21 julho, 2012

Com que roupa?

___Fui contratado para dançar em um dos dias que o André Rieu se apresentou em São Paulo.* Ao telefone, pegando as informações do serviço com a moça que estava me contratando, perguntei:


André Rieu


___– Que roupa que eu devo usar?
___– Ah, fica tranquilo. É para parecer que você e a sua parceira resolveram dançar embalados pela música, como se fosse completamente espontâneo e natural. Vá com a mesma roupa que você usaria para ver um concerto de música clássica.


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___Não sou o maior frequentador de concertos de música clássica, mas já fui diversas vezes. Minha média é de mais ou menos um a cada dois meses.
___Para quem nunca foi, falo rapidamente sobre as roupas que as pessoas usam. Sempre existe um pessoalzinho que não dispensa roupa social e umas pessoas mais à vontade – de jeans e camiseta. Se muito não me engano, tirando ao ar livre, nunca vi ninguém de chinelo, bermuda e afins. Engraçado mesmo são as óperas: enquanto algumas pessoas como eu vão de jeans, já vi mulheres de vestido longo e homens de smoking. (Não, não era o maestro.).


Escravo da roupa, por Troche


___Sempre tentei entender por que diabos alguém vai a uma ópera que dura, por vezes, mais de três horas com um vestido que não é nada confortável, que não vai deixar você sentar a vontade. Parece (Só parece?) que é mais importante ostentar riqueza, ostentar a roupa, ostentar a ida à ópera, ostentar a própria idiotice, do que apreciar o que vai ser representado no palco.


Escrava da roupa, por Troche
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___– Ah, que bom –, falei para a moça que estava me contratando –, posso usar a mesma roupa que eu usaria para ir a um concerto normal? Achei que eu não poderia usar calça jeans.
___– Credo, Ulisses! É claro que você não pode usar calça jeans. Vai ter uma orquestra lá.


Roupas e o preconceito de classe, por Troche


___Fiquei com vontade de perguntar se uma orquestra merecia me ver com roupas “melhores” do que o Emicida, os meus alunos, a minha esposa, o motorista do ônibus, o médico do SUS, o Mestre Yoda ou a presidenta, mas, pelo bem da minha contratação, desculpei-me e fui para o armário conferir como estava a minha roupa social.


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P.S.: Os quadrinhos que ilustram esta postagem pertencem ao fantástico cartunista argentino Gervasio Troche. Seu trabalho me lembra um pouco o do brasileiro Rafael Sica. Recomendo ambos entusiasticamente.


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* Antes que me perguntem, respondo aqui no rodapé: Os músicos não são ruins, mas o show em si é só uma reunião do que existe de mais famoso na música clássica e alguns extras. Se você ouvir por mais de duas vezes, vai parecer banda de festa de casamento/formatura: sempre o mesmo repertório. Por fim, o pior de tudo é que o Rieu desce a música clássica ao patamar da auto-ajuda: tudo é “O mais lindo!”, “Essa música vai fazer vocês felizes para sempre!”, “Vocês são o melhor público que eu já tive!”, “Adoro o Brasil!”, “Depois de ouvir esta valsa você vai influenciar pessoas, fazer amigos, liderar como Jesus Cristo, ter um pai rico e comer o queijo do seu chefe!” e mais um incontável número de exclamações elogiosas para tudo.

7 comentários:

  1. Eu confesso que detesto essa pressão por vestir roupas sociais e, principalmente, sapatos sociais. Eu costumo brincar que uma festa que você não pode ir de tênis não é uma festa.

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  2. Totalmente de acordo, conforto sempre. Eu não costumo ir muito a concertos, mas meses atrás fui ao Municipal ver As Valquírias, tanto meu marido quanto eu fomos com a roupa do dia-a-dia, confesso que num primeiro momento fiquei um tanto constrangida por estar de calça e sapatilha enquanto a maioria das mulheres estavam de vestido e sapato de salto, mas isso passou quando percebi, já na volta do primeiro intervalo, que muitas delas já tinha tirado os sapatos que machucavam os pés.

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  3. Hehehe, me orgulho de não ir a concertos de calça (a não ser quando vou tocar, afinal sou músico de orquestra). Vou sempre de shorts, e só uma vez um segurança encanou, mas dei uma despistada nele. E, por precaução, sempre levo uma calça na mochila.
    O público já não é expressivo, então acho que barrar alguém por não estar de social é um pouco de burrice.

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  4. [...] comentários do texto “Com que roupa?” não foram muitos, mas foram bem bacanas. Faria minhas as palavras do Leonardo Xavier (aqui) e [...]

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  5. [...] Eu sei que tem gente que acha errado quando me vê criticando algo ou alguém; sei que isso pode me fazer mal profissionalmente; sei que iriam gostar mais de mim e que eu me daria melhor calando a minha [...]

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  6. Eu já penso o contrário. Acho lindo usar roupas sociais para a ocasião. Penso que os músicos, maestros se vestem super bem para a apresentação, por respeito aos que vão prestigiar o seu trabalho, e nada mais justo, que nós façamos o mesmo. Um pouco de tradição não faz mal a ninguém. O teatro é maravilhoso, pomposo, e se adequar ao ambiente não deve ser uma obrigação mas, uma questão de bom senso.

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  7. Na minha opinião, nem você e nem elas estavam certas. O lugar pede uma roupa social, e se você não gosta ou não consegue ficar de salto por muito tempo, existem sapatos sociais e bonitos com saltos baixos e confortáveis. Mas, usar roupa do dia a dia em um teatro, não acho legal. Acho até desrespeitoso. Então, assista pela internet, na sua casa, e de pijamas.

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