30 setembro, 2016

Convivendo na Cidade

___Ao escrever “O bonde passa cheio de pernas: / pernas brancas pretas amarelas. / Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração. / Porém meus olhos / não perguntam nada.”, Carlos Drummond de Andrade expressou o assombro de se olhar o caos de uma cidade grande. Muitas pessoas –, muitas pernas – e pouco contato humano. 
___Essa visão um tanto melancólica da vida em cidade não é incomum. Algo bastante compreensível: é fácil sentir-se só em meio a uma multidão, ser empurrado e ignorado em um bonde ônibus lotado. Em outras palavras, é fácil olhar para a vida urbana de maneira triste, “comovido como o diabo.”. 

Tira de Rafael Sica

___Por isso mesmo, foi maravilhoso assistir o espetáculo Mapas Urbanos, da Caleidos Cia. de Dança, dirigido por  Isabel Marques e codirigido por Fábio Brazil. Um lindo trabalho de dança e comunhão com o público, que tem como foco a vida na cidade. 

Mapas Urbanos

___Dividido em 5 cenas bem distintas, o público se vê, o tempo todo, interpretando a mensagem passada pelos dançarinos e participando. Com o passar da peça, cada vez mais clara vai ficando a ideia de boa convivência no ambiente urbano, seja permitindo que uma faixa de pedestres seja um lugar seguro (e, portanto, gostoso para brincadeiras), seja dividindo guarda-chuvas (sempre em menor número do que as pessoas) ou participando de uma manifestação (sem violência policial). 

Mapas Urbanos

___A mensagem de convivência harmônica que a peça passa e a própria participação cada vez mais natural do público faz tudo parecer doce. Chega a ser difícil sair da peça sem pensar no quanto é importante dividir o espaço urbano. Não foi à toa que, na saída do espetáculo, eu consegui arrumar uma carona simplesmente pedindo entre as pessoas da plateia. Mesmo sem lua e sem conhaque. Poesia pura. 

Tira de Liniers

#####

P.S.: Então, depois de escrever um texto elogiando o Mapas Urbanos, faço um post scriptum anticlimático: eu fui ver o espetáculo na última semana em cartaz. Por enquanto, não dá para assistir.
P.P.S.: Por outro lado, a Caleidos Cia. de Dança, neste ano, está revisitando seu repertório (exatamente o caso do Mapas Urbanos, que é de 2011). Em outubro, eles vão apresentar Mairto, de 2015. Em novembro e dezembro, dois espetáculos inéditos. Informem-se pelo site

31 agosto, 2016

Patriotismo... e sangue

___Em meio a uma competição das olimpíadas, aparece um argentino competindo. As pessoas, em frente à televisão, fazem comentários do tipo:
___– O brasileiro pode até perder, mas é bom que fique na frente desse argentino. 
___– É bom que todo mundo fique na frente do argentino. 
___Uma das pessoas levanta a voz e diz:
___– Parem de falar isso! Eu tenho sangue argentino!
___– Sério?
___– Claro. No meu para-choques. Atropelei um hoje de manhã. 
___Todos caem na gargalhada. 

###

___Desde que o meu sobrinho nasceu, a minha irmã tem a mania (que eu adoro) de compartilhar com a família as coisas fofas que ele faz. Recentemente, por conta das olimpíadas, minha irmã compartilhou um vídeo com o meu sobrinho, em pé, com a mão no peito, enquanto o hino nacional tocava na televisão. Todo mundo achou a coisa mais fofa do universo e, efusivamente, elogiaram a professora da creche: “Tá ensinando direitinho!”. Sinceramente, achei horrível.  
___É correto ensinar um menininho de dois anos e meio a “portar-se corretamente” durante o hino? A honrar a pátria? A amar o seu país? A pobre criança não é capaz de discernir perfeitamente o que é certo e o que é errado e, nesse estágio do desenvolvimento, já sofre essa imensa lavagem cerebral. Não consigo achar bonito. Acho medonho. 
___Mais ainda, como minha irmã (e o restante da minha família) pode achar correto ensinar – em uma fase em que a criança não questiona nada – todo esse amor à pátria? Não passa pela cabeça deles que crescer nacionalista pode significar, no futuro, lutar e morrer em uma guerra? 
___Mesmo sem apelar para um exemplo tão sangrento, é exatamente essa forma irrefletida de patriotismo que leva as pessoas a rejeitarem os argentinos. Ou algum bobo que xinga as pessoas da Argentina sabem explicar o motivo da rixa? 
___Ainda é cedo, mas não tenham dúvidas que, assim que for possível, vou conversar tudo isso com o meu sobrinho. E, se ele quiser escolher ser patriota, que seja. Desde que ele escolha, não os outros. 

29 julho, 2016

Uma dama talentosa e o presidente

___Em março, em meio à visita do presidente Barack Obama à Argentina, a dançarina Mora Godoy o convidou para dançar.* A dança, como qualquer atitude fora do protocolo de Obama, chamou uma enorme atenção da imprensa. Caso alguém não tenha visto, segue o vídeo


___Exatamente porque sou dançarino, inúmeros conhecidos meus me mandaram links do vídeo com a seguinte fala: “Nossa! Olha o Obama!!! Além de ser presidente dos Estados Unidos, ele ainda sabe dançar bem!!!!!!!!!!”. Normalmente as mensagens vinham com mais pontos de exclamação, mas o conteúdo era mais ou menos esse aí. 
___Eu, pessoalmente, achei o vídeo uma graça. Todos os participantes principais foram fofos. Só que, principalmente para quem não entende de dança, eu tenho de dizer: o Obama não dançou bem. 
___Claro, para um leigo, para alguém que nunca dançou tango, a dança do Obama com a Mora Godoy foi bem legal, entretanto não foi uma boa dança. Mesmo que pareça que foi ótima para quem não entende do assunto. 

Detalhe de uma das cenas de tango do filme True Lies

___A dança não foi boa porque o Obama, que devia ter o tango do True Lies como referência,** fez um movimento ao caminhar desconfortável para a pobre dama: caminhou “ao contrário”, deixando o braço da dama em uma posição levemente incomoda (38”). Além disso, quando Mora se aprumou em sua pose final, o Obama, sem querer, tirou seu equilíbrio (1’03”). 
___Eu sei que a Mora Godoy disse que o presidente americano dançou bem, que depois de algum tempo ela começou a segui-lo. Se eu estivesse no lugar dela teria dito o mesmo, mas seria apenas uma gentileza, não a verdade. Afirmo isso porque é possível perceber, aos 43 segundos do vídeo, Obama tentando parar e Mora acrescentando alguns passos chamativos para encorpar a dança.
___Por fim, vale repetir: escrevi essas desritmadas linhas só para mostrar alguns pontos curiosos para quem não conhece dança de salão. Claro, não estou aqui querendo atacar o Obama nem nada do tipo. Foi bacana e corajoso da parte dele, sabendo que o mundo todo estaria olhando, aceitar dançar. Mais bacana ainda foi ver a Mora Godoy ajudando ele a fazer bonito para a maior parte das pessoas que viram a cena.  

__________
* E seu parceiro, José Lugones, convidou a Michelle Obama.
** Talvez, em alguma reunião política, ele tenha até tomado aulas de tango com algum governador.  

05 julho, 2016

Índio com celular

Índio com celular

___Todo dia, ao acordar (e para acordar), eu tomo um banho. Sinto que começo o dia muito mais relaxado, saio de casa me sentindo bem. Não tomar banho de manhã é algo que realmente me incomoda. Por vezes, dependendo das minhas atividades diárias, tomo mais de um banho por dia.
___Minha esposa não costuma se maquilar. Porém, sempre que ela vai a um evento importante, não dispensa a pintura.
___Adoro comer mandioca, batata, milho, tapioca, açaí. Não acho que o meu bife ou o meu arroz com feijão ficam completos sem uma farofa por cima. Passei a minha infância adorando tomar guaraná.
___Trabalho como professor. Acho importantíssimo que as pessoas mais velhas passem seus conhecimentos para as mais novas. Acho, inclusive, uma obrigação social. Diga-se de passagem, sentar e contar histórias está entre as melhores coisas da vida.
___Também sou professor de dança. Sei o quanto é difícil ensinar alguém a dançar sem uma percussão bem marcada. E também sei como as danças funcionam bem melhor com muita gente dançando.
___Nos meus dias de folga, se a temperatura permite, passo o dia descalço. Meu cunhado, por sua vez, passa o tempo que pode sem camisa.
___Adoro ler e leio de tudo. Leio em praticamente qualquer lugar: de pé, deitado, andando, na biblioteca, no ônibus, na fila do banco. De longe, o meu lugar preferido para ficar lendo por horas é a minha rede.
___Eu, descendente de europeus, não vivo como as pessoas do “Velho Continente” viviam no século XV. Meus ancestrais adquiriram diversos costumes nesses últimos séculos, muitos desses costumes de gente que morava aqui no “Novo Mundo”. Costumes, vale dizer, que eu gosto. Agora, diga-me: eu tenho o direito de criticar um indígena por usar camiseta, celular ou por estudar Engenharia? 

02 julho, 2016

A neutralidade do galinheiro

Todo ovo
Que eu choco
Me toco
De novo.
Todo ovo
É a cara,
É a clara
Do vovô.
.
Mas fiquei
Bloqueada.
E agora,
De noite,
Só sonho
Gemada.

###

___Dia desses, um professor de Sociologia amigo meu estava tirando sarro do fato de que o dono da instituição de ensino em que ele trabalha reclamou que a aula de Sociologia tinha um viés ideológico. Acredito que vale acrescentar a seguinte estória:
___Era uma vez uma escola que tinha meia dúzia de aulas de Matemática, umas quatro de Física, outras quatro de Química... Essa escola tinha só duas aulas de História; de Sociologia, uma. Mesmo assim, é bom ressaltar: essa escolha do número de aulas para cada matéria era apenas uma coincidência, não havia nada de ideológico nisso. Também não havia nenhuma escolha ideológica em colocar mais de quarenta alunos em cada sala de aula. E, então, todos os empresários viveram felizes para sempre.

Granja - Produção industrial

###

A escassa produção
Alarma o patrão.
As galinhas sérias
Jamais tiram férias.
“Estás velha, te perdoo.
Tu ficas na granja
Em forma de canja.”.

###

___Sabe aquela frequente pergunta de estudante? 
___– Para que que eu tenho de aprender isso?
___Dependendo da disciplina e de como ela é ensinada, é possível responder: 
___– Pode ser para que você seja um competente e comportado funcionário da empresa em que você for trabalhar. 
___Outras disciplinas (e a forma de ensiná-las) podem fazer com que esses estudantes aprendam a questionar o chefe, pedir melhores condições de trabalho, não aceitar abusos... Essas coisas mais humanas. Podem ensinar que esses estudantes não precisam de chefes, mas, se quiserem ter patrões, que podem ser funcionários extremamente competentes – mesmo sendo menos “comportados”. 

###

Ah!!! É esse o meu troco
Por anos de choco???
Dei-lhe uma bicada
E fugi, chocada.
.
Quero cantar
Na ronda,
Na crista
Da onda.

###

___Sempre fico chocado com comentários como o do patrão do professor de Sociologia. É impressionante que existam donos de escola que acreditam mesmo em imparcialidade. Será que donos de jornais e revistas também são caras-de-pau ingênuos assim? 

###

Pois um bico a mais
Só faz mais feliz
A grande gaiola
Do meu país.

#####

P.S.: Caso alguma pobre alma não conheça o poeminha citado durante o texto, é de autoria do fantástico Chico Buarque (adaptando o texto de Sérgio Bardotti). Fica o link para uma ótima versão

25 junho, 2016

O documento do policial

“O poder sem abuso perde o encanto.”
(Paul Valéry)

___Quero contar uma cena de violência policial que eu presenciei. Já faço um anticlímax, logo na segunda frase, avisando que não chega perto de nada que a polícia militar costuma fazer para reprimir protestos, que não foi nada tão absurdo quanto o que acontece na periferia, mas, mesmo assim, foi algo ruim e que deve ser denunciado.
___Domingo, fui com a minha esposa e minhas cachorras para a Paulista Aberta. Para quem não é de Sampa, cabe uma pequena explicação: docemente, a prefeitura de São Paulo, passou, nos domingos, a fechar a Avenida Paulista para os carros e liberá-la para os pedestres. O resultado tem sido maravilhoso, com pessoas de diversas regiões de São Paulo aparecendo para aproveitar o local, com música, arte de rua e afins. A maior parte dos acessos à Paulista são fechados aos carros, entre eles, a Rua Pamplona. Nela, diversos donos de cachorros aproveitam o espaço para soltar seus animais e, como extra, alguns pais levam seus filhos para aproveitar a interação com os bichinhos. 

Paulista Aberta

___Minhas cachorras estavam pulando alegres entre outros cachorros, crianças e borboletas quando a cena bucólica foi interrompida por um carro que entrou na rua, mesmo com os cavaletes da Companhia de Engenharia de Tráfego proibindo. Mais do que apenas entrar, o motorista estacionou ao lado de uma placa de “Proibido Estacionar” e desceu do carro (o motorista e dois passageiros: um homem e uma mulher; todos com roupas de passeio). 
___Um dos presentes, pai de uma criança, não achou aquilo certo e foi chamar um rapaz da CET. Depois de alguns minutos, o rapaz apareceu e disse: “O dono do carro já falou comigo e se identificou como policial. Eu não posso fazer nada...”. Argumentamos que ser policial não dava direito ao motorista de entrar com seu automóvel em um local em que carros não poderiam entrar e muito menos estacionar ali –, “Ainda mais para ficar namorando pela Paulista!”, acrescentou, revoltada, a dona de um golden. 
___O rapaz da Companhia de Engenharia de Tráfego ouviu tudo pacientemente e, didaticamente, demonstrou que ele não podia fazer nada: pegou sua máquina de multas, digitou a placa do carro e nos mostrou que, por ser um carro da polícia, ele não podia multar. “Pior ainda!”, bradou o revoltado pai que havia chamado o rapaz da CET, “O policial está usando uma viatura para vir passear no domingo. É um criminoso mesmo!”. 
___Sem ter mais o que fazer, o rapaz da CET se afastou. Pouco depois, o policial-bandido e seus cúmplices apareceram. O criminoso, ao perceber o pai da criança perto do carro, apontando com o rosto a placa de “Proibido Estacionar”, perguntou um salgado “O que foi?”. Ao ouvir que ele não tinha direito de parar ali, o bandido levantou a camisa, sacou a arma e disse “Eu sou policial! Eu posso.”. 

O Bem, por André Dahmer

___Vou deixar mais claro: ele não sacou o distintivo, um documento ou uma rosquinha e disse “Eu sou policial! Eu posso.”. Ele sacou a arma e disse “Eu sou policial! Eu posso.”! Além de uma longa discussão (inclusive com um dos presentes tendo chamado um policial uniformizado que disse que não iria fazer nada), pouco mais aconteceu. 
___No fim das contas, foi só uma cena triste de abuso policial. O mais incomodo é saber que um policial-bandido como esse, que, em uma manhã de domingo, em uma travessa da Avenida Paulista, saca sua arma para intimidar as pessoas, pode fazer algo bem pior em uma rua deserta, à noite, na periferia. Como é possível reagir? Não imagino nenhuma reação além de relatar o fato em um blogzinho e suspirar. 

Contra os Direitos Humanos, por André Dahmer

#####

P.S.: Caso exista algum leitor que possa tomar alguma providência (mesmo que administrativa) contra esse bandido e seus cúmplices, eu me disponho a depor. O documento com gatilho que o policial mostrou não me permitiu descobrir o nome dele. Entretanto, anotei a placa: o criminoso em questão era o policial que estava utilizando o carro de placa FOI 0085, às 10h30min, do domingo, dia 19/VI/2016.

03 junho, 2016

Eu não precisei, então ninguém precisa

“Mais de 100 horas semanais!”... É mesmo?

###

___O grupo Os Melhores do Mundo tem um esquete sobre um rapaz chamado Joseph Climber que perde um braço, duas pernas e um monte de outras coisas e, ainda assim, consegue vencer na vida. Tendo essa estória em vista, eu pergunto: vamos sair por aí cortando braços e pernas, pois, se o Joseph Climber conseguiu, todo mundo tem de conseguir também?
___Achou a minha pergunta introdutória ridícula? Pois bem, então você teve uma sensação parecida com a que eu tive pouco depois de publicar o pedido de ajuda aos estudantes que estavam ocupando o Centro Paula Souza.* Por mais absurdo que pareça, muita gente veio criticar os estudantes que estavam lutando para que as escolas técnicas recebessem merenda – algo que, vale lembrar, eles têm direito por lei. E, tristemente, o argumento mais comum foi “Quando eu estudava, o governo não me dava merenda e, mesmo assim, eu me formei muito bem!”. 
___Para começar, pessoa-que-não-precisou-de-merenda-do-governo, eu sei que seu narcisismo torna difícil você lembrar disso, mas, saiba, você não é o parâmetro do mundo. Se você não precisou de algo, isso não faz com que outras pessoas não precisem. O assunto não é você, são essas pessoas que precisam. 
___Os primeiros passos para a distribuição de merenda nas escolas foram dados na década de 1950. A ideia foi exatamente permitir que crianças e jovens de baixa renda conseguissem uma condição mínima para estudar. É necessário estar muito bem alimentado para achar que passar fome não inviabiliza uma pessoa de se dedicar aos estudos. Portanto, quanto mais o programa de alimentação escolar foi crescendo, maior foi a possibilidade de colocar um grupo que não poderia estudar dentro das escolas. Em um país em que a pobreza não foi vencida, achar que todo mundo deve ter o direito de estudar é, também, achar que escolas públicas devem servir merenda. 
___Por fim, é bom dizer: o governo tem de obedecer a lei e dar comida para os estudantes. Se você não gosta disso, lute para mudar a lei; não critique os estudantes por lutarem por um direito que eles têm e não estão recebendo porque o governo estadual é corrupto e incompetente.

#####

P.S.: Sobre o argumento furado “Tem tanta gente passando fome e você querendo ajudar esses estudantes...”, eu já escrevi sobre o tema, em 2008. 


__________
* E algumas escolas técnicas controladas pelo Centro Paula Souza. 

Site Meter