28 outubro, 2014

Separatismo Já!

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___A revolução já está preparada. Temos a revolução do Brasil, não [há] recursos para subjugar um levante, que é preparado ocultamente, para não dizer quase visivelmente. Até a deserdação, que dizem já estar combinada. Arrisquei tudo por minha Pátria. Fique e faça do Brasil um reino feliz, que é hoje escravo das Cortes despóticas.
___Senhor, ninguém mais do que sua esposa deseja sua felicidade e ela lhe diz em carta, que com esta será entregue, que deve ficar e fazer a felicidade do povo brasileiro, que o deseja como seu soberano, sem ligações e obediências às despóticas, que querem a escravidão do Brasil.
___Fique, é o que todos pedem, para orgulho e felicidade do Brasil.
___E, se não ficar, correrão rios de sangue, nesta grande e nobre terra.
 

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___Texto de 1/IX/1822. Adaptado* da carta de José Bonifácio de Andrada e Silva a d. Pedro. 
___Essa foi uma das cartas que dom Pedro recebeu, perto das margens do rio Ipiranga, em 7/IX/1822. Foi um dos documentos que ajudou a convencer o príncipe regente a proclamar a separação do Brasil de Portugal. A imagem do Aécio Neves antes da carta é apenas um efeito visual para ajudar a dirigir o olhar dos leitores. 


___A separação do século XIX, a independência do Brasil perante Portugal, foi extremamente importante. Foi algo que realmente ajudou a moldar o nosso futuro. Mesmo com seus defeitos, defendê-la parece, até hoje, algo bem justificável. 


___Agora, defender o separatismo, após uma eleição democrática, é de uma ignorância sem limites. Pura síndrome preconceituosa de um mal perdedor


___Quase consigo ver o Rodrigo Constantino falando: “No Meu Brasil todo mundo vai estar tão cheio de caviar que vai poder usá-lo até para xingar os outros.”. Opa... 

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* Cortei a introdução da carta, além de inúmeras referências a Vossa Alteza e a Portugal. Texto completo aqui. 

26 outubro, 2014

Tatuagem e etiqueta

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___Pouco depois de entrar no vagão do metrô, percebo um stuka (um bombardeiro de mergulho alemão) tatuado na perna de um rapaz. Inclino a cabeça e começo a olhar, impressionado, os detalhes da aeronave.  


___Depois de alguns segundos, o rapaz se aproxima e, falando alto, diz:
___– Kekifoi?! Tô com algum problema, brother
___Só então percebi que, além de dono de uma tatuagem interessante, o moço era extremamente forte. Tremendo e pensando como era bom andar de metrô sem sangrar, respondi:
___– Eu estava olhando a sua tatuagem do stuka... Achei muito boa...
___Para o meu alívio, ele abriu um sorriso enorme.
___– Porra, brother, você gostou? Legal, né? Adoro tattoos de guerra. Olha essa aqui. – falou o rapaz virando de costas e levantando a camiseta para mostrar uma luger enorme, tatuada com tantos detalhes quanto o stuka. 


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___Esse pequeno relato serve de introdução para que eu faça uma pequena pergunta aos leitores: qual é a etiqueta para se olhar a tatuagem de alguém?


___Entendo perfeitamente que cada pessoa é dona do seu próprio corpo e que ninguém tem o direito de invadir a privacidade de alguém sem a devida permissão. Mesmo assim, até mesmo pelo caso tresloucado que acabo de descrever acima, sei que muita gente gosta de expor as próprias tatuagens. 


___Imagino que, sendo um conhecido, perguntar algo como “Com licença, posso ver essa tatuagem?” é algo normal. No entanto, para uma pessoa desconhecida no metrô, o que se deve fazer? Chegar para a pessoa estranha, colocar a mão no ombro e perguntar “Com licença, tenho permissão para olhar, por alguns segundos, a sua tatuagem?”, parece mais maluco (e invasivo) do que simplesmente olhar rapidamente e pronto. 


___Portanto, sendo bem claro: em um lugar público,* com a tatuagem (ou parte dela) exposta, qual é a forma educada de se apreciar a tatuagem de uma pessoa estranha? Ou não se deve olhar? Deve-se pedir ou simplesmente olhar disfarçadamente? Sempre de longe? Faz diferença se a pessoa tatuada é homem ou mulher? É educado tentar ler uma tatuagem com texto? Deve se agir de maneira diferente dependendo do lugar em que a tatuagem foi feita? Existe alguma etiqueta mais ou menos comum entre pessoas tatuadas?


___Agradeço as respostas que aparecerem e desejo que as agulhas não tenham doído muito na pele de ninguém. 


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* Claro que com um mínimo de noção. Uma rua escura não é um lugar público aceitável para se olhar a tatuagem de alguém. Se bem que, por conta da escuridão, provavelmente não seria possível ver nada mesmo. 

14 outubro, 2014

Todo o estado de São Paulo foi ocupado pelo PSDB

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___As histórias do Asterix costumam começar da mesma forma: um mapa do oeste da Europa, com a águia romana encravada no solo. No canto superior esquerdo, uma lupa ajuda a mostrar um pequeno trecho do mapa. Junto ao desenho, alguma variação dos seguintes dizeres: “Toda a Gália foi ocupada pelos romanos... Toda? Não! Uma pequena aldeia, habitada por irredutíveis gauleses, ainda resiste ao invasor.”.


___No último dia 5 de outubro, o sedento estado de São Paulo reelegeu o incompetente, corrupto e violento Geraldo Alckmin. Pior do que isso, Alckmin foi o mais votado em todas as cidades do estado


___Todo o estado de São Paulo foi ocupado pelo PSDB. Todo? Não! Uma pequena cidade, chamada Hortolândia, habitada por pessoas que sabem votar, resiste aos tucanos.


___Sabem qual é a única parte legal de tudo isso? Que os gauleses (ou, no caso, os eleitores de Hortolândia) são os heróis da historinha. 

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P.S.: Brincadeiras políticas à parte, para quem gosta de Asterix e seus irredutíveis companheiros, fica o link para dois textos, que eu publiquei em 2009, com as melhores porradas que os gauleses já desferiram nos romanos.  

02 outubro, 2014

Lutar contra a homofobia: uma prioridade

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Levy Fidelix fala sobre Homossexuais (Debate Record - 29/IX/14), por Laerte

___Na última madrugada de domingo para segunda, Levy Fidelix, candidato à presidência pelo PRTB, proferiu um discurso homofóbico que daria inveja no Bolsonaro. Caso você não tenha visto (ou tenha vontade de sentir nojo novamente), assista o vídeo abaixo. 


___A reação foi imediata. De tweets a postagens de blogs, de beijaços a processos. Reações, em sua maioria, muito corretas e necessárias. E, como era de se esperar, graças à 3ª Lei Internética de Newton, para toda reação há sempre outra reação. E é exatamente um tipo comum dessas re-reações que eu gostaria de comentar. 
___Enquanto crescia o clamor contra o discurso homofóbico de Levy Aerotrem Fidelix, começou a surgir a turma do “Isso não é tão importante assim.”. Bem na corrente do “Tanta gente passando fome e você reclamando dessa coisinha.”. 

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___Só para citar um exemplo bem articulado, vejam o Luciano Pires, do podcast Café Brasil

Ontem teve debate entre os presidenciáveis. Quase duas horas de agonia com perguntas descabidas, mentiras, fugas nas respostas, falta de brio dos candidatos e um quadro de desesperança para o futuro do Brasil. E o que é que domina as redes sociais no dia seguinte? Levy Fidelix com sua posição contra o casamento homoafetivo, tema que precisa sim ser discutido, mas que jamais deveria ser prioridade neste momento de escolha de quem vai reger nossas vidas nos próximos anos. 

___No parágrafo seguinte, Luciano elenca causas que ele considera prioritárias* e termina dizendo que pode “ficar aqui até amanhã elencando temas muito mais urgentes que a questão LGBT.”. E continua:

Mas é ela[, a questão LGBT,] que domina os espaços.
A coisa vai muito mal mesmo quando nem sequer conseguimos definir prioridades.
#TutorialParaEntenderOPost : pri.o.ri.da.de
sf (lat med prioritate) 1 Qualidade ou estado de primeiro; antecedência no tempo. 2 Precedência no tempo ou no lugar; primazia, preferência.

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___Pessoalmente, considero a questão LGBT prioritária. Ela e muitas outras questões ligadas aos Direitos Humanos.

Levy Fidelix fala sobre Homossexuais (Debate Record - 29/IX/14), por Laerte

___Relegar as necessidades de um grupo, considerar o seu sofrimento uma questão secundária** é algo muito problemático. Corre-se o risco de deixar o tal ponto secundário sempre para depois. Não foi à toa que as discussões sobre a abolição da escravatura duraram, no Brasil, o século XIX inteiro. Desculpas – como a importância maior do bom andamento da economia – foram empurrando para mais tarde a abolição e relegou negros às mazelas da escravidão até o fim do século. O sofrimento dos escravos era sempre uma questão secundária. 
___Durante a Ditadura Militar, o ministro da Fazenda Delfim Netto apregoava que a prioridade era a economia brasileira. Importante era o crescimento do Produto Nacional Bruto, o investimento em grandes obras, a importação de bens de capital, mesmo que, para isso, fosse necessário congelar salários e elevar tarifas públicas. Delfim Netto se justificava dizendo que era necessário fazer, primeiro, o bolo crescer, para, depois, dividi-lo. Só que essa divisão, que viria em segundo lugar, nunca aconteceu.  

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___Existem muitas questões importantes que presidenciáveis devem discutir e que os eleitores devem atentar. Sem dúvida, um número muito grande de pontos. E todos esses pontos têm, no mínimo, a mesma importância de certas questões sociais –, como os direitos da comunidade LGBT.  
___Para quem discorda, saiba que eu respeito a sua opinião. Saiba que podemos sentar e discutir o assunto, mas não agora. Aguentar pessoas que não dão a devida atenção aos Direitos Humanos não é algo prioritário na minha vida. 

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* Complete você, leitor, com as causas que você considera mais urgentes. Caso você prefira ver quais deveriam ser as prioridades, na opinião de Luciano Pires, o texto original está aqui
(latim secundarius, -a, -um, de segunda hora, de segunda qualidade)
adjetivo
1. Que ocupa o segundo lugar. = SEGUNDO
2. Que não é o mais importante; de segunda ordem. = ACESSÓRIO


22 setembro, 2014

Respeito futebolístico

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___Um conhecido compartilhou este vídeo com os seguintes comentários: “Exemplo!! Respeito acima de tudo. Tem q ser assim sempre...”.

"Respeito" acima de tudo e a cegueira futebolística

___Levando em consideração o comentário, acho que a cena que o meu conhecido viu foi mais ou menos assim: uma menina, vestindo uma camisa do Palmeiras, estava no metrô. No mesmo vagão, também estavam um número gigantesco de corintianos. Os corintianos, ao invés de agredi-la, apenas brincaram com a moça (que, pelos sorrisos, deve ter aceitado tudo numa boa). Então, a menina chegou à sua estação e desceu do trem. Tudo muito bonito e respeitoso. Exemplo!! Deveria ser sempre assim. 

___Sinceramente, acho que alguma bolada afetou o discernimento do meu conhecido. Nem de longe eu vi o vídeo da mesma maneira positiva. 

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___Interpretei a cena da seguinte maneira: uma menina, vestindo uma camisa do Palmeiras, estava no metrô. Em determinado momento, um número gigantesco de corintianos entrou no mesmo vagão que ela.* Os corintianos, então, começaram a tirar sarro da menina, falando que o time dela irá cair para a segunda divisão. Pode parecer só uma brincadeira simples, sem violência, no entanto, o fato de que a menina estava presa em uma caixa de metal, sem ter para onde fugir, cercada de torcedores adversários gritando para ela, já foi uma violência. 
___Mais ainda, não é possível ver no vídeo, mas jogaram algo na cabeça da garota. É possível descobrir isso quando, ao 1’39”, um rapaz avisa a moça e espana um pouco do que jogaram no cabelo dela. Caso algum aficionado por futebol não perceba, jogar algo em alguém é uma agressão, sim. Falei sobre algo parecido aqui
___“Ah, Ulisses, mas ela até sorriu para eles.”. Ela, simplesmente, tomou uma atitude sensata. Demonstrou aceitar a “brincadeira”. Ela tomou um dos poucos caminhos que podia percorrer. Se fizesse outra coisa, a atitude dos corintianos poderia ser mais agressiva.
___Também não acho que a menina simplesmente chegou ao seu destino. Existe uma boa possibilidade que, intimidada, ela desceu na próxima estação. Fez questão de sair daquele trem o mais rápido possível. 

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___Talvez algum defensor das pobres e indefesas torcidas diga: "Os corintianos poderiam ter sido muito mais agressivos! Não sei do que você está reclamando.". Estou reclamando porque qualquer agressão (que não seja na simples troca de ideias e entre iguais**) não é aceitável. 
___Agora, se o seu amor pelo futebol não permite que você veja que tudo o que aconteceu foi, sim, uma agressão, está mais do que na hora de começar a rever os seus conceitos. Ou você também acha que é sinal de respeito ser abertamente homofóbico e racista "apenas" no estádio? 

Goleiro Aranha do @santosfc, o racismo e os cartolas, por Carlos Latuff

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* Formulei a hipótese de que ela já estava no vagão porque a moça estava sentada (e ouvindo música) em um metrô cheio. Mas, também pode ter acontecido da menina ter entrado depois, sem perceber todos aqueles corintianos. Esse detalhe é irrelevante. 
** No caso analisado nesta postagem, havia uma clara desigualdade numérica e de força. 


17 setembro, 2014

Não se suicide

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Harry Senate, professor responsável pelo "Clube dos Suicidas"

___Eu sei que existe muita coisa horrível no mundo. Mesmo assim, é lindo saber que também existem coisas legais, que existe gente interessada em fazer algo bacana. É fantástico, por acaso, descobrir uma dessas pequenas atitudes doces que estão escondidas pelo mundo. 
___O Centro de Valorização da Vida tem, por mais de meio século, oferecido apoio a pessoas que pensam em se suicidar. O trabalho feito pelo CVV é lindo, merece todos os elogios do mundo. 

Logo do CVV

___Dia desses, preparando algumas aulas, digitei suicídio no Google.* Nem imagino como os algoritmos do Google funcionam, mas, para a minha surpresa, antes das próprias respostas para a pesquisa, apareceu uma imagem de um telefone vermelho com os dizeres “Precisa de ajuda? No Brasil, ligue 141. Centro de Valorização da Vida”. 

Detalhe de página de pesquisa do Google, indicando o CVV

___Criticar é fácil. Qualquer um consegue dizer que o Google não passa de uma empresa inescrupulosa, que explora fadinhas e atores ruins e só está interessada em ganhar mais e mais dinheiro. E, longe de mim dizer que o Google é bonzinho, salva princesas e está acima de qualquer crítica. No entanto, é bacana ver que a empresa (ou alguém dentro dela) se interessou em deixar uma mensagem para ajudar um pouco alguém que pode estar passando por um momento difícil.  

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* Não, apesar do salário ridículo que o governador Alckmin me paga (e ainda ter chance do puto vencer a eleição logo no primeiro turno), eu não estava pensando em me suicidar. Eu estava preparando uma aula sobre a morte de Salvador Allende.

12 setembro, 2014

Quociente eleitoral

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___– Acho um absurdo essa roubalheira que é o quociente eleitoral! Puta dum treco inútil! É por isso que os partidos arrumam uns caras que nem o Tiririca, para eleger um monte de gente do partido que nem teve voto direito.* Uma bosta, né?
___Meu interlocutor estava um tanto exaltado. Ao invés de debater, resolvi mudar levemente o rumo da conversa.
___– Já decidiu em quem você vai votar para deputado?
___– Ah, eu nunca escolho nenhum deputado. Sempre voto na legenda.
___Cai o pano. 

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* Para falar a verdade, o resultado é eleger pessoas da coligação (a não ser que o partido em questão não esteja coligado com ninguém). Para ver o assunto com mais detalhes, recomendo fortemente este vídeo do Pedro, do Ateu Informa. Sobre o Tiririca, escrevi outro texto.

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