09 março, 2013

Metatron

___A Sorte fez com que eu encontrasse uma amiga querida no metrô. Fazia anos que não nos víamos e foi ótimo ter a chance de ficar algum tempo parado em uma estação que nenhum dos dois iria descer só para conversar um pouco mais. Na hora da despedida, ela perguntou:


___– Você continua gostando de dar aula?


___Sorrindo, respondi que sim. Ela, por sua vez, fez cara de triste.


___– Sabe de uma coisa, Ulisses? Sua voz está bem mais fraca do que quando nos conhecemos.


___– ...


___– Você e quem vive contigo todos os dias não deve notar. Como eu fiquei anos sem ouvir você, percebo claramente que a sua voz enfraqueceu. Tente se cuidar.


___Carrancudo, balbuciei um “Obrigado...”.


___– Não fique bravo, querido, não foi uma crítica. Falei porque me preocupo com você.


___– Eu sei, anjinho. Não fiquei ofendido, nem nada do tipo, com a constatação. Fico feliz que você perceba e me avise. Fiz cara de bravo por acreditar que você tem razão e como a voz é uma das principais ferramentas de muitos dos meus trabalhos, saber que eu a estou perdendo tão cedo é péssimo. Seria o mesmo que ficar irritado com o médico por conta de um diagnóstico. A culpa não é do médico, você pode até fazer careta por conta da notícia, mas está agradecido por ele ter detectado.


 

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