10 maio, 2015

Patrões e escravos

___Semana passada a Unicamp (e sua maravilhosa Olimpíada de História) me deu a oportunidade de conhecer uma ilustração de Jean Baptiste Debret que eu ainda não havia tido a oportunidade de ver: Cena de Rua (patrão e escravo).* 

Cena de Rua (patrão e escravo), de Jean Baptiste Debret

___Os trabalhos de Debret são fantásticos para conhecer um pouco sobre a vida no Brasil durante as primeiras décadas do século XIX. Infelizmente algumas das cenas por ele retratadas, como a aquarela acima, ainda assombram o Brasil das primeiras décadas do século XXI. 
___Moro ao lado de um prédio pertencente ao Poder Judiciário. Dia desses, a chuva caia forte e eu estava à janela, com a minha cachorrinha, olhando exatamente a tal repartição pública. Enquanto eu observava, um carro chique parou próximo à parte coberta. O motorista abriu a porta, o guarda-chuva e desceu do carro; deu a volta no veículo e foi para o coberto. Pouco depois ele volta e abre a porta traseira do carro, do lado do passageiro. Ao tentar se deslocar de volta para pegar sua passageira, o motorista percebe que a porta vai acabar fechando. Para evitar o fechamento da porta, ele passa a segurá-la com uma mão e, com a outra, estica o guarda-chuva para a senhora que aguardava no coberto. 
___Mesmo desprotegido, tomando uma torrencial chuva à cabeça, o rapaz permanece impassível. A senhora bem trajada começa a ir em direção à porta aberta e o motorista vai protegendo-a com o guarda-chuva. Então, alguém, no coberto, chama a mulher. Ela se vira e começa a conversar. 
___A conversa durou alguns minutos. A mulher não se preocupou em voltar para o coberto, pois estava protegida pelo guarda-chuva. O interlocutor também não deve ter se preocupado, já que não se molhava. O motorista, tal qual o escravo retratado por Debret, ficou parado, esquecido, resguardando à pessoa de casta superior. 

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* Pintada entre 1817-1829. 

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