29 agosto, 2014

Sem preconceito

___Acho importante declarar que eu não pratico, mas não tenho nada contra quem o faz, pois não tenho preconceitos. Tenho até amigos que gostam. Mesmo assim, acho errado essas pessoas que resolvem fazer esse tipo de bizarrice em público. 

Cafuné, Laerte


22 agosto, 2014

Nicolau Sevcenko, o meu professor

___Sempre gostei muito de ler. Não é à toa que, durante muitos recreios do colégio, eu utilizava o meu tempo livre para ficar lendo algo que me interessava. Quando os professores pediam algum livro de leitura obrigatória, eu costumava ler feliz e contente. Meus colegas de escola, por outro lado, não gostavam muito de ler os livros que os professores mandavam. Por conta disso, quando chegava perto de alguma prova, muitos colegas se reuniam à minha volta para me ouvir contando a história do livro. 
___Como eu gostava de explicar os livros para os meus colegas, como aquilo, para mim, era uma diversão sem fim, acabei descobrindo que queria ser professor. Minha grande dúvida, então, foi escolher quais das minhas matérias preferidas se tornariam o meu métier. A grande dúvida estava entre História e Literatura. Como, para ensinar Literatura, eu teria de fazer uma faculdade de Letras e estudar (e talvez ensinar) Gramática, acabei escolhendo História.

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___Em uma aula de História Moderna, um aluno levanta a mão e pergunta:
___– Em que ano terminou o reinado de Guilherme de Orange?
___O professor Nicolau Sevcenko olha para o estudante, pensa um pouco mexendo nos próprios cabelos e responde:

Nicolau Sevcenko

___– Hum... Desculpa, mas eu não sei. 
___Com uma cara de revoltado o aluno esbraveja:
___– Como assim? Como você pode não saber? Você é um especialista!
___Nicolau, como um gatinho, inclina a cabeça para o lado, como se achasse a reação do estudante a coisa mais curiosa do mundo. Alguns segundos depois, calmamente, responde:
___– Desculpe-me, mas se você acha que decorar nomes e datas são tão importantes assim para um historiador, lamento dizer: você está no curso errado. Ou, pensando bem, talvez você esteja no curso certo. Veja o restante das aulas com muita atenção. 

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___Os incontáveis elogios que o professor Nicolau Sevcenko recebia dos outros estudantes, fez com que, logo no segundo semestre do curso, eu procurasse o seu curso. Sem dúvida, as aulas eram fantásticas. Mas, de todas as maravilhas que a aula do Nicolau oferecia, a que mais me fascinou foi o quanto ele usava textos literários para fazer suas análises históricas. Depois de suas aulas, nunca mais fiquei chateado por não ter a chance de trabalhar com Literatura. Ele me mostrou o quanto História e Literatura podem se complementar.*
___Tristemente, na semana passada, com apenas 61 anos, o professor Nicolau veio a falecer. Resolvi relembrar um pouco dele escrevendo este texto. Fica como uma pequena homenagem para um professor que muito me ensinou. 

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* Não foram apenas nas aulas que o Nicolau me mostrou o quanto um historiador poderia trabalhar com Literatura. Seu livro Orfeu estático da metrópole é imperdível para quem se interessa pelo assunto. 

04 agosto, 2014

Ciência Apolítica

___Em um colégio paulista, professores de História, Sociologia e Geografia discutem, na sala dos professores, sobre a Questão Palestina e suas atuais repercussões. Em meio a um momento mais acalorado da conversa, a professora de Química passa por perto e fala com certo ar de superioridade: “Ainda bem que a minha disciplina não é ensinada segundo as tendências políticas da professora.”. O grupo de professores que debate faz que não ouve e continua a discutir. 
___Algum tempo depois, naquele mesmo dia, este professor de História que vos escreve passa, por acaso, à frente de uma sala em que aquela professora de Química estava dando aula. Como a porta estava aberta (e eu sou um futriqueiro), parei para assistir um pouco da aula. 
___– ... e assim se forma a chuva ácida. –, concluiu a professora. 
___Após alguns segundos de silêncio, a química voltou a falar:
___– Aproveitando que eu estou falando de chuva, acho importante dizer que a falta de água que está assolando São Paulo é culpa da falta de chuvas. Tem gente que culpa o governo, mas o que é que o governo poderia fazer para resolver o problema da falta de chuvas?
___Uma aluna no meio da sala toma a palavra e responde:
___– O governo não poderia fazer obras para melhorar a captação de água e ter consertado vazamentos, professora? Ou quando chove demais e dá enchente a culpa também é da chuva e não do governo que não fez as obras de prevenção necessárias?
___– Não – responde a professora alguns tons mais fortes –, minha querida, são casos completamente diferent...
___Nesse momento, a química “apolítica” percebe que estou à porta e engole o resto da fala. Eu apenas sorrio e sigo meu caminho assoviando a “Internacional”, pronto para doutrinar mais pobres estudantes com a minha Ciência Política. 

02 agosto, 2014

Mudou minha vida...

___– Professor? Nossa! Que bom encontrar o senhor depois de tanto tempo. Você não deve se lembrar de mim, estudei com você faz uns dez anos. Fico muito contente mesmo! Queria tanto falar assim, ao vivo, o quanto você foi importante na minha vida. Você foi o melhor professor que eu já tive. Mudou mesmo a minha vida. Aprendi muito com o senhor. Valeu mesmo.
___Meio sem jeito depois de ter sido soterrado por tantos elogios, apenas agradeço.
___– Obrigado...
___– Puxa, mas me conta: com o que você trabalha hoje em dia?
___Sorrindo, respondo:
___– Continuo dando aula.
___– Puxa, que pena. Achei que sua vida tinha melhorado.
___– ...
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