14 setembro, 2008

Inversão de valores

_____Dia desses uma amiga minha soltou a seguinte frase: “Depois que me tornei motorista, eu virei uma pedestre muito mais cuidadosa.”. Enquanto eu pensava em uma maneira educada de dizer que ela é que deveria ser uma motorista mais cuidadosa por ter sido pedestre ou algo do tipo, minha amiga completou: “Tento não ser como os pedestres normais. Eles atrapalham demais.”.
_____Pára tudo! Será que os carrodependentes do mundo se esqueceram que quem dirige aquela arma de mais de uma tonelada (também conhecida como automóvel) é que deve tomar cuidado com os pobres civis? Os motoristas não têm o sacrossanto direito de andarem como querem, por onde querem, com a quantidade de álcool no sangue que querem. Eles estão portando uma arma, nada de errado pode acontecer com os desarmados. Nunca.
_____Imagine a cena. Um cara bombado, tentando se fazer de macho na frente dos amigos, comenta:
_____– Depois que o meu pit bull cresceu eu percebi o quanto essas pessoas que andam na rua são um porre. Dá para acreditar que elas têm a pachorra de não mudar de calçada quando estou passando com o Bush Hussein?
_____Espero que os carrodependentes do mundo consigam entender que o dono do pit bull é que deve tomar conta do seu cachorro e não os transeuntes que têm de mudar de calçada.
_____Claro que é necessário tomar cuidado. Ninguém deve ir lá e pular na frente de um cão potencialmente bravo. O ideal é que quem está passando perto de um cara com um pit bull preste atenção, mas é o dono do cachorro que tem de ser o mais cuidadoso. Se existe o perigo – mínimo que seja – de que o animal morda alguém, coloque uma focinheira. Ou alguém vai achar normal se o bombadão falar:
_____– Que porcaria. Estão vendo esta mancha aqui na minha calça? O Bush Hussein mordeu uma criança e espirrou sangue na minha perna. Por que aquele guri de merda tinha que chegar perto? Agora a mancha não sai.
_____A fala do bombado parece absurda? Não mais absurda do que “Os pedestres atrapalham demais.”. Discorda? Então, pode se preparar para escutar em um breve futuro algo como “Ainda bem que eu passei por cima daquela velhinha, ia demorar muito para ela atravessar a rua. Só espero que não tenha amassado o pára-choque.”.

10 comentários:

  1. Aloha Ulisses!
    A capacidade de percepção diminui a cada dia. Falta senso crítico. Não existem mais valores nobres. Apenas Eu, eu e eu.
    Egocentrismo, egoísmo, umbiguismo!
    Claro que existem pessoas desleixadas na rua, como existem em qualquer lugar, e que também devem pensar no bem comum.
    Mas há uma diferença gigantesca entre esperar um comportamento civilizado e cobrar por um privilégio que não é seu.
    Mas se políticos, que são os nossos representantes, não precisam seguir as normas, ou leis, a eles aplicadas, como essa agora do nepotismo, o que esperar das pessoas que os colocaram lá em cima?
    Impunidade e egoísmo. Abuso de poder e má formação.
    Combinações mais perigosas que álcool e direção!
    Mas existe um porém, (99 não são 100), "velhinha vale 10 pontos!"
    Aloha!

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  2. Mesmo assim, vou continuar olhando para os dois lados antes de atravessar a rua;;;

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  3. Muito interessante!!! Pois eu, depois que me tornei motorista, à pouco tempo, diga-se de passagem, percebi como muitas vezes mudamos o nosso comportamento quando estamos atrás de um volante.Ficamos mais agressivos e impacientes. Tenho que me policiar constantemente para que isso não se torne uma constante, pois abomino tal hipótese. E como sou muito mais pedestre do que motorista e tenho horror de algumas barbaridades( pq não dizer barbeiragens), que vejo em minhas andanças por aí,sempre estou me benzendo antes de sair à rua, seja a pé ou de carro!!! Só assim mesmo...

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  4. As pessoas estão cada vez mais preocupadas com seus problemas e sua própria pressa, não ligam em impedir algum pedestre de atravessar a rua se isso diminuir em 10 segundos o tempo do seu trajeto. Eu já ví amigos meus "cortando" no meio do trânsito (carros E pedestres) com o argumento de "ser prático"! O que leva ao título desse post: Inversão de valores.
    Mas eu também não sou nenhum santo. Dirijo há mais de 8 anos e apenas recentemente venho me conscientizando de que a rua NÃO é minha. É um dogma que se aprende desde criança observando os pais e que é difícil de desaprender.

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  5. É amigo, só depois de ficar sem carro por um longo tempo é que eu fui me tocar do comportamento dos motoristas e como eu agia parecido com esse pit boy do seu texto...
    Seu post me fez lembrar de um texto incrível do André Sant’Anna chamado Rush.
    Pra que não leu, eu tô disponibilzando aqui: http://www.aulasparticulares.org/material/literatura/contos/rush

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  6. Ulisses, uma observação de um dia no transito paulistano vale por uma tese sociológica...
    e os pedestres aqui tbem são fogo. canso de ver neguinho atravessando avenida hiper movimentada por preguiça de pegar a passarela.

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  7. Ulisses, depois que eu li isso eu me lembrei de alguns lugares civilizados ( leia-se Europa e não USA) onde você anda na rua e quando você vai atravessar ou quando vc simplesmente ameaça fazê-lo os carros simplesmente param....vão diminuindo pra vc passar...(Os carros até parecem elétricos, movidos á bateria chamada educação ás pessoas).
    E nem preciso dizer que fiquei hiper mal acostumada e como Brasileira que sou até fazia uns testezinhos tipo ameaçar atravessar p/ ver se iriam parar ou não e pasme!!!! Sempre paravam.
    Em resumo....no retorno p/ cá, até me acostumar novamente com os motoristas hiper equino educados....demorou um pouco...mas fazer o que: quem sabe as coisas vão mudando...
    Adorei a história...
    Bjo
    Ale

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  8. [...] de valores Artigo muito interessante do Incautos do Ontem, indicado pelo Menos Um Carro: __Dia desses uma amiga minha soltou a seguinte frase: “Depois que [...]

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  9. Serbão,
    Quer dizer então que para os paxás "ativos e enérgicos", de 100 kg carregados por máquinas de 1500 kg (estáticos) e "100 cavalos", pista livre. Para o pedestre "preguiçoso", a mensagem dessa passarela tão preocupada com ele: - suba e desça 3 andares para percorrer a distância que pretende cruzar, sem elevador, zero cavalos para te carregar e zero conforto.
    Quem é o preguiçoso mesmo?

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  10. [...] o mote da campanha. O vídeo e os adesivos lembram que dirigir a 190 km/h é crime. O fato é que, como já falei aqui antes, carro é uma arma. Dirigir a 190 km/h é crime; fabricar carros que possuam velocímetros que [...]

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