14 maio, 2015

Irrequieta

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Pintor: Moça, por favor, fique quieta.
Modelo: Desculpa...
Pintor: Tá aí. De novo. 
Modelo: Mas, eu não me mexi. 
Pintor: Você riu. 
Modelo: Desculpa. É que eu acho o senhor engraçado. 
Pintor: Não fiz graça nenhuma.
Modelo: A sua barba. Ela é engraçada. 
Pintor: Esqueça minha barba! Tente olhar para outra coisa. Nem olhe para mim.
Modelo: Tá bom. 
Pintor: Olhaí... Olha o que você fez! Errei o fundo. 
Modelo: A culpa não é minha. Eu não controlo o cenário.
Pintor: É culpa sua, sim. Você fica me desconcentrando. Cada vez que eu olho para você seu rosto está diferente. Tô corrigindo tanto que o quadro vai acabar borrado. 
Modelo: Ninguém vai ver muito esse quadro mesmo...
Pintor: Então fique quieta que eu termino rápido. 
Modelo: Sei, sei... 
Pintor: E pare de rir que eu não consigo acertar a sua boca. 

Mona Lisa (A Gioconda), de Leonardo da Vinci (1503-06)


10 maio, 2015

Patrões e escravos

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___Semana passada a Unicamp (e sua maravilhosa Olimpíada de História) me deu a oportunidade de conhecer uma ilustração de Jean Baptiste Debret que eu ainda não havia tido a oportunidade de ver: Cena de Rua (patrão e escravo).* 

Cena de Rua (patrão e escravo), de Jean Baptiste Debret

___Os trabalhos de Debret são fantásticos para conhecer um pouco sobre a vida no Brasil durante as primeiras décadas do século XIX. Infelizmente algumas das cenas por ele retratadas, como a aquarela acima, ainda assombram o Brasil das primeiras décadas do século XXI. 
___Moro ao lado de um prédio pertencente ao Poder Judiciário. Dia desses, a chuva caia forte e eu estava à janela, com a minha cachorrinha, olhando exatamente a tal repartição pública. Enquanto eu observava, um carro chique parou próximo à parte coberta. O motorista abriu a porta, o guarda-chuva e desceu do carro; deu a volta no veículo e foi para o coberto. Pouco depois ele volta e abre a porta traseira do carro, do lado do passageiro. Ao tentar se deslocar de volta para pegar sua passageira, o motorista percebe que a porta vai acabar fechando. Para evitar o fechamento da porta, ele passa a segurá-la com uma mão e, com a outra, estica o guarda-chuva para a senhora que aguardava no coberto. 
___Mesmo desprotegido, tomando uma torrencial chuva à cabeça, o rapaz permanece impassível. A senhora bem trajada começa a ir em direção à porta aberta e o motorista vai protegendo-a com o guarda-chuva. Então, alguém, no coberto, chama a mulher. Ela se vira e começa a conversar. 
___A conversa durou alguns minutos. A mulher não se preocupou em voltar para o coberto, pois estava protegida pelo guarda-chuva. O interlocutor também não deve ter se preocupado, já que não se molhava. O motorista, tal qual o escravo retratado por Debret, ficou parado, esquecido, resguardando à pessoa de casta superior. 

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* Pintada entre 1817-1829. 

01 maio, 2015

Tatuagem e etiqueta II

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___No final do ano passado, eu publiquei um texto por aqui perguntando, para pessoas tatuadas, qual é a etiqueta para se olhar tatuagens de desconhecidos em lugares públicos. Agradeço às respostas, se bem que ainda mantenho minhas dúvidas. 


___Hoje, venho aqui relatar um pequeno ocorrido sobre tatuagens e dividir com os leitores minha reação. Vamos à narrativa.

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___Encontrei uma moça que estudou comigo no colegial. Aquele tipo clássico de encontro de antigos conhecidos: ela gritou meu nome, eu olhei, demorei um pouco para reconhecê-la e, depois de alguns minutos, estávamos relembrando o passado e comentando sobre a vida pós-escola. 
___Ela, que sempre foi muito tradicional e recatada na escola,* estava bem mais solta. E, também, estava toda tatuada. Comentei que havia gostado das tatuagens nos braços. Animada, ela se virou, levantando o cabelo e dizendo “Essa foi a minha última!”. Eu, que gosto de ver tatuagens, fiquei sem reação: o carpe diem que ela havia tatuado no pescoço estava escrito errado. 
___Fui assolado por um turbilhão de pensamentos. Eu deveria falar alguma coisa? Adiantaria falar de um erro em uma tatuagem, em algo que seria difícil de ser apagado ou corrigido? Se soubesse do erro, ela tentaria saná-lo ou só ficaria chateada? Se ela não soubesse, a tattoo poderia virar motivo de escárnio? 
___Quando ela se virou, com o olhar ávido, esperando para ver minha reação, engoli em seco e disse:
___– Acho muito legais essas letras rebuscadas que são usadas nas tatuagens...
___Não sei se agi bem. Mas, pelo menos, ela sorriu. 

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P.S.: Aproveitando o ponto, vale lembrar que erros também podem ser propositais. Ou alguém pode afirmar, com certeza, que o fuck the system da tatuagem acima não foi uma escolha completamente consciente? 

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* Na década de 1990. 

12 abril, 2015

Unanimidade

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___– Ai, professor, estou muito triste. 
___– O que foi, querida? –, perguntei. 
___– Sempre gostei de literatura, das aulas, até já pensei em fazer Letras, mas, agora, li Machado de Assis e não gostei. 


___– O que você leu dele?
___Memórias Póstumas de Brás Cubas
___– Calma. Foi só um livro. Leia outros. Ou leia alguns dos contos. Quem sabe dos contos você gosta. Indico “A Cartomante”, “Pai contra mãe”...
___A aluna me interrompeu dizendo: 
___– Já tentei alguns contos, professor. E não gostei. O que tem de errado comigo?
___Sorrindo, respondi:
___– Calma. Não tem nada de errado com você. É completamente normal não gostar de algum autor... 
___– Ah, professor, você vai me desculpar, mas é o senhor que está errado. Não é aceitável não gostar de Machado de Assis! 

24 março, 2015

Tirando um selfie com a PM

Um comentário:
___Ouvi aos quatro ventos o quanto os protestos do dia 15 de março foram lindos, uma festa da democracia e coisas do tipo. Não concordo muito,* mas o objetivo deste texto não é ficar em críticas gerais. Quero me focar em um fenômeno específico que me incomodou bastante: os selfies com policiais


___Para começar, é obvio que os policias podem ter suas opiniões políticas. Mais óbvio ainda é que eles podem (e devem) ter um bom relacionamento com a população. O problema é a polícia só tratar bem determinado grupo de pessoas. 
___Não importa se as pessoas, no dia 15, foram bem tratadas porque eram da “elite branca”, por concordarem politicamente com os policiais, porque já comeram caviar ou porque estavam salpicadas com adoradores da Ditadura Civil-Militar. O fato é que, em outras manifestações, os policiais não estavam tão carinhosos e receptivos. 
___Antes que apareça algum maluco dizendo que o protesto do dia 15 não provocou a PM, acho importante lembrar que policiais devem ser treinados para não perderem a paciência, para resguardar a população, não para agredi-la. Sem contar que foram muitos os exemplos de pessoas pacíficas que foram agredidas em outras manifestações – como é possível ver neste vídeo em que a tropa de choque atira em pessoas gritando “Sem violência!”. Tente imaginar qual seria a reação da PM, nas manifestações contra a Copa, se alguém tivesse tomado uma atitude parecida com a que essa menina tomou no dia 15. 



___“Ah, Ulisses, mas, no dia da manifestação pelo impeachment da Dilma, as pessoas estavam se sentindo seguras. Para elas, a presença da PM foi positiva.”. 
___OK, eu consigo entender isso. O ponto é que a presença da polícia não deveria trazer insegurança, não deveria ser negativa para quem participa de outras manifestações. Vale lembrar que se manifestar não é um crime, é um direito. E é muito errado que a PM vá pronta para reagir violentamente contra determinadas manifestações pacíficas.  
___Não reclamar de uma polícia que trata você bem, mas agride, injustamente, os outros, é tão desonroso quanto um político que é conivente com a corrupção de outros políticos. Acho até que deveriam fazer manifestações contra pessoas que agem assim. 

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P.S.: Aproveitando o assunto “fotos problemáticas”, coloco abaixo a imagem de uma dançarina que já trabalhou comigo. Ela publicou a foto no Instagram, no dia 15, com a legenda “Eu fui”. 


___Pobrezinha, não sabe escolher cenário. Ou pior, talvez saiba. 

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* Não concordo porque é vergonhoso saber que 82% das pessoas que protestaram na grande “festa da democracia” da Paulista foram eleitores do Aécio; não concordo porque, ao contrário do que muita gente disse, os protestos não foram pacíficos em todos os lugares; e, claro, tenho um gigantesco nojo para os muitos pedidos de golpe “intervenção” militar. E, antes que esta nota aliene leitores para o resto do texto, é bom lembrar que eu não apoio as atitudes da nossa presidenta


14 março, 2015

A imparcialidade da imprensa

Um comentário:
___Foi bastante triste ver os protestos de ontem procurarem uma temática extra para justificarem a sua existência. O motivo real das passeatas foi mostrar apoio à Dilma, foi repudiar os clamores de impeachment. Porém, vergonhosamente, parece que foram necessárias mais desculpas para se sair às ruas. Grande parte dos discursos (orais e por escrito), diziam que as manifestações de ontem eram “em defesa da Petrobrás”. 


___Mais triste e vergonhoso ainda é ver uma imprensa tão cega no seu ódio que, até quando noticia essas manifestações de apoio ao PT, consegue ilustrar – em destaque – os grupos contrários. Deem uma olhada como está o Yahoo! Notícias, noticiando que “Milhares saem às ruas do país em apoio à Dilma e Petrobras”:


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___Fico até pensando como seriam ilustradas outras manchetes, se a imprensa estivesse sempre tão abertamente enviesada.

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Aliados vencem a II Guerra Mundial


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Astronautas norte-americanos pisam na Lua


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Marechal Deodoro da Fonseca proclama a República


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Lenhador salva Chapeuzinho Vermelho


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P.S.: Procurando imagens para ilustrar esta postagem, encontrei esse fantástico conjunto de cartazes soviéticos sobre a corrida espacial. 

06 março, 2015

I want to...

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___– Professor, você acredita em OVNIs?
___– Claro. Eu acredito que existem Objetos Voadores que Não conseguiram Identificar.
___– É... Sim, sim... Mas, assim, e discos voadores? Você acredita que eles existem?
___– Sim, é óbvio. Já joguei frisbee várias vezes.
___– Professor, eu acho a sua aula de História muito boa. Porém, se continuar com essa atitude, você nunca vai conseguir um emprego no History Channel.




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