09 março, 2012

Eu ainda tenho idade para beijar?

___Desde moleque, sempre me diverti muito com livros de mistério. Adorava (e ainda adoro) Sherlock Holmes e, com o tempo, descobri outros detetives que muito me agradam, como o maravilhoso Nero Wolfe e o Comissário Maigret. Sempre que me surge uma oportunidade, leio algum deles.


Jean Gabin interpretando Maigret


___Dia desses, li A louca de Maigret. Livrinho curto, boa trama, leitura rápida. Quando terminei a obra, para mim, o mistério estava desvendado, mas algo, perto do final, ficou a me incomodar. Foi algo simples, talvez de pouca importância para o livro, quando Maigret e Louise, sua esposa, estavam a passear pelo Jardim das Tulherias.




___Continuaram o passeio e não tardaram a chegar ao Jardim das Tulherias.
___– Que tal nos sentarmos um pouco? – ele propôs.
___Era uma vontade que lhe surgira na véspera à noite. Ele não se lembrava de alguma vez ter se sentado num banco de jardim público. E não estivera longe de pensar que não serviam para nada, a não ser de leito para os mendigos* ou de refúgio para os namorados.
___Mas demoraram até encontrar um banco livre. Todos os outros estavam ocupados, e não apenas por pessoas idosas. Havia muitas jovens mamães que vigiavam seus filhos. Um homem de uns trinta anos lia um livro de biologia.
___– Estamos bem acompanhados, não?



___Já sentados, Maigret falou à esposa.




___– ... eu queria, pelo menos uma vez na vida, me sentar num banco de jardim público.
___Acrescentou vivamente:
___– Sobretudo com você.
___– Você não tem boa memória.
___– Já fizemos isso?
___– Durante o nosso noivado, num banco da Place des Vosges. Foi lá, inclusive, que me beijou a primeira vez.
___– Tem razão. Minha memória é péssima. Eu gostaria de beijá-la, mas há muita gente ao redor.
___– E não combina com a nossa idade, não é?**



___Depois disso, sem se beijar, o casal vai a um restaurante.


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___Certa vez, entrando no prédio em que eu morava, cruzei com uma vizinha, bem velhinha, beijando um senhor que aparentava ter a mesma idade que ela. Fui até o elevador, apertei o botão e fiquei a esperar.
___Na mesma hora em que o elevador chegou, entraram no prédio duas adolescentes. Abri a porta do elevador, elas agradeceram, e eu entrei logo depois delas. Assim que o elevador começou a subir, as duas, meio histéricas, iniciaram o seguinte diálogo.
___– Ai, que nojo! Você viu?
___– Credo! Eu vi!
___– Vão acabar trocando a dentadura.
___– HAHAHA! É mesmo.
___– Meu, ela é toda enrugada. Mal deve dar para sentir a boca.
___– E a língua deles? Já imaginou que horror?
___Pela graça da boa Clio, o elevador chegou ao meu andar e eu não precisei mais ficar escutando aquele festival de idiotice.


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___É sério que estabeleceram prazo de validade até para beijar? E pior, algumas pessoas acreditam nisso, compram essa ideia e vivem menos felizes a partir de determinado momento da vida? Isso é muito triste.
___Como é que as pessoas vivem assim? Depois de certo momento as pessoas decidem ter uma vida mais medíocre e pronto? Qual o sentido disso? Quem estabeleceu essas regras imbecis? Por que as pessoas continuam a segui-las?
___O exemplo do Maigret alguém pode me lembrar de que se trata apenas de ficção, outro pode me dizer que o livro é de 1970 e que Georges Simenon, o autor, nasceu no começo do século XX, que se trata de outra época e outra forma de se pensar. Isso não faz com que eu ache o caso menos triste. De qualquer modo, o caso não-ficcional me incomoda mais: duas adolescentes que, se Darwin permitir, ficarão vivas até que sintam nojo delas mesmas e dos seus amigos mais antigos. É horrível.
___Caso eu pensasse como elas, ou eu planejaria me suicidar daqui uma ou duas décadas, ou aprenderia a ver o mundo de outra forma. O que nós achamos belo, nojento, divertido é algo culturalmente construído. Hoje temos um padrão de beleza, há 300 anos tínhamos outro. Ninguém nasce achando esmalte, barba, cabelo longo, barriga tanquinho ou orelhas pontudas algo sexy. Aprende-se a gostar de qualquer uma dessas coisas.


Beijo - Idosos


___Ficando vivo, a velhice é inevitável. Portanto, com todo carinho, eu aconselharia qualquer um a uma reeducação do olhar para se ver beleza nas pessoas, não importando a idade. Nem que seja para gostar de si próprio no futuro.


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P.S.: Sobre o assunto, recomendo enfaticamente o texto “Treinando nosso olhar pra beleza”, da Lola. Também vale dar uma olhada no “Os cabelos de um homem: uma teoria do consumo conspícuo capilar”, do Alex.
P.P.S.: Como eu fiz questão de deixar por aqui as reflexões do Maigret sobre bancos públicos, fica outro texto do Alex: “Praças e mendigos: quem vamos proteger?”.
P.P.P.S.: Querem comprovar parte do que eu falei sobre esse preconceito idiota? Procurem imagens sobre beijos pela internet. Quase todos os beijos de idosos que aparecem nas buscas, são beijos no rosto, não na boca. Até nas imagens de bebês se beijando aparecem mais beijos na boca. Alguma dúvida?


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* Não é a cara dele, mas, caso Maigret vivesse no século XXI e publicasse, no próprio Facebook, algo próximo da opinião que ele tinha até então sobre os bancos públicos –“A prefeitura resolveu concertar os bancos do parque próximo à minha casa. Que desperdício dos meus impostos! Esses bancos só servem mesmo é de colchão para mendigos.” –, eu iria me divertir horrores enviando a opinião dele para o Classe Média Sofre.
** Georges Simenon, A louca de Maigret, Capítulo VI.

2 comentários:

  1. Ai que gostoso ler teus escritos, Maurício! É aquele tipo de coisa - como tocar minha guitarra - que eu sempre me pergunto, quando faço: "porque não faço mais disso?"...

    Ah, as escolhas, as prioridades, a Vida!!!

    Como é bom estar aqui e que pena que não nos foi concedida a capacidade de onipresença ou, pelo menos, de multipresença... Estar em 54 lugares ao mesmo tempo já estaria bom demais, nem precisava ser em todos... Fico imaginando a capacidade de processamento e armazenamento que precisaríamos ter para lidar com todas essas informações, caso realmente pudéssemos estar em vários lugares ao mesmo tempo...

    Mas uma coisa não mudaria: eu continuaria admirando o beijo de pessoas que, depois de tanto tempo juntas, ainda conseguem expressar o seu amor. Coisa difícil nos dias de hoje...

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  2. Muito obrigado, Rafael. Fico completamente honrado com o seu comentário.

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