30 de setembro de 2018

Enterro de um ateu

___O velho pai de um amigo querido morreu. Eu não costumo ir a enterros, não sou religioso e por vezes acho que o pouco que faço indo pode ser piorado pelo fato de que, de quando em vez, passo mal em eventos assim. No entanto, esse meu amigo tem enfrentado tempos muito duros, perdeu o movimento de uma das pernas, tem tido incontáveis problemas familiares e mazelas do tipo. Achei que valia a pena comparecer para ver como meu amigo estava. 
___Ateu convicto e comunista militante, meu amigo não permitiu nenhum tipo de manifestação religiosa no velório. Nenhum símbolo religioso foi exposto, nem mesmo velas. Haviam apenas pessoas em volta do caixão chorando e, outras, mais afastadas conversando. Mesmo assim, pouco antes do corpo ser sepultado, um funcionário se aproximou perguntando se não queriam mesmo alguém para fazer uma oração antes do enterro. Meu amigo negou e, lentamente, claudicando com as muletas, aproximou-se do caixão. 
___Todos pararam para olhar. Ele se aproximou do pai, olhou-o e começou a falar. Contou sobre sua vida de sindicalista, das greves que participou, das campanhas políticas nas quais panfletou. Eu não conheci o morto, mas pareceu alguém que, se estivesse vivo e saudável, estaria fazendo campanha e também deixando clara e pública sua rejeição a nomes como João Amoedo, Geraldo Alckmin e, claro, Jair Bolsonaro. 
___Quando meu amigo terminou de falar da trajetória e das convicções do pai, os presentes estavam atentos e respeitosos. Foi uma cerimônia bonita. E eu não passei mal. 

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P.S.: Aproveito para indicar o belo conto “Kadish para um dirigente comunista”, de Bernardo Kucinski. 

31 de agosto de 2018

Apoiando o cinema nacional

___Fui a uma grande rede de cinema, caminhei até a bilheteria e pedi ingresso para um filme. 
___– O senhor sabe que esse é um filme nacional? –, perguntou o funcionário.
___– Sim, eu sei. É esse mesmo que eu quero ver.
___– Tem certeza?
___– ... Tenho...

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P.S.: Caso algum leitor queira ler algo mais ou menos sobre o tema, recomendo o conto “Em cartaz”, de Connie Willis. Dá até para indicar para funcionários de cinema, não é nacional. 

8 de julho de 2018

A carta Calafrarte (Shudderwock) e suas referências – Hearthstone

___Meu jogo preferido de cartas online é o Hearthstone: Heroes of Warcraft. Além de me divertir jogando, ainda adoro o trabalho de pesquisa dos desenvolvedores e tradutores da Blizzard, empresa que faz o jogo. Um bom exemplo disso, foi a carta Calafrarte. 

Calafrarte

___Desde a primeira vez que vi a carta (xingando-a por ter perdido uma partida), eu me diverti com as referências. No fórum do Hearthstone, um usuário chamado GlennFlame perguntou “Qual é a dessa referência do Calafrarte? tava pesquisa o que ele fala ‘minha garra que agarra, minha bocarra que urra’, só agora fui entender, e no google aparece uma musica chamada santa m[anca] que tem esse trecho, e fala de um jaguadarte. foi inpiração? isso é alguma história folclorica?”. Respondi e, como foi divertido tirar a dúvida e a resposta pareceu interessante, resolvi postá-la aqui. 

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Shudderwock

___No original, em inglês, a carta Calafrarte se chama “Shudderwock”, referência ao monstro do poema “Jabberwocky”, presente no capítulo 1 do livro Alice através do espelho, de Lewis Carroll. Ao traduzir a carta e suas falas, a Blizzard tomou o cuidado de escolher uma das mais sonoras traduções, a do poeta Augusto de Campos. Jabberwocky foi traduzido por Augusto de Campos como Jaguadarte. E é exatamente ele que traduz “The jaws that bite, the claws that catch!” com “Garra que agarra, bocarra que urra!”. Mais ou menos a fala do Calafrarte, quando sua carta é colocada na mesa. 
___Quando o jogador ataca com o Calafrarte, o lacaio diz “Para trás, para diante!”. Outra referência ao poema, parte do segundo verso da quinta estrofe: “Um dois! Um, dois! Sua espada mavorta / Vai-vem, vem-vai, para trás, para diante!”. 
___A Blizzard ainda adota a ótima prática de referenciar os artistas que fazem os desenhos das cartas. Se o jogador for olhar a descrição da carta, além de uma pequena piadinha, lá estará escrito que a imagem da carta é de Matt Dixon. A piada, diga-se de passagem, é “Cuidado com o Calafrarte, meu filho. Não temos mais adagas vorpais.”. No poema de Carroll, o Jaguadarte é morto por uma espada vorpal e o homenino que o matou é recebido com a seguinte fala: “‘Pois então tu mataste o Jaguadarte! / Vem aos meus braços, homenino meu!’”. 
___Como citação extra ao Jabberwocky/Jaguadarte, o desenho do Shudderwock/Calafrarte é uma clara referência ao desenho feito, em 1871, por John Tenniel para a primeira edição de Alice através do espelho. Olhe o original aqui: 

Jabberwocky (1871), desenho de John Tenniel para a primeira edição de Alice através do espelho, de Lewis Carroll

___Compare com a ilustração de Matt Dixon para a carta: 

Shudderwock, de Matt Dixon

___Não é à toa que eu adoro Hearthstone.

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P.S.: Para quem gosta de jogos com citações desse tipo, além do Hearthstone, a Blizzard ainda tem o World of Warcraft, que é mais rico ainda.
P.P.S.: Caso você queira ler o poema original (e várias traduções), dê uma olhada aqui
P.P.P.S.: Se quiser ouvir a tradução do Augusto de Campos muito bem recitada, com “Garra que agarra, bocarra que urra!” com muitos errrrrrrrrrrrrres, assista o vídeo abaixo – e, recomendo, acompanhe, com os olhos, o texto.


JAGUADARTE (Lewis Carroll, com tradução de Augusto de Campos)

Era briluz. As lesmolisas touvas
Roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.

“Foge do Jaguadarte, o que não morre!
Garra que agarra, bocarra que urra!
Foge da ave Felfel, meu filho, e corre
Do frumioso Babassurra!”

Ele arrancou sua espada vorpal
E foi atrás do inimigo do Homundo.
Na árvore Tamtam ele afinal
Parou, um dia, sonilundo.

E enquanto estava em sussustada sesta,
Chegou o Jaguadarte, olho de fogo,
Sorrelfiflando através da floresta,
E borbulia um riso louco!

Um, dois! Um, dois! Sua espada mavorta
Vai-vem, vem-vai, para trás, para diante!
Cabeça fere, corta, e, fera morta,
Ei-lo que volta galunfante.

“Pois então tu mataste o Jaguadarte!
Vem aos meus braços, homenino meu!
Oh dia fremular! Bravooh! Bravarte!”
Ele se ria jubileu.

Era briluz. As lesmolisas touvas
Roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.

22 de junho de 2018

Relojoeiro em tempos de Copa do Mundo

___Já faz uns bons 10 anos que vou ao mesmo relojoeiro trocar a bateria do meu relógio de pulso. Pouco depois que percebo que o relógio está atrasando ou para, eu caminho até a relojoaria que fica perto de casa e peço para que ele troque a bateria. 
___O ritual é sempre o mesmo: com uma infinita calma ele se senta, olha o relógio com uma lupa, coloca no ouvido, abre o relógio, olha novamente com a lupa, testa a bateria, troca, limpa e me devolve. Eu apenas observo e fico ouvindo a rádio que toca pelos alto-falantes da loja. 
___Fui trocar a bateria do meu relógio nesta semana. O diferente é que, além da música tocada pelos alto-falantes da loja, em cima do balcão ainda havia um rádio ligado, sintonizado em um dos jogos da copa do mundo. Apesar da mesma calma do relojoeiro, a dissonância no pequeno espaço da loja estava bem incômoda. 
___Quando o relojoeiro terminou o serviço e veio me entregar o relógio, perguntei:
___– Por que o senhor deixa a música tocando junto com o jogo de futebol?
___– Porque alguns clientes gostam de ouvir a música. –, respondeu-me o relojoeiro sem se abalar.
___– Ah, tá... Então por que o senhor deixa o jogo de futebol ligado junto com a música?
___Como não podia deixar de ser, ele me respondeu: 
___– Porque alguns clientes gostam de ouvir o jogo. 
___Sorrindo, dei-me por vencido. Paguei a troca da bateria e saí da loja, para a dissonância própria das ruas de São Paulo. 

30 de maio de 2018

The Greatest Showman: uma ode à aceitação (dentro de certos padrões)

___Acabei de assistir The Greatest Showman (O Rei do Show, aqui no Brasil) e me diverti, achei fofo, chorei. É um filme leve que acerta em muitos elementos: uma história gostosinha de assistir, músicas divertidas e cenas de dança e circo simples, mas muito bem filmadas e editadas. 

The Greatest Showman

___Ter gostado do filme não o torna perfeito e isento de críticas. Comentar sobre as diferenças entre a verdadeira história de P. T. Barnum e a narrativa boazinha do filme, pode até ser um bom caminho. Não é necessário, claro, fazer uma crítica como a do Cesar Soto para o G1, que estava tão mal-humorado na hora de escrever que deve ter visto o filme comendo jiló ao invés de pipoca.
___O roteiro de The Greatest Showman acerta bem ao refletir sobre desigualdade, privilégio, tolerância, preconceito, exclusão e afins. Em determinado ponto, a personagem de James Gordon Bennett, o fundador do New York Herald e ferrenho crítico do circo, diz que “Colocar gente de todos os tipos no palco com você, [senhor Barnum, pessoas] de todas as cores, formatos, tamanhos, apresentando-os como iguais... Outro crítico poderia até chamar de ‘uma celebração da humanidade’.”. Essa é uma das mensagens principais do filme: aceitar os diferentes, os excluídos, como iguais. E é aí que eu acho que vale a pena tecer a mais pesada crítica à obra. 
___É muito bonito fazer todo esse discurso de aceitar os outros, mesmo que a sociedade preconceituosa não o faça. Porém, o próprio filme não faz isso. 
___The Greatest Showman conta com duas histórias românticas: a de P. T. Barnum com Charity Barnum e a de Phillip Carlyle (Zac Efron) com Anne Wheeler (Zendaya). O romance de P. T. e Charity realmente aconteceu, porém o de Phillip e Anne é completamente ficcional. Não apenas o romance é ficcional, as personagens também são. Phillip e Anne nunca existiram (ao contrário do casal Barnum). É exatamente por isso que o belo discurso do filme de aceitar os excluídos cai por terra. 

Phillip Carlyle e Anne Wheeler, The Greatest Showman.

___Phillip e Anne são bonitos e jovens, um casal típico para uma historinha romântica em um filme. Aí está a covardia do filme. Mesmo sendo um casal inter-racial, algo realmente atípico e problemático para o século XIX, em um filme atual vira apenas um belo par romântico. Não condiz com a mensagem do filme. Funcionaria de maneira muito mais interessante um par romântico entre Phillip Carlyle e Lettie Lutz, a mulher barbada.

Lettie Lutz, The Greatest Showman.

___Eu sei que isso chocaria, que poderia desagradar uma boa parcela do público, mas combinaria bem mais com a ideia da obra. Seria mais corajoso, mais bonito e muito mais didático. Caso contrário, vira um aceitar os excluídos apenas dentro de certos limites. 

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P.S.: Se você é uma pessoa doce e acha que não existem pessoas no mundo que ficariam chocadas e revoltadas se um dos pares românticos do filme fosse um homem dentro dos padrões de beleza e uma mulher acima do peso e de barba, acho que vale a pena dar uma pesquisada. O seriado Mike & Molly, sobre um casal obeso, logo na sua estreia foi criticado por Maura Kelly, então colunista da Marie Claire, que disse “Acho que ficaria enojada se tivesse que assistir a dois personagens com quilos e quilos de gordura se beijando”.  
P.P.S.: Já se você é o tipo de pessoa que acha que Lettie Lutz não poderia ficar com ninguém, tenho uma curiosidade para contar. Annie Jones, a mulher barbada que realmente trabalhou para P. T. Barnum no século XIX, foi casada. Mais do que isso, ela se casou com Richard Elliot em 1881 e divorciou-se dele em 1895 para se casar com William Donovan.