05 outubro, 2010

Crônicas do 1º Turno (Parte I de II)

___Algumas coisas que aconteceram no meu 1º turno destas eleições foram dignas de nota. Imaginei que poderiam gerar algumas crônicas interessantes, crônicas que funcionariam melhor juntas e publicadas enquanto as informações sobre as eleições estão frescas na cabeça dos (e)leitores. Seguem:


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Impacientes
___Cheguei cedo à minha seção eleitoral, pronto para votar. Sorri, pouca gente na fila – uma moça ruiva, um velhinho e um cara barbado, beirando os 50 anos. Imaginei que tudo ocorreria rapidamente. Realmente, a moça entrou quase ao mesmo tempo em que um garoto de boné saia da sala e, em menos de dois minutos, já havia saído.
___Então, o velhinho entrou.
___Para começar, ao contrário de mim, que já estava com meu Título de Eleitor em mãos, o velhinho primeiro chegou perto dos mesários, para, então, começar a procurar a carteira – como se ele tivesse todo o tempo do mundo. Parecia que iria demorar, mas, a carteira estava lá, no terceiro bolso do terno. Os mesários, com cara de poucos amigos, agiram rapidamente e, na hora de assinar, o tempo voltou a correr na velocidade do velhinho. Ele disse que tinha de trocar os óculos (estavam no segundo bolso). Ele assinou, voltou a usar o outro par de óculos e foi para a urna.
___Da porta, eu observava todo o ritual do velhinho. Ele chegou à urna, arrumou a cadeira que estava ao lado e sentou. Voltou a procurar os óculos (segundo bolso). Após a troca dos óculos, passou a procurar sua cola (primeiro bolso). Começou a votar. Depois de um minuto ele disse:
___– Não está aparecendo meu candidato. Eu estou apertando os números e aparece nulo aqui.
___Um dos mesários responde: "É só apertar 'corrige' e digitar o número novamente.".
___Novo minuto.
___– Apareceu "nulo".
___– É só apertar "corrige", digitar o número novamente e apertar confirma.
___– Vocês não podem vir me ajudar?
___– Não podemos, senhor. Não é permitido.
___Imagino que deva mesmo ser proibido os mesários ajudarem, mas o velhinho estava ficando com cara de desesperado. E, quanto mais desesperado ele ficava, mais impacientes ficavam os mesários e parecia cada vez menor a vontade deles de ajudar.
___– Deu nulo novamente. Como resolve?
___Uma mesária perdeu a paciência, levantou e disse "É assim mesmo. Digita o número agora e aperta confirma.".
___Ele digitou novamente.
___– É para apertar confirma?, perguntou o velhinho.
___– Isso. Pode digitar.
___Ele apertou.
___– Vai, digita o outro. – ordenou em um tom que faria Vito Corleone obedecer.
___– Tá dizendo que é nulo.
___– É só digitar novamente e apertar confirma.
___E assim tudo continuou. Quando ouviu-se a musiquinha final, ela disse "Acabou. O senhor pode ir.".
___– Mas, eu não queria anular.
___– Não anulou, não. É assim mesmo. Pode ir tranquilo. – disse a moça, com uma cara doce, continuando a enganar o senhor.
___O velhinho saiu com uma cara estranha e eu fiquei me sentindo um idiota por não ter feito nada.


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Dois senadores
___Assim que saiu o velhinho, entrou o senhor de barba que estava à minha frente. Rapidamente ele entregou os documentos, assinou e foi para a urna.
___Digitou, digitou. Tudo parecia estar indo bem. Até que ele levantou e disse:
___– Ei! Que palhaçada é essa?
___Os mesários olharam assustados.
___– Acabei de digitar o número do meu senador e apareceu para digitar senador novamente. Que merda é essa?
___– É assim mesmo, meu senhor. Nestas eleições, os eleitores votam em dois senadores. –, disse a mesária que havia "ajudado" o velhinho.
___– Vocês estão roubando! Eu já digitei o meu senador. É deputado estadual, deputado federal, senador, governador e presidente. Eu já digitei senador!
___– Calma, moço. São mesmo dois sen...
___– Cala a boca, sua vaca! Eu vi você mentindo para o outro eleitor. Vai se foder! A mim você não engana.
___Começou uma bruta gritaria dentro da sala. Eu poderia ter resolvido rapidamente, pois eu tinha em mãos uma cola, mostrando o espaço para o número de dois senadores. Porém, como achei realmente errado o que fizeram com o velhinho que teve os votos anulados, apenas sorri e fiquei vendo os mesários sofrerem por alguns minutos. Eles mereceram.


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(Continua amanhã.)

6 comentários:

  1. Ri muito, muito mesmo da segunda crônica! Muito bom, os mesários mereceram. Coitado do velhinho :/ HUIEHEHUIE

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  2. Eu acho que de certa forma os mesários mereceram a lição. Agora eu só não sei se legalmente eles podia ir lá orientar o senhor de idade.

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  3. Eu já trabalhei como mesário em 4 eleições e nem é tão ruim assim a ponto de ficar de mau humor e não querer ajudar o velhinho. Quando acontecia esse tipo de coisa os outros mesários e eu apenas dávamos umas boas risadas, mas nada de "despachar" o coitado.

    E sim Leonardo, é proibido ir até a urna para ajudar o eleitor.

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  4. Tadinho do velhinho que perdeu seus votos a toa...

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  5. Proibido ir até lá era. Mas, porra, tenta explicar pro cara.

    Dia de eleição me deixa chateado, quase sempre.

    Fiz a minha crônica também: http://descremar.blogspot.com

    Gosto dos seus textos.

    Um abraço.

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