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16 de julho de 2026

A Odisseia, Lupita Nyong'o e Helena de Troia: questão

 


            Aproveitando a estreia do filme A Odisseia, vai abaixo uma questão que eu fiz para os meus estudantes:

 

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Em 2024, foi anunciado que o premiado diretor Christopher Nolan iria filmar uma versão do clássico grego Odisseia, de Homero. Entretanto, diante dos boatos de que Lupita Nyong'o, uma atriz negra, iria interpretar Helena de Troia, algumas pessoas começaram a demonstrar grande desagrado. O assunto foi debatido tanto online, vide o exemplo do historiador Thiago Braga, como em revistas consagradas, como a Newsweek. Bem-humorado, um internauta com a alcunha de @agraybee escreveu: “Eu não sabia que Helena de Troia poderia gerar tanto conflito.” (disponível em https://x.com/agraybee/status/2056477961000267877. 18/05/2026.). Explique, demonstrando conhecimento histórico, qual a graça do comentário de @agraybee.

 


 

31 de agosto de 2023

Life is Stange e a luta contra o bullying nas escolas

 

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* Alerta de spoiler do jogo Life is Strange e, aproveitando a nota, link para o local de seu blog em que a Laerte postou a tirinha. 

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            Faz anos que são feitas tentativas infrutíferas para se evitar o bullying nas escolas. Normalmente, quem mais presta atenção a essas tentativas são as próprias pessoas que sofrem a iniquícia. Quem maltrata os outros debocha quase que abertamente dessa busca por uma convivência mais doce. Em meio a essa luta vã, tive, como professor, experiências positivas graças a um jogo: Life is Strange.


            Lançado em 2015, com um lindo visual e uma ótima trilha sonora, o jogo Life is Strange conta a estória de Max Caulfield, uma estudante de fotografia que descobre a habilidade de voltar no tempo. O jogador controla Max e as escolhas feitas afetam a continuidade da estória e a vida das personagens.

            Como o jogo é feito de maneira muito humana, com Max Caulfield refletindo em seu diário ou em seus pensamentos sobre suas atitudes, quem está jogando rapidamente vai se identificando com a personagem e sentindo empatia por quem está ao redor de Max. Seus erros e acertos, momentos de descaso ou de atenção afetam o jogo e são constantemente referenciados. Não há dúvidas sobre como o que você faz acaba atingindo não apenas você, mas quem está a sua volta. E isso é ainda mais estimulado porque a estória é envolvente e surpreendente.

            Faz quase uma década que sempre que cito o Life is Strange em sala de aula, uma legião de fãs aparece. O jogo é ótimo e os dramas da vida escolar-adolescente de Max Caulfield muitas vezes são enfrentados pelos meus estudantes (com exceção do poder de viajar no tempo... que eu saiba). O bullying e seus efeitos são assuntos constantes no jogo. Se quem está jogando não toma atitudes diretas em relação a isso, as repercussões no jogo são enormes.

            Notando o interesse dos estudantes por Life is Strange, costuma ser muito interessante perguntar, principalmente para quem faz bullying, “O que aconteceu com Kate Marsh na sua partida?”. Kate é a personagem mais afetada pela iniquícia no jogo. “As coisas que você faz aqui na escola podem afetar alguém como a Kate foi afetada no jogo?”.


        Já tive mais de um caso de estudante mudando as próprias atitudes depois de pensar um pouco sobre isso. Queira ou não, é o efeito que uma obra de arte (e um professor) pode(m) causar. Principalmente uma obra que conseguiu realmente interessar, encontrar eco entre os jovens.

Obrigado, “Super Max”. Minha heroína do cotidiano.


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P.S.: Utilizei uma imagem de propaganda do jogo para mostrar um pouco do gráfico (remasterizado) de Life is Strange. No entanto, ao procurar uma imagem da Kate Marsh, encontrei essa, feita pela artista Elaine Chung @pershuns, que ficou ótima. Então, preferi escolhe-la para ilustrar o texto. 

30 de junho de 2022

A influência do solo nos passos de dança de salão

     Uso este blog para me divertir e vivo colocando aqui coisas aleatórias que eu produzo. Publico crônicas que me dão vontade de escrever, críticas, indicações diversas, contos rejeitados em outros lugares (porque eu mesmo não vou rejeitar meus contos, no meu blog)... Passei 2020 e 2021 postando videoaulas e podcasts que eu gravei para meus estudantes por conta das aulas online. Sendo assim, se você está aqui porque aprecia qualquer dessas produções minhas, hoje vou linkar uma acadêmica. 

        No fim do mês passado, saiu publicado na revista O Mosaico, da Universidade Estadual do Paraná, um artigo científico que eu escrevi sobre a influência do solo, do chão, no surgimento dos passos de dança de salão. É parte do meu trabalho como historiador de História da Dança. Fica o link do meu "Cuidado onde pisa"

        Boa leitura. 

7 de julho de 2021

Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação...

    @DropsEditora fez a seguinte provocação e eu resolvi brincar.

 


@SóPedro-porquemeunomecompletoémuitogrande: Estou pensando em ficar.

@ImperadorNapoleão: Pode voltar, @SóPedro-porquemeunomecompletoémuitogrande. Eu já morri. Até seu pai já voltou. Não precisa ter medo.

@Joãozinho: Desnecessário esse comentário póstumo do @ImperadorNapoleão. Deixando esse assunto de lado, talvez em alguma ilha por aí, tenho de dizer que estou com saudades, filho. Tenho vontade de dizer para você tomar o caminho de volta, antes que algum aventureiro o faça, mas garantir o Brasil é mais importante.

@ImperadorNapoleão: Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver, dedico com saudosa lembrança este tweet póstumo de ameaça. @Joãozinho, se você fizer mais alguma gracinha sobre me deixar de lado em alguma ilha por aí, vou ter de me erguer do túmulo para invadir novamente Portugal.

@SóPedro-porquemeunomecompletoémuitogrande: Independência ou mortos! @ImperadorNapoleão, não se atreva a ameaçar meu pai ou o Brasil volta a invadir a Guiana Francesa.

@ImperadorNapoleão: Para com isso, vocês não vão nem conseguir manter essa Província Cisplatina por muito tempo.

@Inglaterra: O que está acontecendo aqui?

@SóPedro-porquemeunomecompletoémuitogrande: Nada não. Só uma madrugada dos mortos vivos.

@Joãozinho: kkkkkkkk. Sempre apreciei o seu humor, filho.

@SóPedro-porquemeunomecompletoémuitogrande: @ImperadorNapoleão, você ainda está aí ou a chegada da @Inglaterra foi seu novo Waterloo?

@Joãozinho: kkkkkkkk. Muito sagaz, filho.

@Inglaterra: Tudo bem. Melhor sem ele. Já que só estamos nós por aqui, vamos conversar para ver como vocês podem ajudar o meu país.

@Inglaterra: Desculpem-me... foi o corretor automático. Vamos conversar para ver como eu posso ajudar o país de vocês.

 

24 de maio de 2021

Feudalismo e... anarcocapitalismo / neofeudalismo / libertarianismo / feudalismo corporativo

            Podcast refletindo se a ideologia anarcocapitalista pode ser associada com o feudalismo. Pode ser ouvido no Anchor e no YouTube.




Bibliografia, fontes e materiais utilizados:

- Imagem de capa retirada da paródia da bandeira de Gadsden encontrada em https://www.amazon.com/Dope-Waffles-Receipt-Gadsden-Shopping/dp/B084DBYR54.

- FAGGION, Andrea. Democracia Liberal vs Neo-Feudalismo Libertário. Estado da Arte. 2018. https://estadodaarte.estadao.com.br/democracia-liberal-vs-neo-feudalismo-libertario/

- FRANCO JÚNIOR, Hilário. Feudalismo: uma sociedade religiosa, guerreira e camponesa. São Paulo: Moderna, 1999.

- HUGGINS, Martha Knisely. Violência urbana e privatização do policiamento no Brasil: uma mistura invisível. Caderno CRH. Salvador. Vol. 23. n. 60. 2010. pp. 541-558.

- Ideias Radicais. O que é Anarcocapitalismo/Anarquismo/Libertarianismo? Vídeo. 2015. https://youtu.be/0oRGiD9Birs.

- Ideias Radicais. O que o Meteoro Brasil pensa sobre Anarcocapitalismo. Vídeo. 2021. https://youtu.be/lew9dUlOONI.

- KWON. Hop hip. Trilha sonora. Link: https://www.youtube.com/audiolibrary. 2020.

- LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente medieval. Petrópolis: Vozes, 2016.

- Meteoro Brasil. Você sabe o que esta bandeira significa? Vídeo. 2021. https://youtu.be/YznIscjywsU.

- ROTHBARD, Murray. Por uma nova liberdade: o manifesto libertário. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2013.

- SHEARING, Clifford; STENNING, Philip. Private Security: implications for social control. Social Problems. Oxford University Press. Vol. 30. n. 5. 1983. pp. 493-506.

- Titãs. Homem primata. Cabeça dinossauro (álbum). Rio de Janeiro: 1986. https://youtu.be/5OrdXHiO1Qo.

- VON MISES, Ludwig. A mentalidade anticapitalista. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010.

 

 

8 de março de 2021

Comentando algumas das leis das XII Tábuas (podcast)

            Podcast comentando a base das leis romanas, a Lei das XII Tábuas (ou, em latim, LEX DUODECIM TABULARUM). Pode ser ouvido no Anchor (e nas plataformas de podcast que ele distribui) ou no YouTube.

 

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Bibliografia, fontes e materiais utilizados:

- Ciro Gomes falando sobre tirar as pessoas do SPC (Debate da Band): https://youtu.be/S-l-VtJ4lKo. 2018.  

- Imagem de capa: Fórum Romano. Foto: BAUER, Stefan, 2005.

- Jair Bolsonaro falando sobre a redução da maioridade penal – https://youtu.be/VxkKwjpxvA0 (2013) – e sobre matar quem for considerado bandido – https://youtu.be/SthiUdn0Cbo (2016).

- Lei das XII Tábuas. Em português: http://www.dhnet.org.br/direitos/anthist/12tab.htm. s/d. Em inglês: https://archive.org/stream/thetwelvetables14783gut/14783.txt. 2005.

- FÜHR, Moacir Hastenteufel. As Leis das 12 Tábuas. Vídeo. 2019. https://youtu.be/PfenDbbr27g e https://youtu.be/JBNJOofMHAg.

- KWON. “Hop hip”. Trilha sonora. Link: https://www.youtube.com/audiolibrary. 2020.

- MADEIRA, Eliane Maria Agati. A Lei das XII Tábuas. Revista da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo. 13. 2007. https://revistas.direitosbc.br/index.php/fdsbc/article/view/226.

8 de setembro de 2020

A reforma agrária e os irmãos Graco (podcast)

     Podcast sobre reforma agrária, focando no Brasil contemporâneo e na república romana da Antiguidade. Pode ser ouvido no YouTube, no PodBean e no SoundCloud. Fica, abaixo, o que foi postado no YouTube:

 


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Bibliografia, fontes e materiais utilizados:

- “Bolsonaro diz que cartão de visita do MST tem que ser um FUZIL 762”. Canal da Rio West Fm. 2016. Link: https://youtu.be/Ztwza1DFc8w.

- ANDERSON, Perry. Passagens da Antiguidade ao Feudalismo. São Paulo: Brasiliense, 1998.

- ARANTES, João Felipe Moura; CONSENSE, Dead. “A reforma agrária”. Vídeo. 2019. Links: https://youtu.be/I6G4eMJLT_Y e https://youtu.be/cXVYyIiGxs8.  

- BEARD, Mary Ritter. SPQR – Uma História da Roma Antiga. São Paulo: Planeta, 2015.

- GUILLAUME, Eugène. Os Gracos. Escultura. Imagem de capa. 1853.

- KWON. “Hop hip”. Música. Trilha sonora. Link: https://www.youtube.com/audiolibrary.

- MONTANELLI, Indro. História de Roma. Rio de Janeiro: Record, 1969.

- NETO, João Cabral de Melo. Morte e vida Severina. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994. Versão em vídeo da TV Escola https://tvescola.org.br/programas/programa/interprograma-morte-e-vida-severina/ ou https://youtu.be/clKnAG2Ygyw.

- PLUTARCO. Vidas Paralelas. Em português: http://www.consciencia.org/vidas-paralelas-de-plutarco-indice-geral. 2011. Em espanhol: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=6707. s/d.

- ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens. São Paulo: CultVox, s/d. Link: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000053.pdf.

- STÉDILE, João Pedro. Questão agrária no Brasil. São Paulo: Atual, 2011.


Atualizado em 12/2020: Postado também no Anchor.

6 de julho de 2020

A culpa da escravidão

___Podcast com uma aula comentando algumas falas culpando os africanos pela escravidão transatlântica. Pode ser ouvido no YouTube, no PodBean e no SoundCloud. Fica, abaixo, o que foi postado no YouTube:


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Bibliografia, fontes e materiais utilizados:
- Falas de Alberto da Costa e Silva. “Alberto Silva – A Escravidão na História e na África”. 2016. Link: https://youtu.be/Dn_2RIo4QJc.
- Falas de Flávio Alencar e Paulo Cruz. “Brasil A Última Cruzada - Capítulo 2 - A Vila Rica”. 2019. Link: https://youtu.be/Z_rI_U_4YXY.
- Ilustração de capa: carta do jogo Xingu, de Marcos Macri. São Paulo: MSJogos, 2018.
- Jair Bolsonaro entrevistado no programa Roda Viva, da TV Cultura. 2018. Link: https://youtu.be/lDL59dkeTi0.
- Mr. Catra entrevistado no Morning Show, na rádio Jovem Pan. 2018. Link: https://youtu.be/CF9ZRQo6JnI
- Mr. Catra entrevistado no programa Pânico, na rádio Jovem Pan. 2017. Link: https://youtu.be/G1dE2tbYduc
- Sobre montagem de dircursos, fica a indicação da @janaviscardi (2018, https://youtu.be/vdrm8z-5vKo, e 2020, https://youtu.be/SUdvIUamfPY) e do @danield_almeida (2018, https://youtu.be/ksg_KQmwZQk).   
- Trilha sonora: The Mini Vandals featuring Mamadou Koita. “La Danse Fetish de Femme”. Link: https://www.youtube.com/audiolibrary/music?nv=1.
- ALENCASTRO, Luiz Felipe de. Trato dos Viventes. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
- BANDECCHI, Brasil. “Legislação básica sobre a escravidão africana no Brasil”. In: Revista de História. V. 44. N. 89. São Paulo: FFLCH-USP, 1972. 
- DIAS, Mariza de Araújo. Os jesuítas e a escravidão africana no Brasil colonial: um estudo sobre os escritos de Antonio Vieira, André João Antonil e Jorge Benci: sécs. XVII e séc. XVIII. 2012. Dissertação – Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ciências e Letras de Assis, 2012. Link: http://hdl.handle.net/11449/93370.
- FIGUEIREDO, Filipe. “A origem da escravidão no Brasil | Nerdologia”. Vídeo-aula. 2019. Link: https://youtu.be/qXBmkswwRfw.
- FIGUEIREDO, Filipe. “Escravos africanos e o tráfico atlântico: história “politicamente incorreta”. Texto de blog. 2014. Link: https://xadrezverbal.com/2014/02/28/escravos-africanos-e-o-trafico-atlantico-historia-politicamente-incorreta/.
- GOMES, Laurentino. Escravidão – Volume I. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2019. 
- INIKORI, J.E.. “A África na história do mundo: o tráfico de escravos a partir da África e a emergência de uma ordem econômica no Atlântico”. In: OGOT, Bethwell Allan. História geral da África, V: África do século XVI ao XVIII. Brasília: Unesco, 2010. 
- SILVÉRIO, Valter Roberto (coord); ROCHA, Maria Corina; BARBOSA, Muryatan Santana. Síntese da coleção História Geral da África: século XVI ao século XX. Brasília: Unesco/MEC/UFSCar, 2013. 
- WETZEL, Herbert. “A escravatura e os jesuítas no Brasil Colonial”. In: Perspectiva Teológica. V. 8. N. 16. Belo Horizonte: FAJE, 1976.

Atualizado em 12/2020: Postado, também, no Anchor.

20 de abril de 2020

Domesticando humanos e plantas



___Podcast com uma pequena aula sobre seres humanos e plantas no Período Neolítico da Pré-História.
___Como não entendo nada de postar podcasts (e achei mais complicado do que eu imaginava), coloquei em mais de um lugar. Dá para ouvir no YouTube, no Podbean, no SoundCloud, no Spotify e, teoricamente, o iTunes vai liberar algum dia. Para ouvir é só clicar nos links que eu coloquei acima ou procurar por Incautos do Ontem no Spotify. Espero que vocês apreciem.

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Bibliografia e materiais utilizados:
- Imagem que ilustra o podcast: SÁNCHEZ, María Isabel Chacón. “Darwin y la domesticación de plantas en las américas: el caso del maíz y el fríjol”. In.: Acta Biológica Colombiana. Volume 14. Bogotá: Universidad Nacional de Colombia, 2009. p. 352. Foto do feijão (A): Daniel Debouck, Centro Internacional de Agricultura Tropical. Foto do tomate (B): María I. Chacón.
- Os Mutantes. “Panis Et Circenses”. Música e sons. In. Os Mutantes. Compositores: Emanuel Viana Teles Veloso Caetano e Gilberto Gil. 1968. Além dos sons utilizados na introdução, ainda foi utilizada, em parte do vídeo, a interpretação da música tocada pela Orquestra de Ukuleles da UFRJ. Link: https://youtu.be/DI24aL8ekM4
- Plants vs. Zombies. Jogo. Trecho da música introdutória.
- Titãs. “Comida”. Música. In. Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas. Compositores: Arnaldo Augusto Nora Antunes Filho, Sergio De Britto Alvares Affonso e Marcelo Fromer. 1987. Interpretação do Acústico da MTV de 1997.
- CRETELLA JR. José e CINTRA, Geraldo de Ulhôa. Dicionário Latino-Português. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1950. p. 348.
- HARARI, Yuval Noah. Sapiens: uma breve história da humanidade. Porto Alegre: L&PM, 2019. pp. 116-118.
- SÁNCHEZ, María Isabel Chacón. “Darwin y la domesticación de plantas en las américas: el caso del maíz y el fríjol”. In.: Acta Biológica Colombiana. Volume 14. Bogotá: Universidad Nacional de Colombia, 2009. pp. 351-363.

Atualizado em 12/2020: Disponível, também, no Anchor.

24 de março de 2020

Dever de crítica

___Em 2017, descobri que Laura, minha aluna à época, é filha do cartunista Cláudio de Oliveira (que, atualmente, trabalha no Agora). Achei a informação interessante e, sem falar mais nada, comecei a acompanhar o trabalho do Cláudio. 
___Alguns meses depois, em uma prova de História que a sala da Laura iria fazer, coloquei a seguinte questão:

___Depois que Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito presidente, em 2002, o cartunista Cláudio de Oliveira publicou a seguinte charge no Pasquim 21:

___Agora, em 2017, Cláudio afirma que o mesmo valeu para Dilma e vale para Temer, “Penso que o chargista não tem o direito de crítica, mas o dever de crítica. Esse é o seu trabalho.” (http://chargistaclaudio.zip.net/arch2017-01-08_2017-01-14.html#2017_01-09_11_57_05-2424842-0).*
___Em 1831, um dos mais ferrenhos críticos do imperador d. Pedro I foi o jornalista Líbero Badaró. Muitos à época acreditaram que essas críticas que fizeram Badaró ser assassinado e culparam o autoritarismo do imperador. Também foi utilizado à época para apontar o autoritarismo de Pedro I
a) a existência do Poder Executivo, que dava plenos poderes ao imperador.
b) o direito ao voto, expresso na constituição de 1824.
c) a fuga da família real lusitana para o Brasil.
d) o fato de que ele outorgou a constituição de 1824.
e) o golpe da maioridade, com o qual Pedro se tornou imperador com apenas 14 anos.**
 

___A lembrança dessa história é completamente doce para mim porque, ao terminar a prova, a Laura, sem falar mais nada, veio me dar um abraço. 
___Lembro disso agora porque me impressiona muito os constantes escândalos do presidente Jair Bolsonaro contra a imprensa que o critica. Está aqui um vídeo com um dos exemplos mais marcantes, mas dá para achar o maluco ladrando contra a imprensa que o critica quase que diariamente. Para se ter uma ideia, é mais fácil achar o Bolsonaro batendo na imprensa do que miliciano na vizinhança do condomínio em que ele mora. 
___Não estou dizendo que um jornalista ou um cartunista não possam falar sobre coisas bacanas, inclusive do governo. No entanto, vale lembrar, quem só elogia o governo, está mais para marqueteiro do que qualquer outra coisa. Creio que fica fácil saber que tipo de imprensa o Bolsonaro deseja. Ou melhor, que tipo ele tenta impor. 

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* O link foi colocado exatamente assim na prova. Infelizmente, o endereço não existe mais. O Cláudio ainda publica boa parte do seu trabalho online. Parte pode ser encontrada neste link e seus livros podem ser comprados pela Amazon
** Caso seja necessário para alguém, a resposta é a letra D: dom Pedro I foi criticado como um governante autoritário por outorgar a Constituição de 1824. 

29 de fevereiro de 2020

Agredindo na empolgação

___Mesmo vivendo em uma realidade completamente opressiva, as pessoas da sociedade de 1984, o romance distópico de George Orwell, tinham um momento bem específico para extravasar: os “Dois Minutos de Ódio”. Colocadas todas juntas e sendo expostas àquilo que eram ensinadas a odiar, elas literalmente entravam em uma catarse coletiva. 

___No segundo minuto o ódio chegou ao frenesi. Os presentes pulavam nas cadeiras, e berravam a plenos pulmões, esforçando-se para abafar a voz que saía da tela. A mulherzinha do cabelo de areia ficara toda rosa, e abria e fechava a boca como peixe jogado à terra. Até o rosto másculo de O’Brien estava corado. Estava sentado muito teso na sua cadeira, o peito largo se alteando e agitando como se resistisse ao embate duma onda. A morena atrás de Winston pusera-se a berrar ‘Porco! Porco! Porco!’. De repente, apanhou um pesado dicionário de Novilíngua e atirou-o à tela.

___Quando vejo um grupo de pessoas vociferando de maneira semi-irracional, atacando alguém quase que por puro comportamento de grupo, costumo me lembrar desse trecho. A última vez aconteceu quando a Cris Bartis e Juliana Wallauer, as doces moças que apresentam o podcast Mamilos, lançaram o episódio de “Finanças pessoais”. Algum problema aconteceu entre elas e a Nath, uma das convidadas, e, por conta disso, um número enorme de pessoas começou a atacá-las virtualmente. Não dá para saber direito o que aconteceu porque, no fim das contas, elas deletaram o episódio. Querendo ouvi-lo, comecei a procurar pela internet. Tudo que encontrei foram pessoas sendo extremamente violentas com as duas. 
___Antes desse dia, eu só havia ouvido manifestações positivas em relação ao Mamilos. Não teve como não associar a reação das diversas pessoas que estavam xingando com os Dois Minutos de Ódio, do Orwell. No entanto, o que me espantou mesmo, foi ver pessoas que eu também considerava doces batendo na Ju e na Cris. Só para citar um exemplo, fiquei boquiaberto ao ver o Gustavo Gitti aproveitando o momento para descer a lenha


___Para falar a verdade, não sei porque fiquei espantado. Se eu associei a reação das pessoas ao trecho do 1984, eu deveria ter lembrado que, poucas linhas depois, Orwell descreve a personagem principal do romance, o cético Winston, entrando na catarse coletiva: 

Num momento de lucidez, Winston percebeu que ele também estava gritando com os outros e batendo os calcanhares violentamente contra a trave da cadeira. O horrível dos Dois Minutos de Ódio era que, embora ninguém fosse obrigado a participar, era impossível deixar de se reunir aos outros. Em trinta segundos deixava de ser preciso fingir. Parecia percorrer todo o grupo, como uma corrente elétrica, um horrível êxtase de medo e vingança, um desejo de matar, de torturar, de amassar rostos com um malho, transformando o indivíduo, contra a sua vontade, num lunático a uivar e fazer caretas.

___Com isso eu estou dizendo que o Gitti está errado em criticar a Ju e a Cris? Não. As críticas dele podem até ser válidas, mas escolher a hora em que as pessoas estão apanhando para bater não é exatamente a atitude mais admirável do mundo. Atacar qualquer erro que alguém cometeu em um momento em que a pessoa já está sendo criticada por algo completamente diferente parece a fúria que as pessoas, no fim das contas, sentiam nos Dois Minutos de Ódio: “a fúria que se sentia era uma emoção abstrata, não dirigida, que podia passar de um alvo a outro como a chama dum maçarico.”*.

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P.S.: “E a sua atitude em bater publicamente no Gitti? Acha certo, seu monstro?”. Para começar, só usei ele como o exemplo de alguém que me espantou por estar atacando. Se fosse o Carlos Cardoso ou o Eli Vieira batendo em alguém, eu só diria “Ah, terça-feira.”. Em segundo lugar, que eu saiba, ninguém está batendo no Gitti. Parece um momento em que ele não está frágil, nem na defensiva e pode refletir sobre o assunto. Ou pode só me mandar à merda. 
P.P.S.: “Você está escrevendo esse texto só para apoiar suas amigas do Mamilos!”. Usei o caso só como um exemplo. Troque a situação e as personagens e o exemplo continuará válido, seja na Oceania, no Brasil, na internet ou no seu trabalho. Além disso, não conheço as moças do Mamilos. Elas nem sabem quem eu sou na fila do pão, muito menos que a padaria perto da minha casa fechou. 
P.P.P.S.: O texto, como de costume, é só uma reflexão. Não pretendo atacar ninguém. Todas as pessoas citadas, sem exceção, eu admiro de alguma forma. Mas, nem por isso, acho que alguma delas é perfeita. 

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* Todas as citações do 1984 foram retiradas do capítulo 1.

29 de janeiro de 2020

Corrente do bem: ajudando cachorros com dificuldade para ficar em pé

___É muito fácil ver as coisas de maneira maniqueísta, como se existisse apenas o Bem e o Mal. A realidade, no entanto, acaba tendo muito mais tons de verde do que essa divisão própria de um filme antigo da Disney. É fácil pensar, por exemplo, que empresas pensam apenas no lucro. No entanto, na academia de dança em que trabalho, vi, há alguns anos, um chefe meu recusar um grupo de clientes por apresentarem atitudes abertamente racistas na organização de um baile.



___Cleópatra VII foi minha cachorra até o ano passado. No final da vida, ela começou a ter cada vez mais dificuldade para andar. Minha esposa e eu tentamos os mais diversos modos de ajudá-la, mas, no fim das contas, foi necessário colocar um peitoral nela que nos permitisse levantá-la utilizando – muita – força. Apesar da dor nas costas, dos calos nas mãos e dos constantes ataques à minha autoestima de homem forte, a Cleópatra conseguia ainda passear (muito lentamente) todos os dias. Esses passeios melhoraram muito graças à coleira da Cuscoloko que nós compramos.




___Esta pode parecer uma postagem patrocinada, mas nada está mais longe disso. Em primeiro lugar porque são tão poucas as pessoas que me leem atualmente, que seria melhor alguém gastar o dinheiro do patrocínio em jujubas do que comprando um texto meu aqui. Em segundo lugar, escrevo estas linhas por ter gostado do produto e porque a empresa foi linda de tantas formas que achei que eles mereciam uma propaganda grátis. Ou, pensando bem, talvez fosse melhor eu mandar jujubas para eles. 
___Como não estou planejando mandar jujubas, começo elogiando a Cuscoloko porque o peitoral com suporte para levantar cachorros com dificuldade locomotora  (Total Up) realmente facilitou os meus passeios. Minhas mãos passaram a doer menos (graças a alça acolchoada) e minha autoimagem de homem forte vive hoje um pouco menos para baixo. A Cleópatra VII passou a ser erguida com mais facilidade e, após ficar em pé, era mais fácil mantê-la andando. A única dificuldade foi que, como se tornou mais perceptivo que eu estava andando com uma cachorra com necessidades especiais por conta do peitoral, mais pessoas me paravam para perguntar o que a Cleópatra tinha (“É, principalmente, velhice...”), o que aumentava um bom tanto o tempo dos passeios. 
___Como extra, achei o peitoral realmente bonito. Após comprá-lo, a Cuscoloko me enviou um e-mail falando sobre os diversos artistas brasileiros que eles contrataram para ilustrar os modelos de coleiras. Contrataram os artistas, remuneraram e os divulgaram. Linda atitude. Aposto que até o Di Vasca iria curtir.  


___Mais lindo ainda foi que, quando a coleira que compramos chegou, ela não ficou de um tamanho bom para a Cleópatra VII. Tá, isso não parece muito legal. Mandamos um e-mail para a empresa e eles prontamente enviaram outra de tamanho maior (que ficou ótima) e falaram para aguardar os dados para devolver o peitoral que havia ficado pequeno.
___Aí vem outra parte linda e doce. Os Correios não conseguiram fazer a parte deles direito e não foi possível reenviar a coleira. OK, essa parte foi feia e azeda. Só que as pessoas da Cuscoloko sugeriram, então, que nós doássemos o peitoral para algum cachorro que estivesse precisando (e ofereceram até ajuda, caso não encontrássemos algum). Encontramos o Bobby, doamos, e ficou tudo muito melhor para ele, até o final da vida. 


___Como eles haviam começado uma corrente para que ajudássemos outras pessoas, depois que a Cleópatra VII morreu, também doamos a coleira dela. Não deu certo para uma golden. Mesmo assim, a dona dela gostou do material extremamente resistente e disse que iria comprar uma maior. Nós, pessoalmente, ficamos felizes de ajudar com uma nova venda. 
___Continuamos a procurar e, atualmente, a ex-coleira da ex-Cleópatra VII está ajudando o Gohan. 


___Claro que as pessoas da Cuscoloko querem lucrar. Eles precisam pagar a conta da padaria. No entanto, é lindo ver que eles não colocam o dinheiro em primeiro lugar. Parecem, mesmo, colocar os seus clientes caninos. Fica este singelo textinho de apoio a atitude bacana. Caso a empresa não goste do texto, posso enviar jujubas.

31 de agosto de 2019

Desestruturando

___Em uma época em que aparecem tantas pessoas reclamando sobre a falta de possibilidade de diálogo com quem pensa diferente, eu tenho muito a agradecer ao meu pai. Homem inteligente, meu pai sempre foi aberto à discussão, a apresentar diversos pontos de vista, a argumentar, fazer indicações e afins. Não que ele – ou, principalmente, eu – seja perfeito e nunca tenha perdido a paciência em uma discussão, mas aprendi bastante sobre o quanto vale ouvir a opinião do outro e sobre mudar de ideia. Por isso mesmo, até hoje, faço questão de ouvir a opinião de quem pensa diferente de mim. Uma dessas pessoas é o Luciano Pires, palestrante e autor do podcast Café Brasil
___Mesmo não gostando nem um pouco das opiniões do Luciano, aprecio uma parte do seu trabalho. Pessoalmente, não gosto de podcasts ou canais do YouTube em que alguém começa a falar qualquer coisa sem o menor planejamento. No Café Brasil, o Luciano Pires escreve um roteiro, faz uma interessante seleção musical e tem uma equipe para deixar o podcast muito bem editado.
___Elogios à parte, Luciano Pires abertamente votou no presidente Jair Messias Bolsonaro na última eleição e, agora, tem sido um apoiador tão ferrenho que daria inveja até no infeliz que tatuou “Bolsomito” no braço. Aposto que, se o presidente disser “Pula!”, o Luciano vai perguntar “Até que altura?”. E, no dia seguinte, ainda gravará um podcast dizendo que o Bolsonaro cuida da saúde da população brasileira, querendo que ela se exercite. 


___Todo esse apoio pode ficar um tanto problemático ao ouvir um podcast que o Luciano Pires lançou recentemente: “Infraestrutura”. Ouça, é curtinho.

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___Eu poderia questionar o apoio a um investimento tão pesado em rodovias. Poderia dizer que é triste – e excludente – alguém ver como positivo a equipe do ministério da infraestrutura rezar um “Pai nosso”. Mas, não vim aqui para atacar o governo, vou me focar em refletir sobre o problema do apoio incondicional do Luciano Pires. 
___Ele começa o podcast dizendo: “Fechei com minha palestra O Meu Everest as comemorações dos 159 anos do Ministério da Infraestrutura em Brasília.”. Lembrando que, além de podcaster, Luciano é palestrante profissional. Em outras palavras, parece que o governo está ajudando a pagar as contas do senhor Pires. Aí, fica muito mais fácil achar o governo maravilhoso. E, óbvio, muito menos confiáveis os seus elogios públicos. 
___Claro, minha atenção à primeira frase do podcast pode ter sido desmedida. Talvez o Luciano Pires tenha se oferecido para, gratuitamente, palestrar para as pessoas do ministério. Eu duvido, mas pode ser. Então, todo apoio que ele dá ao governo hoje, é de graça. Exatamente como faz o meu pai. Ainda bem que meu pai aceita discutir para que eu tente persuadi-lo a mudar de opinião.  

31 de julho de 2019

Dentro de uma caixa

___Faz uns dois anos, fez sucesso no YouTube (nacional e internacional) umas pessoas se enviando pelo correio dentro de caixas – ou algo do tipo. É fácil de achar procurando pelo assunto, mas não recomendo, pois a maior parte desses vídeos vale pelo inusitado e pouco mais do que isso. Mesmo assim, o que foi feito só pela bizarrice, pode valer como introdução para um fato histórico interessante. 
___Henry Brown foi um escravo norte americano no século XIX. Tentando escapar da situação de cativo, em 1849, com a ajuda de alguns companheiros, ele se enviou pelo correio. E, por mais de um dia, ficou dentro de uma caixa, sendo transportado do estado escravista da Virgínia para o endereço de uma sociedade antiescravista na Pensilvânia. 
___Sua forma de pensar fora da caixa deu tão certo que, livre, ele passou a ser conhecido como Henry “Box” Brown, palestrar contra a escravidão e, em 1951, foi para a Inglaterra ganhar a vida como showman. O único problema é que a fama do episódio acabou dificultando sua replicação por outras pessoas escravizadas.

Fac-símile obtido no site UConn Today, garimpado pela estudiosa Martha J. Cutter.

___De qualquer modo, não deixa de ser digno reflexão saber que alguém arriscou sua vida, no século XIX, pela liberdade e, agora, no século XXI, outras pessoas se arriscam por 15 minutos de fama.


31 de outubro de 2018

Censurando pela educação

Fac-símile da capa da revista Cultura Política – Revista Mensal de Estudos Brasileiros, revista de propaganda do Estado Novo
___No 4º número da revista Cultura Política, publicada durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, fez-se uma reflexão sobre a “importância educativa do rádio”. Em pleno ano de 1941, auge da ditadura Vargas, o resultado não poderia ser diferente: mais censura do que em novela da Record. Cito alguns trechos.
___“Podem existir, ao lado das emissoras oficiais, as emprêsas fiscalizadas pelo govêrno. Mesmo proque as democracias modernas condicionam, como nos Estados Unidos, a liberdade de radiodifusão ao ‘interesse, conveniência e necessidade do público’*.” Entre os fatores ligados à “necessidade do público”, estava a doce necessidade de calar as críticas ao governo. 
E essa limitação, fazendo-se mais em "superfície" do que propriamente em "profundidade", apresenta-se como uma função legítima e, mais do que isso, indispensável à finalidade educativa do rádio. A intervenção estatal não se faz apenas em sentido negativo de censura e proibição. Faz-se, ao contrário, em um rumo positivo, estabelecendo um serviço especial de propaganda educativa. (CASTELO, Martins. “Rádio”. In: Cultura Política – Revista Mensal de Estudos Brasileiros. Número 4. Rio de Janeiro: DIP, 1941. p. 284.)
___Usar “o que deve ser ensinado às nossas ingênuas crianças” como desculpa para censurar, não é novidade agora, nem era na década de 1940. Hoje a censura ligada à Educação pode vir de projetos de leis pretensamente apolíticos, de ataques a exposições artísticas com execrações públicas, com ameaças de processos ou de deputadas eleitas querendo intimidar professores. O quadro é triste e o futuro parece negro. Mas, ficar quieto e não dar trabalho para essa corja de censuradores com certeza não é o caminho para resolver a questão.  

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P.S.: Vale sempre lembrar que a censura é nojenta em qualquer lado. Mesmo considerando o Guilherme Boulos o melhor candidato na disputa eleitoral deste ano, achei deplorável sua tentativa de censurar alguns vídeos do Canal Hipócritas (por mais abominável que eu considere o humor que esse canal pratica).  

8 de julho de 2018

A carta Calafrarte (Shudderwock) e suas referências – Hearthstone

___Meu jogo preferido de cartas online é o Hearthstone: Heroes of Warcraft. Além de me divertir jogando, ainda adoro o trabalho de pesquisa dos desenvolvedores e tradutores da Blizzard, empresa que faz o jogo. Um bom exemplo disso, foi a carta Calafrarte. 

Calafrarte

___Desde a primeira vez que vi a carta (xingando-a por ter perdido uma partida), eu me diverti com as referências. No fórum do Hearthstone, um usuário chamado GlennFlame perguntou “Qual é a dessa referência do Calafrarte? tava pesquisa o que ele fala ‘minha garra que agarra, minha bocarra que urra’, só agora fui entender, e no google aparece uma musica chamada santa m[anca] que tem esse trecho, e fala de um jaguadarte. foi inpiração? isso é alguma história folclorica?”. Respondi e, como foi divertido tirar a dúvida e a resposta pareceu interessante, resolvi postá-la aqui. 

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Shudderwock

___No original, em inglês, a carta Calafrarte se chama “Shudderwock”, referência ao monstro do poema “Jabberwocky”, presente no capítulo 1 do livro Alice através do espelho, de Lewis Carroll. Ao traduzir a carta e suas falas, a Blizzard tomou o cuidado de escolher uma das mais sonoras traduções, a do poeta Augusto de Campos. Jabberwocky foi traduzido por Augusto de Campos como Jaguadarte. E é exatamente ele que traduz “The jaws that bite, the claws that catch!” com “Garra que agarra, bocarra que urra!”. Mais ou menos a fala do Calafrarte, quando sua carta é colocada na mesa. 
___Quando o jogador ataca com o Calafrarte, o lacaio diz “Para trás, para diante!”. Outra referência ao poema, parte do segundo verso da quinta estrofe: “Um dois! Um, dois! Sua espada mavorta / Vai-vem, vem-vai, para trás, para diante!”. 
___A Blizzard ainda adota a ótima prática de referenciar os artistas que fazem os desenhos das cartas. Se o jogador for olhar a descrição da carta, além de uma pequena piadinha, lá estará escrito que a imagem da carta é de Matt Dixon. A piada, diga-se de passagem, é “Cuidado com o Calafrarte, meu filho. Não temos mais adagas vorpais.”. No poema de Carroll, o Jaguadarte é morto por uma espada vorpal e o homenino que o matou é recebido com a seguinte fala: “‘Pois então tu mataste o Jaguadarte! / Vem aos meus braços, homenino meu!’”. 
___Como citação extra ao Jabberwocky/Jaguadarte, o desenho do Shudderwock/Calafrarte é uma clara referência ao desenho feito, em 1871, por John Tenniel para a primeira edição de Alice através do espelho. Olhe o original aqui: 

Jabberwocky (1871), desenho de John Tenniel para a primeira edição de Alice através do espelho, de Lewis Carroll

___Compare com a ilustração de Matt Dixon para a carta: 

Shudderwock, de Matt Dixon

___Não é à toa que eu adoro Hearthstone.

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P.S.: Para quem gosta de jogos com citações desse tipo, além do Hearthstone, a Blizzard ainda tem o World of Warcraft, que é mais rico ainda.
P.P.S.: Caso você queira ler o poema original (e várias traduções), dê uma olhada aqui
P.P.P.S.: Se quiser ouvir a tradução do Augusto de Campos muito bem recitada, com “Garra que agarra, bocarra que urra!” com muitos errrrrrrrrrrrrres, assista o vídeo abaixo – e, recomendo, acompanhe, com os olhos, o texto.


JAGUADARTE (Lewis Carroll, com tradução de Augusto de Campos)

Era briluz. As lesmolisas touvas
Roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.

“Foge do Jaguadarte, o que não morre!
Garra que agarra, bocarra que urra!
Foge da ave Felfel, meu filho, e corre
Do frumioso Babassurra!”

Ele arrancou sua espada vorpal
E foi atrás do inimigo do Homundo.
Na árvore Tamtam ele afinal
Parou, um dia, sonilundo.

E enquanto estava em sussustada sesta,
Chegou o Jaguadarte, olho de fogo,
Sorrelfiflando através da floresta,
E borbulia um riso louco!

Um, dois! Um, dois! Sua espada mavorta
Vai-vem, vem-vai, para trás, para diante!
Cabeça fere, corta, e, fera morta,
Ei-lo que volta galunfante.

“Pois então tu mataste o Jaguadarte!
Vem aos meus braços, homenino meu!
Oh dia fremular! Bravooh! Bravarte!”
Ele se ria jubileu.

Era briluz. As lesmolisas touvas
Roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.

30 de abril de 2018

“O câncer não é morte”, mas divulgar tratamentos falsos por aí, pode ser

___Outro dia, em um grupo de WhatsApp de um dos meus trabalhos, recebi mais uma dessas correntes falsas. No caso, sobre a cura do câncer. Uma bobagem do tipo: se você parar de comer açúcar, o câncer morre naturalmente; tomar água quente com limão é “1000 vezes melhor do que a quimioterapia”.  

Cura fake do câncer

___Passar esse tipo de mensagem em um grupo de trabalho de dançarinos me pareceu tão condizente quanto dançar um forró durante uma sessão de radioterapia. Porém, como as pessoas estavam empolgadas dizendo “Perfeito!”, “É isso mesmo! Os medicos e a industria farmaceutica não quer que ninguem saiba disso!” e outras loucuras do tipo, resolvi perder dois minutos no Google e resolver a questão. 
___Rapidamente encontrei este texto do Boatos.org, li, dei uma olhada nos links e mandei para o grupo. A maior parte dos comentários elogiosos rapidamente desapareceram, mas, a pessoa que compartilhou o texto, um tempo depois me escreveu dizendo: “Você acha certo ficar destruindo as esperanças das pessoas? Eu só queria ajudar.”. 
___Minha vontade era responder: “E você acha certo dar falsas esperanças para as pessoas?”, mas tentei um didático “Imagine se alguém, por causa da sua mensagem, larga um tratamento difícil, mas com chance de cura, como a quimioterapia, para tomar água quente com limão. Essa pessoa pode acabar morrendo.”. 
___A resposta foi um doce “vtnc a quimioterapia mata mais do que salva”. Achei que a conversa já estava entrando em metástase e não falei mais nada. 
___Considero essas notícias falsas um câncer, mas não há nada mais que eu possa fazer. Melhor torcer para água quente com limão fazer bem. E, vale dizer, eu não acredito, mas torço para que faça muito bem. E continuo recomendando que as pessoas consultem um médico. 

26 de fevereiro de 2018

A existência do triângulo rosa

___Em 2011, escrevi um texto tirando sarro de Carlos Apolinário e Eduardo Cunha tentando aprovar* o “Dia do Orgulho Heterossexual”. Como extra, para ilustrar o texto, coloquei algumas imagens extraídas do blog lusitano Panteras Rosa. Uma delas, é a figura abaixo. 

Orgulho Hétero

___Anos depois, uma pessoa que assina como Maick Love, apareceu e comentou o seguinte sobre a imagem:

A primeira foto é de JUDEUS. Não de gays.Mentirosos. Aludem suas causas pseudo fragilizadas, tentando fazer charme com "coitadismos".
Não pode mais ter opinião diferente que é preconceito?!?!
Sou hetero convicto e tenho amigos homossexuais (não bixinhas politicamente corretas), dois dos maiores poetas brasileiros eram homossexuais(não bixinhas politicamente corretas), que eram Renato Russo e Cazuza.
A diferença está em ser referência pelo talento (como os citados anteriormente), ao contrário do sub produto global que tenta empurrar uma ditadura gay goela abaixo (a saber Jean Willis).
Enquanto Cristian Prior critica a classe operária, chamando de pobre e ralé. Aí é liberdade de expressão. Mas se eu critico o trabalho fútil dele (indiferente da sexualidade), sou taxado de homofóbico.
Não dá pra compreender...

___Obviamente, eu poderia rebater muitos dos pontos levantados pelo revoltado leitor. Porém, como a parte histórica do comentário dele já dá bastante pano para o triângulo a manga, vou me ater a esse ponto: “A primeira foto é de JUDEUS. Não de gays.Mentirosos. Aludem suas causas pseudo fragilizadas, tentando fazer charme com ‘coitadismos’.”

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___Caro Maick Love, eu sei que é mais confortável achar que todos os grupos dos quais você discorda estão errados e “tentando fazer charme com ‘coitadismos’”, mas não é assim que as coisas funcionam. Por isso mesmo, vale sempre a pena, quando você desconfiar que alguma informação é falsa, pesquisar antes de atacar ganindo: “Mentirosos”.
___Eu sei que, ao ouvir falar sobre as atrocidades nazistas, o foco costuma ser a perseguição aos judeus. Entretanto, não foram apenas eles a serem perseguidos pelos nazistas: negros, ciganos, deficientes físicos, “mulheres antissociais” e homossexuais são apenas alguns dos outros exemplos.
___No caso dos homossexuais, os nazistas utilizaram uma reformulação do parágrafo 175, inserido no código penal alemão no século XIX, para tirar seus direitos civis e encarcerá-los. Quando digo encarcerá-los, estou me referindo, também, a mandar esses homossexuais para campos de concentração. 

Prisioneiros em campo de concentração (usando um triângulo na roupa)

___Nos campos de concentração, os homossexuais eram diferenciados dos demais prisioneiros por um triângulo rosa costurado às roupas. Essa marcação teve efeitos tanto dentro dos campos (com outros prisioneiros que maltratavam os homossexuais), como fora deles, mesmo depois do fim da II Guerra Mundial. 

___Acima d[a] matrícula deve-se [costurar] o pequeno triângulo feito de tecido colorido. Um triângulo de poucos centímetros de lado, usado com uma ponta para baixo e costurado na camisa, na altura do coração. A cor depende do motivo da detenção. A matrícula 7952[, de Rudolf,] antes se referia a triângulos de cores diferentes: primeiro, o vermelho dos prisioneiros políticos (os dois poloneses), depois, o preto dos “antissociais, resistentes ao trabalho” e o verde dos “criminosos profissionais” (os dois últimos portadores da matrícula). Para Rudolf, a cor é rosa, escolhida para estigmatizar a homossexualidade. Um sistema de classificação bem simples, com uma particularidade para os presos judeus: para eles é uma estrela amarela, às vezes uma estrela de duas cores (um triângulo amarelo e um triângulo com a cor correspondente a um segundo motivo de deportação).** 

___A repercussão do sofrimento dos homossexuais foi muito menor que a dos judeus, seja pelo número de pessoas, seja pelo preconceito da sociedade. Entretanto, isso não significa que a perseguição a homossexuais não existiu. Ela só foi menos propagada. 
___Portanto, Maick Love, repetindo meu conselho anterior, antes de sair por aí chamando alguém de mentiroso, sempre vale a pena dar uma pesquisada antes. 

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P.S.: Para quem quiser se informar mais sobre a perseguição nazista aos homossexuais, recomendo o extremamente didático Marcados pelo triângulo rosa, de Ken Setterington. 

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* Cada um em sua espelunca legislativa.
** SCHWAB, Jean-luc & BRAZDA, Brazda. Triângulo rosa. São Paulo: Mescla, 2011. p. 86.