17 abril, 2014

Eu sei pelo que é importante lutar!

___– Credo! Que cara é essa?
___Com os olhos cheios de lágrimas, a pessoa responde:
___– Tô muito triste. O meu cachorro morreu.
___– Ah, caralho! Peloamordedeus! Tanta coisa grave acontecendo no mundo, tanta gente passando fome e você aí chorando porque a porra do seu cachorro morreu? Tenha dó.

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___Existem muitas formas de uma pessoa demonstrar que se acha o centro de tudo. Poucas são mais claras do que decretar quais são os problemas importantes, quem pode fazer algo, quais são as lutas que merecem ser lutadas. E o maior problema é que essas atitudes deixam bem claro o quanto seu autor não consegue (ou não quer) considerar o outro. 

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___No final do mês passado, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) publicou os resultados de uma pesquisa sobre Tolerância social à violência contra as mulheres. Entre os resultados estava o de que 65% dos entrevistados concordavam que “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas” e que 58,5% disseram que “Se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”. 


___Por conta desses números, a jornalista Nana Queiroz (foto acima) iniciou um protesto online com a hashtag #NãoMereçoSerEstuprada. A iniciativa foi muito bem aceita e, em pouco tempo, surgiram inúmeras fotos com a mesma mensagem.* 








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___Depois que o protesto já havia ganhado muita notoriedade, apareceram alguns poréns. Não falo de pessoas criticando os métodos da pesquisa, sua validade e coisas afins; tudo isso é esperado e até bem aceitável quando uma pesquisa qualquer é feita. O porém que, creio eu, tem de ser assinalado é o das críticas à existência do protesto, aos motivos da luta, à forma de se protestar, a quem está lutando. Vejam um exemplo bem didático:


___Para começar, o cidadão da foto começa com um ataque infantil a quem está protestando, um fraco argumentum ad hominem. Escolhe quem deve ter o direito de protestar (as mulheres – que ele considera – bonitas) e marca, como extra, o seu moralismo tacanho. 
___No segundo cartaz, deixando clara sua visão de que é o dono da Verdade, o rapaz decreta qual luta que é legítima de ser lutada: deve-se brigar contra o governo. Não contra o machismo, o moralismo, o estupro ou a falta de empatia, mas contra o governo. Claramente, o cidadão da foto afirma que as outras lutas não têm importância, que os sofrimentos alheios não são sérios. E, como cereja do bolo, termina chamando os outros – não ele – de egoístas. 
___Se o Jim Carrey segurasse uns cartazes de filmes que ele estrelou, talvez conseguisse se mostrar tão, pretensamente, centro de tudo.  


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____“Isso significa que o cara não pode incitar um protesto contra o governo?”. Claro que pode. Só que existem maneiras menos escrotas de fazer isso. Tentar chamar um protesto desdenhando dos outros e da luta alheia, com certeza não é a melhor maneira. 

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P.S.: Selecionar fotografias do #NãoMereçoSerEstuprada fez com que eu admirasse ainda mais quem participou. Foi impressionante ver que, em grande parte das fotos, apareciam vários comentários de pessoas raivosas agredindo a moça que estava se expondo. Fez com que eu achasse mais necessário ainda publicar este texto. 

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* Dias depois, no dia 4/IV, o IPEA divulgou uma errata dizendo que a porcentagem real de entrevistados que achavam que “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas” é de 26%. Para o ponto que pretendo trabalhar neste texto, essa mudança de dado não altera minha argumentação. Além disso, considero que o protesto #NãoMereçoSerEstuprada continua sendo completamente válido, já que a porcentagem de 58,5% que concordavam que “Se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros” continua sendo correta. E, mais do que isso, não há nada para se criticar no foco do protesto – já que 26% ainda é uma porcentagem bem alta, praticamente uma em cada quatro pessoas. 

10 abril, 2014

Adiantada para a segunda aula

___Sou aberta e assumidamente um professor encrenqueiro. Um dos motivos para isso é que sei a importância e adoro o que faço. Acho o fim do mundo ver quem não trabalha direito gastando o importante tempo de vida dos estudantes. A coordenadora pedagógica de uma das escolas em que eu trabalho também é uma professora bastante dedicada, mas, ao contrário de mim, parece bastante séria e nada aberta a brincadeiras. 

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___Faz uns dias, eu estava pegando um mapa antes do início da primeira aula enquanto a coordenadora, olhando a grade de horário, começou a conferir se todos os professores do dia estavam presentes. 
___– Hum... Ainda falta o professor de Física e a professora de Biologia. Ele sempre chega em cima da hora mesmo... 
___Não me aguentei. Assim que ela, pensativa, suspirou, eu completei:
___– E a professora de Biologia sempre chega uns quinze minutos depois da hora...
___Ela virou para mim com a cara fechada. Quando eu já estava pronto para ouvir uma reprimenda, a coordenadora abriu um sorriso e disse:
___– Só quinze? Você está bonzinho hoje, Ulisses.

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___É sempre bom encontrar cúmplices por aí. 

03 abril, 2014

Saindo do papel: provas e outras mídias

___A grande vantagem de pedir para que os alunos façam uma avaliação em casa é poder acrescentar mídias e cobrar leituras que dificilmente poderiam estar presentes no tempo e em um espaço de avaliação tradicional. Uma das questões que eu fiz recentemente é extremamente exemplar nesse ponto. 

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Relacione o vídeo “Somos um Rio, a Vila Autódromo é outro.” (http://youtu.be/MJPCVKYqdus) com as leis abolicionistas feitas no Brasil Império (1822-89).*  


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P.S.: Acho que o trabalho do Rafucko é maravilhoso. Por isso mesmo, faço questão de divulgá-lo. Aproveitando a divulgação, vale citar que o Rafucko está fazendo uma vaquinha para arrecadar fundos para o seu talk show. Conheça o projeto
P.P.S.: Para quem gosta de ver questões de História, nos idos de 2007 eu publiquei, aqui no Incautos, uma série com questões que tinham como base textos tirados de blogs. Respectivamente, postagem 1, 2, 3 e 4

24 março, 2014

Presidenta ou presidente? Lição básica para não agir como um idiota

___Eu sei que seria bem mais confortável se a realidade fosse sempre do jeito que nos interessa, que seria muito mais bacana se nossos desafetos sempre errassem. No entanto, lamento dizer, o mundo não é assim. Lamento mais ainda dizer que existe até quem trabalhe na grande mídia e não saiba disso. 


___Arnaldo Jabor, por exemplo, trabalha como comentarista político na CBN. Chega a ser folclórico ver como ele consegue em uma crônica sobre o Putin e as Olimpíadas de Inverno atacar o governo brasileiro e se mostrar homofóbico. Praticamente um sanduíche especial em uma rede de fast food. Mas, não é por isso que eu estou escrevendo. Vim mostrar que o ódio do Jabor para com a Dilma o leva a ver erros até onde não existe. Ou, simplesmente, para mostrar a ignorância do cronista que quer chamar os outros de ignorantes. 
___Ouçam pelo menos os 20 primeiros segundos da crônica que Jabor fez no dia 13/III/2014: “Qual a diferença da Venezuela para a Ucrânia?”.


___Por mais que seja divertido – para quem é machista ou não gosta do PT – imaginar que a Dilma errou ao se alcunhar de presidenta, na verdade ela acertou. A flexão feminina da palavra presidente existe e Jabor poderia ter descoberto isso conferindo no dicionário (tanto no Houaiss, quanto no Aurélio). Uma atitude simples que teria evitado o cronista de passar vergonha. 
___Antes que algum defensor do Jabor venha gritar NEOLOGISMO! na minha orelha, eu também recomendaria uma olhada no Novo Diccionário da Língua Portuguesa, de Candido de Figueiredo, de 1899. O verbete presidenta já aparece por lá e, vale lembrar, as palavras que aparecem em um dicionário existiam antes da sua edição.* 
___Se citar todos esses dicionários não resolveu o problema, tenho mais uma citação do século XIX. Machado de Assis usou a palavra presidenta em seu Memórias Póstumas de Brás Cubas, livro de 1880. Sério mesmo. Pode conferir no capítulo LXXX. Será que o Jabor também vai dizer que o Machado escrevia errado “para agradar o povão que não sabe falar português direito”?


___Por fim, para terminar a lição básica para não agir como um idiota, vai uma receitinha que funciona muito bem: se a pessoa pede para ser chamada de determinada forma, respeite. Se a governante do país pede para ser chamada de presidenta, não seja mal-educado: use presidenta. Não “presidenta”, presidenta (sic), presidentA ou qualquer variação que demonstre a sua falta de traquejo com dicionários. Se uma pessoa trans se apresenta com um nome diferente do registrado em cartório quando do nascimento, use o nome que a pessoa trans escolheu. Se o seu colega de futebol disse para você não chamá-lo por determinado apelido, respeite. Pode apostar que, depois da quarta série, essa regrinha não falha. 
___Tanto que eu até chamo o Arnaldo Jabor de cineasta. Mesmo achando que as pornochanchadas que ele produziu não mereçam o nome de produção cinematográfica. 

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* Infelizmente, não consegui uma cópia virtual da edição de 1899. Entretanto, o pessoal do lindo Project Gutenberg digitalizou a edição de 1913, em que também aparece o verbete presidenta. 

17 março, 2014

Para inglês ver

___Segue o primeiro vídeo que eu publico na internet (os vídeos que eu gravo com a minha esposa são de caráter mais privado). Assunto: contar sobre o surgimento e alguns usos da expressão “Para inglês ver”.


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Imagens utilizadas:
- “Para inglês ver”. 

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Estatísticas para o desembarque estimado de africanos no Brasil:
Brasil: 500 anos de povoamento (IBGE)

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Trilha sonora: 
Maybe”, de Free Mickey.

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Leitura recomendada: 
Uma lei para inglês ver: a trajetória da lei de 7 de novembro de 1831”, de Argemiro Eloy Gurgel. In.: Revista Justiça e Historia. Vol. 6, nº 12. Rio Grande do Sul, 2008. 


08 março, 2014

Paparicada...

___Hoje, sábado, 8 de março, saí cedo de casa para trabalhar. Cheguei ao cursinho em que eu leciono, cumprimentei os professores que já haviam chegado e me sentei em um canto para ler. Poucos minutos depois, chega a nova professora de Física, toda alegre.
___– Bom dia, gente!
___Após alguns "ois", a professora começa a contar que está feliz porque "Hoje, Dia Internacional da Mulher, eu serei paparicada.". 
___– Paparicada?, pergunta a professora de Matemática.
___– Sim! Já que é dia 8 de março, o meu marido disse que hoje vai lavar a louça. 
___Sem me aguentar, perguntei:
___– Quem lava nos outros dias?
___– Eu. 
___– E o seu marido, faz o quê?
___– Oras, ele trabalha. 
___Cai o pano. 
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