17 setembro, 2014

Não se suicide

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Harry Senate, professor responsável pelo "Clube dos Suicidas"

___Eu sei que existe muita coisa horrível no mundo. Mesmo assim, é lindo saber que também existem coisas legais, que existe gente interessada em fazer algo bacana. É fantástico, por acaso, descobrir uma dessas pequenas atitudes doces que estão escondidas pelo mundo. 
___O Centro de Valorização da Vida tem, por mais de meio século, oferecido apoio a pessoas que pensam em se suicidar. O trabalho feito pelo CVV é lindo, merece todos os elogios do mundo. 

Logo do CVV

___Dia desses, preparando algumas aulas, digitei suicídio no Google.* Nem imagino como os algoritmos do Google funcionam, mas, para a minha surpresa, antes das próprias respostas para a pesquisa, apareceu uma imagem de um telefone vermelho com os dizeres “Precisa de ajuda? No Brasil, ligue 141. Centro de Valorização da Vida”. 

Detalhe de página de pesquisa do Google, indicando o CVV

___Criticar é fácil. Qualquer um consegue dizer que o Google não passa de uma empresa inescrupulosa, que explora fadinhas e atores ruins e só está interessada em ganhar mais e mais dinheiro. E, longe de mim dizer que o Google é bonzinho, salva princesas e está acima de qualquer crítica. No entanto, é bacana ver que a empresa (ou alguém dentro dela) se interessou em deixar uma mensagem para ajudar um pouco alguém que pode estar passando por um momento difícil.  

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* Não, apesar do salário ridículo que o governador Alckmin me paga (e ainda ter chance do puto vencer a eleição logo no primeiro turno), eu não estava pensando em me suicidar. Eu estava preparando uma aula sobre a morte de Salvador Allende.

12 setembro, 2014

Quociente eleitoral

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___– Acho um absurdo essa roubalheira que é o quociente eleitoral! Puta dum treco inútil! É por isso que os partidos arrumam uns caras que nem o Tiririca, para eleger um monte de gente do partido que nem teve voto direito.* Uma bosta, né?
___Meu interlocutor estava um tanto exaltado. Ao invés de debater, resolvi mudar levemente o rumo da conversa.
___– Já decidiu em quem você vai votar para deputado?
___– Ah, eu nunca escolho nenhum deputado. Sempre voto na legenda.
___Cai o pano. 

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* Para falar a verdade, o resultado é eleger pessoas da coligação (a não ser que o partido em questão não esteja coligado com ninguém). Para ver o assunto com mais detalhes, recomendo fortemente este vídeo do Pedro, do Ateu Informa. Sobre o Tiririca, escrevi outro texto.

09 setembro, 2014

Uma candidata a menos

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___Existem várias formas de decidir em quem votar.* E mais formas ainda de decidir em quem não votar. 
___Pessoalmente, evito votar em candidatos que defendam certas posições que eu não compartilho. Tenho nojo de políticos que ignoram os Direitos Humanos. Não voto em (e ainda faço campanha contra) políticos que não respondem aos cidadãos. Claro, também não voto em um político corrupto. 
___A corrupção pode ser manifestada de diversas formas. Seja vendendo sua posição por apoio, seja desviando dinheiro da construção de estações de metrô. Uma forma bem comum e simples de corrupção é usar o poder político para benefício próprio. O problema de um candidato que nunca foi eleito, é que os eleitores não têm como saber se ele vai usar o poder em benefício próprio caso seja eleito. 
___No entanto, o acaso permite que, com pequenos exemplos, seja possível descobrir isso. 

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___Tarde de domingo, estou na Praça Roosevelt, na fila para assistir a uma peça de teatro. Enquanto espero, chega uma candidata. Conhecida de algumas pessoas de uma rodinha próxima, ela fala um pouco sobre a sua campanha.
___Ouço as bandeiras que a candidata defende e fico bem satisfeito. Parecem propostas interessantes, sensatas, justas. Dou uma de intrometido, bato no ombro da moça e peço um santinho. Sorrindo, ela me entrega. 
___Toca o primeiro sinal do teatro. A fila, que até então estava pequena, cresce rapidamente. Pouco depois, olhando para o amontoado de gente, a candidata não se faz de rogada: vai até o começo da fila, cumprimenta outras pessoas e fura a fila.

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___Não sou capaz de predizer quais serão as atitudes de um político caso seja eleito. Mas, se como um simples cidadão, esse político já se mostra desonesto com pequenas coisas, como ele espera inspirar confiança? O que me garante que essa pessoa não vai abusar do poder quando for eleita?
___Portanto, cara Flávia Costa, candidata a deputada estadual por São Paulo, número 65235, se como cidadã você aproveita alguns conhecidos para furar uma fila de teatro, não espere receber o meu voto. Aprenda a agir corretamente, dê bons exemplos, antes de sair por aí tentando se eleger.  

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* Procuro, por exemplo, votar sempre em candidatos mais à esquerda.



04 setembro, 2014

Dançar, cantar e ensinar

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___Cada professor tem suas características, gostos e talentos. Saber aplicá-los ao que se ensina é um bom caminho para enriquecer as aulas usando o que se tem à mão. Uma professora de Matemática apaixonada por xadrez pode muito bem trabalhar com o tabuleiro; o professor Luiz Tatit usa seus conhecimentos musicais para complementar suas aulas de Semiótica; eu, dançarino de profissão, já usei diversas vezes a dança como documento histórico a ser analisado em sala de aula.*
___Usar o que se tem à mão, também significa não perder ótimas oportunidades. Cely Kzk, mezzosoprano e relações públicas do grupo Bendita Folia, entrou em contato comigo para discutir sobre um projeto de levar música vocal para escolas públicas. Expliquei a ela como as escolas e suas burrocracias funcionam, passei alguns telefones, dei dicas de lidar com algumas situações escolares. Toda essa conversa, acabou rendendo um concerto didático teste em uma das escolas em que eu leciono. 

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___Acho lindo e importantíssimo que estudantes tenham contato com a música. Considero imprescindível que professores indiquem para seus alunos concertos, shows, encontros de repentistas e o endereço do barbeiro do Hermeto Pascoal. Entretanto, apenas trocar uma aula por um concerto, sem nada mais do que isso, parece-me simplesmente trocar seis por meia dúzia. 
___Para que o uso de algo que o professor tenha à mão torne-se realmente válido para o trabalho que é feito em sala de aula, aquele extra deve, mesmo que de forma leve, encaixar-se com o curso. Por isso mesmo, antes de marcar a data de apresentação com o Bendita Folia, pedi a eles o repertório. Com o programa em mãos, estudei as músicas e vi em que momento elas poderiam ser bem relacionadas com os assuntos que eu estava trabalhando. Eles vieram, então, no fim de agosto, quando eu estava falando sobre governos totalitários com os alunos do 3º ano do Ensino Médio. 

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___Os músicos do Bendita Folia prepararam um concerto extremamente didático. A formação técnica em canto erudito permitiu que, de maneira extremamente clara, eles explicassem para os alunos diversos conceitos musicais importantes.

Grupo Bendita Folia, em concerto didático, na ETESP - Aula de História do Trida

___A maior parte do repertório escolhido foi de MPB, da década de 1930 para frente. No entanto, para, didaticamente, mostrar diferenças, os cantores começaram com a música renascentista “Les Chant des Oiseaux”, de Clement  Janequin. 
___Aproveitando o ponto de comparação bem anterior às outras músicas que seriam cantadas, comecei a falar como os regimes totalitários utilizavam o passado. Por exemplo, os fascistas, em pleno século XX, diziam-se herdeiros das glórias do Império Romano.** Não foi à toa que um dos símbolos utilizados pelos partidários de Mussolini foi o fascio littorio (o feixe de varas carregado pelos lictores, na Roma Antiga), que acabou dando nome ao fascismo. 

M. Ulisses Trida e o fascio littorio fascista

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___Conseguir trazer músicos para a sala de aula foi complicado. Associar o repertório com o conteúdo a ser ensinado para os estudantes, deu um trabalho descomunal. Mesmo assim, foi uma oportunidade extraordinária para os alunos. Uma sociedade que realmente valorizasse a Educação não faria uma atividade como essa ser algo tão raro. 

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* Na última sexta, vale acrescentar, analisei alguns aspectos da Era Vargas dançando samba de gafieira com a fantástica Gislene Souza.
** O mesmo Império Romano que fazia parte da Antiguidade Clássica – aquela que os renascentistas diziam representar o seu “renascimento”. 


29 agosto, 2014

Sem preconceito

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___Acho importante declarar que eu não pratico, mas não tenho nada contra quem o faz, pois não tenho preconceitos. Tenho até amigos que gostam. Mesmo assim, acho errado essas pessoas que resolvem fazer esse tipo de bizarrice em público. 

Cafuné, Laerte


22 agosto, 2014

Nicolau Sevcenko, o meu professor

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___Sempre gostei muito de ler. Não é à toa que, durante muitos recreios do colégio, eu utilizava o meu tempo livre para ficar lendo algo que me interessava. Quando os professores pediam algum livro de leitura obrigatória, eu costumava ler feliz e contente. Meus colegas de escola, por outro lado, não gostavam muito de ler os livros que os professores mandavam. Por conta disso, quando chegava perto de alguma prova, muitos colegas se reuniam à minha volta para me ouvir contando a história do livro. 
___Como eu gostava de explicar os livros para os meus colegas, como aquilo, para mim, era uma diversão sem fim, acabei descobrindo que queria ser professor. Minha grande dúvida, então, foi escolher quais das minhas matérias preferidas se tornariam o meu métier. A grande dúvida estava entre História e Literatura. Como, para ensinar Literatura, eu teria de fazer uma faculdade de Letras e estudar (e talvez ensinar) Gramática, acabei escolhendo História.

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___Em uma aula de História Moderna, um aluno levanta a mão e pergunta:
___– Em que ano terminou o reinado de Guilherme de Orange?
___O professor Nicolau Sevcenko olha para o estudante, pensa um pouco mexendo nos próprios cabelos e responde:

Nicolau Sevcenko

___– Hum... Desculpa, mas eu não sei. 
___Com uma cara de revoltado o aluno esbraveja:
___– Como assim? Como você pode não saber? Você é um especialista!
___Nicolau, como um gatinho, inclina a cabeça para o lado, como se achasse a reação do estudante a coisa mais curiosa do mundo. Alguns segundos depois, calmamente, responde:
___– Desculpe-me, mas se você acha que decorar nomes e datas são tão importantes assim para um historiador, lamento dizer: você está no curso errado. Ou, pensando bem, talvez você esteja no curso certo. Veja o restante das aulas com muita atenção. 

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___Os incontáveis elogios que o professor Nicolau Sevcenko recebia dos outros estudantes, fez com que, logo no segundo semestre do curso, eu procurasse o seu curso. Sem dúvida, as aulas eram fantásticas. Mas, de todas as maravilhas que a aula do Nicolau oferecia, a que mais me fascinou foi o quanto ele usava textos literários para fazer suas análises históricas. Depois de suas aulas, nunca mais fiquei chateado por não ter a chance de trabalhar com Literatura. Ele me mostrou o quanto História e Literatura podem se complementar.*
___Tristemente, na semana passada, com apenas 61 anos, o professor Nicolau veio a falecer. Resolvi relembrar um pouco dele escrevendo este texto. Fica como uma pequena homenagem para um professor que muito me ensinou. 

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* Não foram apenas nas aulas que o Nicolau me mostrou o quanto um historiador poderia trabalhar com Literatura. Seu livro Orfeu estático da metrópole é imperdível para quem se interessa pelo assunto. 

04 agosto, 2014

Ciência Apolítica

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___Em um colégio paulista, professores de História, Sociologia e Geografia discutem, na sala dos professores, sobre a Questão Palestina e suas atuais repercussões. Em meio a um momento mais acalorado da conversa, a professora de Química passa por perto e fala com certo ar de superioridade: “Ainda bem que a minha disciplina não é ensinada segundo as tendências políticas da professora.”. O grupo de professores que debate faz que não ouve e continua a discutir. 
___Algum tempo depois, naquele mesmo dia, este professor de História que vos escreve passa, por acaso, à frente de uma sala em que aquela professora de Química estava dando aula. Como a porta estava aberta (e eu sou um futriqueiro), parei para assistir um pouco da aula. 
___– ... e assim se forma a chuva ácida. –, concluiu a professora. 
___Após alguns segundos de silêncio, a química voltou a falar:
___– Aproveitando que eu estou falando de chuva, acho importante dizer que a falta de água que está assolando São Paulo é culpa da falta de chuvas. Tem gente que culpa o governo, mas o que é que o governo poderia fazer para resolver o problema da falta de chuvas?
___Uma aluna no meio da sala toma a palavra e responde:
___– O governo não poderia fazer obras para melhor captação de água, professora? Ou quando chove demais e dá enchente a culpa também é da chuva e não do governo que não fez as obras de prevenção necessárias?
___– Não – responde a professora alguns tons mais fortes –, minha querida, são casos completamente diferent...
___Nesse momento, a química “apolítica” percebe que estou à porta e engole o resto da fala. Eu apenas sorrio e sigo meu caminho assoviando a “Internacional”, pronto para doutrinar mais pobres estudantes com a minha ciência política. 
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