12 novembro, 2007

NoCu da professora

_____Aproveitando a senda de uma reflexão que tem sido feita no blog Liberal Libertário Libertino sobre NoCu* (norma culta), resolvi dividir algo com vocês.

_____Entre os diversos trabalhos que tenho feito neste ano, um deles é em uma escola de aulas particulares. Grande parte da renda da escola vem, obviamente, de alunos desesperados com alguma prova. Além desse serviço, clássico em aulas particulares, existe um outro chamado “acompanhamento escolar”. O acompanhamento escolar é bastante interessante. Professores de algumas disciplinas específicas acompanham o que o aluno está aprendendo na escola e tiram dúvidas, reforçam o conteúdo, trabalham coisas diferentes, etc..

_____Um dos meus alunos de acompanhamento escolar (que acompanho desde fevereiro) vem de um colégio público e é parte de um trabalho social que a escola de aulas particulares em que eu trabalho faz. Antes de conhecer o aluno, a mãe conversou com os professores e falou da enorme dificuldade que o garoto tinha, principalmente em escrever qualquer coisa (imaginem, então, a distância de que ele estava da NoCu). Quando conheci o aluno logo descobri um dos motivos para que ele tivesse dificuldade de escrever: apesar do garoto estar na 8ª série (ou nono ano, como preferirem), ele nunca havia lido um livro. E, vale ressaltar, ele nunca havia lido um livro, pois a escola nunca havia pedido.** Eu sei que não é apenas pela ausência de leituras que o aluno tinha dificuldades para se expressar por escrito, porém eu não esperava descobrir que os professores são diretamente um dos motivos para a dificuldade do aluno.

_____Semana passada o aluno trouxe um texto intitulado “A crise de 1929/1930”, que havia sido dado pela professora de História. O texto, como é possível ver no fac-símile abaixo, foi feito em uma máquina de escrever – provavelmente faz uns 20 anos que a professora tira fotocópias desse mesmo texto para dar aos seus pobres alunos. Mas, ser batido à máquina não é o problema (por mais que sirva como indício de que a professora, provavelmente, não prepara uma aula sobre o tema há uns 20 anos). O problema é que o texto é péssimo, mal articulado, um lixo completo (cliquem na figura abaixo para ler), não ajudaria ninguém a aprender nada sobre a República das Oligarquias*** (o assunto do texto, mesmo o título não deixando isso nem um pouco claro).

Como não-educar um aluno

_____Dêem uma olhada no texto: muitas das palavras que deveriam ter acento não estão acentuadas, existem outros erros grosseiros de ortografia e, pior de tudo, as frases são mal construídas, algumas ininteligíveis. Ler o texto sem conhecer o assunto faz com que qualquer um fique com dúvidas sobre o que se está falando. Vou reproduzir o penúltimo parágrafo:

Após essa união das colunas a marcha segue para o interior, ficou conhecida como culuna PRESTES, era o de combater as tropas do governo e os jagunços licais e seus coronéis, além de incentivar uma revolta popular contra o governo. Isto não aconteceu e a coluna ficou debelitada e teve que se retirar para a Bolivia em 1927. (sic)

_____Caso você não saiba o que foi a Coluna Prestes, pode apostar que o parágrafo acima não vai ajudar você em muita coisa. Mas, nem é essa a minha reclamação. Por favor, alguém pode me informar se a frase “Após essa união das colunas a marcha segue para o interior, ficou conhecida como culuna PRESTES, era o de combater as tropas do governo e os jagunços licais e seus coronéis, além de incentivar uma revolta popular contra o governo.” faz algum sentido? Atenção para o trecho “Após essa união das colunas a marcha segue para o interior, ficou conhecida como culuna PRESTES, era o de combater as tropas do governo”. A ignorante da professora colocou três informações históricas no texto da maneira mais mal articulada do mundo, sem conectá-las de maneira alguma. Será que ela não percebe que o que ela escreveu não faz o menor sentido?

_____Esse não é o único exemplo que pode ser retirado do texto, mas já é o bastante. Imaginem se com professores que não incentivam a leitura e mandam textos tão absurdamente mal feitos algum aluno pode aprender a escrever. Não estou aqui para fazer uma defesa dos bons textos, da boa escrita ou mesmo da NoCu, mas sim do direito dos alunos que querem aprender, para que eles tenham um mínimo de chance para tanto. Com professores assim, isso é bem difícil.

P.S.: Caso alguém queira saber, apesar do péssimo trabalho que faz a escola pública em que o meu aluno estuda, ele começou a progredir e, vale dizer, progredir bastante.

__________

* Agradeçam ao Dr. Plausível pelo belo apelido dado à norma culta.

** Antes que alguém diga que o meu aluno mentiu, eu pude acompanhar os estudos dele durante todo o ano de 2007 e, realmente, nenhum livro foi pedido pelos seus professores do colégio.

*** 1894-1930.

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