14 abril, 2012

Quem dita a sentença não maneja a espada

___No começo do ano, assisti a primeira temporada do seriado Game of Thrones e saí com a mais positiva das impressões. Na mesma época, minha mãe ganhou de presente o livro que inspirou a série –, A Guerra dos Tronos, de George R.R. Martin –, mas o tamanho da obra a intimidou e ela deixou o livro na minha mão. Deixei-o como leitura de banheiro, para ler sem pressa, sem grandes preocupações. Sendo assim, ainda estou no começo, mas, admito, está me agradando.
___No primeiro capítulo, cruzei com um trecho lindo. Após assassinar um homem em uma execução pública, o lorde Eddard Stark aproxima-se do jovem filho Bran e lhe explica o que acabou de fazer. Após alguma conversa, Eddard diz:




“... os reis Targaryen também tiveram [carrascos] antes [do rei Robert]. Mas o nosso costume é o mais antigo. O sangue dos Primeiros Homens ainda corre nas veias dos Stark, e mantemos a crença de que o homem que dita a sentença deve manejar a espada. Se tirar a vida de um homem, deve olhá-lo nos olhos e ouvir suas últimas palavras. E se não conseguir suportar fazê-lo, então talvez o homem não mereça morrer. Um dia, Bran, será vassalo de Robb, mantendo um domínio seu para o seu irmão e o seu rei, e a justiça caberá a você. Quando esse dia chegar, não deve ter nenhum prazer na tarefa, mas tampouco deverá desviar os olhos. Um governante que se esconde atrás de executores pagos depressa se esquece do que é a morte.” (grifos meus)



___Mesmo se tratando de uma ficção, de uma realidade que não é a nossa, penso em como isso encaixa bem em muita coisa do que acontece hoje em dia. Só para citar alguns exemplos aqui de São Paulo, é fácil para um prefeito como o Gilberto Kassab permitir que a polícia disperse violentamente cidadãos que, ano passado, resolveram organizar manifestações contra o aumento da tarifa de ônibus. O mesmo para o governador Geraldo Alckmin e o tratamento criminoso dado aos ex-moradores do Pinheirinho.


Massacre do Pinheirinho, por Carlos Latuff

___Os dois ditaram as sentenças (e tinham poder para “desditá-las”), mas nenhum dos dois, nem Kassab, nem Alckmin, manejou a espada. Os dois se escondem atrás de burocratas, de assessores, de executores pagos e, portanto, rapidamente se isentam, se esquecem do sofrimento que causam. Esquecer, não se considerar culpado, deve ser bem importante para ajudar a manter o sorriso na próxima eleição.


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P.S.: Ironias da vida, o trecho que me trouxe essa reflexão, foi publicado na Veja. Sem dúvida, “Um governante que se esconde atrás de executores pagos depressa se esquece do que é a morte”.
P.P.S.: Para quem gosta do seriado Game of Thrones, aproveitando que eu falei da Veja, deem uma olhada como ficaria a capa da revista caso a historinha não fosse ficção:


Veja - Game of Thrones

2 comentários:

  1. Essa visão dos Starks é bem romântica, mas também dá margem para muita tirania.

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  2. Sem dúvida, Leonardo, sem dúvida. Mas, que um governante deveria se sentir responsabilizado pelo sofrimento q causa, isso deveria.

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