21 maio, 2011

Esquecimento, sem nenhum riso

___Desde a primeira vez que li Milan Kundera, fui invadido por um gigantesco sentimento de “Por que diabos eu não escrevi isso?”. Tudo que já li dele até agora me deixou alcandorado, babando, pedindo mais. Mais ou menos o mesmo efeito que eu adoraria causar em todas as mulheres para quem eu falo “oi”.
___Não escrevi nem uma linha da obra do Kundera (e nem todas as mulheres do mundo estão pedindo para ouvir meu “oi” novamente), mas posso reescrever algumas linhas para minha própria diversão.


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___Uma aluna querida me emprestou O livro do riso e do esquecimento – livro que Kundera publicou dois anos antes d’eu nascer. Ainda na primeira parte, morri de sorrisos pelo seguinte parágrafo:




___“O assassinato de Allende encobriu rapidamente a lembrança da invasão da Boêmia pelos russos, o sangrento massacre de Bangladesh fez esquecer Allende, a guerra no deserto do Sinai cobriu com seu alarido as lamentações de Bangladesh, os massacres do Camboja fizeram esquecer o Sinai, e assim por diante, até o esquecimento completo de tudo por todos.”.



___Como eu disse, morri de sorrisos, mas o parágrafo não é meu. Mesmo assim, nada me impede de brincar com ele. Só com o início de 2011, usando também acontecimentos nacionais, dá para escrever:




___“O sangrento massacre na Líbia encobriu rapidamente a lembrança do atropelamento dos ciclistas de Porto Alegre, o acidente nuclear do Japão fez esquecer a Líbia, o massacre em uma escola do Rio de Janeiro cobriu com seu alarido as lamentações do Japão, o assassinato de Osama bin Laden fez desaparecer da lembrança a escola de Realengo, e assim por diante, até o esquecimento completo de tudo por todos.”.



___Se o ponto fosse só o esquecimento de algumas desgraças que passaram e findaram, o parágrafo seria mais lindo ainda. O chato é que muitas delas só são esquecidas, mas não acabaram completamente. O triste, é que essas grandes desgraças fazem o mundo esquecer outras – que são diárias e, muitas vezes, até mais horríveis.


3 comentários:

  1. anteontem eu olhava na minha estante e pensei "preciso reler 'a insustentável leveza do ser'", porque, aos 17 anos, esse livro se tornou, disparado o de que eu mais gostei na vida. preciso descobrir se o cargo ainda é merecido por ele. mas li "risíveis amores" pouco depois e desgostei. aí, gostei de kundera, de novo e bastante, em "a brincadeira", e "o livro do riso e dos esquecimento" é sensacional, sobretudo quando vai aproximando o final, dá vertigem. ['cê terminou já?]

    só que eu sou o tipo de pessoa que não dissocia muito bem o autor da sua obra. fiquei incomodadíssima com o fato do kundera ter assinado a carta de apoio ao polanski, porque o diretor de cinema cometeu um crime e que não tem que prescrever droga nenhuma.

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  2. haha, tô com dor no olho, aí não revisei e separei sujeito de predicado, que tragédia. e "eu olhava a minha estante".

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  3. O Paloci deve estar torcendo para que algo aconteça para ser esquecido!
    :-)

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