17 de novembro de 2019

Cada um no seu quadrado - vídeo e onomatopeia

___Sempre me incomodo quando estou ouvindo um podcast ou um programa de rádio e as pessoas que estão apresentando falham miseravelmente em tentar fazer os ouvintes entenderem uma cena ou uma imagem que apenas quem está gravando consegue ver. Da mesma forma, ao assistir um vídeo, acho sempre um tanto triste quando percebo uma tentativa completamente vã de tentar fazer quem está assistindo captar uma imagem literária complexa, algo que seria necessário uma leitura lenta, reflexiva, que normalmente não cabe em um vídeo. 
___Eu adoro escrever e queria falar da função poética da linguagem, mostrar um monte de efeitos literários onomatopaicos bacanas, mas sei muito bem que grande parte do que eu queria mostrar se perderia se eu apenas escrevesse aqui. Por isso mesmo, resolvi gravar um vídeo. Aproveitem. 


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Edição: M. Ulisses Adirt e Mms.
Músicas utilizadas: - "Greenery", Silent Partner.
- "Intimate tango", Doug Maxwell/Media Right Productions. 

31 de outubro de 2019

Impressões pessoais da (metade da) “Temporada 2019” da São Paulo Companhia de Dança

___Voltei do espetáculo da “Temporada 2019” da São Paulo Companhia de Dança bastante empolgado e, por isso mesmo, resolvi comentá-lo. 
___O espetáculo é dividido em dois programas: o “Programa 1”, que acabei de assistir, e fica em cartaz até dia 3 de novembro, e o “Programa 2”, que ficará em cartaz entre dos dias 7 e 10 de novembro. Por mais óbvia que seja a minha fala, é bom avisar: falarei apenas do primeiro programa. 

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___Dividido em três peças de qualidade completamente distintas, o “Programa 1” manteve uma seleção impecável de dançarinos. Com uma qualidade técnica fabulosa e movimentos absurdamente precisos, mesmo a peça mais fraca acabou sendo interessante de se assistir.  
___A última montagem, Vai, é de longe a mais pífia. Seu sentido é completamente dependente da sinopse e, mesmo com ela, apenas de maneira sofrível a mensagem é passada. Os dançarinos acabaram sendo, em mais de um ponto, completamente desperdiçados. Talvez a fama do Shamel Pitts tenha cegado a Companhia. 
___A segunda peça, Odisseia, peca pelo uso do nome, sem a grandeza da estória homérica. Apesar de um uso pobre dos elementos atípicos e do final prematuro, é bem representada, chamativa e, para dizer o mínimo, gostosa de assistir. Minha crítica talvez seja pesada pelo deslumbre que foi a primeira montagem: Ngali....  
___O “Programa 1” da temporada de 2019 começou com a montagem da Ngali..., coreografada por Jomar Mesquita, com a colaboração de Rodrigo Castro. No início da apresentação, torci o nariz pela falta de sincronia da introdução. No entanto, a má impressão inicial se desfez por conta de praticamente todos os detalhes que povoaram o restante do espetáculo. 
___Ngali... fala sobre relacionamentos de maneira tão clara, aberta, combinando tanto com as músicas, utilizando os dançarinos com tal esmero que, até o momento que algum deles não estava dançando, sua função como cenário acabava sendo essencial para a montagem. A mistura de dança contemporânea com a dança de salão desenhou as temáticas de relacionamentos com uma perfeição ímpar. Uma peça linda de se ver, interpretar, refletir. Provavelmente, a melhor montagem de dança que eu vi neste ano. 

24 de setembro de 2019

A leitura de Matadouro 5 e o massacre vietnamita

___Vivo experimentando livros diferentes em minhas aulas de História. Alguns funcionam e fazem sucesso com os alunos, outros me fazem questionar a capacidade de convencimento da minha lábia – tanto quanto a moça da padaria que nunca me deu bola. Matadouro cinco, de Kurt Vonnegut, está na categoria de grande sucesso. Adotei o livro e a maioria dos alunos se interessou sem que eu precisasse fazer o menor esforço. 
___Aproveitando que, neste ano de 2019, completam 50 anos da primeira edição da obra, vou compartilhar uma atividade que passei para os estudantes. 

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___“As pessoas que conheci com o passar dos anos frequentemente me perguntavam com o que eu estava trabalhando, e eu normalmente respondia que o principal era um livro sobre [o massacre de] Dresden.
___Um dia disse isso a Harrison Starr, o cineasta. Ele ergueu as sobrancelhas e perguntou:
___– É um livro de guerra?
___– É – respondi – Acho que sim.
___– Sabe o que digo às pessoas quando fico sabendo que elas estão escrevendo livros antiguerra?
___– Não. O que é que você diz, Harrison Starr?
___– Eu pergunto: ‘Por que você não escreve um livro antigeleiras?’.
___É claro que o que ele quis dizer foi que sempre haveria guerras, e que elas eram tão passíveis de serem evitadas como as geleiras. Eu também acredito nisso.” (Kurt Vonnegut,
Matadouro cinco).
a) O livro
Matadouro cinco pode ser classificado como um livro antiguerra/pacifista? Justifique sua resposta citando um trecho da obra – diferente do citado acima.
b) Dê sua opinião sobre a utilidade (ou não) de se tentar evitar guerras com livros. Um livro assim pode mesmo ser útil? Justifique sua resposta.
c) Explique como o livro
Matadouro cinco pode ser utilizado como documento histórico para se entender os Estados Unidos na época da Guerra do Vietnã (1955-75).  

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___As questões “a” e “b” foram respondidas com certa facilidade. O interessante mesmo foi ver a dificuldade que alguns estudantes tiveram ao responder a “c”. 
___Um número considerável de alunos respondeu que o livro de Kurt Vonnegut não estava ligado à Guerra do Vietnã, que ele falava da II Guerra Mundial, achando que eu havia apenas feito uma pegadinha, para ver quem havia lido. Outros, ignoraram tão solenemente o Vietnã que provavelmente entristeceriam Lyndon Johnson. Responderam direto sobre a ligação do livro com a II Guerra e só. 
___Para minha felicidade, alguns estudantes perceberam a dica da introdução, lembraram das minhas aulas sobre os protestos contra a Guerra do Vietnã, demonstraram terem lido a biografia de Vonnegut, retomaram nossas conversas sobre os filmes Rambo e Forrest Gump... e conseguiram associar o estranho modo como Matadouro cinco fala sobre a II Guerra Mundial com a época em que o livro havia sido escrito (o auge do movimento pacifista norte-americano). É sempre gostoso ver estudantes conseguindo enxergar além do óbvio. Mais gostoso ainda foi ajudar aqueles que não haviam visto nada além da narrativa básica da obra. 

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P.S.: Harrison Starr talvez achasse bem interessante o que algumas pessoas hoje falam sobre geleiras. 
P.P.S.: Apenas a título de curiosidade, aproveito para citar mais alguns livros que fizeram um bom sucesso com os estudantes: K. – relato de uma busca, de Bernardo Kucinski; A autobiografia do poeta-escravo, de Juan Francisco Manzano (na ótima edição feita pelo Alex Castro); Outrofobia, do próprio Alex Castro; Apologia a Sócrates, de Platão; Epopeia de Gilgámesh. Neste ano, para minha surpresa, parece estar funcionando muito bem a leitura dO Príncipe, de Nicolau Maquiavel. 

31 de agosto de 2019

Desestruturando

___Em uma época em que aparecem tantas pessoas reclamando sobre a falta de possibilidade de diálogo com quem pensa diferente, eu tenho muito a agradecer ao meu pai. Homem inteligente, meu pai sempre foi aberto à discussão, a apresentar diversos pontos de vista, a argumentar, fazer indicações e afins. Não que ele – ou, principalmente, eu – seja perfeito e nunca tenha perdido a paciência em uma discussão, mas aprendi bastante sobre o quanto vale ouvir a opinião do outro e sobre mudar de ideia. Por isso mesmo, até hoje, faço questão de ouvir a opinião de quem pensa diferente de mim. Uma dessas pessoas é o Luciano Pires, palestrante e autor do podcast Café Brasil
___Mesmo não gostando nem um pouco das opiniões do Luciano, aprecio uma parte do seu trabalho. Pessoalmente, não gosto de podcasts ou canais do YouTube em que alguém começa a falar qualquer coisa sem o menor planejamento. No Café Brasil, o Luciano Pires escreve um roteiro, faz uma interessante seleção musical e tem uma equipe para deixar o podcast muito bem editado.
___Elogios à parte, Luciano Pires abertamente votou no presidente Jair Messias Bolsonaro na última eleição e, agora, tem sido um apoiador tão ferrenho que daria inveja até no infeliz que tatuou “Bolsomito” no braço. Aposto que, se o presidente disser “Pula!”, o Luciano vai perguntar “Até que altura?”. E, no dia seguinte, ainda gravará um podcast dizendo que o Bolsonaro cuida da saúde da população brasileira, querendo que ela se exercite. 


___Todo esse apoio pode ficar um tanto problemático ao ouvir um podcast que o Luciano Pires lançou recentemente: “Infraestrutura”. Ouça, é curtinho.

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___Eu poderia questionar o apoio a um investimento tão pesado em rodovias. Poderia dizer que é triste – e excludente – alguém ver como positivo a equipe do ministério da infraestrutura rezar um “Pai nosso”. Mas, não vim aqui para atacar o governo, vou me focar em refletir sobre o problema do apoio incondicional do Luciano Pires. 
___Ele começa o podcast dizendo: “Fechei com minha palestra O Meu Everest as comemorações dos 159 anos do Ministério da Infraestrutura em Brasília.”. Lembrando que, além de podcaster, Luciano é palestrante profissional. Em outras palavras, parece que o governo está ajudando a pagar as contas do senhor Pires. Aí, fica muito mais fácil achar o governo maravilhoso. E, óbvio, muito menos confiáveis os seus elogios públicos. 
___Claro, minha atenção à primeira frase do podcast pode ter sido desmedida. Talvez o Luciano Pires tenha se oferecido para, gratuitamente, palestrar para as pessoas do ministério. Eu duvido, mas pode ser. Então, todo apoio que ele dá ao governo hoje, é de graça. Exatamente como faz o meu pai. Ainda bem que meu pai aceita discutir para que eu tente persuadi-lo a mudar de opinião.  

31 de julho de 2019

Dentro de uma caixa

___Faz uns dois anos, fez sucesso no YouTube (nacional e internacional) umas pessoas se enviando pelo correio dentro de caixas – ou algo do tipo. É fácil de achar procurando pelo assunto, mas não recomendo, pois a maior parte desses vídeos vale pelo inusitado e pouco mais do que isso. Mesmo assim, o que foi feito só pela bizarrice, pode valer como introdução para um fato histórico interessante. 
___Henry Brown foi um escravo norte americano no século XIX. Tentando escapar da situação de cativo, em 1849, com a ajuda de alguns companheiros, ele se enviou pelo correio. E, por mais de um dia, ficou dentro de uma caixa, sendo transportado do estado escravista da Virgínia para o endereço de uma sociedade antiescravista na Pensilvânia. 
___Sua forma de pensar fora da caixa deu tão certo que, livre, ele passou a ser conhecido como Henry “Box” Brown, palestrar contra a escravidão e, em 1951, foi para a Inglaterra ganhar a vida como showman. O único problema é que a fama do episódio acabou dificultando sua replicação por outras pessoas escravizadas.

Fac-símile obtido no site UConn Today, garimpado pela estudiosa Martha J. Cutter.

___De qualquer modo, não deixa de ser digno reflexão saber que alguém arriscou sua vida, no século XIX, pela liberdade e, agora, no século XXI, outras pessoas se arriscam por 15 minutos de fama.