04 outubro, 2007

Versão muito curta de Borges

_____O Idelber Avelar tem organizado um clube de leituras sobre Jorge Luis Borges entre seus alunos na Universidade de Tulane, nos Estados Unidos, e internautas interessados no tema. Em setembro, o texto sobre o qual as reflexões giraram em torno (com minha participação, inclusive) foi “A Loteria em Babilônia”, parte do livro Ficções. Hoje o texto escolhido é “Emma Zunz”, do livro El Aleph.

_____No seu texto sobre o conto, publicado hoje, o Idelber mencionou um curta-metragem que trabalha com o conto, sobre o qual ele gostaria de ouvir algumas opiniões. Vi o curta e vou acabar baseando minha reflexão sobre o conto exatamente nele. Se você ainda não leu o conto “Emma Zunz”, primeiro veja o curta e, depois, leia o conto (versão original ou em português) e, só então, continue a ler meu texto. Se já tiver lido o conto, pode ver o curta logo abaixo e espero que meu ensaiozinho agrade.

_____Caso você tenha seguido minha sugestão, creio que não vai ser difícil de concordar que o curta precisa do conto, mas que o contrário não é verdadeiro.* O texto de Borges, mostra a personagem principal planejando e executando o assassinato de Aaron Loewenthal. Mesmo não ficando claro para o leitor até a chagada do fim do conto, todo o plano de Emma Zunz culminava em um assassinato sem castigo para a assassina. “‘Vinguei meu pai e não poderão me castigar...’”.

_____O curta-metragem foi dirigido e filmado por Maxim Ford, em 1977, quando o diretor, na época com 26 anos, ainda estudava cinema. O filme é uma clara experiência do imberbe diretor, brincando o tempo todo com imagens coloridas e sem cor, closes, etc.. Só que, deslumbrado com o que poderia fazer com uma câmera e a edição, Ford esqueceu-se da história. As atitudes de Emma, no conto, em alguns momentos, podem parecer despropositadas, mas ficam mais do que claras com a conclusão da narrativa. No curta, entretanto, sem o auxílio do conto fica impossível de se entender, por exemplo, o propósito da relação sexual de Emma com o marinheiro; não parece existir um motivo explicado para que Emma não seja punida pelo assassínio.

_____Ford prefere concentrar-se em pormenores que até fogem da narrativa de Borges e não bastam para explicar a genialidade do plano de Emma. Como, por exemplo, o interesse sexual de Loewenthal por algumas trabalhadoras ou o descuido de Emma, desgrenhada após o sexo, roupas amassadas e cabelo solto ao ir encontrar-se com sua vítima, exatamente o contrário do que queria Borges ao relatar uma personagem cuidadosa que “pôde sair [da alcova em que transou] sem que a notassem; na esquina subiu a um Lacroze, que ia ao oeste. Escolheu, conforme seu plano, o assento mais dianteiro, para que não vissem sua cara.”.

_____Enfim, o conto de Borges é muito bem montado, os principais detalhes da história fazem do plano de Emma um crime perfeito. O curta-metragem, por sua vez, pode até ser prazeroso para quem já conheceu o conto, mas parece, para quem nunca o leu, tão despropositado e mal explicado quanto um filme fraco do festival do minuto.


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* Antes que alguém fale isso, já deixei claro em outra postagem que falar que “o livro sempre é melhor que o filme” é bobagem de quem ou lê pouco, ou vê poucos filmes.

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