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30 de novembro de 2025

O Caroço da Cabeça e os Assentos Preferenciais (10 anos depois)

            Neste mês de novembro de 2025, o metrô de São Paulo fez uma campanha que dizia “lembramos: quando todos os assentos estão ocupados, todos os assentos são preferenciais. Seja gentil.”. Acima dos assentos preferenciais oficiais, a seguinte placa fulgurava:

 


            A campanha me lembrou um texto que eu escrevi faz 10 anos, citando uma música dos Titãs (lançada 10 anos antes do meu texto): “O Caroço da Cabeça e os Assentos Preferenciais”. Segue o texto com pequenas modificações:

 

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___Desde que o prefeito Fernando Haddad resolveu aumentar muito o número de ciclovias pela cidade de São Paulo, a mídia (bem sustentada por empresas de automóveis) e os carrodependentes em geral têm chorado como se lhes houvessem arrancado as pernas sem anestesia. Pessoalmente, acho importante refletir: por que as ciclofaixas são necessárias? A resposta é simples: pelo mesmo motivo que os assentos preferenciais são necessários. 


___Se você pensar bem, todo assento é preferencial. Principalmente em um transporte público. É óbvio que uma pessoa sentada, ao perceber que um velhinho subiu no ônibus ou que uma mulher grávida entrou no vagão, deve se levantar e ceder lugar. Infelizmente, isso não acontece o tempo todo. 
___Quem está confortavelmente sentado prefere “não ver” aquela moça segurando o bebê de colo. Exatamente por conta dessa falta de respeito e empatia, tornou-se necessária a criação de assentos preferenciais.* O lugar com uma plaquinha e/ou com uma cor diferente não resolveu o problema, mas ajudou a estimular o cuidado com o próximo. 


___E é aí que entram as ciclovias. Quem está sentado deve oferecer o lugar para uma pessoa idosa; como não se costuma oferecer, torna-se imprescindível a criação de um assento preferencial para estimular o cuidado com o próximo. Quem está no veículo maior, mais potente, que tem mais chance de matar alguém, deve** zelar pela segurança dos veículos menores. Entre os veículos menores, que devem ser respeitados nas ruas, estão as bicicletas. Como, normalmente, os motorizados não zelam pela segurança dos ciclistas como deveriam, tornou-se necessária a criação de faixas exclusivas para ciclistas. 
___Portanto, caro motorista, se você e seus companheiros carrocratas respeitassem os ciclistas, nenhuma ciclofaixa seria necessária. E quanto mais rápido os motorizados aprenderem a zelar pelos ciclistas, mais rápido as ciclovias poderão desaparecer. Aí, só vai faltar os motorizados e ciclistas aprenderem zelar pelos pedestres. 

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* Por mais fofo que seja imaginar um passado idílico, dizendo “Antigamente, as pessoas cediam lugar. Existia mais respeito.”, vale dizer que as coisas não eram bem assim. Faça um pequeno exercício de História Oral e se surpreenda. 
___A título de curiosidade, vale citar que o município de São Paulo destina assentos preferenciais para idosos em transporte público desde meados da década de 1980. 
** Deve por respeito e por força da lei. Vide o parágrafo segundo do Artigo 29, do Código Brasileiro de Trânsito. 

31 de outubro de 2023

Arte e a primeira vez*

 * NSFW, mas deveria ser.

            Você lembra onde viu a Mona Lisa pela primeira vez? Eu não lembro. Obviamente não foi no Louvre, porque nunca estive lá. Parece que eu sempre soube da existência da mais famosa pintura de Leonardo da Vinci, como se tivesse nascido sabendo. Mas, óbvio, não foi assim.

            Algumas obras de arte são tão comuns que parece que sempre estiveram dentro da minha cabeça. Provavelmente, todo mundo deve se sentir assim sobre algumas obras. Por isso mesmo, quando vejo uma obra que não conhecia e gosto, fico com uma sensação gostosa de saber exatamente quando e onde a vi pela primeira vez. Sei, por exemplo, exatamente o que estava acontecendo quando tive meu primeiro contato com A origem do mundo, pintura de 1866 de Gustave Courbet.



            Mais ou menos no auge do Facebook, algumas mães, felizes pelo bebê que acabara de nascer, postavam fotos amamentando. Com a desculpa de que queria evitar fotos pornográficas, a rede social censurava as imagens e bloqueava os perfis das mães. Alguns homens, em apoio a essas mulheres, publicaram fotos sem camisa e, obviamente, não sofreram nenhuma censura do Facebook. Até que um homem da minha rede (desculpe-me, não vou me lembrar quem foi) não postou uma foto, mas, sim uma pintura. A pintura de Gustave Courbet. Sem entender a ironia (seja da pintura, seja da postagem), a rede social censurou a pintura e bloqueou o rapaz –, que, na época, publicou um texto em um blog contando o caso.

            Sim, o Facebook censurou uma pintura do século XIX. De qualquer modo, foi assim que eu vi, pela primeira vez, A origem do mundo e descobri que se tratava de uma pintura muito famosa.

            Nesta semana, passeando pelo Sesc Avenida Paulista, entrei na exposição Tornar-se Orlan, da artista francesa Mireille Suzanne Francette Porte, mais conhecida como Orlan. Lá, escondida em um canto, tive o prazer de ver, pela primeira vez, a obra A origem da guerra (1989).


            Orlan fez uma releitura maravilhosa da obra de Gustave Courbet. A origem da guerra foi feita nos mesmos moldes dA origem do mundo, reproduzindo, inclusive o tamanho e a moldura. A obra de Orlan mantém a ironia presente na de Courbet, choca o público (efeito também causado por A origem do mundo) e acrescenta um elemento feminista (possivelmente ausente em Gustave Courbet).

            Fico feliz de ter conhecido ambas as obras e de ter o privilégio de lembrar exatamente como as conheci.

 

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P.S.: Em 2014, a artista Deborah de Robertis fez uma performance em frente ao quadro A origem do mundo chamada Espelho da Origem mostrando o mesmo que a pintura mostrava. Os seguranças esvaziaram a sala, procuraram ficar na frente da artista e ela acabou escoltada para fora do Museu de Orsay pela polícia. Aqui um texto legal sobre a obra e aqui um vídeo da performance



29 de novembro de 2022

Pés molhados

 

                Semana passada, eu estava caminhando para o trabalho em meio a uma bruta chuva. Meus sapatos estavam encharcados e meu mal humor me fazia ficar praguejando contra toda e qualquer coisa. Em uma esquina, passo ao lado de uma barraca.

                Barracas, em que pessoas em situação de rua moram, se tornaram absurdamente frequentes pelas ruas de São Paulo. É triste, mas, como costuma acontecer em Sampa, tornaram-se parte do cenário.

Nos poucos segundos que estive ao lado da barraca, deu para ouvir lá de dentro:

– Ei, para de se mexer!

– É que tem uma goteira em cima do meu pé...

Continuei meu caminho em direção ao trabalho me sentindo mal de, alguns segundos antes, estar praguejando. Não havia nada que eu pudesse fazer naquele momento para ajudar aquelas pessoas que estavam, em uma barraca furada, no meio da chuva. Pelo menos eu poderia ir para o trabalho sem reclamar.

31 de janeiro de 2021

Distanciamento social

     Moro em um prédio com muitas pessoas de idade. Pessoas, vale dizer, que gostam muito de conversar. Por conta da pandemia, muitas delas não puderam mais ficar saindo para conversar na rua ou na entrada do prédio. Mesmo assim, existe aquele grupo que, mesmo com tudo isso acontecendo, não deixou de se encontrar para conversar. Dê uma olhada nas quatro senhoras conversando com distanciamento social:


    Sei que a foto está distante. Tirei da janela do meu apartamento, porque eu estou me esforçando ao máximo para não sair à rua. 

14 de novembro de 2020

Authentic jazz (ou traditional jazz dance, vernacular jazz...)

            Um vídeo explicando um pouco os termos utilizados quando se fala em dançar jazz.

 


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Bibliografia, fontes e materiais utilizados:

- Cia Terra Dance Studio: https://www.ciaterra.com.br/

- Coreografias utilizadas. (1) Lindy Hop: Sharon Davis e Juan Villafane, Dancing at Provence Swing Festival, 2009: https://youtu.be/xsYYHvaMIGA. (2) Jazz: coreografias do Grupo Raça (https://racacentrodeartes.com.br/). Primeira coreografia: coreógrafo Lenon Vitorino, 2019: https://youtu.be/vUqcU05M458. Segunda coreografia (fornecida e com participação da bailarina Williane Oliveira): coreógrafo Alex Siqueira, 2020. (3) Shim Sham: Alise Hofmane (tap dancer) e Mikus Aleksandrovs (lindy hopper) dançando o shim sham juntos, 2017: https://youtu.be/k7g7YBUHcc4.

- Imagem de capa: Leon James e Willa Mae Ricker. 1943.

- Os vídeos do início do século XX não têm trilha sonora. Acrescentei as seguintes músicas para a melhor apreciação do público em geral (todas disponíveis em https://www.youtube.com/audiolibrary), assim como as utilizei como trilha sonora durante o vídeo: TrackTribe, “Greaser”, 2019; Reed Mathis, “We Ride!”, 2020; Media Right Productions, “Zydeco Piano Party”.

- DEHN, Mura. The Spirit Moves: A History of Black Social Dance on Film, 1900–1986. Documentário. Dallas: Dancetime Publications, 1987. 

- GUARINO, Lindsay; OLIVER, Wendy. Jazz Dance: a history of the roots and branches. Florida: University Press of Florida, 2015. Livro de onde foi tirada a ilustração da “jazz dance tree”, de Kimberly Testa.

- HEINILA, Harri. “What Is Authentic Jazz Dance”. 2012. Disponível em https://authenticjazzdance.wordpress.com/2012/03/06/what-is-authentic-jazz-dance-4/.

- HOBSBAWM, Eric. História social do jazz. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.

- LEMOS, Anielle. “As transformações do jazz dance: um recorte histórico da diáspora afro-americana até os dias atuais”. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Instituto de Artes – Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas, 2018.

- MADDALENA, Martina. PARKHATSKAYA, Ksenia (co-autora e editora). “Vernacular, authentic or modern, what is jazz dance?”. 2020. Disponível em https://secretsofsolo.com/2020/08/vernacular-authentic-or-modern-what-is-jazz-dance/.

- STEARNS, Marshall; STEARNS, Jean. Jazz Dance: The Story of American Vernacular Dance. Massachusetts: Da Capo Press, 1968.

- TILTON, Roger. Jazz dance. Registro de Leon James e Al Minns dançando no Central Plaza Dance Hall. Nova Iorque: 1954. Disponível em https://youtu.be/Y-K9IO3-OW8.

31 de outubro de 2019

Impressões pessoais da (metade da) “Temporada 2019” da São Paulo Companhia de Dança

___Voltei do espetáculo da “Temporada 2019” da São Paulo Companhia de Dança bastante empolgado e, por isso mesmo, resolvi comentá-lo. 
___O espetáculo é dividido em dois programas: o “Programa 1”, que acabei de assistir, e fica em cartaz até dia 3 de novembro, e o “Programa 2”, que ficará em cartaz entre dos dias 7 e 10 de novembro. Por mais óbvia que seja a minha fala, é bom avisar: falarei apenas do primeiro programa. 

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___Dividido em três peças de qualidade completamente distintas, o “Programa 1” manteve uma seleção impecável de dançarinos. Com uma qualidade técnica fabulosa e movimentos absurdamente precisos, mesmo a peça mais fraca acabou sendo interessante de se assistir.  
___A última montagem, Vai, é de longe a mais pífia. Seu sentido é completamente dependente da sinopse e, mesmo com ela, apenas de maneira sofrível a mensagem é passada. Os dançarinos acabaram sendo, em mais de um ponto, completamente desperdiçados. Talvez a fama do Shamel Pitts tenha cegado a Companhia. 
___A segunda peça, Odisseia, peca pelo uso do nome, sem a grandeza da estória homérica. Apesar de um uso pobre dos elementos atípicos e do final prematuro, é bem representada, chamativa e, para dizer o mínimo, gostosa de assistir. Minha crítica talvez seja pesada pelo deslumbre que foi a primeira montagem: Ngali....  
___O “Programa 1” da temporada de 2019 começou com a montagem da Ngali..., coreografada por Jomar Mesquita, com a colaboração de Rodrigo Castro. No início da apresentação, torci o nariz pela falta de sincronia da introdução. No entanto, a má impressão inicial se desfez por conta de praticamente todos os detalhes que povoaram o restante do espetáculo. 
___Ngali... fala sobre relacionamentos de maneira tão clara, aberta, combinando tanto com as músicas, utilizando os dançarinos com tal esmero que, até o momento que algum deles não estava dançando, sua função como cenário acabava sendo essencial para a montagem. A mistura de dança contemporânea com a dança de salão desenhou as temáticas de relacionamentos com uma perfeição ímpar. Uma peça linda de se ver, interpretar, refletir. Provavelmente, a melhor montagem de dança que eu vi neste ano. 

7 de maio de 2019

Falta de lugar

___Está cada vez mais difícil achar um bom lugar para sentar nos vagões do metrô. Sempre é possível, então, levar um lugar de casa... 


30 de abril de 2019

Mudando a perspectiva

Aviso: Texto com um pequeno spoiler de Game of Thrones

___As imagens com brincadeiras de perspectivas fascinam as pessoas pelo menos desde a época do Renascimento. Não é à toa que essa forma de se produzir imagens afeta a produção iconográfica até hoje, seja com pinturas, desenhos infantis ou jogos de videogames. E existem os mais interessantes caminhos para se brincar com isso. Quem sabe, em um dia de bom humor, eu não coloco um tapete assim no corredor do meu apartamento:


___Trabalhar com perspectivas pode servir para fazer uma imagem impressionante. 


___Ou dar uma indireta sobre o caminho que uma governante está seguindo. 
___Por vezes, uma pintura com um fundo simples e preto pode levar o observador a esquecer a ideia de perspectiva. Um exemplo disso é a Moça com o Brinco de Pérola, pintura de 1665, de Johannes Vermeer.


___No entanto, mesmo com o fundo preto, a perspectiva está lá. Não entre a moça e o fundo, mas no próprio rosto da moça com o brinco de pérola. Observe a imagem e veja de onde vem a luz. Perceba, então, que a perspectiva faz com que pareça que parte do rosto da moça está mais à frente, tanto que recebe luz. Por seu lado, a outra parte do rosto parece estar mais para trás, por isso mesmo aparece mais escura, pois a luz não a atinge. 

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___Grande parte disso veio à minha cabeça ao descer as escadas da estação Tiradentes do metrô paulistano. Lá está acontecendo, até dia 3 de junho, a exposição Gente de papel. Nela, estão expostas esculturas de papel machê da artista Madalena Marques. A minha preferida é exatamente a Moça com o Brinco de Pérola
___Quando se desce as escadas para a plataforma do metrô, na linha dos olhos, bem ao fundo, fica a Moça com o Brinco de Pérola recebendo a mesma luz do quadro, com o fundo preto e tudo. É uma experiência de perspectiva bem bacana. A obra fica ainda mais interessante quando se visita a exposição e se vê a escultura de perto. Madalena Marques pensou nessa questão da luz atingindo parte do rosto que eu falei alguns parágrafos acima. Só que, como se trata de uma escultura e não de uma pintura, é possível ver a parte não iluminada do rosto da Moça com o Brinco de Pérola. E acaba se ficando com uma sensação de estranhamento e deslumbramento. Recomendo.

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P.S.: Não é porque eu gostei da exposição que ela não merece uma crítica. Todo o cuidado para fazer um trabalho que lembrasse (e desvendasse) os detalhes do quadro original da Moça com o Lenço Azul na Cabeça Brinco de Pérola que eu elogiei, acabou não sendo o mesmo em todas as esculturas. A que mais me incomodou foi a escultura representando uma das personagens da pintura Samba, do Di Cavalcanti. A versão da exposição é bem mais moralista. 

Madalena Marques / Di Cavalcanti

Serviço:
Exposição: Gente de Papel
Artista: Madalena Marques
Curadoria: Ana Cláudia Cermaria e João Paulo Berto
Período: 7 de abril a 3 de junho de 2019
Local: Sala MAS/Metrô Tiradentes 
Estação Tiradentes do Metrô – São Paulo – SP
Horários: Terça-feira a domingo, das 9 às 17h
Ingresso: Grátis aos usuários do Metrô


31 de março de 2019

Manifestação a favor da "Revolução" de 1964

___Na tarde deste domingo, 31 de março de 2019, eu estava passeando com os meus cachorros pela rua. Um homem, com a camisa da seleção brasileira, chega perto de mim e pergunta:
___– Oi. Você sabe onde está acontecendo a manifestação a favor da Revolução de 1964
___Olho espantado e respondo, com toda sinceridade:
___– Nem imagino. Tenta virar ali à direita. 

31 de janeiro de 2019

Menos aulas de História: “Está tudo normal...”


___Leciono História para os alunos da Escola Técnica de São Paulo desde 2009. Nos meus primeiros anos de Etesp, eu ensinei para os estudantes do Ensino Médio, que tinham aulas apenas no período matutino. Obviamente, as aulas de História eram dadas para os três anos do Ensino Médio. Apenas duas aulas de História por semana, mas, mesmo assim, aulas de História nos três anos.
___Nos últimos anos, o Centro Paula Souza, a autarquia do governo do estado que manda nas escolas técnicas, começou a abolir o Ensino Médio simples nas escolas técnicas. Comecei, então, a dar aula para as turmas do ETIM: Ensino Médio Integrado ao Técnico. Meus estudantes passaram a ter aula de manhã e à tarde, mas continuavam a ter aulas de História nos três anos do Ensino Médio (Integrado ao Técnico). Apenas duas aulas de História por semana, mas, mesmo assim, aulas de História nos três anos.
___Na última reunião pedagógica a direção anunciou que o ETIM de Informática seria substituído pelo de Desenvolvimento de Sistemas. “Qual a diferença?”, algum incauto perguntou. “Ah...”, responderam aparentando completa normalidade, “é só uma atualização do curso de Informática. Vai continuar um Ensino Médio junto com o Técnico, com três anos e tudo. Só vão modificar algumas coisinhas.”. Entre as “coisinhas” que vão modificar está o ponto que as aulas de História só serão dadas nos dois primeiros anos. Apenas duas aulas de História por semana, mas, agora, aulas de História somente por dois anos.
___Alguém acha que isso vai beneficiar os estudantes? Que vai fazer bem para a formação deles? Que isso é bom para a sociedade?

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___A proposta de lei do “Escola sem Partido” é um dos temas que mais tem afetado as instituições de ensino nos últimos anos. Tenho duras restrições a esse projeto que apenas finge não ter partido, porém não é isso que quero comentar neste texto. Como o próprio site deles diz “O Programa Escola sem Partido é uma proposta de lei que torna obrigatória a afixação em todas as salas de aula do ensino fundamental e médio de um cartaz com o seguinte conteúdo:”


___Quero atentar para uma parte do terceiro item. “O Professor não... incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos e passeatas.”. Portanto, para os defensores do “Escola sem Partido”, eu não devo, talvez nem aqui no meu blog, incitar meus alunos a se manifestarem contra a bizarrice que vai ser extirpar um ano completo de aulas de História da formação deles. 


___Gostaria muito de ouvir quem pode achar a eliminação de aulas de História algo positivo. Agora, se ninguém achar que isso é bom, penso que talvez seja mais do que hora de começar a incitar os estudantes a participarem “de manifestações, atos públicos e passeatas.”. 

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P.S.: Caso alguém precise de algum tipo de justificativa para se estudar História, recomendo um vídeo do Oldimar Cardoso:


22 de junho de 2018

Relojoeiro em tempos de Copa do Mundo

___Já faz uns bons 10 anos que vou ao mesmo relojoeiro trocar a bateria do meu relógio de pulso. Pouco depois que percebo que o relógio está atrasando ou para, eu caminho até a relojoaria que fica perto de casa e peço para que ele troque a bateria. 
___O ritual é sempre o mesmo: com uma infinita calma ele se senta, olha o relógio com uma lupa, coloca no ouvido, abre o relógio, olha novamente com a lupa, testa a bateria, troca, limpa e me devolve. Eu apenas observo e fico ouvindo a rádio que toca pelos alto-falantes da loja. 
___Fui trocar a bateria do meu relógio nesta semana. O diferente é que, além da música tocada pelos alto-falantes da loja, em cima do balcão ainda havia um rádio ligado, sintonizado em um dos jogos da copa do mundo. Apesar da mesma calma do relojoeiro, a dissonância no pequeno espaço da loja estava bem incômoda. 
___Quando o relojoeiro terminou o serviço e veio me entregar o relógio, perguntei:
___– Por que o senhor deixa a música tocando junto com o jogo de futebol?
___– Porque alguns clientes gostam de ouvir a música. –, respondeu-me o relojoeiro sem se abalar.
___– Ah, tá... Então por que o senhor deixa o jogo de futebol ligado junto com a música?
___Como não podia deixar de ser, ele me respondeu: 
___– Porque alguns clientes gostam de ouvir o jogo. 
___Sorrindo, dei-me por vencido. Paguei a troca da bateria e saí da loja, para a dissonância própria das ruas de São Paulo. 

31 de março de 2018

Carinhosa

___– Cala a boca, Eva! –, vociferou a velhinha para sua cachorra, que estava latindo.
___Levo minhas cachorras, quase todo domingo, para uma rua fechada para os carros (e aberta para as pessoas). Lá, durante as manhãs, vários donos de cachorros soltam seus bichinhos que ficam, alegremente, brincando. E, todo domingo, essa senhora fica brigando com a cachorra dela.
___– Sai, Eva! Já soltei você, agora sai do meu pé! Vai lá com os outros cachorros.
___Não importa o quanto a velhinha brigue, a Eva continua ao lado dela, completamente atenta à dona. Nunca se afasta mais do que alguns passos. E, continuamente, a dona fica brigando com ela.
___Até quando está conversando com outras pessoas, a velhinha fica reclamando da cachorra.
___– Queria que a minha cachorra fosse que nem a sua, que fica aí pulando e brincando com todo mundo. A Eva é um saco, não sai de perto.
___O tratamento que a velhinha dá para a cachorra me incomoda e eu não costumo ficar perto dela. Só que, como eu fico seguindo minha cachorrinha, a Isabel Allende, em alguns momentos, quando a Isabel chega perto da cadela da velhinha, ouço novamente os impropérios da senhora para a pobre Eva.
___No último domingo, além da Eva, a velhinha veio acompanhada do filho. Assim que me viu, ela me apresentou o rapaz:
___– Olá! Esse aqui é meu filho. Juan.
___– Prazer, Uliss...
___– Você não conheceu ele antes porque, desde que se casou, passou a só visitar a mãe quando é quase obrigado. É um ingrato.
___O moço, obviamente constrangido, não falou nada.
___Algum tempo depois, quando a Isabel se aproximou novamente da Eva, ouvi a velhinha falando do filho novamente.
___– Você viu? Meu filho já se afastou de mim! Nunca vem me ver, nunca passeia comigo e, quando vem, fica lá do outro lado da rua. Aposto que está olhando algum rabo de saia. Safado.
___Enquanto isso, Eva ainda estava ao lado da dona.
___– Cala a boca, Eva!

28 de fevereiro de 2017

Efeito do “Escola sem Partido”, relato de caso

___2016 foi um ano em que parte das discussões sobre Educação estiveram envoltas nas conversas sobre o projeto “Escola Sem Partido”. Tenho dúvidas se os debates são ingênuos ou falsos. Ingênuos porque é completamente impossível que se ensine certos assuntos sem escolher um lado. Falsos porque o caráter direitista, homofóbico, conservador e religioso do movimento e do projeto “Escola Sem Partido” deixa bem claro como esse debate é partidário.
___O objetivo deste texto, entretanto, não é esmiuçar o projeto.* Pretendo, simplesmente, relatar um caso pessoal. 

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___Ano passado, fui o professor de História do 1º ano do Ensino Médio Integrado ao Técnico em Informática, da Escola Técnica Estadual de São Paulo. Mandei, como leitura para as férias de julho, o livro Questão agrária no Brasil, de João Pedro Stédile. Caso alguém não tenha reconhecido, o Stédile é um membro da direção do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Por conta disso, um pai, cego pelo seu ódio, entrou com uma reclamação formal contra mim na ouvidoria da instituição de ensino. Bem próximo do modus operandi aconselhado por Miguel Nagib, criador do “Escola sem Partido”. 
___Apesar de um maluco ficar gritando “Vai para Cuba!” cada vez que eu entro na escola, nada aconteceu. A leitura estava muito bem inserida no assunto do curso. 
___Estudantes do 1º ano do Ensino Médio, no terceiro bimestre, costumam aprender sobre Roma Antiga e, portanto, sobre os Irmãos Graco. Dissecar, com os estudantes, um livro sobre a questão agrária no Brasil já seria rico. Fazer isso ao mesmo tempo em que se aprende sobre a luta pela reforma agrária, empreendida pelos tribunos da plebe Tibério e Caio Graco, no século II AEC, é muito mais enriquecedor. Só não é capaz de ver isso alguém que não sabe sobre o conteúdo do curso ou um maluco cego pelo seu DDDA (Distúrbio Direitista de Déficit de Atenção).
___Vale acrescentar, o mesmo pai que reclamou na ouvidoria quando escolhi um livro de João Pedro Stédile para o segundo semestre, não se manifestou quando escolhi, para o primeiro, um livro de Platão, o Apologia de Sócrates

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___Pessoalmente, recomendo o diálogo. Não gosta da leitura que o professor está dando para o seu filho? Converse com o professor. Converse com o seu filho. Existe uma boa chance que você consiga melhores resultados e aprenda mais com isso do que ladrando para a ouvidoria ou ameaçando os outros com processos

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* Algo já muito bem feito pelo Pirula

30 de setembro de 2016

Convivendo na Cidade

___Ao escrever “O bonde passa cheio de pernas: / pernas brancas pretas amarelas. / Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração. / Porém meus olhos / não perguntam nada.”, Carlos Drummond de Andrade expressou o assombro de se olhar o caos de uma cidade grande. Muitas pessoas –, muitas pernas – e pouco contato humano. 
___Essa visão um tanto melancólica da vida em cidade não é incomum. Algo bastante compreensível: é fácil sentir-se só em meio a uma multidão, ser empurrado e ignorado em um bonde ônibus lotado. Em outras palavras, é fácil olhar para a vida urbana de maneira triste, “comovido como o diabo.”. 

Tira de Rafael Sica

___Por isso mesmo, foi maravilhoso assistir o espetáculo Mapas Urbanos, da Caleidos Cia. de Dança, dirigido por  Isabel Marques e codirigido por Fábio Brazil. Um lindo trabalho de dança e comunhão com o público, que tem como foco a vida na cidade. 

Mapas Urbanos

___Dividido em 5 cenas bem distintas, o público se vê, o tempo todo, interpretando a mensagem passada pelos dançarinos e participando. Com o passar da peça, cada vez mais clara vai ficando a ideia de boa convivência no ambiente urbano, seja permitindo que uma faixa de pedestres seja um lugar seguro (e, portanto, gostoso para brincadeiras), seja dividindo guarda-chuvas (sempre em menor número do que as pessoas) ou participando de uma manifestação (sem violência policial). 

Mapas Urbanos

___A mensagem de convivência harmônica que a peça passa e a própria participação cada vez mais natural do público faz tudo parecer doce. Chega a ser difícil sair da peça sem pensar no quanto é importante dividir o espaço urbano. Não foi à toa que, na saída do espetáculo, eu consegui arrumar uma carona simplesmente pedindo entre as pessoas da plateia. Mesmo sem lua e sem conhaque. Poesia pura. 

Tira de Liniers

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P.S.: Então, depois de escrever um texto elogiando o Mapas Urbanos, faço um post scriptum anticlimático: eu fui ver o espetáculo na última semana em cartaz. Por enquanto, não dá para assistir.
P.P.S.: Por outro lado, a Caleidos Cia. de Dança, neste ano, está revisitando seu repertório (exatamente o caso do Mapas Urbanos, que é de 2011). Em outubro, eles vão apresentar Mairto, de 2015. Em novembro e dezembro, dois espetáculos inéditos. Informem-se pelo site

25 de junho de 2016

O documento do policial

“O poder sem abuso perde o encanto.”
(Paul Valéry)

___Quero contar uma cena de violência policial que eu presenciei. Já faço um anticlímax, logo na segunda frase, avisando que não chega perto de nada que a polícia militar costuma fazer para reprimir protestos, que não foi nada tão absurdo quanto o que acontece na periferia, mas, mesmo assim, foi algo ruim e que deve ser denunciado.
___Domingo, fui com a minha esposa e minhas cachorras para a Paulista Aberta. Para quem não é de Sampa, cabe uma pequena explicação: docemente, a prefeitura de São Paulo passou, nos domingos, a fechar a Avenida Paulista para os carros e liberá-la para os pedestres. O resultado tem sido maravilhoso, com pessoas de diversas regiões de São Paulo aparecendo para aproveitar o local, com música, arte de rua e afins. A maior parte dos acessos à Paulista são fechados aos carros, entre eles, a Rua Pamplona. Nela, diversos donos de cachorros aproveitam o espaço para soltar seus animais e, como extra, alguns pais levam seus filhos para aproveitar a interação com os bichinhos. 

Paulista Aberta

___Minhas cachorras estavam pulando alegres entre outros cachorros, crianças e borboletas quando a cena bucólica foi interrompida por um carro que entrou na rua, mesmo com os cavaletes da Companhia de Engenharia de Tráfego proibindo. Mais do que apenas entrar, o motorista estacionou ao lado de uma placa de “Proibido Estacionar” e desceu do carro (o motorista e dois passageiros: um homem e uma mulher; todos com roupas de passeio). 
___Um dos presentes, pai de uma criança, não achou aquilo certo e foi chamar um rapaz da CET. Depois de alguns minutos, o rapaz apareceu e disse: “O dono do carro já falou comigo e se identificou como policial. Eu não posso fazer nada...”. Argumentamos que ser policial não dava direito ao motorista de entrar com seu automóvel em um local em que carros não poderiam entrar e muito menos estacionar ali –, “Ainda mais para ficar namorando pela Paulista!”, acrescentou, revoltada, a dona de um golden. 
___O rapaz da Companhia de Engenharia de Tráfego ouviu tudo pacientemente e, didaticamente, demonstrou que ele não podia fazer nada: pegou sua máquina de multas, digitou a placa do carro e nos mostrou que, por ser um carro da polícia, ele não podia multar. “Pior ainda!”, bradou o revoltado pai que havia chamado o rapaz da CET, “O policial está usando uma viatura para vir passear no domingo. É um criminoso mesmo!”. 
___Sem ter mais o que fazer, o rapaz da CET se afastou. Pouco depois, o policial-bandido e seus cúmplices apareceram. O criminoso, ao perceber o pai da criança perto do carro, apontando com o rosto a placa de “Proibido Estacionar”, perguntou um salgado “O que foi?”. Ao ouvir que ele não tinha direito de parar ali, o bandido levantou a camisa, sacou a arma e disse “Eu sou policial! Eu posso.”. 

O Bem, por André Dahmer

___Vou deixar mais claro: ele não sacou o distintivo, um documento ou uma rosquinha e disse “Eu sou policial! Eu posso.”. Ele sacou a arma e disse “Eu sou policial! Eu posso.”! Além de uma longa discussão (inclusive com um dos presentes tendo chamado um policial uniformizado que disse que não iria fazer nada), pouco mais aconteceu. 
___No fim das contas, foi só uma cena triste de abuso policial. O mais incomodo é saber que um policial-bandido como esse, que, em uma manhã de domingo, em uma travessa da Avenida Paulista, saca sua arma para intimidar as pessoas, pode fazer algo bem pior em uma rua deserta, à noite, na periferia. Como é possível reagir? Não imagino nenhuma reação além de relatar o fato em um blogzinho e suspirar. 

Contra os Direitos Humanos, por André Dahmer

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P.S.: Caso exista algum leitor que possa tomar alguma providência (mesmo que administrativa) contra esse bandido e seus cúmplices, eu me disponho a depor. O documento com gatilho que o policial mostrou não me permitiu descobrir o nome dele. Entretanto, anotei a placa: o criminoso em questão era o policial que estava utilizando o carro de placa FOI 0085, às 10h30min, do domingo, dia 19/VI/2016.

3 de junho de 2016

Eu não precisei, então ninguém precisa

“Mais de 100 horas semanais!”... É mesmo?

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___O grupo Os Melhores do Mundo tem um esquete sobre um rapaz chamado Joseph Climber que perde um braço, duas pernas e um monte de outras coisas e, ainda assim, consegue vencer na vida. Tendo essa estória em vista, eu pergunto: vamos sair por aí cortando braços e pernas, pois, se o Joseph Climber conseguiu, todo mundo tem de conseguir também?
___Achou a minha pergunta introdutória ridícula? Pois bem, então você teve uma sensação parecida com a que eu tive pouco depois de publicar o pedido de ajuda aos estudantes que estavam ocupando o Centro Paula Souza.* Por mais absurdo que pareça, muita gente veio criticar os estudantes que estavam lutando para que as escolas técnicas recebessem merenda – algo que, vale lembrar, eles têm direito por lei. E, tristemente, o argumento mais comum foi “Quando eu estudava, o governo não me dava merenda e, mesmo assim, eu me formei muito bem!”. 
___Para começar, pessoa-que-não-precisou-de-merenda-do-governo, eu sei que seu narcisismo torna difícil você lembrar disso, mas, saiba, você não é o parâmetro do mundo. Se você não precisou de algo, isso não faz com que outras pessoas não precisem. O assunto não é você, são essas pessoas que precisam. 
___Os primeiros passos para a distribuição de merenda nas escolas foram dados na década de 1950. A ideia foi exatamente permitir que crianças e jovens de baixa renda conseguissem uma condição mínima para estudar. É necessário estar muito bem alimentado para achar que passar fome não inviabiliza uma pessoa de se dedicar aos estudos. Portanto, quanto mais o programa de alimentação escolar foi crescendo, maior foi a possibilidade de colocar um grupo que não poderia estudar dentro das escolas. Em um país em que a pobreza não foi vencida, achar que todo mundo deve ter o direito de estudar é, também, achar que escolas públicas devem servir merenda. 
___Por fim, é bom dizer: o governo tem de obedecer a lei e dar comida para os estudantes. Se você não gosta disso, lute para mudar a lei; não critique os estudantes por lutarem por um direito que eles têm e não estão recebendo porque o governo estadual é corrupto e incompetente.

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P.S.: Sobre o argumento furado “Tem tanta gente passando fome e você querendo ajudar esses estudantes...”, eu já escrevi sobre o tema, em 2008. 


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* E algumas escolas técnicas controladas pelo Centro Paula Souza. 

29 de maio de 2016

Flor no asfalto

___Caco Barcellos é um dos melhores jornalistas ativos da televisão brasileira. A maior parte das produções dele que eu li ou assisti, só me fizeram admirá-lo ainda mais. 
___Recentemente, por conta de conversas que eu tive com meus alunos (inclusive alguns alunos agredidos por policiais militares que, sem mandato judicial, desocuparam violentamente algumas escolas), reli o Rota 66: a história da polícia que mata, trabalho mais famoso do Caco Barcellos. O livro é fantástico, mas extremamente violento. Em vários momentos, tive de interromper a leitura para respirar e conter a ânsia de vômito. 
___Mesmo assim, é impressionante como até em uma narrativa violenta, como a do Rota 66, é possível encontrar beleza – e não estou falando apenas da beleza doce e ingênua do autor de esperar uma diminuição da violência policial com o seu livro. Em meio a todo o peso da dura e triste narrativa, Barcelos conseguiu espaço para publicar um poema encontrado no bolso de João Augusto Diniz Junqueira, uma das vítimas da PM:

Pensou em subir na vida
Notou que os degraus eram os seus semelhantes
Que a escada era feita de homens curvados
De crianças maltrapilhas
De velhos com fome
Pediu perdão
Se afastou de cabeça baixa


29 de abril de 2016

Pedido de doações para os estudantes que estão ocupando a sede do CPS

___Ontem, estudantes de escolas técnicas estaduais de São Paulo, protestando contra a falta de merenda, os cortes na Educação e a falta de diálogo com a direção do Centro Paula Souza (autarquia responsável pelas Etecs), ocuparam a sede administrativa do CPS. Como de costume, a Polícia Militar agiu de modo violento (atacando menores e jornalistas). Mesmo assim, os estudantes resistiram e passaram a noite no prédio. 

Ocupação da sede do Centro Paula Souza

___Hoje de manhã, fui à ocupação. Para meu orgulho e felicidade, encontrei vários dos meus alunos por lá. Infelizmente, não parece que o diálogo com o CPS acontecerá logo (e mais vagarosamente ainda devem vir as soluções do incompetente governo estadual). Por conta disso, os estudantes, em assembleia, decidiram pedir algumas doações e empréstimos para quem for daqui da capital paulista e quiser e puder apoiar o movimento. Segue a lista:*  
- absorventes;
- escovas de dentes;
- pó de café;
- coador de café;
- filtro de café;
- liquidificador;
- temperos;
- álcool;
- miojo;
- chocolate em pó;
- pipoca;
- frutas;
- sopa pronta.
___O endereço da sede do Centro Paula Souza é rua dos Andradas, número 140. Perto do metrô Luz.

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* Os estudantes têm acesso apenas a um forno de micro-ondas. 

8 de fevereiro de 2016

Virando as costas para a arte

___O Masp tem conclamado, aos sete ventos, que seu acervo está “em transformação”. Como adoro museus, fiz questão de conferir. Para resumir em apenas uma frase, a transformação é simplesmente um vale a pena ver de novo

Vale a pena ver de novo

___O acervo do Masp continua ótimo: um número grande de peças inestimáveis, de diversas épocas e escolas. A transformação, no entanto, só fez com que as obras voltassem a ser colocadas nos “cavaletes de cristal”* de Lina Bo Bardi, tal qual foram expostas de 1968 a 1996. Essa reprise é interessante, pois possibilitou que eu assistisse os episódios de Caminho das Índias que eu havia perdido faz com que as obras sejam expostas de uma maneira diferente do que é tradicional nos museus (e ainda permite que pessoas estranhas como eu se divirtam vendo como é o quadro por trás). 

Cavaletes de cristal, de Lina Bo Bardi (1970)
Obras expostas em 1970.

Cavaletes de cristal, de Lina Bo Bardi (2015)
Masp hoje. 

___Por outro lado, o caráter didático do museu acabou sendo prejudicado. O modo como as obras foram expostas nos últimos 20 anos, colocadas em paredes, não apenas dividia mais claramente períodos, escolas artísticas ou temas, como, também, comportava um número maior de textos explicativos. Por mais simples que fossem, esses textos de parede serviam para ensinar algo que o público em geral não vai aprender simplesmente olhando um quadro. 

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___Cheguei ao segundo andar do museu e comecei a apreciar as obras. Enquanto olhava um quadro, percebi, na obra ao lado, uma moça de costas, tirando um selfie. Pouco depois ela chegou ao meu lado, arrumou o ângulo para que pudesse tirar uma foto só com ela e o quadro que eu estava olhando, sem que eu aparecesse. Tirou a fotografia e passou para a obra seguinte. 

Selfie no museu - Angélica e Júnior

___Curioso, comecei a observar a moça. Ela ia de quadro em quadro, posicionava-se e tirava o selfie. Repetia o processo a cada obra, sem perder nenhuma. O mais impressionante é que ela praticamente nunca ficava de frente para as pinturas. Chegava, ficava de costas, esticava o braço, arrumava a câmera (de modo que aparecesse o rosto dela e a pintura) e fotografava. De quando em vez, parava e postava um conjunto de fotos em alguma rede social. (Antes que alguém pergunte, eu sei dessa informação porque sou um curioso indiscreto que fingi olhar uma pintura enquanto esticava o olho para ver o que a moça fazia no celular em um momento em que ela havia parado.)
___Espero – mesmo – que, ao chegar em casa, ela olhe pelo menos algumas fotos dos quadros com mais atenção. Caso contrário, o passeio dela pareceu, simplesmente, uma visita narcisista, que só serviu para mostrar para os amigos, nas redes sociais, que ela foi ao museu.
___Olhem, leitores, eu também fui. 

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P.S.: Achei que valeu a pena ver as mudanças no acervo do Masp, mas, vale sempre reclamar, cobrar R$ 25 reais de entrada é de cortar a orelha direita.** 
P.P.S.: A melhor resenha que eu li sobre o Acervo em transformação é da Juliana Cunha, para a Folha


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* Que, na verdade, não são exatamente de cristal
** Lembrando que o Masp é gratuito às terças-feiras, durante todo o dia, e quintas, das 17h às 20h. 

18 de janeiro de 2016

Autopsicopatia

___Assim como o poeta, o PM é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que não é crime, o crime que deveras comete. Crime, por exemplo, de impedir que as pessoas consigam participar de uma manifestação.* 
___Na terça-feira à tarde, percorri a Avenida Paulista com o objetivo de participar da manifestação contra o aumento das passagens de ônibus e metrô. Ao chegar à esquina da Paulista com a Bela Cintra, poucos metros antes da Praça do Ciclista, local marcado para o início do protesto, fui surpreendido por um cordão-humano de PMs,** que impedia a passagem. Caso alguém duvide, é possível dar uma olhada nesse vídeo.



Fiz esse vídeo agora. PM impede a passagem de qualquer pessoa pra área onde de concentra a manifestação. E estão revistando pessoas nos arredores. Não à repressão! Lutar é um direito!(errata: esquina da Bela Cintra com a PAULISTA, não Consolação.)
Publicado por Giulia Castro em Terça, 12 de janeiro de 2016

___Essa mesma Polícia Militar que não apenas permitiu protestos conta o governo federal, como, também, confraternizou com os manifestantes daqueles eventos. Tirando selfie e tudo

Selfie com a PM

___Já na última terça, com a PM – criminosamente – impedindo o acesso ao protesto pelo caminho mais simples, tentei encontrar uma rota alternativa para me juntar aos outros manifestantes. Dada a quantidade de policiais agindo de maneira ameaçadora pelo caminho, parecia mais fácil fazer baldeação na Sé às 6 da tarde. O único acesso era subindo a rua da Consolação. Lá, o cerco policial fazia um funil, prendendo completamente os manifestantes. Percebi que as coisas não seguiriam por um bom caminho e, pouco depois, sem que os manifestantes dessem nenhum motivo para isso, tudo começou a ficar bem violento. 
___Para que ninguém fale que isso é apenas uma narrativa sem provas, vamos dar uma olhada em um vídeo.


PM impede manifestação em SP
BARBÁRIE POLICIAL | A PM de São Paulo deu mais uma mostra de truculência e repressão nesta terça, 12 de janeiro. O ato contra o aumento das passagens de Alckmin e Haddad foi completamente cercado pela polícia, que simplesmente impediu a movimentação dos manifestantes. O ato partiria da Av. Paulista até o Largo do Batata. Diante do impasse provocado pela PM, os manifestantes realizariam uma assembleia mas, antes disso, a Tropa de Choque investiu com violência contra os ativistas, agredindo de forma indiscriminada até mesmo jornalistas que tentavam registrar as imagens da violência. Nesta quarta-feira, 13, ocorre uma plenária convocada pelo Sindicato dos Metroviários para organizar a luta contra o aumento. A plenária acontece às 18h na sede do sindicato, próximo ao Metrô Tatuapé.
Publicado por PSTU Nacional em Terça, 12 de janeiro de 2016

___Sério, alguém sem uma farda costurada no cérebro consegue justificar as cacetadas que os policiais deram na multidão, perto do 1’30” de vídeo? Parece sensato jogar gás lacrimogênio nas pessoas e pedir para que elas tirem os panos dos rostos? É aceitável a atitude do policial, aos 3’50” do vídeo, dando escudadas em pessoas andando na calçada? E dos seus colegas policiais permitindo isso? Jogar spray de pimenta em quem está filmando agressão policial é correto (4’15”)?  
___Caso alguém consiga demonstrar, em qualquer um desses exemplos, que a atitude dos policiais não foi criminosa, faça-o por favor. Caso contrário, só posso dizer que nas calhas da roda, gira, a entreter a razão, esse comboio de corda que demonstra que esses PMs deveriam estar na prisão. 

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P.S.: A PM toma atitudes criminosas, mas, é sempre bom lembrar: ela está sujeita às ordens do governador.*** Portanto, os crimes que a Polícia Militar comete são crimes do próprio governador Geraldo Alckmin e do PSDB, o seu partido. 
P.P.S.: Mesmo não tendo poder sobre a PM, o prefeito Fernando Haddad, do PT, está ligado ao aumento das passagens. Além disso, não tem a hombridade de condenar a atitude absurda da Polícia Militar e, portanto, como figura pública importante, também tem sua parcela de culpa. 
P.P.P.S.: Lembram daquela gente doce, que andava com unicórnios com crina de arco-íris e se posicionava contra a presença de partidos em manifestações? Pois bem, essas pessoas sempre esquecem que é importante saber quais partidos participam de uma manifestação, para saber quais não participam. E, diga-se de passagem, o vídeo principal desta postagem, o melhor que eu encontrei sobre a violência policial contra a manifestação, foi divulgado pelo PSTU

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* Desrespeitando, portanto, o artigo 5º da Constituição. 
** Ou talvez fosse melhor chamar de cordão-desumano. 
*** O que, claro, não isenta os policiais que cometeram esses crimes.