18 novembro, 2010

Elvis, Madona & Machado de Assis

Nota: Recomendo a leitura prévia do conto “As Academias de Sião”, de Machado de Assis, e do livro Elvis & Madona, de Luiz Biajoni, para que ninguém apareça a reclamar de spoiler na minha orelha.


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___Com o objetivo de divulgar o projeto Brasiliana USP, o grande Idelber Avelar montou mais uma edição do Clube de Leituras dO Biscoito Fino e a Massa. O Brasiliana USP conta com um acervo interessantíssimo de livros digitalizados e, para a conversa literária, o Idelber escolheu o conto “As Academias de Sião”, de Machado de Assis – digitalizado da 1ª edição do livro Historias sem data, com dedicatória assinada pelo Machado.
___Folgado que sou, tomo a liberdade de aproveitar a divulgação que o Idelber resolveu fazer para divulgar outra obra: Elvis & Madona, do Luiz Biajoni.


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___Acabei de ler o livro do Biajoni e foi impossível reler o conto “As Academias de Sião” sem pensar, a todo instante, no Elvis & Madona.


Elvis & Madona


___O conto machadiano tem como mote os acadêmicos de Sião debatendo “por que é que há homens femininos e mulheres masculinas?” por conta da índole feminina do rei Kalaphangko. Depois de conflituosas discussões entre as quatro academias locais, chega-se à conclusão que isso acontece, pois “Umas almas são masculinas, outras femininas. A anomalia que se observa é uma questão de corpos errados.”. A conclusão acaba por levar o feminino rei a trocar sua alma com a belíssima – mas, de alma masculina – Kinnara, a flor das concubinas reais.
___O livro Elvis & Madona, de Luiz Biajoni, conta a história de um travesti (Madona) e uma lésbica (Elvis), completamente resolvidos sobre suas preferências sexuais, mas que acabam por se apaixonar. O conflito sobre o feminino em um corpo masculino e vice-versa percorre a obra toda.
___As atitudes das personagens de Biajoni são, em grande parte da obra, características do gênero que escolheram para levarem suas vidas. Por mais forte que seja a personagem do travesti Madona, ela é doce, carinhosa, sonhadora. Na hora do grande perigo, quando João Tripé tenta assassinar ela e Elvis, Madona simplesmente desmaia. Por seu lado, a lésbica Elvis veste-se tal qual um homem, usa casaco de couro, anda de motocicleta. Homem da relação, é Elvis que enfrenta João Tripé; é Elvis que derrota o inimigo, defendendo Madona, sua frágil mocinha.*
___Kalaphangko e Kinnara adoram a troca de almas – ficando a alma masculina no corpo masculino e a feminina, no feminino. Não é à toa que, no fim do conto, quando ambos têm de fazer suas almas voltarem ao corpo original, entram “no barco real [...] ambos de má vontade, saudosos do corpo que iam restituir um ao outro.”. Elvis e Madona também não pensam em mudar suas respectivas condições de travesti e lésbica-homem, mesmo ficando juntos.
___Por fim, é exatamente na troca de corpos que Kalaphangko e Kinnara conseguem gerar um filho. Como o Idelber lembra muito bem, “O nome de Kinnara alude à amante por excelência nas mitologias budista e hindu, meio humana e meio cavalo (ou pássaro), que jamais procria.”. Só com a troca de almas que Kinnara consegue engravidar.** Com a confusão de gostos, com o travesti Madona (que gosta de homens) se apaixonando pela lésbica Elvis (que gosta de mulheres) é que o casal consegue engravidar. O travesti e a lésbica teoricamente não gerariam filhos; a Kinnara mitológica não pode procriar; a mistura fabulística consegue resultar na gravidez.
___Pode não ter sido, nem de longe, o objetivo de Machado, mas, estabelecendo esta leitura, fica impossível não pensar no conto “As Academias de Sião”, como o que é o livro Elvis & Madona segundo o autógrafo que o Biajoni me deu: um libelo pela tolerância.


Elvis & Madona - Autógrafo


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* Sobre os ideais de gênero, conferir o PDF do doutorado de Marta Cavalcante de Barros (Espirais do Desejo: Uma visão da mulher nos contos de Machado de Assis), p. 52.
** Vale apontar que o nome de uma personagem ser o nome de uma figura mitológica – Kinnara –, só fortalece mais ainda a brincadeira de comparar o conto de Machado, com o livro de Biajoni. Kinnara (segundo A dictionary of hinduism, de Stutley – citado na nota 49 da tese de Marta Cavalcante de Barros) é “um ser mitológico, com corpo humano e cabeça de cavalo, ou o contrário”, tal qual Madona tem corpo de homem, travestido de mulher, e Elvis o corpo de uma mulher, um pouco masculinizado.

2 comentários:

  1. [...] This post was mentioned on Twitter by Biajoni, O pensador selvagem. O pensador selvagem said: OPS! > Blog Incautos do Ontem: Elvis, Madona & Machado de Assis http://bit.ly/bujQxq [...]

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  2. [...] P.S.: Para quem gosta de Literatura, fica como indicação o paralelo que eu tracei entre o livro do Biajoni e o conto “As Academias de Sião”, de Machado de.... [...]

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