só para citar um exemplo bem articulado, vejam o Luciano Pires, do podcast Café Brasil

Ontem teve debate entre os presidenciáveis. Quase duas horas de agonia com perguntas descabidas, mentiras, fugas nas respostas, falta de brio dos candidatos e um quadro de desesperança para o futuro do Brasil. E o que é que domina as redes sociais no dia seguinte? Levy Fidelix com sua posição contra o casamento homoafetivo, tema que precisa sim ser discutido, mas que jamais deveria ser prioridade neste momento de escolha de quem vai reger nossas vidas nos próximos anos. 

___No parágrafo seguinte, Luciano elenca causas que ele considera prioritárias* e termina dizendo que pode “ficar aqui até amanhã elencando temas muito mais urgentes que a questão LGBT.”. E continua:

Mas é ela[, a questão LGBT,] que domina os espaços.
A coisa vai muito mal mesmo quando nem sequer conseguimos definir prioridades.
#TutorialParaEntenderOPost : pri.o.ri.da.de
sf (lat med prioritate) 1 Qualidade ou estado de primeiro; antecedência no tempo. 2 Precedência no tempo ou no lugar; primazia, preferência.

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___Pessoalmente, considero a questão LGBT prioritária. Ela e muitas outras questões ligadas aos Direitos Humanos.

Levy Fidelix fala sobre Homossexuais (Debate Record - 29/IX/14), por Laerte

___Relegar as necessidades de um grupo, considerar o seu sofrimento uma questão secundária** é algo muito problemático. Corre-se o risco de deixar o tal ponto secundário sempre para depois. Não foi à toa que as discussões sobre a abolição da escravatura duraram, no Brasil, o século XIX inteiro. Desculpas – como a importância maior do bom andamento da economia – foram empurrando para mais tarde a abolição e relegou negros às mazelas da escravidão até o fim do século. O sofrimento dos escravos era sempre uma questão secundária. 
___Durante a Ditadura Militar, o ministro da Fazenda Delfim Netto apregoava que a prioridade era a economia brasileira. Importante era o crescimento do Produto Nacional Bruto, o investimento em grandes obras, a importação de bens de capital, mesmo que, para isso, fosse necessário congelar salários e elevar tarifas públicas. Delfim Netto se justificava dizendo que era necessário fazer, primeiro, o bolo crescer, para, depois, dividi-lo. Só que essa divisão, que viria em segundo lugar, nunca aconteceu.  

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___Existem muitas questões importantes que presidenciáveis devem discutir e que os eleitores devem atentar. Sem dúvida, um número muito grande de pontos. E todos esses pontos têm, no mínimo, a mesma importância de certas questões sociais –, como os direitos da comunidade LGBT.  
___Para quem discorda, saiba que eu respeito a sua opinião. Saiba que podemos sentar e discutir o assunto, mas não agora. Aguentar pessoas que não dão a devida atenção aos Direitos Humanos não é algo prioritário na minha vida. 

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* Complete você, leitor, com as causas que você considera mais urgentes. Caso você prefira ver quais deveriam ser as prioridades, na opinião de Luciano Pires, o texto original está aqui
(latim secundarius, -a, -um, de segunda hora, de segunda qualidade)
adjetivo
1. Que ocupa o segundo lugar. = SEGUNDO
2. Que não é o mais importante; de segunda ordem. = ACESSÓRIO


22 setembro, 2014

Respeito futebolístico

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___Um conhecido compartilhou este vídeo com os seguintes comentários: “Exemplo!! Respeito acima de tudo. Tem q ser assim sempre...”.

"Respeito" acima de tudo e a cegueira futebolística

___Levando em consideração o comentário, acho que a cena que o meu conhecido viu foi mais ou menos assim: uma menina, vestindo uma camisa do Palmeiras, estava no metrô. No mesmo vagão, também estavam um número gigantesco de corintianos. Os corintianos, ao invés de agredi-la, apenas brincaram com a moça (que, pelos sorrisos, deve ter aceitado tudo numa boa). Então, a menina chegou à sua estação e desceu do trem. Tudo muito bonito e respeitoso. Exemplo!! Deveria ser sempre assim. 

___Sinceramente, acho que alguma bolada afetou o discernimento do meu conhecido. Nem de longe eu vi o vídeo da mesma maneira positiva. 

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___Interpretei a cena da seguinte maneira: uma menina, vestindo uma camisa do Palmeiras, estava no metrô. Em determinado momento, um número gigantesco de corintianos entrou no mesmo vagão que ela.* Os corintianos, então, começaram a tirar sarro da menina, falando que o time dela irá cair para a segunda divisão. Pode parecer só uma brincadeira simples, sem violência, no entanto, o fato de que a menina estava presa em uma caixa de metal, sem ter para onde fugir, cercada de torcedores adversários gritando para ela, já foi uma violência. 
___Mais ainda, não é possível ver no vídeo, mas jogaram algo na cabeça da garota. É possível descobrir isso quando, ao 1’39”, um rapaz avisa a moça e espana um pouco do que jogaram no cabelo dela. Caso algum aficionado por futebol não perceba, jogar algo em alguém é uma agressão, sim. Falei sobre algo parecido aqui
___“Ah, Ulisses, mas ela até sorriu para eles.”. Ela, simplesmente, tomou uma atitude sensata. Demonstrou aceitar a “brincadeira”. Ela tomou um dos poucos caminhos que podia percorrer. Se fizesse outra coisa, a atitude dos corintianos poderia ser mais agressiva.
___Também não acho que a menina simplesmente chegou ao seu destino. Existe uma boa possibilidade que, intimidada, ela desceu na próxima estação. Fez questão de sair daquele trem o mais rápido possível. 

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___Talvez algum defensor das pobres e indefesas torcidas diga: "Os corintianos poderiam ter sido muito mais agressivos! Não sei do que você está reclamando.". Estou reclamando porque qualquer agressão (que não seja na simples troca de ideias e entre iguais**) não é aceitável. 
___Agora, se o seu amor pelo futebol não permite que você veja que tudo o que aconteceu foi, sim, uma agressão, está mais do que na hora de começar a rever os seus conceitos. Ou você também acha que é sinal de respeito ser abertamente homofóbico e racista "apenas" no estádio? 

Goleiro Aranha do @santosfc, o racismo e os cartolas, por Carlos Latuff

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* Formulei a hipótese de que ela já estava no vagão porque a moça estava sentada (e ouvindo música) em um metrô cheio. Mas, também pode ter acontecido da menina ter entrado depois, sem perceber todos aqueles corintianos. Esse detalhe é irrelevante. 
** No caso analisado nesta postagem, havia uma clara desigualdade numérica e de força. 


17 setembro, 2014

Não se suicide

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Harry Senate, professor responsável pelo "Clube dos Suicidas"

___Eu sei que existe muita coisa horrível no mundo. Mesmo assim, é lindo saber que também existem coisas legais, que existe gente interessada em fazer algo bacana. É fantástico, por acaso, descobrir uma dessas pequenas atitudes doces que estão escondidas pelo mundo. 
___O Centro de Valorização da Vida tem, por mais de meio século, oferecido apoio a pessoas que pensam em se suicidar. O trabalho feito pelo CVV é lindo, merece todos os elogios do mundo. 

Logo do CVV

___Dia desses, preparando algumas aulas, digitei suicídio no Google.* Nem imagino como os algoritmos do Google funcionam, mas, para a minha surpresa, antes das próprias respostas para a pesquisa, apareceu uma imagem de um telefone vermelho com os dizeres “Precisa de ajuda? No Brasil, ligue 141. Centro de Valorização da Vida”. 

Detalhe de página de pesquisa do Google, indicando o CVV

___Criticar é fácil. Qualquer um consegue dizer que o Google não passa de uma empresa inescrupulosa, que explora fadinhas e atores ruins e só está interessada em ganhar mais e mais dinheiro. E, longe de mim dizer que o Google é bonzinho, salva princesas e está acima de qualquer crítica. No entanto, é bacana ver que a empresa (ou alguém dentro dela) se interessou em deixar uma mensagem para ajudar um pouco alguém que pode estar passando por um momento difícil.  

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* Não, apesar do salário ridículo que o governador Alckmin me paga (e ainda ter chance do puto vencer a eleição logo no primeiro turno), eu não estava pensando em me suicidar. Eu estava preparando uma aula sobre a morte de Salvador Allende.

12 setembro, 2014

Quociente eleitoral

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___– Acho um absurdo essa roubalheira que é o quociente eleitoral! Puta dum treco inútil! É por isso que os partidos arrumam uns caras que nem o Tiririca, para eleger um monte de gente do partido que nem teve voto direito.* Uma bosta, né?
___Meu interlocutor estava um tanto exaltado. Ao invés de debater, resolvi mudar levemente o rumo da conversa.
___– Já decidiu em quem você vai votar para deputado?
___– Ah, eu nunca escolho nenhum deputado. Sempre voto na legenda.
___Cai o pano. 

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* Para falar a verdade, o resultado é eleger pessoas da coligação (a não ser que o partido em questão não esteja coligado com ninguém). Para ver o assunto com mais detalhes, recomendo fortemente este vídeo do Pedro, do Ateu Informa. Sobre o Tiririca, escrevi outro texto.

09 setembro, 2014

Uma candidata a menos

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___Existem várias formas de decidir em quem votar.* E mais formas ainda de decidir em quem não votar. 
___Pessoalmente, evito votar em candidatos que defendam certas posições que eu não compartilho. Tenho nojo de políticos que ignoram os Direitos Humanos. Não voto em (e ainda faço campanha contra) políticos que não respondem aos cidadãos. Claro, também não voto em um político corrupto. 
___A corrupção pode ser manifestada de diversas formas. Seja vendendo sua posição por apoio, seja desviando dinheiro da construção de estações de metrô. Uma forma bem comum e simples de corrupção é usar o poder político para benefício próprio. O problema de um candidato que nunca foi eleito, é que os eleitores não têm como saber se ele vai usar o poder em benefício próprio caso seja eleito. 
___No entanto, o acaso permite que, com pequenos exemplos, seja possível descobrir isso. 

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___Tarde de domingo, estou na Praça Roosevelt, na fila para assistir a uma peça de teatro. Enquanto espero, chega uma candidata. Conhecida de algumas pessoas de uma rodinha próxima, ela fala um pouco sobre a sua campanha.
___Ouço as bandeiras que a candidata defende e fico bem satisfeito. Parecem propostas interessantes, sensatas, justas. Dou uma de intrometido, bato no ombro da moça e peço um santinho. Sorrindo, ela me entrega. 
___Toca o primeiro sinal do teatro. A fila, que até então estava pequena, cresce rapidamente. Pouco depois, olhando para o amontoado de gente, a candidata não se faz de rogada: vai até o começo da fila, cumprimenta outras pessoas e fura a fila.

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___Não sou capaz de predizer quais serão as atitudes de um político caso seja eleito. Mas, se como um simples cidadão, esse político já se mostra desonesto com pequenas coisas, como ele espera inspirar confiança? O que me garante que essa pessoa não vai abusar do poder quando for eleita?
___Portanto, cara Flávia Costa, candidata a deputada estadual por São Paulo, número 65235, se como cidadã você aproveita alguns conhecidos para furar uma fila de teatro, não espere receber o meu voto. Aprenda a agir corretamente, dê bons exemplos, antes de sair por aí tentando se eleger.  

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* Procuro, por exemplo, votar sempre em candidatos mais à esquerda.



04 setembro, 2014

Dançar, cantar e ensinar

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___Cada professor tem suas características, gostos e talentos. Saber aplicá-los ao que se ensina é um bom caminho para enriquecer as aulas usando o que se tem à mão. Uma professora de Matemática apaixonada por xadrez pode muito bem trabalhar com o tabuleiro; o professor Luiz Tatit usa seus conhecimentos musicais para complementar suas aulas de Semiótica; eu, dançarino de profissão, já usei diversas vezes a dança como documento histórico a ser analisado em sala de aula.*
___Usar o que se tem à mão, também significa não perder ótimas oportunidades. Cely Kzk, mezzosoprano e relações públicas do grupo Bendita Folia, entrou em contato comigo para discutir sobre um projeto de levar música vocal para escolas públicas. Expliquei a ela como as escolas e suas burrocracias funcionam, passei alguns telefones, dei dicas de lidar com algumas situações escolares. Toda essa conversa, acabou rendendo um concerto didático teste em uma das escolas em que eu leciono. 

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___Acho lindo e importantíssimo que estudantes tenham contato com a música. Considero imprescindível que professores indiquem para seus alunos concertos, shows, encontros de repentistas e o endereço do barbeiro do Hermeto Pascoal. Entretanto, apenas trocar uma aula por um concerto, sem nada mais do que isso, parece-me simplesmente trocar seis por meia dúzia. 
___Para que o uso de algo que o professor tenha à mão torne-se realmente válido para o trabalho que é feito em sala de aula, aquele extra deve, mesmo que de forma leve, encaixar-se com o curso. Por isso mesmo, antes de marcar a data de apresentação com o Bendita Folia, pedi a eles o repertório. Com o programa em mãos, estudei as músicas e vi em que momento elas poderiam ser bem relacionadas com os assuntos que eu estava trabalhando. Eles vieram, então, no fim de agosto, quando eu estava falando sobre governos totalitários com os alunos do 3º ano do Ensino Médio. 

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___Os músicos do Bendita Folia prepararam um concerto extremamente didático. A formação técnica em canto erudito permitiu que, de maneira extremamente clara, eles explicassem para os alunos diversos conceitos musicais importantes.

Grupo Bendita Folia, em concerto didático, na ETESP - Aula de História do Trida

___A maior parte do repertório escolhido foi de MPB, da década de 1930 para frente. No entanto, para, didaticamente, mostrar diferenças, os cantores começaram com a música renascentista “Les Chant des Oiseaux”, de Clement  Janequin. 
___Aproveitando o ponto de comparação bem anterior às outras músicas que seriam cantadas, comecei a falar como os regimes totalitários utilizavam o passado. Por exemplo, os fascistas, em pleno século XX, diziam-se herdeiros das glórias do Império Romano.** Não foi à toa que um dos símbolos utilizados pelos partidários de Mussolini foi o fascio littorio (o feixe de varas carregado pelos lictores, na Roma Antiga), que acabou dando nome ao fascismo. 

M. Ulisses Trida e o fascio littorio fascista

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___Conseguir trazer músicos para a sala de aula foi complicado. Associar o repertório com o conteúdo a ser ensinado para os estudantes, deu um trabalho descomunal. Mesmo assim, foi uma oportunidade extraordinária para os alunos. Uma sociedade que realmente valorizasse a Educação não faria uma atividade como essa ser algo tão raro. 

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* Na última sexta, vale acrescentar, analisei alguns aspectos da Era Vargas dançando samba de gafieira com a fantástica Gislene Souza.
** O mesmo Império Romano que fazia parte da Antiguidade Clássica – aquela que os renascentistas diziam representar o seu “renascimento”. 


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