25 janeiro, 2011

Luta... de classes

___Toca a campainha e começa mais uma luta sensacional!
___O Empregado sabe que seu tempo acabou e, portanto, tenta dirigir-se até o local de bater o ponto. Prevendo o movimento do adversário, o Patrão demonstra todo o seu jogo de pernas, aparecendo bem à frente do Empregado, dizendo que precisa que ele faça só mais uma coisinha, que só vai lhe tomar cinco minutinhos.
___O Empregado estuda o adversário. Ele pode passar com um jab simples – “Desculpa, Senhor Patrão, meu horário já acabou.” –, mas um golpe agora  pode abrir a defesa para um contra-ataque – “Quem você acha que é para me desobedecer?” –, seguido de nocaute – “Pode sair daqui direto pro RH.”. Se o Empregado for derrubado, não há dúvida de que naquele ringue não será mais possível lutar. Estrategicamente, ele recua.
___Vendo o recuo do Empregado, o Patrão volta a se deslocar pelo ringue. Com sorte, ele conseguirá garantir o recuo de mais alguns empregados.


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___– Cara, você viu que puta massacre?
___– Do que você está falando?
___– Da última luta. Logo no começo, o Governo desferiu um direto de direita, aumentando o salário dos parlamentares bem acima da inflação.
___– Grande coisa. Eu soube que o Cidadão reagiu e também conseguiu um aumento no salário mínimo.
___– Tá louco? Você acha que dá para comparar aqueles soquinhos – aqueles 5,9% de aumento –, com aquele direto de direita – com aquela votação relâmpago, que deu um aumento de 61,83% para os parlamentares, de 133,96% nos vencimentos do presidente da República e de 148,63% nos do vice-presidente e dos ministros de Estado? O Cidadão ficou tonto pelo resto da luta.
___– Houve, depois, outro aumento ligado ao cidadão, não? Disseram que foi um belo cruzado.
___– Nem cruzado, nem cruzeiro. Você está mal informado. Foi um belo aumento em reais. Na parte sudeste do ringue, em São Paulo, o ônibus aumentou para três reais. E o Cidadão, quando foi reagir um pouco, recebeu um golpe baixo: entraram no ringue outros cidadãos, contratados para agirem como força de repressão do Governo. A luta foi, a partir de então, tão desigual que o Governo deve ter quase certeza que o Cidadão não vai sair da lona por muito tempo.


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___“Amantes do esporte, vocês não vão acreditar nisso: parece que o lutador Líder Religioso cuspiu o protetor bucal!
___“É isso mesmo, minha gente. Agora, sem o protetor atrapalhando, ele partiu para o ataque. Seu adversário, o pobre Fiel toma um gancho de oratória e começa a ouvir um fortíssimo sermão. Mesmo assim, parece que ele não se abala e vai partir para um contra-ataque.
___“O contra-ataque falha! Atentem para o belíssimo bloqueio do golpe, afirmando que aquilo é pecado. E, rapidamente, enchendo o Fiel com sequências – falando de culpa, prometendo melhoras futuras, jurando o auxílio divino –, o Líder Religioso encosta o adversário nas cordas.
___“Olhem só, o Fiel é que, agora, tira algo: ele jogou uma luva de lado! O que será que vai acontecer? O Líder Religioso ainda brada. Será que o Fiel vai virar esta luta?
___“Não, querida audiência, não... O Fiel tirou a luva apenas para pegar a carteira no bolso. Ele cede uma boa quantia para o adversário. E mais, parece que o pobrezinho não consegue mais decidir quais vão ser seus próprios movimentos. Sem dúvidas, vai perder por pontos. Muitos pontos.”


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___Para aqueles que só acompanham este blog para saber da minha vida, vai, romanceada, uma que aconteceu comigo:


___Ouve-se um irritante som de microfonia. Pouco depois, uma voz voltada para o grave, com uma leve empolgação, começa a falar forte.
___– Na tarde de hoje, uma luta histórica.
___Algumas luzes se acendem, deixando um lado do ringue iluminado.
___– Do lado esquerdo: com trinta anos de idade e mais de dez de profissão. Não pesando muita coisa, com algum conhecimento e quase nenhum material. Ele, que mesmo ganhando pouco, tem feito as contas, na ponta do lápis, com tudo batendo, para, neste ano, passar a morar junto com a namorada. Idolatrado pelos alunos, aplausos para... o Professor.
___O público vai ao delírio. Gritos, palmas, cânticos. Quando o barulho começa a amainar, o lado direito do ringue se ilumina e a voz grave do mestre de cerimônias recomeça.
___– E no canto direito: com séculos de tradição e de aceitação da sociedade. Com o peso gigantesco da Instituição e do material de trabalho. Ele que, com apenas um golpe, pode atrapalhar completamente os planos do professor de morar com a namorada. Temido e respeitado pelo corpo docente, aplausos para... o Chefe.
___Alguns gritos e palmas, mas nada tão intenso quanto o do lutador anterior. A apresentação da luta continua.
___– O que está para ser decidido hoje é mais importante do que o cinturão dos pesos pesados. Na histórica luta de hoje o Professor vai dizer quais horários lhe convém e o fortíssimo Chefe vai tentar impor suas vontades.
___“O Professor quer tempo para namorar, preparar aulas, pesquisar, terminar seu livro, montar coreografias de dança. Ele quer tempo livre para os seus sonhos. O Chefe  quer que o Professor, que faz sucesso com os alunos, assuma o máximo de aulas possíveis, pois isso fará bem para a sua escola, irá atrair mais alunos.
___“Com aulas demais e, portanto, sem tempo para preparar detalhadamente cada uma, o Professor sabe que o nível de seus cursos cairá. O Chefe sabe que o professor precisa do seu atual salário e tem grande poder para ameaçá-lo. Uma luta pesada a de hoje! Quem vencerá este histórico combate?”


___Lamento, queridos, mas eu não vou narrar a luta. Só digo que continuo empregado. Com o horário que eu queria.


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P.S.: Não gosto nada de boxe e lutas do tipo. Mesmo assim, adorei ler uma coletânea de textos do Jack London, editada pela Artes e Ofícios, chamada Por um bife e outras histórias de boxeadores. Fica a recomendação minha e do Milton.

5 comentários:

  1. Muito saborosas as parábolas.

    Do Jack London já li "De vagões e de vagabundos", com muitas histórias curtas e interessantíssimas sobre este tipo de luta - mas neste volume nada a ver com boxe.

    E que bom que conseguiu fazer teu horário. É imperativo, no Brasil, que os professores tenham menos horas em sala. Sem isso não há qualidade possível na educação. Quem não vive não tem o que ensinar.

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  2. Obrigado pelo elogio, André.

    Sobre o London, Tb adorei o Vagões e Vagabundos. Tenho, inclusive, um texto em que usei um trecho do livro: http://incautosdoontem.opsblog.org/2009/12/07/think-different/

    Por fim, tenho de dizer, concordo plenamente com seu último parágrafo. “É imperativo, no Brasil, que os professores tenham menos horas em sala. Sem isso não há qualidade possível na educação. Quem não vive não tem o que ensinar.”. Só acrescento que isso deveria vir das escolas, do governo, de salários dignos. O meu caso é q sou um maluco que prefere tirar do próprio prato para dar boas aulas, mas isso é errado. Nenhum professor deveria ter de fazer esse tipo de sacrifício.

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  3. Oi Ulysses! Mto bacana o seu post, parabéns por ganhar o round! Mas a luta continua... ;)

    Abs!

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  4. [...] ___Aproveitando a deixa, comentei: ___– É… E o ônibus ainda subiu agora para 3 reais e, quando as pessoas protestam, o prefeito permite que a polícia bata nelas. ___O trânsito andou. O motorista levou o ônibus até o próximo ponto. A porta abriu, alguns [...]

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  5. [...] alguns exemplos aqui de São Paulo, é fácil para um prefeito como o Gilberto Kassab permitir que a polícia disperse violentamente cidadãos que, ano passado, resolveram organizar manifestações c.... O mesmo para o governador Geraldo Alckmin e o tratamento criminoso dado aos ex-moradores do [...]

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