24 março, 2016

Bombas atômicas: culpa dos japoneses

“Quem controla o passado, controla o futuro; 
quem controla o presente, controla o passado.” 
(George Orwell)

___Sabem aquela máxima de que a História é escrita pelos vencedores? Ela é muito correta, mas, às vezes, fica um pouco descarado que os vencedores querem se pintar de heróis. Um ótimo exemplo disso, é o documentário Hiroshima, da BBC. 

Hiroshima, de Paul Wilmshurst

___Imagens originais ótimas, reconstituições de época aceitáveis; entrevistas interessantes e explicações didáticas. Tudo para ser um documentário, no mínimo, recomendável para estudantes. Se não fosse a tentativa vergonhosa do vencedor tentando reescrever o passado. 
___Uma boa parte do documentário tenta justificar, demonstrar que foi correta a atitude norte-americana de lançar as bombas atômicas. Incansavelmente, o filme repete que foi necessário atacar o Japão daquela forma ou os japoneses não desistiriam e, portanto, acabaria acontecendo um massacre.* 
___Por volta dos 10 minutos, o narrador afirma que “Toda população participaria da batalha contra os invasores. Até estudantes mulheres eram treinadas para atacar soldados americanos com lanças de bambu afiadas.” e repete o mantra “Um massacre parecia inevitável.”. 

“Toda população participaria da batalha contra os invasores. Até estudantes mulheres eram treinadas para atacar soldados americanos com lanças de bambu afiadas.”

___Será que Paul Wilmshurst, o diretor, não tem amigos para falar sobre a bizarrice que ele estava fazendo? Será que ninguém nem ao menos tirou um sarrinho dizendo “Oh, meu Deus! Menininhas com lanças de bambu! Vamos jogar bombas atômicas nesse país!”. 
___No fim do documentário tenta-se, mais ainda, eximir os vencedores da culpa: “A doença da radiação tornou-se o legado mais perturbador da bomba. Cientistas americanos sempre souberam que a bomba produziria radiação, mas a escala dos efeitos secundários veio como uma surpresa chocante.” (1º24’).
___Pior ainda, o penúltimo entrevistado do documentário, o tenente naval George Elsey, fala, com todas as letras, “A decisão final que resultou em duas bombas, Hiroshima e Nagasaki, não foi tomada em Potsdam. Não foi tomada por Truman. Foi tomada pelos militares japoneses quando rejeitaram a oportunidade de rendição das suas forças armadas e salvar ainda mais vidas.” (1º26’10”). Viram, leitores? Tudo culpa dos japoneses! Eles devem mesmo ter merecido aquelas bombas atômicas... 
___Seria bem mais digno fazer o documentário e relatar o que aconteceu, sem justificar. Claro, muito mais válido seria deixar claro o crime contra a humanidade que foi jogar duas bombas atômicas contra um país, mas se a escolha do diretor é defender os vencedores, então só relate o processo histórico, o fim da guerra e ponto. Não era necessário ficar cheio de malabarismos para demonstrar que lançar as bombas era a solução mais “humanitária”. 

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P.S.: Depois que eu já havia visto o documentário da BBC e estava pensando em escrever este texto, ouvi o especial do Scicast sobre Hiroshima e Nagasaki. Apesar de, muitas vezes, o pessoal Scicast gravar ótimos podcasts, dessa vez os participantes escorregaram: viram o documentário da BBC e, de maneira irrefletida, compraram completamente o discurso de que era necessário atacar o Japão com bombas atômicas. Praticamente uma demonstração de como que os vencedores conseguem escrever a História. 

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* Como se lançar duas bombas atômicas em cidades densamente povoadas já não fosse um massacre.


13 março, 2016

Imagina...

Enriqueta, por Liniers.

___Ler um livro e sentir sede enquanto a personagem principal peregrina no deserto. Jogar RPG e ficar assustado em um corredor escuro. Assistir uma aula de História praticamente sentindo o fedor cheiro da época. Montar uma coreografia de dança parado, apenas ouvindo a música repetidas vezes. 
___A imaginação é, para mim, uma dádiva maravilhosa. Não é à toa que quando alguém me agradece por algo, ao invés de responder com o clássico “De nada.”, prefiro dizer:
___– Imagina...
___Parece bem mais doce. Como se eu estivesse desejando algo de bom para a pessoa. E, para falar a verdade, realmente estou. 
___Por isso mesmo, não pude deixar de sorrir (e ter vontade de escrever esta pequena crônica) quando, em meio à leitura do Quincas Borba, de Machado de Assis, encontrei um meigo “No dia seguinte, Sofia acordou cedo, ao som dos trilos da passarada de casa, que parecia dar-lhe um recado de alguém. Deixou-se estar na cama, e fechou os olhos para ver melhor.”.

Quincas Borba, de Machado de Assis (folha de rosto da primeira edição)
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