25 junho, 2016

O documento do policial

“O poder sem abuso perde o encanto.”
(Paul Valéry)

___Quero contar uma cena de violência policial que eu presenciei. Já faço um anticlímax, logo na segunda frase, avisando que não chega perto de nada que a polícia militar costuma fazer para reprimir protestos, que não foi nada tão absurdo quanto o que acontece na periferia, mas, mesmo assim, foi algo ruim e que deve ser denunciado.
___Domingo, fui com a minha esposa e minhas cachorras para a Paulista Aberta. Para quem não é de Sampa, cabe uma pequena explicação: docemente, a prefeitura de São Paulo, passou, nos domingos, a fechar a Avenida Paulista para os carros e liberá-la para os pedestres. O resultado tem sido maravilhoso, com pessoas de diversas regiões de São Paulo aparecendo para aproveitar o local, com música, arte de rua e afins. A maior parte dos acessos à Paulista são fechados aos carros, entre eles, a Rua Pamplona. Nela, diversos donos de cachorros aproveitam o espaço para soltar seus animais e, como extra, alguns pais levam seus filhos para aproveitar a interação com os bichinhos. 

Paulista Aberta

___Minhas cachorras estavam pulando alegres entre outros cachorros, crianças e borboletas quando a cena bucólica foi interrompida por um carro que entrou na rua, mesmo com os cavaletes da Companhia de Engenharia de Tráfego proibindo. Mais do que apenas entrar, o motorista estacionou ao lado de uma placa de “Proibido Estacionar” e desceu do carro (o motorista e dois passageiros: um homem e uma mulher; todos com roupas de passeio). 
___Um dos presentes, pai de uma criança, não achou aquilo certo e foi chamar um rapaz da CET. Depois de alguns minutos, o rapaz apareceu e disse: “O dono do carro já falou comigo e se identificou como policial. Eu não posso fazer nada...”. Argumentamos que ser policial não dava direito ao motorista de entrar com seu automóvel em um local em que carros não poderiam entrar e muito menos estacionar ali –, “Ainda mais para ficar namorando pela Paulista!”, acrescentou, revoltada, a dona de um golden. 
___O rapaz da Companhia de Engenharia de Tráfego ouviu tudo pacientemente e, didaticamente, demonstrou que ele não podia fazer nada: pegou sua máquina de multas, digitou a placa do carro e nos mostrou que, por ser um carro da polícia, ele não podia multar. “Pior ainda!”, bradou o revoltado pai que havia chamado o rapaz da CET, “O policial está usando uma viatura para vir passear no domingo. É um criminoso mesmo!”. 
___Sem ter mais o que fazer, o rapaz da CET se afastou. Pouco depois, o policial-bandido e seus cúmplices apareceram. O criminoso, ao perceber o pai da criança perto do carro, apontando com o rosto a placa de “Proibido Estacionar”, perguntou um salgado “O que foi?”. Ao ouvir que ele não tinha direito de parar ali, o bandido levantou a camisa, sacou a arma e disse “Eu sou policial! Eu posso.”. 

O Bem, por André Dahmer

___Vou deixar mais claro: ele não sacou o distintivo, um documento ou uma rosquinha e disse “Eu sou policial! Eu posso.”. Ele sacou a arma e disse “Eu sou policial! Eu posso.”! Além de uma longa discussão (inclusive com um dos presentes tendo chamado um policial uniformizado que disse que não iria fazer nada), pouco mais aconteceu. 
___No fim das contas, foi só uma cena triste de abuso policial. O mais incomodo é saber que um policial-bandido como esse, que, em uma manhã de domingo, em uma travessa da Avenida Paulista, saca sua arma para intimidar as pessoas, pode fazer algo bem pior em uma rua deserta, à noite, na periferia. Como é possível reagir? Não imagino nenhuma reação além de relatar o fato em um blogzinho e suspirar. 

Contra os Direitos Humanos, por André Dahmer

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P.S.: Caso exista algum leitor que possa tomar alguma providência (mesmo que administrativa) contra esse bandido e seus cúmplices, eu me disponho a depor. O documento com gatilho que o policial mostrou não me permitiu descobrir o nome dele. Entretanto, anotei a placa: o criminoso em questão era o policial que estava utilizando o carro de placa FOI 0085, às 10h30min, do domingo, dia 19/VI/2016.

03 junho, 2016

Eu não precisei, então ninguém precisa

“Mais de 100 horas semanais!”... É mesmo?

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___O grupo Os Melhores do Mundo tem um esquete sobre um rapaz chamado Joseph Climber que perde um braço, duas pernas e um monte de outras coisas e, ainda assim, consegue vencer na vida. Tendo essa estória em vista, eu pergunto: vamos sair por aí cortando braços e pernas, pois, se o Joseph Climber conseguiu, todo mundo tem de conseguir também?
___Achou a minha pergunta introdutória ridícula? Pois bem, então você teve uma sensação parecida com a que eu tive pouco depois de publicar o pedido de ajuda aos estudantes que estavam ocupando o Centro Paula Souza.* Por mais absurdo que pareça, muita gente veio criticar os estudantes que estavam lutando para que as escolas técnicas recebessem merenda – algo que, vale lembrar, eles têm direito por lei. E, tristemente, o argumento mais comum foi “Quando eu estudava, o governo não me dava merenda e, mesmo assim, eu me formei muito bem!”. 
___Para começar, pessoa-que-não-precisou-de-merenda-do-governo, eu sei que seu narcisismo torna difícil você lembrar disso, mas, saiba, você não é o parâmetro do mundo. Se você não precisou de algo, isso não faz com que outras pessoas não precisem. O assunto não é você, são essas pessoas que precisam. 
___Os primeiros passos para a distribuição de merenda nas escolas foram dados na década de 1950. A ideia foi exatamente permitir que crianças e jovens de baixa renda conseguissem uma condição mínima para estudar. É necessário estar muito bem alimentado para achar que passar fome não inviabiliza uma pessoa de se dedicar aos estudos. Portanto, quanto mais o programa de alimentação escolar foi crescendo, maior foi a possibilidade de colocar um grupo que não poderia estudar dentro das escolas. Em um país em que a pobreza não foi vencida, achar que todo mundo deve ter o direito de estudar é, também, achar que escolas públicas devem servir merenda. 
___Por fim, é bom dizer: o governo tem de obedecer a lei e dar comida para os estudantes. Se você não gosta disso, lute para mudar a lei; não critique os estudantes por lutarem por um direito que eles têm e não estão recebendo porque o governo estadual é corrupto e incompetente.

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P.S.: Sobre o argumento furado “Tem tanta gente passando fome e você querendo ajudar esses estudantes...”, eu já escrevi sobre o tema, em 2008. 


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* E algumas escolas técnicas controladas pelo Centro Paula Souza. 

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