23 dezembro, 2007

Quando o diretor estraga o próprio filme

_____Qualquer um sabe que os filmes de ficção, normalmente, não retratam a realidade. Porém, uma das melhores coisas que ocorre quando se assiste a um filme é ter a ilusão de que aquilo está acontecendo, é esquecer por duas horas que existe qualquer coisa no mundo além daquela história que está sendo contada. Esse é exatamente o motivo para o cinema ser tão especial: as cadeiras são confortáveis e só apontam para a tela, o som é alto, a tela enorme, as luzes apagadas e muitos outros elementos que fazem de tudo para que a experiência de assistir àquela história seja ótima, para que você viaje com o filme.

_____O problema é que quebrar o encanto do filme não é tão difícil assim. Por exemplo, algum imbecil pode deixar o celular ligado no meio da sessão e o aparelho tocar bem no meio daquela cena tensa em que não havia trilha sonora, nem mesmo fala das personagens. Pronto, aquele barulho fez com que você se desconcentrasse do filme e você não pode experimentar a gostosa sensação de tomar um susto por causa do assassino que apareceu ou suspirar pelo sorriso lindo que a amada do herói deu a ele.

_____Só que imbecis que deixam o celular ligado e coisas do tipo sempre aparecem. Existem tantos idiotas no mundo que, se eles voassem, o céu viveria nublado. O cinema e o filme pouco podem fazer para impedir que essa gente mal educada venha a estragar a viajem alheia. No entanto, os filmes têm a obrigação de não estragarem eles próprios a ilusão de quem está assistindo.

_____Imagine você, feliz e contente, assistindo no cinema o filme O Gladiador, de Ridley Scott. Após algum tempo, você já se identificou com algumas personagens, já entorta a cara para o imperador Commodus (o vilão do filme), já torce entusiasmado com as batalhas, já acha perfeitamente normal todas aquelas imagens sobre o Império Romano.

_____Então, começa uma batalha no Coliseu. Alguns gladiadores, a pé, enfrentam outros lutadores que estão dentro de bigas. A cena é emocionante, você se empolga. De repente, você arregala bem os olhos para ver uma mulher ser cortada em duas e fica com a estranha sensação de que viu algo estranho. Dentro da biga, além do lutador com uma armadura da Antigüidade, você acha que viu um cara de preto, usando uma bota com solado de borracha.

Técnico na biga

Olhe para a esquerda com atenção.

_____Achando que foi apenas uma ilusão de ótica, você continua assistindo ao filme. Uma biga, então, tomba e, claramente, você percebe um cilindro de gás. Logo vem à sua cabeça que não são os pares de cavalos que puxavam as bigas do filme, se aquele cara de preto que você viu dirige a biga, se tem um cara daquele em cada biga, como devem ser interessantes os mecanismos daquelas bigas (provavelmente movidas a gás), como será que elas funcionam?... Pronto. Acabou a ilusão. Você não está mais completamente entretido com o filme. Você deixou de pensar só nas personagens, na estória e a mágica foi quebrada. E culpa é de quem? Do diretor.

Biga movida à gás

O tanque de gás tem uma tonalidade azulada. É mais fácil de ver do que o erro anterior.

_____Ao produzir um filme de ficção, o diretor tem de fazer de tudo para que o filme fique redondinho. Para que o público se empolgue e não pense em outra coisa que não a história daquelas personagens. Se erros como esses acontecem e o público se desconcentra, a magia acaba.

*****

_____Semana passada fui ao cinema assistir a animação Bee Movie – A História de uma Abelha, de Steve Hickner e Simon J. Smith. Meu objetivo principal era rever Jerry Seinfeld, de quem sou fã desde que o conheci em seu seriado. Porém, nem a voz esganiçada de Seinfeld desesperado e sua falta de talento para interpretar algo que não seja ele mesmo foram capazes de fazer alguma magia existir com aquele filme.

_____As imagens são legais, a trilha sonora gostosinha e as piadas divertidas. Só que, assim como é bem difícil você entrar em um filme sobre a Roma Antiga ao ver uma biga com um tanque de gás para se mover, dificulta bastante aproveitar uma história sobre abelhas que comete as maiores barbaridades ao falar sobre polinização. E eu não estou sendo chato e citando pequenos errinhos, que passam bem rapidamente pela tela, como fiz ao usar O Gladiador como exemplo introdutório. A polinização das plantas é um dos temas principais do filme e bobagens como “sem abelhas não existe polinização nenhuma” são repetidas durante mais da metade do filme, o que incomoda e desconcentra qualquer platéia que já passou pelas aulas de ciências da terceira série.

_____Sinceramente, eu acho que eu iria me divertir bem mais se eu tivesse ficado só com os trailers do filme:



P.S.: Procurando sobre erros em filmes, conheci o site Falha Nossa.com que reúne um monte de momentos em que algo sai imperfeito durante as filmagens. Apesar do site não ser tão criterioso assim, é bem interessante para quem gosta do tema.

P.P.S.: Para quem acha que as fotos que eu coloquei com os erros dO Gladiador são forjadas, pode assistir o trecho do filme com calma neste vídeo do You Tube. Os erros aparecem aos 2’38” (para o técnico de preto com calçado contemporâneo) e aos 2’50” (para o cilindro de gás na biga caída).


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