04 março, 2008

Risco de acidentes (parte II)

_____Nos comentários da minha última postagem – “Risco de acidentes” –, o leitor Luis lembrou que, mais do que proibir as pessoas de circularem por algum lugar, deveriam é proibir os carros que, no fim das contas, são uma parte importante para o “risco de acidentes”. Como a postagem surgiu por causa de uma placa que avisava do risco de acidentes, ressaltando que os “Veículos [são] somente conduzidos pelos manobristas”, acabei me lembrando de um trecho do livro On the Road, de Jack Kerouac.

_____Logo no início do livro, o autor-narrador nos conta como conheceu seu amigo Dean e o quanto aquele “vagabundo iluminado” foi influente em sua juventude. Em certo ponto, ele descreve um dos empregos de Dean em um estacionamento: “... ele trabalhou como um cão naquele estacionamento. O mais fantástico garagista do mundo, capaz de dar marcha à ré a sessenta por hora num corredor exíguo e estreito, parar rente à parede, saltar do carro, correr entre os pára-choques, pular para dentro de outro, manobrá-lo a oitenta por hora em um espaço minúsculo, bater a porta com tanta força que o carro ainda balança enquanto ele sai voando em direção à cabina de controle como um atleta na pista, alcança um novo tíquete para um recém-chegado e, enquanto o motorista ainda está saindo do carro, pula literalmente sobre ele, liga o motor com a porta entreaberta e sai cantando os pneus em direção ao lugar disponível mais próximo, manobra outra vez, trava bruscamente, salta fora, inicia nova corrida entre os pára-choques, trabalhando assim oito horas por noite sem parar, no rush dos fins de tarde ou nas horas de pique na saída dos teatros, vestindo calças velhas sujas de graxa, uma jaqueta rota furada de pele e sapatos gastos com a sola descosturada.” (p. 26).

_____O efeito literário pode até ser interessante e o livro de Kerouac ter grandes qualidades, mas é importante não esquecer o quanto os carros podem ser perigosos. Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa, em um ótimo artigo escrito para a revista Carta Capital que já citei outras vezes por aqui, lembra que “Até as guerras empalidecem ante as estatísticas do trânsito, sem que isso inspire tanto horror quanto seria de esperar. Trata-se de sacrifícios humanos socialmente aceitos.”.

_____Imaginar que são os pedestres que devem se preocupar com os carros e não os motoristas que devem se preocupar com os pedestres é uma inversão de valores absurda. Mesmo não parecendo, os carros não deixam de ser armas de mais de uma tonelada nas mãos de pessoas que podem ser completamente inconseqüentes. Pessoas que podem correr influenciadas por propagandas, literatura ou pelos costumes contemporâneos que convenceram parte da população de que são os motoristas que devem ser respeitados, que a cidade e as ruas são dos carros.

_____Como bem lembrou um ciclista em uma das bicicletadas mensais que acontecem aqui em Sampa, “Carro mata – use com cuidado”.

Carro mata

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