06 outubro, 2010

Crônicas do 1º Turno (Parte II de II)

Um documento, sem foto
___Entre as brigas que aconteceram nestas eleições, uma delas foi sobre a necessidade ou não da apresentação de dois documentos para se votar. A decisão final do STF foi que só seria necessário apresentar um documento oficial com foto. Sabendo disso, levei meu RG, mas, por desencargo de consciência, também levei o título de eleitor.
___Na fila, entretanto, resolvi ver o que aconteceria se eu não cumprisse a lei. Deixei o RG guardado na carteira. Assim que cheguei aos mesários, mostrei apenas o Título de Eleitor, sem foto. Ninguém demonstrou qualquer estranhamento. Conferiram meu nome na lista, pediram para que eu assinasse e me mandaram seguir. Votei em menos de um minuto.


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A fila
___Como relatei, a sala de votação estava realmente animada enquanto eu fiquei na fila. Mesmo tendo levado um livro, não desgrudei os olhos do que aconteceu lá dentro desde a entrada do velhinho. Por isso mesmo, não olhei nenhuma vez para trás enquanto estive na fila.
___Na saída da urna, entretanto, olhei para a fila e senti pena. A fila da minha sala estava tão grande que começava a atrapalhar a fila da seção seguinte.


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Boca de urna
___Caminhando de volta para a casa da minha namorada, encontrei uma moça do PV fazendo boca de urna.
___– Ei, moço! O senhor tem candidato para deputado federal?
___– É... Tenho sim...
___– Mas, você conhece mesmo ele? Sabe se ele vale a pena como político? Quero apresentar para você o Fulano, número 43XX*, vote, vote, vote, porque o PV vai, vote, vote, vote, um cargo importantíssimo, vote, vote, vote, ele é extremamente honesto...
___Pensei em falar que ela não deveria estar fazendo boca de urna, que um político honesto não iria pedir para distribuir santinhos no dia da eleição, mas a moça era bonita e eu preferi apreciar ela falando.
___– ... leve este panfleto e pense bem. Talvez valha a pena você mudar seu candidato. – terminou a moça, estendendo-me um santinho.
___Ao mesmo tempo em que comecei a estender a mão para pegar o papelzinho, eu disse:
___– Obrigado. Só que eu já votei.
___A moça fechou a cara e, antes que eu pudesse fechar a mão para pegar o santinho, recolheu o braço. Colocou o papel junto com os outros, virou as costas bruscamente e saiu caminhando.


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Fogos de artifício, crônica de um ingênuo
___Durante parte da apuração, fiquei na internet, procurando notícias, acompanhando os resultados. Pouco depois que escureceu, minha namorada chegou com uns amigos e insistiu para que sentássemos para jogar pôquer.
___Ficamos jogando por um bom tempo e eu deixei a apuração de lado. De repente, começamos a escutar o barulho de fogos de artifício. Muitos fogos.
___Imaginando que os fogos marcavam o fim da disputa presidencial, eu disse: "Não é bonito, gente? As pessoas estão felizes com o resultado das eleições. Estão soltando fogos para festejar. Puxa... já pensaram? É a primeira vez que uma mulher é eleita presidente, em um país machista como o nosso, direto no primeiro turno, e as pessoas estão tão felizes que estão soltando fogos.". Na mesa, pessoas das mais diferentes opiniões políticas. Menearam com a cabeça, um ou outro sorriu.
___Levantei, fui olhar os resultados. Fogos ainda estourando. Dilma, 46%; Serra, 32%. As pessoas não estavam festejando uma vitória, um resultado final de disputa presidencial. Festejavam porque Dilma não havia conseguido vencer logo no primeiro turno. Festejavam uma não-vitória. Como um corintiano soltando rojões porque o Palmeiras tomou um gol do Flamengo.
___Acho estranho festejar assim. Porém, o caso talvez seja que eu sou muito ingênuo. Pelo menos ganhei no pôquer.


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* Não estou preservando o nome do candidato, nem nada do tipo. Só não lembro.

9 comentários:

  1. Ué. Poderiam ser eleitores do Serra comemorando a ida ao segundo turno. Ou poderiam ser garotos soltando fogos que os pais tinha reservado para uma possível vitória no 1º turno de algum candidato.

    Ou até comemorando a vitória do Tiririca.

    Por que não?

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  2. Claro, Adriano, tudo isso seria possível. Pra mim, a graça da crônica é exatamente eu ter resolvido fazer um discurso, no meio da mesa de pôquer, para depois olhar o resultado e ver q não era nada daquilo q eu pensei.

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  3. Ingênuo, ganhando no pôquer?? isso é estratégia, discursou no meio da jogatina, pra ganhar no final hehehe

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  4. Nego. Sou completamente ingênuo, pode confiar. Nem precisa cortar o baralho. ;-)

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  5. Realmente, Ulisses, é interessante observar o caminho que a entrevista com o Laerte acabou por tomar. É válido enfatizar que, afinal, não era para falar sobre isso que ele estava lá...

    Obrigada pelo comentário, por meio dele vim parar aqui e gostei do blog. Boas histórias, boa escrita, me interessei e vou assinar o RSS.

    (Aliás, essa dos fogos foi ótima. Sofro do mesmo tipo de falta de malícia...)

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  6. Ulisses, eu que não joguei poquer nem nada, namorado lá longe e a vida assim, sem graça, sofri um bocado com a quase chegada do Mercadante no segundo turno em São Paulo... Até o último momento, aquela esperança dele subir... Se conseguisse, aí sim, seria uma rajada de fogos digna de primeiro do ano. Enfim, perdeu. Conclusão: fui esquentar meu café e botar mais açúcar nele, porque teremos mais 4 anos do mesmo por aqui. Beijo, Tati

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  7. milena cassucci14 outubro, 2010 11:12

    Olá! Eu estava acompanhando a apuração, e pelo menos na região onde eu me encontrava, o lançamento dos fogos de artifício coincidiu com o anúncio da vitória do candidato Alckmin no 1º turno... Tem quem considere motivo de comemoração a manutenção dessa desgraça, e eu pensei que devia rir p/ não chorar... Mas não consegui.

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  8. Sou obrigado a dizer q concordo completamente: http://incautosdoontem.opsblog.org/2010/09/27/por-que-alguem-iria-querer-que-o-psdb-continuasse-no-governo-de-sao-paulo/

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