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31 de dezembro de 2025

Gerald Thomas chama o público de otário e sai aplaudido de pé

 

            A obra O porco, de Nelson Leirner, foi enviada em 1967 para o 4º Salão de Arte Moderna de Brasília. Depois de aprovada, Leirner escreveu para o Jornal da Tarde questionando os motivos para a escolha, deixando claro que os curadores aceitaram aquele porco empalhado, dentro de um engradado de madeira, por ele já ser um artista conhecido, não por algum valor artístico intrínseco à obra.



            Agora, no final de dezembro de 2025, saiu de cartaz a peça Sabius, os moleques, de Gerald Thomas. Foi dito que a peça tem uma “linguagem determinada a reiterar verbos, excessos e sínteses, com furiosa dicção capaz de arregimentar contradições, cicatrizes históricas e feridas que sangram à luz do liberalismo e das vanguardas”. O mesmo poderia ter sido escrito pelos curadores que, depois da humilhação pública feita por Nelson Leirner, tentaram justificar o motivo pelo qual haviam selecionado O porco para o Salão de Arte Moderna.

            Escrevendo para o jornal O Estado de São Paulo, o crítico Dirceu Alves Jr diz que “Em Sabius, Os Moleques, o dramaturgo e diretor Gerald Thomas, de 71 anos, criou a metáfora de um planeta Terra suicida que sucumbiu à humanidade.”, que a peça “é uma distopia sobre o caos gerado pela exaustão e a falta de psicotrópico suficiente para salvar o mundo.”. Que Thomas “criou mais uma dramaturgia visual em que as imagens se sobressaem às palavras.”.



            Já eu acho que a fama de Gerald Thomas permitiu que fosse colocada no palco uma peça que ele nem mesmo acabou e que críticos e amantes do teatro vão se contorcer para dizer que aquilo foi maravilhoso. Ou vão engolir qualquer bobagem que o autor disser para descrever a peça como se estivessem engolindo um pedaço engordurado de pernil. A carreira de Thomas vai permitir que ele coloque um monte de pequenos textos mal-acabados e desconexos no teatro, que ele até mesmo trate com desdém verdadeiros mestres do teatro como José Celso Martinez Corrêa, e ninguém vai se levantar para vaiar.

            O público só ficou sentado, embasbacado, fingindo que entenderam o grande Gerald Thomas por mais que nada daquilo fizesse sentido. Enquanto isso, Thomas lhes cuspiu na cara, colocou na própria peça o fato de só ter escrito até ali. Contou em entrevistas que havia terminado a peça dias antes. E, assim como frequentadores de museus hoje olham O Porco na Pinacoteca e fingem entender o significado da obra, as pessoas na plateia se levantaram e aplaudiram Sabius de pé.

 

30 de setembro de 2016

Convivendo na Cidade

___Ao escrever “O bonde passa cheio de pernas: / pernas brancas pretas amarelas. / Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração. / Porém meus olhos / não perguntam nada.”, Carlos Drummond de Andrade expressou o assombro de se olhar o caos de uma cidade grande. Muitas pessoas –, muitas pernas – e pouco contato humano. 
___Essa visão um tanto melancólica da vida em cidade não é incomum. Algo bastante compreensível: é fácil sentir-se só em meio a uma multidão, ser empurrado e ignorado em um bonde ônibus lotado. Em outras palavras, é fácil olhar para a vida urbana de maneira triste, “comovido como o diabo.”. 

Tira de Rafael Sica

___Por isso mesmo, foi maravilhoso assistir o espetáculo Mapas Urbanos, da Caleidos Cia. de Dança, dirigido por  Isabel Marques e codirigido por Fábio Brazil. Um lindo trabalho de dança e comunhão com o público, que tem como foco a vida na cidade. 

Mapas Urbanos

___Dividido em 5 cenas bem distintas, o público se vê, o tempo todo, interpretando a mensagem passada pelos dançarinos e participando. Com o passar da peça, cada vez mais clara vai ficando a ideia de boa convivência no ambiente urbano, seja permitindo que uma faixa de pedestres seja um lugar seguro (e, portanto, gostoso para brincadeiras), seja dividindo guarda-chuvas (sempre em menor número do que as pessoas) ou participando de uma manifestação (sem violência policial). 

Mapas Urbanos

___A mensagem de convivência harmônica que a peça passa e a própria participação cada vez mais natural do público faz tudo parecer doce. Chega a ser difícil sair da peça sem pensar no quanto é importante dividir o espaço urbano. Não foi à toa que, na saída do espetáculo, eu consegui arrumar uma carona simplesmente pedindo entre as pessoas da plateia. Mesmo sem lua e sem conhaque. Poesia pura. 

Tira de Liniers

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P.S.: Então, depois de escrever um texto elogiando o Mapas Urbanos, faço um post scriptum anticlimático: eu fui ver o espetáculo na última semana em cartaz. Por enquanto, não dá para assistir.
P.P.S.: Por outro lado, a Caleidos Cia. de Dança, neste ano, está revisitando seu repertório (exatamente o caso do Mapas Urbanos, que é de 2011). Em outubro, eles vão apresentar Mairto, de 2015. Em novembro e dezembro, dois espetáculos inéditos. Informem-se pelo site

2 de fevereiro de 2015

As flores de plástico não morrem


___É clássico, principalmente em estreias, que o público jogue flores no palco em que uma cantora acabou de apresentar um espetáculo. Só que, por vezes, a obra de arte que foi apresentada merecia flores, mas o público não as tinha. Ou o espetáculo e o público eram outros. 
___Dançarinos, às vezes, cultivam alguns costumes diferentes de outros artistas. Como já comentei por aqui, no teatro não se deve desejar boa sorte para um ator. O educado seria desejar um doce “Quebre a perna.”. Para um dançarino, entretanto, esse desejo pode ser um pouco perigoso. Deseja-se, então, o carinhoso “Merda.”. 
___O mesmo acontece com as flores. A não ser que o foco seja uma dança exageradamente estereotipada, não se costuma levar rosas para um salão de baile. 


___O que fazer, então, se alguns dançarinos se apresentarem de maneira tão espetacular e merecerem mais do que simplesmente aplausos? Bem... se quem dança valoriza as pernas, também deve valorizar os pés. Portanto, nada mais natural que a homenagem venha dos sapatos. Ao invés de se jogar flores, é possível jogar sapatos. 
___Deleitem-se com o exemplo dos franceses William e Maeva dançando lindy hop


9 de setembro de 2014

Uma candidata a menos

___Existem várias formas de decidir em quem votar.* E mais formas ainda de decidir em quem não votar. 
___Pessoalmente, evito votar em candidatos que defendam certas posições que eu não compartilho. Tenho nojo de políticos que ignoram os Direitos Humanos. Não voto em (e ainda faço campanha contra) políticos que não respondem aos cidadãos. Claro, também não voto em um político corrupto. 
___A corrupção pode ser manifestada de diversas formas. Seja vendendo sua posição por apoio, seja desviando dinheiro da construção de estações de metrô. Uma forma bem comum e simples de corrupção é usar o poder político para benefício próprio. O problema de um candidato que nunca foi eleito, é que os eleitores não têm como saber se ele vai usar o poder em benefício próprio caso seja eleito. 
___No entanto, o acaso permite que, com pequenos exemplos, seja possível descobrir isso. 

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___Tarde de domingo, estou na Praça Roosevelt, na fila para assistir a uma peça de teatro. Enquanto espero, chega uma candidata. Conhecida de algumas pessoas de uma rodinha próxima, ela fala um pouco sobre a sua campanha.
___Ouço as bandeiras que a candidata defende e fico bem satisfeito. Parecem propostas interessantes, sensatas, justas. Dou uma de intrometido, bato no ombro da moça e peço um santinho. Sorrindo, ela me entrega. 
___Toca o primeiro sinal do teatro. A fila, que até então estava pequena, cresce rapidamente. Pouco depois, olhando para o amontoado de gente, a candidata não se faz de rogada: vai até o começo da fila, cumprimenta outras pessoas e fura a fila.

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___Não sou capaz de predizer quais serão as atitudes de um político caso seja eleito. Mas, se como um simples cidadão, esse político já se mostra desonesto com pequenas coisas, como ele espera inspirar confiança? O que me garante que essa pessoa não vai abusar do poder quando for eleita?
___Portanto, cara Flávia Costa, candidata a deputada estadual por São Paulo, número 65235, se como cidadã você aproveita alguns conhecidos para furar uma fila de teatro, não espere receber o meu voto. Aprenda a agir corretamente, dê bons exemplos, antes de sair por aí tentando se eleger.  

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* Procuro, por exemplo, votar sempre em candidatos mais à esquerda.



4 de setembro de 2014

Dançar, cantar e ensinar

___Cada professor tem suas características, gostos e talentos. Saber aplicá-los ao que se ensina é um bom caminho para enriquecer as aulas usando o que se tem à mão. Uma professora de Matemática apaixonada por xadrez pode muito bem trabalhar com o tabuleiro; o professor Luiz Tatit usa seus conhecimentos musicais para complementar suas aulas de Semiótica; eu, dançarino de profissão, já usei diversas vezes a dança como documento histórico a ser analisado em sala de aula.*
___Usar o que se tem à mão, também significa não perder ótimas oportunidades. Cely Kzk, mezzosoprano e relações públicas do grupo Bendita Folia, entrou em contato comigo para discutir sobre um projeto de levar música vocal para escolas públicas. Expliquei a ela como as escolas e suas burrocracias funcionam, passei alguns telefones, dei dicas de lidar com algumas situações escolares. Toda essa conversa, acabou rendendo um concerto didático teste em uma das escolas em que eu leciono. 

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___Acho lindo e importantíssimo que estudantes tenham contato com a música. Considero imprescindível que professores indiquem para seus alunos concertos, shows, encontros de repentistas e o endereço do barbeiro do Hermeto Pascoal. Entretanto, apenas trocar uma aula por um concerto, sem nada mais do que isso, parece-me simplesmente trocar seis por meia dúzia. 
___Para que o uso de algo que o professor tenha à mão torne-se realmente válido para o trabalho que é feito em sala de aula, aquele extra deve, mesmo que de forma leve, encaixar-se com o curso. Por isso mesmo, antes de marcar a data de apresentação com o Bendita Folia, pedi a eles o repertório. Com o programa em mãos, estudei as músicas e vi em que momento elas poderiam ser bem relacionadas com os assuntos que eu estava trabalhando. Eles vieram, então, no fim de agosto, quando eu estava falando sobre governos totalitários com os alunos do 3º ano do Ensino Médio. 

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___Os músicos do Bendita Folia prepararam um concerto extremamente didático. A formação técnica em canto erudito permitiu que, de maneira extremamente clara, eles explicassem para os alunos diversos conceitos musicais importantes.

Grupo Bendita Folia, em concerto didático, na ETESP - Aula de História do Trida

___A maior parte do repertório escolhido foi de MPB, da década de 1930 para frente. No entanto, para, didaticamente, mostrar diferenças, os cantores começaram com a música renascentista “Les Chant des Oiseaux”, de Clement  Janequin. 
___Aproveitando o ponto de comparação bem anterior às outras músicas que seriam cantadas, comecei a falar como os regimes totalitários utilizavam o passado. Por exemplo, os fascistas, em pleno século XX, diziam-se herdeiros das glórias do Império Romano.** Não foi à toa que um dos símbolos utilizados pelos partidários de Mussolini foi o fascio littorio (o feixe de varas carregado pelos lictores, na Roma Antiga), que acabou dando nome ao fascismo. 

M. Ulisses Trida e o fascio littorio fascista

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___Conseguir trazer músicos para a sala de aula foi complicado. Associar o repertório com o conteúdo a ser ensinado para os estudantes, deu um trabalho descomunal. Mesmo assim, foi uma oportunidade extraordinária para os alunos. Uma sociedade que realmente valorizasse a Educação não faria uma atividade como essa ser algo tão raro. 

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* Na última sexta, vale acrescentar, analisei alguns aspectos da Era Vargas dançando samba de gafieira com a fantástica Gislene Souza.
** O mesmo Império Romano que fazia parte da Antiguidade Clássica – aquela que os renascentistas diziam representar o seu “renascimento”. 


1 de março de 2014

Variações de um mesmo tema – exemplo musical

___Admiro bastante quem trabalha como ator. Mesmo assim, é uma profissão que eu nunca teria. Não suportaria ficar repetindo o mesmo texto, sem nenhuma variação, noite após noite. Exatamente por isso, gosto de preparar aulas diferentes a cada vez que eu vou abordar um conteúdo. Por menor que seja a diferença, é uma delícia encontrar infinitos modos de se falar sobre a Revolução Francesa. Músicos parecem ter a mesma vantagem de poder variar dentro do mesmo tema. Só não é fácil de encontrar quem o faça de maneira bem feita. 
___Uma amiga querida me deu um par de ingressos para assistir Palavra de mulher, dirigida por Fernando Cardoso*. Trata-se de um espetáculo leve, de cerca de uma hora e meia, com três músicos e três cantoras interpretando músicas de Chico Buarque feitas para eus líricos femininos. Ambientado em um cabaré, as três cantoras revezam e cantam em grupo, proporcionando um show gostoso para quem aprecia as músicas do Chico. 
___Por mais bacana que tenha sido o espetáculo, o que realmente o fez valer a pena para mim foi presenciar o desempenho de Virgínia Rosa

Virgínia Rosa

___Além de cantar de maneira espetacular, Virgínia interpretava suas músicas de maneira ímpar: movimentava bem o seu corpo, mexia suas roupas segundo as músicas e modificava sua voz dependendo da situação. E foi exatamente pelos malabarismos que Virgínia Rosa fazia com a própria voz que eu pude ver uma cantora variando espetacularmente dentro de um tema que eu conheço bem – as canções de Chico Buarque. 
___Mesmo com o preço salgado, recomendo Palavra de mulher para quem gosta das músicas do Chico Buarque. Exatamente pelo espetáculo que Virgínia Rosa proporciona, recomendo Palavra de mulher para quem gosta de música. 

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Serviço:
Palavra de mulher
Alameda Santos, 2233 (São Paulo).
Horário: sextas 21h30; sábados 21h; domingos 18h. Até 23/III/2014.
Ingressos: sexta R$ 50,00; sábado R$ 80,00; domingo R$ 70,00.

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* Fernando Cardoso fez parte da direção de produção da horrível peça de dança-de-salão-autoajuda Seis Aulas de Dança em Seis Semanas. Mas, não deixem que isso deponha contra o atual espetáculo. 

21 de julho de 2012

Com que roupa?

___Fui contratado para dançar em um dos dias que o André Rieu se apresentou em São Paulo.* Ao telefone, pegando as informações do serviço com a moça que estava me contratando, perguntei:


André Rieu


___– Que roupa que eu devo usar?
___– Ah, fica tranquilo. É para parecer que você e a sua parceira resolveram dançar embalados pela música, como se fosse completamente espontâneo e natural. Vá com a mesma roupa que você usaria para ver um concerto de música clássica.


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___Não sou o maior frequentador de concertos de música clássica, mas já fui diversas vezes. Minha média é de mais ou menos um a cada dois meses.
___Para quem nunca foi, falo rapidamente sobre as roupas que as pessoas usam. Sempre existe um pessoalzinho que não dispensa roupa social e umas pessoas mais à vontade – de jeans e camiseta. Se muito não me engano, tirando ao ar livre, nunca vi ninguém de chinelo, bermuda e afins. Engraçado mesmo são as óperas: enquanto algumas pessoas como eu vão de jeans, já vi mulheres de vestido longo e homens de smoking. (Não, não era o maestro.).


Escravo da roupa, por Troche


___Sempre tentei entender por que diabos alguém vai a uma ópera que dura, por vezes, mais de três horas com um vestido que não é nada confortável, que não vai deixar você sentar a vontade. Parece (Só parece?) que é mais importante ostentar riqueza, ostentar a roupa, ostentar a ida à ópera, ostentar a própria idiotice, do que apreciar o que vai ser representado no palco.


Escrava da roupa, por Troche
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___– Ah, que bom –, falei para a moça que estava me contratando –, posso usar a mesma roupa que eu usaria para ir a um concerto normal? Achei que eu não poderia usar calça jeans.
___– Credo, Ulisses! É claro que você não pode usar calça jeans. Vai ter uma orquestra lá.


Roupas e o preconceito de classe, por Troche


___Fiquei com vontade de perguntar se uma orquestra merecia me ver com roupas “melhores” do que o Emicida, os meus alunos, a minha esposa, o motorista do ônibus, o médico do SUS, o Mestre Yoda ou a presidenta, mas, pelo bem da minha contratação, desculpei-me e fui para o armário conferir como estava a minha roupa social.


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P.S.: Os quadrinhos que ilustram esta postagem pertencem ao fantástico cartunista argentino Gervasio Troche. Seu trabalho me lembra um pouco o do brasileiro Rafael Sica. Recomendo ambos entusiasticamente.


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* Antes que me perguntem, respondo aqui no rodapé: Os músicos não são ruins, mas o show em si é só uma reunião do que existe de mais famoso na música clássica e alguns extras. Se você ouvir por mais de duas vezes, vai parecer banda de festa de casamento/formatura: sempre o mesmo repertório. Por fim, o pior de tudo é que o Rieu desce a música clássica ao patamar da auto-ajuda: tudo é “O mais lindo!”, “Essa música vai fazer vocês felizes para sempre!”, “Vocês são o melhor público que eu já tive!”, “Adoro o Brasil!”, “Depois de ouvir esta valsa você vai influenciar pessoas, fazer amigos, liderar como Jesus Cristo, ter um pai rico e comer o queijo do seu chefe!” e mais um incontável número de exclamações elogiosas para tudo.

5 de março de 2012

Ao vivo

___Um dos grandes encantos do teatro é a chance única de ver os atores, naquele momento, fazendo de tudo para interpretar aquela peça, para aquele público. Como tudo acontece ao vivo, o que está sendo visto naquela oportunidade pode nunca mais se repetir. Mesmo sendo ficção, a vida está sendo mostrada, escancarada, ali, na sua frente.
___Só que uma vantagem, sempre pode passar a ser uma desvantagem. Já recebi a grana do ingresso de volta porque a atriz do monólogo não apareceu; assisti uma peça em que uma atriz (coitada) quebrou o braço no dia e, mesmo assim, atuou; aturei atores que não sabiam o texto correrem atrás de uma cola para recitar a próxima fala. De todos, o caso mais triste que eu já presenciei aconteceu faz umas duas semanas.
___Cheguei achando o teatro até mais vazio e escuro do que eu esperava. Quando me aproximei da única luz do local, a bilheteria, vi a atendente chorando. Provando que eu sou um monstro sem coração, mesmo assim fui pedir um ingresso. A moça enxugou o rosto e, com os olhos ainda úmidos, disse:
___– Hoje não tem peça. O ator principal acabou de ser atropelado.
___Agradeci um tanto envergonhado, ao mesmo tempo em que ia me afastando. Teatro: a vida sendo mostrada, escancarada, ali, na minha frente.

10 de fevereiro de 2012

Torcendo pelo espetáculo

___Quando se vai a uma peça de teatro, palestra, espetáculo de dança ou qualquer outro evento ao vivo, o que mais se espera é que a apresentação seja brilhante, maravilhosa e que aqueles momentos na plateia sejam únicos. Claro, esse é sempre o principal desejo, o motivo pelo qual se sai de casa. Só que não é sempre que se pode ver algo fabuloso. Por isso mesmo, meu segundo desejo é sempre o da desgraça.
___Não sou maluco, não estou torcendo para que no meio de uma peça de teatro levante um idiota gritando “Receba-me, Alá!” ou “Seus pecadores! Agora Cristo vai julgar vocês!”, para depois se explodir e matar metade da plateia. Torço para que aconteça uma tragédia no palco.
___Fico querendo que o ator confunda as falas e agradeça Godot pela sua chegada antecipada, que o palestrante e o mediador saiam no tapa, que a dançarina tropece e derrube o parceiro para fora do palco. Se eu tive de pagar pelo evento, então, minha torcida pela tragédia é maior ainda.
___Eu sei que, falando assim, fica parecendo que sou uma pessoa maldosa, sem coração, que esmaga passarinhos na mão. Mas, não é bem assim. Meu principal desejo, como eu disse no primeiro parágrafo, é de ver algo fabuloso. Sendo assim, sempre sento na plateia torcendo pelo melhor, para que tudo dê completamente certo. Entretanto, se, no desenrolar da peça, eu percebo que nada está funcionando naquele palco; se, no começo da palestra, o maldito palestrante começa a ler um longo e monótono texto; se, depois de alguns passos, é possível perceber que aquela coreografia não foi bem pensada e talvez nem tenha sido ensaiada; se percebo que quem está no palco não teve respeito pelo seu público, torço pelo pior.
___As pessoas saíram do conforto dos seus lares para assistir aquilo, estão perdendo tempo da vida delas, o mínimo que os artistas, palestrantes e afins devem fazer é tentar proporcionar o maior espetáculo da terra. Se não se esforçaram ou não estão se esforçando, merecem mesmo o maior dos desastres. Se os artistas e palestrantes não são competentes para saberem que aquilo é ruim, têm mesmo é de sofrer.
___Se o ator ruim de uma peça péssima engasga e morre no palco, aquele momento medíocre torna-se fabuloso, único, digno de nota. Se o palestrante preguiçoso é questionado e humilhado pela plateia, se fica sem reação diante de perguntas inteligentes, aquela palestra vazia pode se tornar realmente um momento de aprendizado, pode vir a ser interessante. Torço pela desgraça porque torço pelo espetáculo, pelo fabuloso. Se quem está no palco não pôde proporcionar o esplêndido, que o Acaso possa.
___Por fim, é bom dizer, minha torcida pela tragédia é a mais humana e doce das atitudes. Pode até não parecer, se vocês pensarem apenas em quem está no palco ou no tablado, mas não são só os artistas e palestrantes que estão lá –, existe também todo o público. É algo simples e lógico: o bem de muitos (a diversão do público, da maioria) é mais importante do que o de poucos (dos artistas, do palestrante). E pelo menos a plateia vai ter algo de interessante para se lembrar.



21 de dezembro de 2011

Jogo de pé

___Apresentar uma boa coreografia leva apenas alguns minutos. Entretanto, aqueles minutinhos, para que pudessem acontecer, consumiram meses de trabalho dos dançarinos entre pesquisa, escolha da música, montagem da coreografia e infindáveis e repetitivos treinos. Para quem assiste a apresentação, só há o deleite.
___Só que, mesmo com muito cuidado e treino, algo pode dar errado e colocar tudo a perder. No meio da coreografia, o som pode falhar, a cortina pode descer fora de hora, o lustre pode cair no público ou o tênis de um dos dançarinos pode desamarrar.


Gastón Fernández - tênis desamarrado


___Foi o que aconteceu no mais importante evento de lindy hop do país neste ano. No meio da apresentação de Gastón Fernández e Tina Rizza, o tênis do Gas desamarrou. Deem uma olhada na coreografia toda (o cadarço começa a ficar solto por volta de 1’50”):


[embed width="550"]http://www.youtube.com/watch?v=NDtTN-uEUBM[/embed]


___Do mesmo jeito que um detalhe como um cadarço desamarrado pode desconcentrar, levar o dançarino ao chão, em suma pode estragar uma coreografia, a presença de espírito de contornar o problema só faz o espetáculo ser mais espetacular.


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P.S.: Para quem se interessa por lindy hop, é bom lembrar: Gastón e Tina são os organizadores do mais importante festival de swing da América Latina, o LHAIF* – que vai acontecer daqui a pouco, entre 5 e 8 de janeiro de 2012, em Buenos Aires. Mais informações aqui.


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* Lindy Hop Argentina Internacional Festival.

18 de julho de 2011

Notícias do Casório

___Mais de uma semana sem publicar nada aqui no Incautos. O último texto foi publicado no dia do jantar familiar que celebraria o meu casamento. Se bobear algum leitor está até pensando: "Ah... Esse Ulisses deve estar em uma interminável e devassa lua-de-mel, com muito sexo, chantili, couro e algemas.". Infelizmente, leitores, não foi exatamente isso. Claro, estou tendo minhas deliciosas núpcias e meus pulsos estão vermelhos; porém, minha demora em postar qualquer coisa tem sido por conta da mudança de casa.
___Deixando as explicações de lado, para quem está curioso para saber do casamento, fica uma sinopse básica.


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___A festa começou meia hora antes do combinado, já que um tio da noiva achou por bem chegar mais cedo. Procurando ser um bom anfitrião, fui recepcioná-lo para, então, ouvir que “Não, não... Não quero entrar. Prefiro ficar vendo o jogo de futebol aqui na portaria.”. Quando eu achei que o tio excêntrico da minha mulher já havia chegado, entra no prédio o segundo, de óculos escuros. Ou melhor, tenta entrar, pois o segundo tio, não percebendo que a porta era de vidro, bateu a cara e caiu no chão.
___Arrumei uma cadeira para o primeiro tio, um saco de gelo para o segundo e um remédio de dor de cabeça para mim. Minha festa começava com augúrios tão bons quanto os de uma peça grega que principia com urubus sendo vistos no céu.
___Apesar disso, no geral o evento foi bastante bom. Boas conversas, gente querida, boas danças. Porém, lá pelo meio, eu entendi os funestos augúrios de tragédia grega. Ser anfitrião é insuportável: você fica correndo para todos os lados, tentando dar atenção a tudo e a todos e obviamente não consegue. Conversa com um casal aqui, corre para perto de uma pessoa que parece deslocada, tira fotos com convidados, evita que aquele gremlin caia na água, mostra onde fica a comida. Voltando aos gregos: igualzinho um tal de Sísifo carregando uma pedra morro acima.
___O melhor de tudo, claro, foi o casar em si. Diga-se de passagem, foi fantástico fazer isso de maneira nada religiosa, sem nenhum padre, rabino, mestre jedi ou pastor. Eu mesmo celebrei minha união com a Marcela. Até perguntei se alguém tinha alguma coisa contra - para falar naquele momento ou se calar para sempre (e fiz isso baixinho, para minha sogra não escutar).


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___Enfim, estou casado. A reforma do meu apartamento não terminou, mas nós já mudamos. Hoje somos um casal feliz, vivendo junto de pedras, cadeiras improvisadas e areia. Se sair água salgada da torneira, vou achar que vivo na praia.


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P.S.: Pobre que sou, não achei que conseguiria, com facilidade, objetos para minha casa. Meus parentes e amigos são uns fofos e me ajudaram bastante. Agradeço muito a todos.
P.P.S.: Vocês leitores também são uns fotos. Falei que eu ainda não havia ganhado panelas e fui presenteado por uma enxurrada de objetos de cozinha. Obrigado mesmo.

23 de junho de 2011

Aplauda com moderação

___Imaginem como deve ser horrível terminar uma peça e ninguém aplaudir. Ou uma palestra sendo concluída sem nem um simples bater de palmas. Horrível, não? Dificilmente palestrantes ou atores não sairiam arrasados do lugar. Porém, admitam, por mais chata que seja a situação, ela é minimamente plausível.
___Agora, como um simples exercício, vamos inverter a situação. Concebam o absurdo que seria se, durante toda a palestra, o público resolvesse aplaudir descontroladamente. O pobre professor se matando para tentar explicar o complicadíssimo conceito de como é possível interpretar o Mito da Caverna sob um viés foucaultiano e as pessoas batendo palmas e berrando sem parar. Nem o palestrante conseguiria ouvir a própria voz, imaginem o resto da platéia.
___O mesmo para o teatro. Primeira Cena, do Terceiro Ato, de Hamlet. Por um lado do palco saem o Rei e Polônio; do outro, entra Hamlet. Como os aplausos ainda estão fortes pela saída dos outros dois atores, aquele que interpreta Hamlet espera um pouco antes de começar seu famoso monólogo. Assim que finalmente o silêncio se instaura, ele começa:




Ser ou não ser... Eis aUUUUUUUURRRRUUULLLL! Clap, clap, clap... É isso aí, Hamlet!... e dar-lhes fim tentando resistir-lhes? Morrer... dormir... mais nadCLAP, CLAP, CLAP, CLAP, CLAP!...lução para almejar-se. Morrer.., dormir... dormir... Talvez sonhar... É aí que bate o ponto. O não SabFIIIIIIIIIIIIIIUUUUUUUU! Tá mandando muito, ô birutinha!... faz covardes a consciência. Desta arte o natural frescor de nossa resoluçãoClap, clap... GATÃÃÃÃO! Clap, clap...... reflexões, e até o nome de ação perdem. Mas, silêncio! Aí vem vindo a bela Ofélia. EmGOSTOSAAAA! Clap, clap, clap... Quebra tudo, Ofélia! Se joga!



___Bruta falta de respeito, não? Ao fim da peça, não vai dar para saber nem se tinha algo fora da validade no Reino da Dinamarca.
___“Ah, Ulisses, mas é uma homenagem a quem está lá na frente.”. Homenagem maior seria prestar atenção e, depois, aplaudir – respondo eu. “Ah, Ulisses, ninguém faz isso em uma peça ou palestra.”. Fazem sim (não de maneira tão exagerada) e eu sempre acho desrespeitoso. “Ah, Ulisses, palestrantes e atores têm como contornar isso. É só esperar que o público pára e aí o cara continua a fala.”. Minha grande questão é: e se eles não puderem esperar?


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___Na dança de salão existe o péssimo costume de se assistir coreografias como se as pessoas estivessem em um jogo de futebol. Aplausos e gritos são ouvidos o tempo todo. Só falta alguém desenrolar uma bandeira. Em uma partida, entretanto, a visão resolve.
___Ao dançar – é sempre bom lembrar –, os dançarinos estão interpretando uma música. Uma música contínua, que não pára e espera os aplausos, que começaram no meio dela, pararem. Abafar o som da música com barulhos ensandecidos só destrói parte da beleza do que está sendo feito. Uma dança não é composta só de movimentos ao léu.
___Olhem uma coreografia de samba de gafieira com Jimmy de Oliveira, Suellen Violante, Leo Fortes e Robertinha.


httpv://www.youtube.com/watch?v=o9H8__KBZV8


___A coreografia foi toda montadinha, cheia de brincadeiras com a música. Movimentos clássicos de samba foram cuidadosamente escolhidos para se encaixarem com o que estava sendo tocado. Porém, infelizmente, muito se perde. Toda a gritaria do público acaba abafando a música e impedindo que se perceba grande parte do que foi trabalhado pelos dançarinos.
___Os aplausos, gritos e afins estimulam quem está dançando? Claro. Só que um coreógrafo obviamente não fica nada estimulado em trabalhar com cada detalhe de uma música se sabe que ninguém vai conseguir ouvi-la. Estímulo maior – para dançarinos e coreógrafos – seria prestar atenção ao que está sendo mostrado, entender a coreografia e, então, quando a apresentação terminar, aplaudir até as mãos sangrarem.
___Discordam de mim? Acham que eu sou um chato idiota por escrever isso? Se quiserem, agora, é só encher os comentários de vaias. Entretanto, fico satisfeito por imaginar que vocês leram o texto até o fim – e em silêncio.


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P.S.: Aproveitando o assunto, mostro mais um vídeo. Agora de West Coast Swing.


httpv://www.youtube.com/watch?v=pTDIuwYvyDk


___Eu vi essa coreografia antes que ela fosse mostrada para o grande público. Toda redondinha, cheia de firulas fundidas com a música, mas que se perdem por conta da gritaria. Só para dar um exemplo rápido, revejam o começo: o Edson Modesto e a Cintia Fiaschi não só mexem as pernas em perfeita comunhão, eles o fazem em uníssono com a música (17”) –; só que apenas é possível perceber isso no vídeo quando o footwork já está no meio (24”). É uma pena, originalmente era um belo efeito.
P.P.S.: Já que eu falei de West Coast Swing, da Cintia Fiaschi e do Edson Modesto, vale citar que hoje começou o congresso de dança que eles estão organizando, o West em Sampa. Vai até dia 25 de junho. Mais informações aqui.

18 de abril de 2011

Comentários sobre a Virada Cultural

___Desde o finalzinho da tarde de sábado, rolou, aqui em Sampa, a Virada Cultural – 24 horas de atividades culturais espalhadas por diversos cantos da cidade (com um enfoque muito maior no Centro). Eu me diverti horrores. Enquanto me divertia e flanava pela cidade, fiquei com vontade de fazer publicamente vários comentários, de contar algumas histórias. Seguem abaixo.


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___Não tenho dúvidas de que as pessoas exageram bastante com essa ideia de morte prematura dos jornais e revistas impressos por causa da internet. Enquanto revistas semanais continuarem vendendo uma página determinada (apenas uma!) por mais de 200 mil reais*, achar que esses veículos vão acabar logo é ilusão.
___Mesmo assim, ver os guias da Virada publicados pelos jornais totalmente incompletos, com indicação para o site www.viradacultural.org como solução para preencher as lacunas é muito bizarro. É praticamente um atestado de que a turma dos impressos está a entregar os pontos.


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___Todo ano aparecem os chatos que conclamam que “Não tem nada de bom neste ano! A Virada passada estava muito melhor.”. Normalmente, não se explicam, não argumentam, apenas dizem sentir saudades de um passado idílico – em que devia chover leite, camisinhas e mel.
___Sempre acho que essa gente ficou as 24 horas em casa ou que fomos a eventos diferentes. Só para citar duas boas pedidas deste ano:
- o palco diferente de stand-up comedy;
- o pessoal do Beatles 4ever apresentando a discografia completa do quarteto inglês em ordem cronológica.
___Os dois eventos foram ótimos e duraram a Virada Cultural inteira. Só é possível dizer que não havia nada de bom para ver ficando em casa.


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___Adoro encontrar algumas pérolas por mero acaso.
___Fui ver o Encontro de Contadores de Histórias, no Centro da Cultura Judaica: o tema da noite eram histórias indígenas. Difícil não ser bacana.
___O fantástico é que, além das clássicas e interessantes histórias indígenas, conheci a contadora Kiara Terra. Com a proposta de uma “História Aberta”, Kiara montou, com as intervenções do público, a narrativa de um mito indígena de criação. Fiquei completamente apaixonado.


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___Procurando um palco específico, fui pedir informações para um par de policiais. Um deles me respondeu simpaticamente, enquanto o outro ficou me olhando desconfiado, mão no cassetete.
___Afastei-me, depois de falar com eles, e me dirigi à minha noiva que, de longe, apenas observava a cena.
___– Amor, você viu como um dos policiais estava me olhando?
___– Vi...
___– Por que será que o segundo parecia tão desconfiado?
___– Culpa sua. Você vai pedir informações com isso na cabeça. – respondeu ela, olhando para cima.
___Para não queimar a minha cabeça (que cada vez parece ter menos cabelo para se proteger sozinha), fui à Virada de boné. O problema é que era um boné do MST. Será que o segundo policial ficou receoso que eu fosse invadir algum palco improdutivo?


Boné - MST


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___Se plantassem uma flor para cada imbecil que já existiu, o mundo seria um gigantesco jardim. Mesmo assim, felizmente, durante o dia-a-dia, os idiotas acabam diluídos pelo cotidiano. São nos seus horários de folga e – principalmente – quando estão em grupos que os imbecis fazem questão de deixar claro para todos quem são.
___Cito dois casos ilustrativos, presenciados durante a Virada Cultural, de como os idiotas se sentem mais à vontade para mostrarem seus talentos quando em manada grupo.
___Em meio a uma peça na rua, três rapazes pararam a certa distância do palco e começaram a mexer com uma das atrizes. Ignorados, eles começaram a gritar, impedindo qualquer um de ouvir a montagem. A baderna só parou quando a atriz, docemente, fez um tchauzinho e convidou-os para ver o espetáculo. Não que eles tenham parado para ver, mas, depois do convite, resolveram se retirar.
___O segundo caso aconteceu no metrô. Lendo calmamente em um banco do trem, ouvi uma grande algazarra. Levantei os olhos e vi um monte de jovens, cabelos e roupas coloridas, correndo para o próximo vagão. A porta fecha; abre novamente. No alto-falante, um funcionário do metrô pede para que os passageiros não segurem as portas do trem. O metrô parte, chega à próxima estação. A cena se repete: gritaria, o mesmo grupo de jovens correndo para algum vagão, porta fechando e abrindo, trem demorando para partir.
___Na estação seguinte, novamente a balbúrdia. Desta vez, o grupo que fazia a molecagem entrou no vagão em que eu estava. Alguns entram e começam a gritar “Segura! Segura a porta para o resto entrar.”. Vejo que o grupo é bastante grande. Junto com eles, entra um par de seguranças. O mais alto começa a gritar:
___– Vamos parar com esta putaria! Vocês acham que só vocês pagaram passagem? Não percebem que estão atrapalhando a viagem de todo mundo? Se isso acontecer novamente, eu faço todo mundo descer na próxima estação!
___O grupo finalmente pára quieto. Será que pararam por medo do segurança ou, com a fala dele, finalmente perceberam que estavam incomodando a todos segurando o trem? Imagino que seja pela primeira opção, a vida dos outros não parecia realmente uma preocupação para aquele rebanho.


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___Por fim, o fenômeno que mais me agradou na Virada Cultural deste ano foi a liberdade que os artistas de rua independentes conseguiram.
___Desde 2010, a prefeitura e o governo do estado vergonhosamente têm impedido a livre apresentação de artistas em alguns locais de São Paulo. Durante a Virada, entretanto, os artistas de rua aproveitaram a dificuldade da polícia para identificar quem era contratado do governo e quem era artista independente e saíram pela cidade mostrando seu trabalho – e, claro, passando o chapéu. Pena que não é assim que acontece todos os dias.


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* Vide, por exemplo, o mídia kit da Veja.

21 de dezembro de 2010

Conhecendo as Lendas

___Mesmo empreendendo exaustivas pesquisas, mesmo admirando certas personagens históricas, um historiador normalmente não pode se aproximar dessas figuras. Não estou falando de historiadores buscando isenção em meio a uma pesquisa biográfica, estou falando de não poder se aproximar por pura impossibilidade material de alguém do século XXI d.C. chegar perto de, digamos, Sócrates, que viveu no século V a.C.. Ainda que o pesquisador conheça muito da vida do filósofo, mesmo que tenha certeza sobre suas intimidades e a sua cara feia, a aproximação é sempre parcial. O contato real, pessoal, nesse caso, é impossível.
___Imaginem então um contato bem direto: tocar Sócrates, conversar com ele, sentir seu cheiro. Quem sabe até passar uma receita de cicuta com uma rodela de limão. Impossível, certo?
___Pois bem, podem me criticar à vontade. Podem dizer que sou metido, que danço mal, que maltratam prisioneiros em Guantánamo com a comida que eu cozinho. Mas, ninguém pode questionar meu talento como historiador. Não estou falando do fato de que consigo entreter os alunos, deixá-los interessados e que, nas minhas aulas de História, todo mundo aprende. Não vim aqui para falar de aulas, mas, sim, de contato com personagens históricas. Digo: como historiador, ontem, tive mais contato com duas importantes figuras históricas do que muito pesquisador veterano.
___Eu conversei com Sócrates, andei ao seu lado, ele me fez perguntas, flertou comigo e até sentou no meu colo.
___Sim, mas não foi só ele. Eu disse duas importantes figuras históricas. A outra, é uma figura histórica contemporânea, que qualquer historiador ainda pode entrar em contato. Uma lenda viva, um dos mais importantes nomes do teatro nacional: José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso.
___Sabem o que o Zé Celso fez? Conversou comigo, andou ao meu lado, me fez perguntas, flertou comigo e até sentou no meu colo. Ontem, no Teatro Oficina, assistindo ao Banquete, tive o privilégio não só de ver uma ótima peça, como, também, de conviver, por algumas horas, com duas importantes figuras históricas – Sócrates e Zé Celso – no corpo de um homem só.


Zé Celso/Sócrates

15 de dezembro de 2010

Conselho para atores

___Se alguém, hoje, vier me perguntar o que eu acho que um ator deve aprender antes de subir em um palco, eu citaria um trechinho dO filho eterno, do Cristovão Tezza.




Lembra do exercício de Stanislavski dos seus tempo de comunidade, a cena realista e a cena falsa: a atriz procura o alfinete que perdeu, em gritos canastrônicos; Bem, diz o diretor, se você não encontrar mesmo o alfinete, será despedida. E ela passa a procurá-lo num silêncio tenso, centímetro a centímetro, a dramaticidade contida mas verdadeira, para a felicidade de todos” (p.173).



___Quanto ao resto, que quebre a perna.

27 de novembro de 2010

Nunca um gentleman

___É tão interessante estar atento a algo. Como vocês bem sabem, ando com mancadas de atores à cabeça. Por isso mesmo, sorri em demasia para um trechinho literário que, talvez, em outro momento eu desse pouca atenção.
___Eu estava lendo A volta do parafuso, de Henry James, quando, no quinto capítulo, a tutora começa a descrever para outra personagem, a Sra. Grose, o homem que ela havia acabado de ver. Após uma breve descrição do rosto do homem, a tutora termina dizendo “Ele me dá a impressão de se parecer com um ator.”, ao que se segue o seguinte:




___– Um ator!
___Era impossível comparar qualquer imagem com a de um ator para a Sra. Grose naquele momento.
___– Nunca vi nenhum ator, mas é assim que os imagino. Ele é alto, elegante, ereto, mas nunca – não, nunca! – um cavalheiro.*



___Sei que a palavra cavalheiro/gentleman tem outras mil acepções, mas, no momento, irritado que estou com os atores do mundo, esse pequeno efeito de ambiguidade me agrada.


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* No original:

“He gives me a sort of sense of looking like an actor.”
“An actor!” It was impossible to resemble one less, at least, than Mrs. Grose at that moment.

“I've never seen one, but so I suppose them. He's tall, active, erect,” I continued, “but never – no, never! – a gentleman.”


25 de novembro de 2010

Malditos atores!

___Escrever, dançar e coisas do tipo faz com que eu já tenha feito amizade com um número razoável de atores. Ser amigo de artistas significa muitas coisas: ser convidado para peças, conhecer os bastidores, conversar muito sobre textos e, principalmente, ouvir os atores reclamando que trabalhar com teatro não dá dinheiro, que ninguém paga nada para eles, que nunca surge trabalho, flap, flap, flap, blá, blá, blá...
___Tudo bem, eu concordo, não é uma profissão fácil. Manter-se financeiramente bem como ator não é tão simples como para médicos, advogados, blogueiros ou cafetões. Amante de teatro como sou, acho extremamente triste que não seja tão fácil assim para os atores viverem confortavelmente.
___Por isso mesmo, tento sempre apoiar bons trabalhos. Já indiquei mais de um aqui no blog, vivo recomendando peças para os meus alunos e, sempre que posso, estou em algum teatro assistindo como pagante. Inclusive, faz uns 3 meses, tive uma ideia interessante para animar uma das minhas aulas, aproximar os alunos do teatro e dar trabalho para um ator.
___Em uma das escolas em que eu leciono, estou trabalhando, desde o começo do semestre, com o Decameron, de Giovanni Boccaccio. Toda semana, os alunos leem pelo menos uma das cem novelas do livro e, juntos, fazemos uma análise histórica. Para proporcionar aos estudantes um dia diferente (e para ajudar quem trabalha com teatro), pensei em contratar um ator para apresentar um dos contos durante uma aula.
___A ideia básica era de uma apresentação curta (no mínimo 15, no máximo 30 minutos), com a interpretação de uma novela à escolha do artista, com total liberdade para a montagem. Entrei em contato, por e-mail, com cinco atores, para pedir orçamento. Dois nem me responderam, uma disse que estava ocupada. Os dois que sobraram ficaram debatendo comigo o que poderia ser feito.
___Fechei com um deles. Duas semanas antes do dia marcado para apresentação, o maldito me escreveu dizendo que havia sido convidado para gravar um comercial no dia combinado e não poderia mais se apresentar. Tentei o segundo ator. Marcamos tudo certinho, mas, no dia combinado, o infeliz não apareceu (apenas me mandou uma mensagem no celular dizendo que não poderia ir). Puto da vida, não entrei mais em contato. Procurei outros atores. Todos, cada um por uma razão, acabaram por não aceitar o trabalho.
___O último com quem entrei em contato disse que só teria disponível o dia 3 de dezembro, último dia de curso. Respondi que tudo bem, que seria legal fechar o curso com uma apresentação, e passei a negociar o preço. O ator disse que não sabia o quanto cobrar, para que eu fizesse uma oferta. Ofereci pela apresentação em uma aula, o que eu receberia por uma manhã completa de aulas. Ele retrucou que precisaria de cinco vezes mais. Incapaz de arcar com tanto, agradeci e dispensei os serviços do rapaz.


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___Tudo isso me chateia. É horrível ver tantos atores reclamando da falta de trabalho arrumando desculpas para não trabalhar. É extremamente incomodo um ator marcar uma apresentação e não aparecer. É chato ver que minha oferta do que eu recebo por uma manhã de trabalho não ser aceitável para que um ator aceite se apresentar por meia-hora.
___Neste momento, estou um tanto puto com os atores do mundo. Espero que todos quebrem suas pernas.

15 de agosto de 2010

Professor incauto

___Em meio a umas aulas sobre Iluminismo, falei do Marquês de Sade e indiquei para os meus alunos a ótima Trilogia Libertina dos Satyros – com 120 Dias de Sodoma (atualmente fora de cartaz), Filosofia na Alcova e Justine (ambas em cartaz). Dias depois, uma aluna veio me procurar, insistindo para que eu acompanhasse alguns alunos ao teatro para ver uma das peças. Sem que ela precisasse insistir muito, aceitei.
Aluna: Puxa, professor. Muito obrigada. Vou avisar todo o pessoal. Tem um monte de gente querendo ir.
Eu: Um monte?
Aluna: Sim. Quando você contou algumas partes dos livros do Sade o pessoal se empolgou. É bastante gente.
Eu: Ai, ai... Vou muuuuuuuito perder o emprego. Aposto vão aparecer uns pais com tochas e ancinhos na escola querendo que eu seja sodomizado em praça pública.
Aluna: HAHAHA
Eu: Se eu for demitido por ter feito meus alunos terem vontade de ir ao teatro, que demitam. Vou para a rua com honra!
Aluna: Professor, não seja ingênuo. Ninguém vai falar que está indo ver uma peça do Marquês de Sade, porque nenhum pai deixaria. Todo mundo vai falar que vai assistir a uma peça qualquer.
___Meus alunos são o máximo, não?


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Nota: Não precisam se preocupar, o texto é antigo. Estava amarelecendo na gaveta até que o prazo das tochas e dos ancinhos expirasse.

1 de junho de 2010

Dois corpos que caem e a interpretação


___Vocês já conhecem o conto “Dois corpos que caem”, do João Silvério Trevisan? Se não conhecem, deveriam. É interessante e tão curtinho que, se vocês não gostarem, o tempo perdido não será tanto assim.
___Cliquem aqui e deem uma lida.


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___E, então? Gostaram?
___Interessante, né? Reflexivo, provocativo, engraçado, simples. Um trabalho legal.
___Querem ver o conto melhorar? Olhem, então, o trabalho que fez o Antônio Abujamra ao interpretá-lo para o antigo Contos da Meia-Noite da TV Cultura.








___Essa leitura corrida, desesperada, acaba dando uma ótica completamente nova para o conto. Ficou muito mais interessante do que a obra que existia na minha cabeça durante a leitura.


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P.S.: Creio que valeu ter feito o elogio, pois, realmente, o conto ficou muito mais interessante com a interpretação. Entretanto, cortar partes do conto foi um pouco bola fora. Não dá para acertar todas.