06 novembro, 2008

Quem tem medo da análise literária não carrancuda?

_____Tenho acompanhado, com muito interesse, a divertida 2ª edição da Copa de Literatura Brasileira. Para quem não sabe, o objetivo da Copa é escolher, por enfrentamento direto entre as obras, qual o melhor romance brasileiro lançado no ano passado. Em um tipo de mata-mata, jurados previamente escolhidos “apitam uma partida” entre duas obras e decidem qual passará para a próxima fase do torneio.
_____Na última partida – em que Alex Castro foi o juiz da disputa entre O filho eterno, de Cristovão Tezza, e Rakushisha, de Adriana Lisboa –, fiquei impressionado com o tom exaltado dos comentários que alguns leitores fizeram sobre o “jogo”. Como achei a disputa muito bem apitada, resolvi escrever este pequeno texto para apontar alguns elementos importantes em uma boa análise. Meu objetivo não é, nem de longe, defender o Alex (que é bem grandinho e não precisa de ninguém para defendê-lo), mas, sim, mostrar para os comentaristas agressivos o que é uma boa análise para que eles não dêem mais escândalo sem razão. Meu objetivo não é ajudar o resenhista, mas, sim, ajudar os leitores.

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_____Para que este texto faça sentido, leiam, antes de continuar a leitura, o texto do Alex.


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_____A maior parte dos comentaristas agressivos simplesmente leu o que quis, não o que o Alex escreveu. Por exemplo, Dina Zagreb disse: “é um equívoco esperar que um personagem cresça ou conclua alguma coisa, como queria Alex Castro, para quem a literatura em que ‘nada acontece’ precisa de ‘poderosas viagens internas que lhes causam toda sorte de revelações até que, ao final, literalmente não são mais as mesmas’. Que medo!”.
_____Apesar de Dina ter usado parte de uma frase escrita pelo Alex, ela acabou esquartejando a frase verdadeira e usando-o de maneira errada, maliciosa. O que o Alex realmente disse foi que, em geral, nos romances em que nada acontece, há um caminho de aprendizado e mudança. Ele não disse, em momento algum, que isso é uma necessidade na “literatura em que nada acontece”; ele citou um bom exemplo de “literatura em que nada acontece”, o Água viva, da Clarice Lispector, mas não disse, em momento algum, que esse é o Único e Verdadeiro caminho para essa literatura.
_____Outro ataque desmedido foi de um comentarista que colocou no espaço destinado ao seu nome um singelo “Prefiro Não Dizer”. O anônimo comentou que acha “Triste [um] país onde os melhores leitores lêem O Filho Eterno como um livro sobre Síndrome de Down.”. Minha vontade é dizer, simplesmente, “Triste um país que tem comentaristas que reclamam de como um livro foi lido sem ler direito a análise feita.”. Mas, como me propus a refletir sobre os comentários, vou ser mais educado do que isso.
_____Literalmente, as palavras do Alex foram: “A princípio, confesso, O filho eterno, de Cristovão Tezza, não me apeteceu. Não conheço ninguém com síndrome de Down e o assunto não me interessa.” (grifos meus). Ele não falou que o livro é, meramente, sobre Síndrome de Down, disse, na verdade, que achou que era antes de começar a ler a obra. Diga-se de passagem, o Alex, inclusive, acabou por separar alguns dos principais temas presentes no livro (algo bem mais importante em uma crítica do que um mero resumo): “[O Filho Eterno] É daqueles livros gigantescos e gigantescos que, tomando qualquer tema como mote, seja a caça a uma baleia branca ou a destruição de um arraial no interior da Bahia, rapidamente alçam vôo e abarcam o bem, o mal, a condição humana, a inteligência, a autoria, a paternidade, a masculinidade e tudo o mais.”. Caso o comentarista que preferiu não se identificar tivesse lido mais do que, apenas, o primeiro parágrafo, talvez o comentário feito fosse um pouco mais sensato.
_____Por fim, de todos os ataques pesados, o que merece maior atenção é o do Pedro, que acusou o Alex e outros juízes da Copa (que não entrarão nestas minhas reflexões) de estarem muito preocupados consigo mesmos. Apesar de ter me feito dar risada dizendo que esse “estar preocupado consigo mesmo” ao comentar livros é como se “a MariMoon partisse para a crítica literária.”, o Pedro, na verdade, acabou enxergando os trechos pessoais de uma maneira muito preconceituosa, o que, no fim das contas, prejudicou sua análise.
_____Relatar acontecimentos pessoais, principalmente se estiverem ligados às impressões que o resenhista teve ao ler a obra, não desqualificam, a priori, a resenha. Humanizar uma crítica não é necessariamente ruim. Se as pessoas não encararem com preconceitos, casos pessoais podem, sim, enriquecer uma crítica, pois podem tornar as idéias expressas pelo autor mais claras, podem tornar o texto mais palatável, mais divertido, mais fortemente argumentado. Ou alguém acha que boas são as resenhas regadas de um academicismo sério, carrancudo e semi-ilegível? Se alguém aqui acha, creio que a Copa de Literatura Brasileira não é bem o seu lugar.

9 comentários:

  1. Isso não é nada perto do que aconteceu na Copa passada. E não vai mudar também na próxima. É só uma pequena demonstração do que as pessoas são capazes de fazer com um monitor na frente. Elas lêem o que querem porque é mais conveniente para fazer comentários agressivos. Porque essa é a intenção: comentar com agressividade, julgar por uma frase, sempre colocando tudo fora de contexto. Quase ninguém vai comentar lá e "perder tempo" com uma opinião sobre o livro, por exemplo. Opiniões sobre um livro já não valem nada. O que as pessoas querem é testar inteligência e paciência dos outros para "provarem" que são melhores. Como se na internet isso fosse possível e/ou desse algum crédito.

    Muito bom o post. Pena que pouca gente pensa como você.

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  2. Acompanhei a polêmica, e estou de total acordo com você. como tem recalcado nesse mundo!

    Abraço!

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  3. Normalíssimo. Pessoas lêem o que querem ler e têm imensa dificuldade para entender lógica.

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  4. Olá! Um bela colocação. Uma boa análise é algo meio surreal à grande maioria das pessoas, uma pena! Parabéns pelo seu ponto de vista. Beijo.

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  5. Leitor antigo do LLL, primeira vez por aqui.

    Fato: lida a resenha feita pelo Alex, sabemos muito mais sobre o livro de Adriana Lisboa do que sobre o livro do Tezza.

    O Alex poderia ter sido mais generoso com os leitores da resenha, nesse aspecto. Sendo tão 'econômico' em detalhes do livro do Tezza, só resta ao leitor da resenha acreditar ou não no Alex, quando ele diz que o livro é daqueles que "rapidamente alçam vôo e abarcam o bem, o mal, a condição humana, a inteligência, a autoria, a paternidade, a masculinidade e tudo o mais.”" e que, portanto, merecem ser lidos e vencer copas de literatura.

    Independentemente disso, os textos do Alex são sempre uma boa leitura.

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  6. A Copa de Literatura brasileira, no sentido lúdico proposto, não comporta qualquer ânsia professoral ou severidade metodológica. É um jogo inteligente (e leve) de impressões justificadas. Li a resenha do Alex e não me surpreendi com sua honestidade. O brasileiro lê pouco e mal. E é campeão em desleituras. Gostaria de relembrar o que talvez muitos tenham esquecido, se é que aprenderam: O leitor de resenha quer ser informado; o leitor de crítica quer ser obrigado a pensar. E muitos ainda se assustam, quando informados de maneira responsável, inteligente e descontraída. Falta o costume. Pensam que resenha é crítica. Os resenhinhas da Copa são sinceramente opinativos. E escrevem muito bem. O que talvez confunda. Outra coisa, um pouco mais de calma; Quem julga é o tempo.
    Leiam o credo do Rubem Fonseca: " Eu quero manter sempre uma grande confiança em mim, como escritor e ser humano, não importam os prêmios, os elogios, as vendas, a celebridade." ( Portal Literal - Rubem Fonseca). O Rubem sabe muito bem disso e parece um menino assustado... Logo ele! rs. Gostei do Blog. Valeu.


    Cordialmente:
    Alexandre.

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  7. interno viajante02 abril, 2009 16:05

    Ninguém está livre de leituras apressadas. Nem você. Releia o trecho: "Mas, em geral, nos romances em que nada acontece, as personagens embarcam em poderosas viagens internas que lhes causam toda sorte de revelações até que, ao final, literalmente não são mais as mesmas. Não é o caso em Rakushisha: Celina, por exemplo, não muda, não conclui nada. A progressão de sua narrativa é uma revelação de fatos do seu passado para o leitor, mas não uma revelação para si mesma. À medida que Celina andava por Kyoto, nós, os leitores, fomos conhecendo mais sobre seu passado mas ela mesma não mudou, não cresceu, não descobriu nada sobre si mesma. Para Celina, o livro começa como termina." O árbitro da vez começa dizendo que "em geral" é desse jeito, mas em seguida defende que assim se faça - e lamenta que não seja este o caso. Logo, meu caro, toda a argumentação dele nos leva a crer que, sim, para ele os romances em que nada acontece precisam das tais "poderosas viagens internas". Lamentável expressão, aliás.

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  8. A expressão pode mesmo ser lamentável, mas eu não chamaria minha leitura, nesse caso, de apressada. Principalmente pq o Alex dá um monte de motivos para rejeitar o livro da Adriana Lisboa. O que ele fez no trecho que você citou foi, apenas, mostrar um caminho que poderia ter sido melhor sucedido...

    Mas, mesmo se fosse o caso de eu concordar com vc, meu texto é para rejeitar ataques a resenhas sem uma reflexão descente. Se o texto do Alex tiver trechos falhos, isso faz parte. Mesmo assim, continuo achando o texto dele ótimo. Principalmente agora que já li O filho eterno.

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  9. [...] derrotados sejam eliminados e só reste o campeão. É sempre uma leitura válida (dos textos aos comentários). _____Os Viralata é um site que tem como objetivo divulgar o trabalho de escritores [...]

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