09 janeiro, 2013

O problema não é a vítima

___A semana começou com uma notícia de policiais agredindo a população. O caso ganhou repercussão por conta deste vídeo.


___A atitude dos policiais foi escrota e exagerada, o próprio retrato de um grupo mal treinado, reacionário e acostumado à impunidade.* No entanto, falar isso é chover no alagado. Qualquer pessoa que consiga dizer algo além de “Senhor. Sim, senhor!” conseguiria produzir a mesma reflexão. Meu objetivo é apontar outro elemento: o ataque às vítimas.

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___Em geral, os skatistas fazem parte de um grupo marginalizado. Sendo um esporte praticado muitas vezes por membros das camadas mais pobres da população, a associação – feita tanto por policiais quanto por cidadãos em geral – “skatistas = marginais” não é incomum. Como resultado, eles acabam vistos como párias.

___Quando um incidente como o desse abuso policial acontece, a rapidez para se esquecer o problema e atacar os marginalizados é impressionante. É possível ver isso na área de comentários de quase qualquer notícia. Também é possível perceber isso nas próprias notícias. Só para mostrar um exemplo, veja como foi dada a notícia no SBT.**

___Primeiro, assistam o vídeo da reportagem.

___A reportagem começa falando de “conflito entre skatistas e guardas civis em São Paulo” (2” a 4”). Entretanto, citando o grande Idelber Avelar, “se você vir um garoto de 15 anos sendo espancado por cinco brutamontes, você dificilmente usará a palavra ‘conflito’ para descrever o que acontece.”. Digam-me, caros leitores, é possível utilizar a palavra “conflito” para descrever um grupo de jovens sendo intimidados e agredidos por brutamontes armados? Armados com cassetetes, com armas de efeito moral, com armas de fogo e, vale lembrar, armados com todo o poder estatal por trás***.

___É de uma desonestidade monstruosa alcunhar aquela situação como “conflito”. Algo desse tipo só se torna aceitável por se tratar de pessoas rejeitadas socialmente.

___As coisas pioram. Na continuação, a apresentadora diz que “As imagens mostram um guarda a paisana agredindo um jovem.” (8” a 13”). Um? Um guarda? Um jovem? Eu vi um guarda a paisana sendo mais agressivo, mas vi vários guardas agredindo várias pessoas que apenas os questionavam ou acompanhavam os acontecimentos. Eu vi agressão e abuso policial.

___O primeiro parágrafo do texto que legenda o vídeo da reportagem diz o seguinte:



“O motivo do conflito foi a Praça Roosevelt, em São Paulo, reformada há poucos meses. Conforme foi mostrado por um vídeo publicado por um dos skatistas envolvidos, um homem da Guarda Civil Metropolitana à paisana agrediu um skatista que andava na praça. Segundo o próprio autor do vídeo, os guardas, que estavam no local, pediram para que os jovens não andassem pelos bancos da praça.”


___Tirando alguns dos pontos que eu já analisei, o texto acrescenta que “os guardas, que estavam no local, pediram para que os jovens não andassem pelos bancos da praça.”. Além de deixar claro que os policiais foram educados (já que eles “pediram”, não “mandaram”), o texto nos leva a entender que os skatistas não quiseram parar de depredar o patrimônio público, de andar “pelos bancos da praça”. Em outras palavras, o desrespeito dos skatistas é que causou o “conflito”. E aí está: a culpa pelo problema foi atribuída às vítimas.

___Os skatistas devem utilizar corrimãos das escadas e bancos da praça como obstáculos? Mesmo sabendo que existe um parque próprio para a prática de skate a menos de 30 minutos de ônibus da Praça Roosevelt?**** Os skatistas devem depredar o patrimônio público? É fácil responder “não” para qualquer uma dessas questões. Diga-se de passagem, são questões importantes, que devem ser feitas, discutidas, pensadas. O problema é que elas não cabem em uma reportagem sobre agressão. São pontos que podem e devem ser levantados, mas que não servem de maneira alguma para justificar a agressão da polícia. É literalmente a falácia do “post hoc ergo propter hoc”. Abaixo, uma explicação do Clarion:

___O texto que legenda a reportagem ainda diz que “como é mostrado no vídeo, a GCM usou agressão verbal e spray de pimenta para evitar o tumulto entro os skatistas.” (sic).

___É necessário um quadro gravíssimo de DDDA***** para conseguir enxergar o “tumulto” que a Guarda Civil Metropolitana tentou “evitar”. Assistindo ao vídeo, pareceu que os guardas simplesmente perderam a paciência e saíram xingando e temperando com spray de pimenta quem estivesse por perto. Policiais que, vale lembrar, tem como suas diretivas básicas proteger os inocentes.

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___Caso tenha ficado difícil perceber o quão sujo é atribuir a culpa à vítima, vou utilizar a ficção – com um exemplo extremamente exagerado e bizarro para deixar tudo bem claro.



___Ao entregar as provas para os alunos, a professora Maria Y. ralha com o aluno Dexter, dizendo que ele tem de prestar mais atenção, parar de chegar atrasado, estudar mais. No meio da bronca, Dexter saca uma pistola e dá 5 tiros na professora.

___Obviamente, o colégio fica em polvorosa. Alunos assustados, reunião de pais, policiais e jornalistas na porta. Uma confusão.

___Depois de muito desespero a mãe da aluna Débora consegue encontrar a filha. Tremendo, ela abraça a menina e pergunta o que aconteceu. Débora responde:

___– Aquela grossa da professora de Matemática estava gritando com um aluno e ele reagiu. Se ela não fosse tão encrenqueira, pode ter certeza que o Dexter não teria feito o que fez.


___Percebeu? A mãe perguntou o que havia acontecido e como a aluna Débora odiava a professora de Matemática, o foco da explicação foi as atitudes “erradas” da professora. Exatamente como as pessoas que veem os skatistas como marginais descrevendo a agressão policial ocorrida na Praça Roosevelt.

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___Longe de mim dizer o que pode ou não ser falado. Como eu disse, as questões ligadas às atitudes, direitos e responsabilidades dos skatistas devem ser discutidas. No entanto, essas reflexões não podem maquilar um caso de abuso de autoridade, essas discussões não podem servir como justificativa para uma agressão policial.

___A vítima não é a culpada. E se você acha que o problema é a vítima, lamento dizer, mas o problema é você.

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* Reminiscência do Regime Militar.

** Não falo do “trabalho” da Veja porque é quase covardia desconstruir o que é produzido nesse pasquim; não comentarei a notícia vinculada na Globo, pois já humilhei o canal em outra notícia policial. Mesmo assim, a análise feita sobre notícia do SBT também encaixaria facilmente nas notícias da Veja e da Globo.

*** Armados com o poder estatal, os policiais têm o monopólio da violência. Ninguém mais pode cometê-la. Isso, mais do que qualquer outra arma, os protege. Veja, por exemplo, o caso da jornalista Mariana Albanese que, ao reagir a uma agressão policial, foi autuada por lesão corporal e desacato.

**** O Parque Zilda Natel.

***** Distúrbio Direitista de Déficit de Atenção.

2 comentários:

  1. "Caso tenha ficado difícil perceber o quão sujo é atribuir a culpa à vítima, vou utilizar a ficção"
    Infelizmente esse tipo de coisa não permanece apenas na ficção, dê um olhada neste outro exemplo que é até mais absurdo do que a sua ficção, onde novamente a culpa é atribuída a vítima.(http://www.paulopes.com.br/2013/01/padre-acusa-mulheres-de-serem-culpadas-por-estupros.html#.UPGjSh19JYV)

    Na reportagem do SBT a repórter chega a falar que os responsáveis já foram identificados e afastados das ruas, mas o curioso foi quando encontrei esse outro vídeo na internet. (http://www.youtube.com/watch?v=WGUQlHbmDjw) Observe com atenção o vídeo em 35'', 45'' e 1'46''

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  2. [...] postagem em que eu falei sobre policiais agredindo os skatistas, o leitor Lux deixou um comentário linkando outro vídeo. Trata-se de uma reportagem, de outubro [...]

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