01 junho, 2007

Dê passagem ao rei

Assim como os antigos sacrificavam colheitas, gado e até os filhos a ídolos e ícones aos quais seus sacerdotes atribuíam poderes imensos e uma profundidade insondável, a humanidade da era industrial sacrifica tempo, espaço, riquezas naturais e, às vezes, as próprias vidas a essas máquinas às quais os publicitários atribuem virtudes igualmente mágicas. Até as guerras empalidecem ante as estatísticas do trânsito, sem que isso inspire tanto horror quanto seria de esperar. Trata-se de sacrifícios humanos socialmente aceitos. (Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa, “O totem do capital”. in.: Carta Capital. Abril, 2007)

Asfalto novo, problema velho (I)

Asfalto novo, problema velho (II)

_____As fotos acima foram tiradas de um pequeno trecho da Rua Pamplona, perto da casa da minha namorada. Viram só? Que rua linda, não? Que asfalto mais novinho! É impressionante. Eu vi a reforma da rua, vou contar a vocês:

_____A rua até que estava boa, mas, mesmo assim, certo dia, veio a prefeitura e raspou todo o asfalto antigo. Retirou mesmo; esburacou a rua toda. Mas, a rua não ficou esburacada por muito tempo, a rapidez para se concertar a rua foi digna de nota. Em menos de uma semana, normalmente trabalhando de madrugada para não atrapalhar o trânsito, a rua foi toda recapeada, o asfalto foi refeito e ficou tudo lisinho, como é possível perceber nas fotos acima.

_____Isso foi há alguns meses.

_____Entretanto, há um grande problema aí. Não sei se alguém percebeu, no trecho do qual eu tirei as fotos existe mais uma rua. É a Alameda Ribeirão Preto.

Rua Pamplona x Alameda Ribeirão Preto

_____O problema? Alguém, por acaso viu a faixa de pedestres nas fotos do começo do artigo? Exato! Para se arrumar o asfalto, permitir a passagem de carros a pressa foi enorme. Entretanto, na hora de evitar acidentes, pensar nos pedestres a coisa muda. Os carros são a prioridade para o governo e aqueles que não têm um automóvel que sofram.

Asfalto novo, problema velho (III)

Asfalto novo, problema velho (IV)

_____Aproveito e cito um pequeno trecho do artigo “Carro: símbolo de poder, arma de violência”, de Denir Mendes Miranda, publicado no Correio Brasiliense (clique aqui para ler o artigo na íntegra – em PDF).

_____O Boletim Anual de Acidentes de Trânsito no DF, divulgado recentemente pelo Detran, mostra que 59% dos mortos em acidentes de trânsito nas vias urbanas são pedestres (40%) e ciclistas (19%). Nas rodovias, o percentual é um pouco menor, mas continua próximo a 50%.

_____Esses números comprovam que, na guerra do trânsito, as freqüentes vítimas são as que cruzam vias e ruas ou pedalam por elas, pessoas que se arriscam a invadir os espaços destinados aos automóveis. Fiscalização deficiente e impunidade, quase sempre apontadas como causa dessa tragédia, são apenas sintomas.

(...)

_____É necessário mudar a estrutura de poder que há por trás da cultura do automóvel. Carros particulares representam apenas 30% dos deslocamentos de trânsito nas cidades. Para acabar com a violência outorgada, precisamos descortinar uma mudança comportamental profunda, que equilibre as forças dentro do trânsito.
_____É preciso tomar o espaço urbano usurpado pelos automóveis e devolver esse espaço aos pedestres e ciclistas, de modo a tratar todos como iguais, motorizados ou não.

P.S.: Acho bom inclusive lembrar que as fotos são de ruas da Bela Vista, bairro de elite, no centro da capital paulista. Sabe qual é a situação dos pedestres nos bairros de periferia?

P.P.S.: Os artigos citados foram encontrados no maravilhoso blog :. apocalipse motorizado que trata, exatamente, dos problemas do mundo contemporâneo que louva os automóveis. Recomendo, fortemente, a leitura.

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