28 abril, 2011

Muros, ironia e espaço público: Parte I – Os muros de Marcelo Rubens Paiva

___Em um dos trechos mais lindos do livro Feliz ano velho, Marcelo Rubens Paiva, debilitado, depois de muito tempo na cama, sai com os amigos para passear de carro pela cidade – “Pé na tábua. Finalmente estava vendo a rua. Era um sábado lindo, céu azul. Pouco movimento nas ruas.”.
___Olhando para a rua, Marcelo comenta: “Uma coisa que me chamava a atenção era a quantidade de pichações de muro.”. A partir de então, ele começa a descrição do que viu. “Havia umas engraçadíssimas como: Rendam-se, terráqueos. O Cassy nos mostrou a que ele tinha feito, na Vila Madalena, bairro da intelectualidade-pop-esquerdizante-uspiana de São Paulo: Liberte o Ivan Lins que há dentro de você.”
___O interessante é que o Marcelo Rubens Paiva não pára apenas na descrição. Junto, ele faz uma ótima reflexão social. Confiram.



___Achei um barato essa conquista do espaço urbano. Na realidade, os muros não são de ninguém. A propriedade é uma forma de capitalizar a natureza que o imbecil do ser humano inventou. Os muros, então, pra que servem os muros? Pra impedir ladrões? Sim. Pra garantir a privacidade? Sim. Mas servem também pra acabar com o direito natural do ser humano animal de ir e vir (um direito inclusive constitucional).
___Já imaginou se a onda de construir muros pega também na zona rural? Nós acabaremos por conhecer somente as ruas e as estradas. Que direito tem um cidadão de tapar a visão e o usufruto da natureza? É, Marcelo, você é um bobo sonhador. Está mais que óbvio para a humanidade que a natureza se compra e passa a ser particular. Os marcianos rirão de nós um dia, ao saber que nosso planeta é um grande quebra-cabeças de proprietários. Restam-nos os parques e praças públicas.


___Pobre Marcelo, mal sabia ele que, poucas décadas depois, até mesmo alguns parques e praças ficariam murados, gradeados; livres para as pessoas apenas em alguns momentos determinados. Para falar a verdade, um pouco disso ele experimentou.



___Em Campinas tem uma cachoeira linda na qual o dono colocou cercas pra ninguém ver. Legal, né?
___Por isso, pichem. Invadam o espaço, xinguem a mãe do presidente, declarem amor à sua prostituta preferida. É a imprensa popular e democrática.
Lucy in the sky with diamonds
Não adianta, Dona Lucy, você pinta, nós picha
Beatles 4 Ever
Esse muro tava tão branquinho..
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Série "Muros, ironia e espaço público"

- Parte I – Os muros de Marcelo Rubens Paiva
- Parte II – O muro de M. Ulisses Adirt
- Parte III – De quem é esse muro?

8 comentários:

  1. Sinceramente, eu acho a idéia de se colocar grades no espaço público algo meio absurdo e non-sense. E pior que é cada vez mais comum momentos cercados por grades para evitar vandalismo.

    No entanto, eu até acho o direito a propriedade privada algo muito bonito. Você sair da sua casa de manhã e ter certeza que uma pessoa não a invadiu, não saqueou a sua geladeira ou levou a suas coisas porque ela está de acordo que aquilo é sua propriedade me parece de uma evolução sem tamanho em relação a uma sociedade onde esse direito não é reconhecido e tivéssemos que ser obrigados a conviver com saques e pilhagens constantes.

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  2. mais do que parques e praças murados, gradeados: acho de uma sagacidade colocarem coisas pontudas embaixo de viadutos e em saídas de túneis. sagacidade perversa, porém.

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  3. Leonardo, só para colocar uma pimenta na discussão: nós vivemos em uma sociedade onde tal direito é reconhecido, colocamos muros, grades e etc, mas saques e pilhagens ainda são constantes. Será que não saqueiam as geladeiras porque entende-se que aquilo é seu - e seu por direito - ou porque não se consegue pular o muro - não todo dia?

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  4. [...] Muros, ironia e espaço público: Parte II – O muro de M. Ulisses Adirt May 1st, 2011 by Ulisses Adirt. ShareParte I aqui. [...]

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  5. Caio, eu acho que a nossa sociedade não é perfeita e para negar que a violência urbana exista tanto pela questão de desrespeito a propriedade privada quanto de diversas outras questões eu teria que ser um alienado total. No entanto, eu acho que basta comparar, por exemplo, o como o número de saques ocorre em momentos que as pessoas abandonam essas estruturas sociais (alguma catástrofe de grande porte, por exemplo) que nós temos hoje ou mesmo em locais onde essas estruturais sociais são menos presentes (regiões remotas).

    E eu acho que os furtos que nós temos hoje é muito mais exceção do que uma regra de conduta propriamente dita. Eu acredito, por exemplo, que a maioria das pessoas que eu conheço não tomariam para si a carteira de um colega de trabalho ainda que esse a deixasse esquecida sobre a escrivaninha do trabalho.

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  6. Leonardo e Caio, vcs são dois interlocutores inteligentes e, se for rolar sangue, com certeza eu fugirei. ;-)

    Mesmo assim, quero fazer um comentário sobre uma parte da primeira fala do Leonardo: "No entanto, eu até acho o direito a propriedade privada algo muito bonito. Você sair da sua casa de manhã e ter certeza que uma pessoa não a invadiu, não saqueou a sua geladeira ou levou a suas coisas porque ela está de acordo que aquilo é sua propriedade me parece de uma evolução sem tamanho em relação a uma sociedade onde esse direito não é reconhecido e tivéssemos que ser obrigados a conviver com saques e pilhagens constantes.".

    Não discordo, querido, que seja uma evolução viver sem saques e pilhagens constantes. O problema é chamar de evolução quando temos uma sociedade assim, com o altíssimo preço de alguns terem, por exemplo, geladeira e comida dentro dela e outros não terem. E, para manter as coisas assim, só com muita propaganda (pode colocar a Educação aí no meio) e violência do Estado.

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  7. [...] Parte III – De quem é esse muro? May 13th, 2011 by Ulisses Adirt. ShareAntes, leia a parte I e a parte [...]

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  8. oq impede saques e pilhagens não são os muros, mas a educação. eu não furtei coleguinhas de turma pq fui educada, mas uma coleguinha (mais rica) roubou meu livro de matemática na terceira série.

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