13 novembro, 2014

Manoel de Barros (1916-2014)

___Hoje morreu Manoel de Barros. Dono de uma prosa bem característica, estranha de dar orgulho. Uma prosa poética. 
___Já falei dele aqui no Incautos em duas outras oportunidades e aproveito o triste acontecimento, para indicar o livro dele que mais gosto, o Memórias Inventadas - A Infância
___Deixo, também, o "Parrrede!", o meu conto preferido do Manoel de Barros. 

Quando eu estudava no colégio, interno,
Eu fazia pecado solitário.
Um padre me pegou fazendo.
– Corrumbá, no parrrede!
Meu castigo era ficar em pé defronte a uma parede e
decorar 50 linhas de um livro.
O padre me deu pra decorar o Sermão da Sexagésima
de Vieira.
– Decorrrar 50 linhas, o padre repetiu.
O que eu lera por antes naquele colégio eram romances
de aventura, mal traduzidos e que me davam tédio.
Ao ler e decorar 50 linhas da Sexagésima fiquei
embevecido.
E li o Sermão inteiro.
Meu Deus, agora eu precisava fazer mais pecado solitário!
E fiz de montão.
– Corumbá, no parrrede!
Era a glória.
Eu ia fascinado pra parede.
Desta vez o padre me deu o Sermão do Mandato.
Decorei e li o livro alcandorado.
Aprendi a gostar do equilíbrio sonoro das frases.
Gostar quase até do cheiro das letras.
Fiquei fraco de tanto cometer pecado solitário.
Ficar no parrrede era uma glória.
Tomei um vidro de fortificante e fiquei bom.
A esse tempo também aprendi a escutar o silêncio
das paredes.

___Sério mesmo, leiam o Memórias Inventadas - A Infância. E escutem bem o silêncio

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