20 fevereiro, 2011

Necessidades dos outros

___As pessoas que acordam todo dia tendo um teto sobre a cabeça, que podem comer três refeições por dia e têm água e eletricidade à vontade, muitas vezes não conseguem imaginar como certas políticas públicas são importantes.
___Certa vez, em pleno curso de Licenciatura, dividindo a sala com diversos outros colegas que também estavam a fazer aquilo para poder trabalhar livremente em sala de aula, presenciei um caso bem ilustrativo. Em meio a uma aula de Política Educacional Brasileira, a professora começou a falar sobre merenda escolar. Depois de poucos minutos de explanação, um aluno, muito alto e muito loiro, sentado no fundo da sala, levantou a mão. A professora parou a explicação e cedeu-lhe a palavra.
___– Porra, professora – começou educadamente o rapaz –, achei que aqui nós iríamos discutir Educação. Merenda escolar é assunto pra gente da cozinha.
___O que me impressionou nem foi o comentário absurdo do futuro “educador”, mas a aquiescência de alguns dos demais estudantes que estavam em sala. Eles não conseguiam pensar nem um pouco nos outros? Não percebiam que se alimentar é importante para uma boa educação? Aquela gente não se tocava que eles tiveram comida no prato a vida inteira, mas que nacos enormes da população não teve e que, sem comer, realmente é muito difícil frequentar a sala de aula?
___Suas necessidades não são as necessidades dos outros. Você ter o que comer não significa que todo mundo tem. Distribuição de merenda foi uma das mais importantes políticas públicas já feitas para que os mais pobres pudessem estudar.


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___No Ensino Superior trabalha-se muito com obras clássicas. Os mais importantes estudiosos de cada área são lidos, destrinchados; também se lê muito do que foi falado desses clássicos. No Ensino Fundamental e Médio eu sempre tento dar um pouco dos grandes historiadores para os meus alunos. Mesmo assim, a principal leitura de apoio para os estudantes costuma ser o livro didático.
___Quando em uma escola particular caríssima, o professor consegue imaginar as possibilidades financeiras de seus alunos, se eles podem comprar tal livro ou custear determinado passeio. Em uma escola pública, isso é sempre uma dúvida. Por isso mesmo, para ajudar no estudo dos alunos, a entrega de livros didáticos pelo governo é sempre bem vinda.
___O FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), conta exatamente com um programa que distribui livros para diversas escolas. Por conta dele, depois de três anos trabalhando na mesma escola estadual, pela primeira vez os meus alunos do primeiro colegial receberam livros didáticos da minha matéria: História: das cavernas ao terceiro milênio, de Myriam Becho Mota e Patrícia Ramos Braick (São Paulo: Editora Moderna, 2005). Não é o livro que eu escolheria, não é a melhor opção entre os livros didáticos disponíveis, mas, já que gastaram dinheiro público comprando o livro, dá para utilizar. De qualquer modo, vai ser um bom auxílio aos estudantes.


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___Imaginem estudantes de diversas faixas de renda em uma escola pública. A merenda é importantíssima para que alguns deles consigam acompanhar bem o andamento das aulas. O governo acerta em fornecer alimentação para esses alunos.
___O professor recebe uma caixa de comida para distribuir em sala. Quando o mestre abre a caixa, na frente da sala, descobre que existe alimento apenas para dois quintos dos alunos. Sem a habilidade de um messias para multiplicar o que existe dentro do recipiente, o pobre professor se vê em uma situação bizarramente sem graça.


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___Imaginem, agora, alunos de diversas faixas de renda em uma escola pública. Livros didáticos são importantíssimos para o aprendizado deles, mas nem todos podem comprar. O governo federal acerta em fornecer livros para os estudantes.
___O professor recebe uma caixa de livros para distribuir em sala. Infelizmente, ao contar os livros, o mestre descobre que o número é bastante insuficiente para o número de estudantes. Sem a habilidade de um Gutenberg para conseguir multiplicar o que existe dentro do recipiente, o pobre professor se vê em uma situação bizarramente sem graça.
___O que fazer? Não distribuir e prejudicar a todos? Escolher apenas alguns dos alunos? Descobrir (e escancarar para os outros) quais os alunos mais pobres e fornecer os livros apenas para esses? Colocar tudo na biblioteca que já conta com pouco espaço e dificulta a utilização do livro em casa?
___Seria tão bom que o governo trabalhasse com mais atenção (e competência) para não causar transtornos até quando tenta ajudar. Mas, tentar fazer direito é muito difícil e, talvez, essa seja uma necessidade que o governo não tem.


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P.S.: Eu me sinto super mal em aproveitar este espaço para passar um recado meio que particular, que tem pouco a ver com a maior parte dos leitores. No entanto, como sei que alguns ex-alunos da escola em que eu trabalho leem o Incautos, aproveito para pedir: caso algum deles tenha um exemplar antigo do livro didático adotado antes que eu virasse professor deles (História: das cavernas ao terceiro milênio, de Myriam Becho Mota e Patrícia Ramos Braick), mande para a escola. Claro que não gosto de vir aqui passar vergonha mendigando livros para os meus ex-alunos. Mas, a questão aqui não sou eu, não são as minhas necessidades, mas a necessidade dos meus novos alunos.
P.P.S.: Acho bom ressaltar para não deixar ninguém com dúvida. Não estou pedindo para os leitores em geral doarem nada para a escola que eu trabalho. Só estou pedindo a entrega de livros velhos para quem foi meu aluno, pois eles compraram esses livros antes que eu começasse a trabalhar na escola.


3 comentários:

  1. Sei bem do q vc está falando pois pertencemos a mesma classe. Somos nós, os poucos profissionais (senão os únicos) q trabalham sem os instrumentos necessários e ainda assim trabalhamos!
    Sorte na sua petição.

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  2. Ótimo texto... bom pretexto! rs.

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  3. [...] Adirt. Buffer___Em 2011, por conta de uma distribuição insuficiente de livros didáticos, tive de escrever um texto mendigando livros para os meus ex-alunos. ___Em 2012… Deixo a questão por conta de um tweet dos [...]

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