23 janeiro, 2012

Impressões sobre a Manifestação em Solidariedade ao Pinheirinho ocorrida ontem na Avenida Paulista

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___Na manhã de ontem, desobedecendo a uma ordem judicial federal, a polícia paulista expulsou violentamente os moradores do Pinheirinho de seus lares. Eu, em meio a um domingo cheio, fui acompanhando, de maneira fragmentada, as notícias durante o passar do dia.
___Achando tudo que eu ficava sabendo sobre o caso extremamente triste, acabei me sentindo impotente; nada que eu pudesse fazer parecia ter chance de ajudar quem estava no Pinheirinho. Vi que uma manifestação em solidariedade estava sendo organizada. Cético, imaginei que não existiria a menor chance de uma passeata, organizada às pressas no mesmo dia, vingar. Mesmo assim, no fim da tarde, uma hora e meia depois do horário marcado para o início da Manifestação, eu estava na Avenida Paulista.
___Para o meu espanto, não apenas os manifestantes haviam conseguido parar todo o fluxo da Paulista em direção à Consolação, como, mesmo chovendo, centenas de pessoas estavam lá, prontas para protestar, para dividir com os outros o que pensavam do assunto, prontas para se planejar para os próximos dias.


Manifestantes


___Mesmo sabendo que dividir com vocês o que eu presenciei não é quase nada, contarei algumas das minhas impressões.


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___Sair de casa para mostrar um pouco de apoio pelos problemas dos outros já me parece algo bonito. Fazê-lo na chuva, então, acaba me parecendo duplamente admirável. Seria de se estranhar que pessoas que resolveram gastar suas horas livres indo prestar solidariedade aos outros não ajudassem umas as outras.
___Foi bonito ver um monte de guarda-chuvas juntos; ver, sem que ninguém precisasse dizer nada, aqueles que tinham o para-águas abrigando aqueles que não tinham. Era um gesto pequeno, provavelmente percebido apenas por aqueles que, naquele momento, estavam a tomar um pouco menos de chuva.


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Massacre do Pinheirinho, por Carlos Latuff


___Sempre acompanho com atenção os políticos nos quais votei. Tenho de dizer que fiquei muito feliz de saber que Eduardo Suplicy participou do ato e que Ivan Valente estava no Pinheirinho. Fico orgulhoso por ter votado em ambos – e por nunca ter dado o meu voto a Geraldo Alckmin.


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___Para aqueles que nunca foram a manifestações, aproveito para contar: ouvir discursos de quem está participando costuma ser uma das principais atividades do início e do fim do evento. Eu cheguei exatamente no momento em que começavam os discursos da parte final: em frente ao Tribunal Regional Federal.
___Para aqueles que já foram a manifestações, nem preciso contar que dizer “Eu cheguei exatamente no momento em que começavam os discursos da parte final” não significa que eu apenas vi, rapidamente, o finzinho. Foram muitos discursos, umas boas horas.
___Como qualquer um que já parou para ouvir discursos alheios sabe –, seja em uma sala de aula, em um campo escocês antes de enfrentar os exércitos ingleses, em uma palestra, em um culto –, só é fácil manter a atenção por muito tempo quando encontramos bons oradores, quando quem está discursando fala de maneira interessante. Em manifestações, grande parte dos discursos acaba tendo o mesmo conteúdo. Depois de ouvir uns três, quatro atentamente, praticamente já se ouviu todos. É fácil perder a atenção.
___No ato de ontem, entretanto, alguns discursos, mesmo sem grandes oradores, mesmo entremeados com as inúmeras repetições, acabaram me deixando completamente preso ao que se dizia. Achei lindo cada um dos relatos de pessoas que estiveram no Pinheirinho e, lá, na frente de todos, dividiam o que tinham presenciado, visto, sentido. Foi muito bonito.*


"Todo brasileiro tem direito a moradia", por Jean


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___Depois de ver o ato, depois de ler muito sobre o que aconteceu, chega a ser triste a fraquíssima e parcial cobertura da imprensa. Parecem mais comunicados oficiais do PSDB do que uma cobertura real.


Der Bundesstaat São Paulo, por Carlos Fatuff


___Falando de comunicados oficiais, acho que vale ressaltar a versão do ataque ao Pinheirinho retirada do Blog da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Em uma postagem intitulada “Reintegração de posse pacífica em São José dos Campos/SP”, a PM tem a cara de pau de dizer que “A operação resultou na detenção de 16 pessoas, não havendo feridos ou mortos.” (grifos meus e um par de prints screens, caso necessário).
___Termino este texto de impressões perguntando para a PM se o rapaz que aparece entre 35” a 46” do vídeo abaixo estava simplesmente sujo de groselha. Ou a Polícia Militar de São Paulo já se acostumou tanto com o crime que não se importa mais em publicar mentiras e agir injustamente?


[embed width="550"]http://www.youtube.com/watch?v=DDKp4wJPMxI[/embed]


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* Menção honrosa para o discurso final de Herbert Claros, vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos.

Um comentário:

  1. [...] ___Hoje, em São Paulo, tristemente, algo bem parecido acontece. A especulação imobiliária – para o governo e para uma parcela da população – acaba sendo mais importante do que a vida das pessoas. O exemplo mais famoso é caso de Pinheirinho. [...]

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