09 outubro, 2007

Literatura, bengalas e espadas (atualizado)

_____Faz umas semanas a Dai, do Blog da Dai, me escolheu para participar de um meme que consiste, simplesmente, em abrir um livro na página 61 e transcrever a quinta frase. Sinceramente, mesmo já tendo visto outros blogueiros participarem da brincadeira, não entendi muito o objetivo de tudo isso. Parecia tão fora de qualquer propósito como “publique no seu blog 28 pontos de exclamação, 12 de interrogação e 1 ponto final. Depois passe para cinco amigos.”. Como não pretendo em breve começar a participar do “jogo do beija, lambe ou dá um tapa” ou qualquer coisa do tipo, nem pensei em continuar.

_____Entretanto, comecei a ler, nesta semana, A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, e por impulso abri na página 61 e olhei a quinta frase: “A bengala era o sinal distintivo do dândi, mas também fazia dele um personagem moderno e na moda.” (grifos meus). Guardei, então, minhas armas. Fui muito maldoso com o meme. Uma brincadeira como essa, assim como qualquer outra entre quem escreve, pode servir de mote para um bom texto. Queira ou não a frase do Kundera me fez pensar sobre o uso das bengalas durante a história e achei que talvez fosse interessante comentar com os leitores.

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House

_____Pode-se dizer que as bengalas, desde tempos imemoriáveis, têm como função principal fornecer apoio a quem precisa, entretanto elas nem sempre tiveram apenas essa serventia. Por muito tempo as bengalas serviram como sinal distintivo. Muitos homens das elites européias, principalmente após a Revolução Francesa (1789-99), passaram a portar bengalas como sinal de distinção social.

_____Durante a Idade Média (476-1453) os nobres (a classe guerreira) eram, teoricamente, os únicos que tinham o privilégio de portar uma espada que pudesse ser utilizada em combate. Portar uma espada tornou-se, então, um símbolo do status da nobreza. Durante a Idade Moderna (1453-1789) a nobreza aos poucos deixou de ter uma característica intrinsecamente guerreira, porém o costume de portar uma espada na cintura, pelo menos durante eventos sociais, acabou se mantendo. Nessa mesma época outra classe começou a se fortalecer econômico e politicamente: a burguesia.

CODEX MANESSE

_____Sem os mesmos privilégios da nobreza, muitos burgueses faziam de tudo para agirem e viverem como nobres (até compravam títulos de nobreza)*. Como não podiam usar espadas nos locais públicos, utilizavam subterfúgios (portavam espadins ou espadas de salão, que eram impróprias para os duelos).

_____O poder da burguesia foi crescendo cada vez mais e, com ele, o respeito pela classe. O incomodo peso das espadas e a ausência completa de utilidade das mesmas** fez com que, com o aproximar do fim do século XVIII e início do XIX, elas fossem cada vez mais abandonadas e, pela necessidade de se manter um símbolo de status, passou-se a utilizar as bengalas, costume que se manteve forte até o aproximar do século XX.

Capa de livro


P.S.: Para manter a brincadeira, passo o meme para o Carlos Merigo, só para ver o que um publicitário faz com esse material, para o Carlos Cardoso e seu blog de memes e para o Alex Castro que, aposto, consegue formular um bom texto com qualquer quinta frase da página 61 de algum livro.

P.P.S.: Aproveitando que o mote para esta postagem foi exatamente a frase de um livro, nesta semana acontece em São Paulo a 3ª edição do Corredor Literário na Paulista com saraus, leituras dramáticas, shows, livros mais baratos, palestras e um monte de atividades interessantes para quem se interessa por literatura.

(atualização) P.P.P.S.: Acabei de descobrir um leitor que queria brincar de pegar frases no ar, mas não tinha convite. Fica, então, o convite oficialmente feito.

P.P.P.P.S.: Também recebi um novo convite, da doce Anny, alguns meses depois do original. Fica aqui registrado.

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* Os burgueses que compravam título de nobreza costumavam ser chamados de “nobreza togada”.

** Inclusive ausência de utilidade histórica para uma burguesia que nunca foi guerreira.

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