30 julho, 2015

Ausência de faixas: entre o desrespeito e o cuidado

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As faixas de pedestre esquecidas - Argentina (Bariloche)
As faixas de pedestre esquecidas - Argentina (Bariloche)

___Viajei recentemente para uma cidade argentina que, praticamente, não tinha faixa de pedestres. Para falar a verdade, de quando em vez, em algumas ruas era possível perceber uma faixa, no canto, quase toda apagadinha, relegada a um quase esquecimento.

As faixas de pedestre esquecidas - Argentina (Bariloche)

___Inicialmente, considerei o fato um desrespeito atroz. Como pode uma cidade ter tão pouco cuidado com os pedestres que nenhum lugar é feito para as pessoas atravessarem as ruas? Esqueceram os pedestres deste lugar? Que desrespeito. Maldito mundo carrocrata!
___Só que minha estada na cidade foi se alongando, fui conhecendo as pessoas e seus costumes e, então, comecei a ver alguns pontos extras. 
___Para começar, a velocidade marcada pelas placas parecia realmente respeitada. Não era como São Paulo – em que uma placa marca que aquela rua residencial deve ter uma velocidade de 30 km/h e os carros andam a 60 km/h. Os carros realmente pareciam não correr pela cidade. Além disso, seja por cuidado, por costume ou por dó, os motoristas diminuíam ou paravam quando as pessoas começavam a atravessar.*

As faixas de pedestre esquecidas - Argentina (Bariloche)

___Claro que esperar que o bom senso dos cidadãos resolva todas as questões (ainda mais no trânsito), não é o melhor caminho. Porém, não deixou de ser interessante perceber que, quando o desrespeito estatal foi muito grande, as próprias pessoas acrescentaram um pouco mais de cuidado.

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P.S.: É óbvio que este texto não se trata de um estudo científico sobre a reação dos motoristas em determinado lugar do mundo. Apenas dividi com os leitores deste blog um pouco da minha observação como pedestre em um local um tanto diferente da minha cidade. 
P.P.S.: Vale lembrar: o artigo 69 do Código de Trânsito Brasileiro garante aos pedestres o direito de atravessar uma via que não tenha nenhuma faixa.** Os motoristas é que tem a obrigação de parar e zelar pelos pedestres. Pena que é mais fácil um fusca falar do que encontrar algum motorista que conheça (e respeite) essa lei.  

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* Outra diferença se compararmos com Sampa, vale dizer. Por aqui, infelizmente, não é incomum que os motoristas deem uma acelerada ou uma roncada mais forte no motor para “ultrapassar” os pedestres ou vê-los terminar mais rapidamente de atravessar a rua –, mesmo na faixa. 
** Ou que a passagem ou faixa de pedestres esteja a uma distância superior a 50 metros.

14 junho, 2015

Não coma anima

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___Entro no vagão do metrô lendo, desatento ao que se passa à minha volta. Paro de ler e procuro um lugar. Encontro, no canto do vagão, ao lado de um rapaz magro, branquelo, cabelo raspado. Assim que me sento, em um movimento rápido, ele recolhe a mão para junto do corpo. Pelo visto, o rapaz estava rabiscando uma das paredes do vagão. Até aquele ponto, ele havia escrito “Não coma anima”. 
___Depois de alguns segundos, peguei meu livro e voltei a ler. Encorajado pela minha falta de foco nele, o rapaz continuou a rabiscar a parede do vagão com uma chave. Acrescentou o “is” à palavra “animais” e se recostou, relaxado. 
___Como sou um problemático maluco, falei:
___– Aproveite e escreva também: “Não deprede o transporte público.”.
___– Ah, vai tomar no seu cu! Todo mundo faz isso. 
___– É... –, respondi. – E “todo mundo” come animais. 

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P.S.: Antes que apareça por aqui algum ataque desmedido, recomendo a leitura da minha série “Muros, ironia e espaço público”: parte I, parte II e parte III

07 junho, 2015

Propaganda que funciona

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___O objetivo de uma propaganda é convencer as pessoas a comprar determinado produto. As propagandas de dia dos namorados, entretanto, não costumam funcionar comigo. Mesmo se forem muito convincentes, fofas e com o público inteiro fazendo ooooooohhhhuuumm
___Já faz dez anos que eu e minha esposa estamos juntos e, pela graça da boa Clio, nós nunca ligamos muito para datas. Não jantamos em restaurantes chiques no dia dos namorados, não trocamos presentes no natal, nem nada do tipo. Sendo assim, as propagandas açucaradas apenas me entretêm, nunca me convencem a comprar. 
___Neste ano, o Boticário fez uma propaganda saindo um pouco dos padrões: não mostraram apenas casais heterossexuais.* Confiram.


___Mesmo sendo bacana a iniciativa, a propaganda não foi o bastante para que eu, que nunca compro nada no dia dos namorados, ficasse minimamente tentado a comprar um perfume do Boticário. Então, veio a segunda parte. 
___Como era de se esperar, os grupos mais reacionários começaram a zurrar contra a propaganda. Mais ainda, o pastor Silas Malafaia veio a público pedir para que outros preconceituosos, outros que pensam como ele, boicotem a marca. Tá aqui um link para o vídeo, caso alguém queira ver. 
___Eu sei que foi uma propaganda negativa, sei que, infelizmente, ele vai convencer muita gente a boicotar o Boticário e, também, sei que o número de pessoas que seguem o Malafaia é grande. Porém, para mim, a propaganda negativa foi positiva. Até deu vontade de comprar alguma coisa do Boticário. 

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P.S.: Para quem viu o vídeo do Malafaia e quer ver algum outro para desanuviar, recomendo este vídeo do Estêvão Slow.

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* Quando eu digo “saindo um pouco dos padrões”, não se trata de uma força de expressão. Por mais bacana que seja fazer uma propaganda mostrando casais homossexuais, queira ou não é uma propaganda de dia dos namorados só com abraços, sem nenhum beijo. Sem contar que outros tipos de namoros (como os poliamorosos), como sempre, são ignorados. 

28 maio, 2015

A incrível congregação de vapores

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___Existe muita porcaria na internet. E, mais do que porcaria, existe muita gente reclamando que existe muita porcaria. Por isso mesmo, é fantástico apontar quantas coisas legais e bacanas vão surgindo pela internet a fora. No ano passado, no mundo dos blogs, foi iniciado, pela maravilhosa Camila Pavanelli, o importantíssimo Boletim da Falta d'Água em SP; entre os vídeos, eu descobri o ótimo Nerdologia, do  Atila Iamarino;  e, nos podcasts, em maio do ano passado, foi lançado o Promontório Estéril, feito pelo simpático Fabricio Soares. E é exatamente do Promontório que eu resolvi falar hoje. 
___Para anunciar o aniversário de um ano de vida do podcast, o Fabricio fez um episódio especial contando curiosidades sobre aniversários. Esse é um dos pontos mais bacanas do Promontório Estéril: mesmo sendo um podcast de biografias, quase qualquer tema tratado é cheio de curiosidades (ou dito de forma bem interessante, com boa trilha sonora e ótimos efeitos de sonoplastia). 
___No episódio de aniversário, aos 6’33”, Fabricio fala sobre o brigadeiro e conta que o doce “ganhou esse nome graças ao brigadeiro Eduardo Gomes, político que disputou a presidência, em 1945. As eleitoras e fãs criaram o doce, que foi nomeado com sua patente, para ganhar votos.”. Adoro essa curiosidade e sempre divirto meus alunos com ela. Em sala, conto, também, sobre o slogan que usaram durante a campanha de Eduardo Gomes: com o objetivo de arrecadar os votos femininos (já que aquela seria a primeira eleição presidencial com mulheres votando) se dizia “Vote no brigadeiro que, além de bonito, é solteiro.”.*
___Deixando minhas tergiversações de lado, escrevo esta postagem para indicar o podcast – que é uma das maravilhas produzidas pela internet hoje. E, claro, para parabenizar o Fabricio Soares e desejar que o Promontório Estéril dure por muitos outros anos. 

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* Não deixa de ser digno de nota o tratamento bizarro destinado às eleitoras. 

14 maio, 2015

Irrequieta

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Pintor: Moça, por favor, fique quieta.
Modelo: Desculpa...
Pintor: Tá aí. De novo. 
Modelo: Mas, eu não me mexi. 
Pintor: Você riu. 
Modelo: Desculpa. É que eu acho o senhor engraçado. 
Pintor: Não fiz graça nenhuma.
Modelo: A sua barba. Ela é engraçada. 
Pintor: Esqueça minha barba! Tente olhar para outra coisa. Nem olhe para mim.
Modelo: Tá bom. 
Pintor: Olhaí... Olha o que você fez! Errei o fundo. 
Modelo: A culpa não é minha. Eu não controlo o cenário.
Pintor: É culpa sua, sim. Você fica me desconcentrando. Cada vez que eu olho para você seu rosto está diferente. Tô corrigindo tanto que o quadro vai acabar borrado. 
Modelo: Ninguém vai ver muito esse quadro mesmo...
Pintor: Então fique quieta que eu termino rápido. 
Modelo: Sei, sei... 
Pintor: E pare de rir que eu não consigo acertar a sua boca. 

Mona Lisa (A Gioconda), de Leonardo da Vinci (1503-06)


10 maio, 2015

Patrões e escravos

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___Semana passada a Unicamp (e sua maravilhosa Olimpíada de História) me deu a oportunidade de conhecer uma ilustração de Jean Baptiste Debret que eu ainda não havia tido a oportunidade de ver: Cena de Rua (patrão e escravo).* 

Cena de Rua (patrão e escravo), de Jean Baptiste Debret

___Os trabalhos de Debret são fantásticos para conhecer um pouco sobre a vida no Brasil durante as primeiras décadas do século XIX. Infelizmente algumas das cenas por ele retratadas, como a aquarela acima, ainda assombram o Brasil das primeiras décadas do século XXI. 
___Moro ao lado de um prédio pertencente ao Poder Judiciário. Dia desses, a chuva caia forte e eu estava à janela, com a minha cachorrinha, olhando exatamente a tal repartição pública. Enquanto eu observava, um carro chique parou próximo à parte coberta. O motorista abriu a porta, o guarda-chuva e desceu do carro; deu a volta no veículo e foi para o coberto. Pouco depois ele volta e abre a porta traseira do carro, do lado do passageiro. Ao tentar se deslocar de volta para pegar sua passageira, o motorista percebe que a porta vai acabar fechando. Para evitar o fechamento da porta, ele passa a segurá-la com uma mão e, com a outra, estica o guarda-chuva para a senhora que aguardava no coberto. 
___Mesmo desprotegido, tomando uma torrencial chuva à cabeça, o rapaz permanece impassível. A senhora bem trajada começa a ir em direção à porta aberta e o motorista vai protegendo-a com o guarda-chuva. Então, alguém, no coberto, chama a mulher. Ela se vira e começa a conversar. 
___A conversa durou alguns minutos. A mulher não se preocupou em voltar para o coberto, pois estava protegida pelo guarda-chuva. O interlocutor também não deve ter se preocupado, já que não se molhava. O motorista, tal qual o escravo retratado por Debret, ficou parado, esquecido, resguardando à pessoa de casta superior. 

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* Pintada entre 1817-1829. 

01 maio, 2015

Tatuagem e etiqueta II

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___No final do ano passado, eu publiquei um texto por aqui perguntando, para pessoas tatuadas, qual é a etiqueta para se olhar tatuagens de desconhecidos em lugares públicos. Agradeço às respostas, se bem que ainda mantenho minhas dúvidas. 


___Hoje, venho aqui relatar um pequeno ocorrido sobre tatuagens e dividir com os leitores minha reação. Vamos à narrativa.

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___Encontrei uma moça que estudou comigo no colegial. Aquele tipo clássico de encontro de antigos conhecidos: ela gritou meu nome, eu olhei, demorei um pouco para reconhecê-la e, depois de alguns minutos, estávamos relembrando o passado e comentando sobre a vida pós-escola. 
___Ela, que sempre foi muito tradicional e recatada na escola,* estava bem mais solta. E, também, estava toda tatuada. Comentei que havia gostado das tatuagens nos braços. Animada, ela se virou, levantando o cabelo e dizendo “Essa foi a minha última!”. Eu, que gosto de ver tatuagens, fiquei sem reação: o carpe diem que ela havia tatuado no pescoço estava escrito errado. 
___Fui assolado por um turbilhão de pensamentos. Eu deveria falar alguma coisa? Adiantaria falar de um erro em uma tatuagem, em algo que seria difícil de ser apagado ou corrigido? Se soubesse do erro, ela tentaria saná-lo ou só ficaria chateada? Se ela não soubesse, a tattoo poderia virar motivo de escárnio? 
___Quando ela se virou, com o olhar ávido, esperando para ver minha reação, engoli em seco e disse:
___– Acho muito legais essas letras rebuscadas que são usadas nas tatuagens...
___Não sei se agi bem. Mas, pelo menos, ela sorriu. 

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P.S.: Aproveitando o ponto, vale lembrar que erros também podem ser propositais. Ou alguém pode afirmar, com certeza, que o fuck the system da tatuagem acima não foi uma escolha completamente consciente? 

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* Na década de 1990. 

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