02 dezembro, 2013

Quando a burocracia vence a Educação

___Lombrigas são parasitas. Para conseguirem sobreviver elas precisam se alimentar do seu hospedeiro, tirar energia do outro. Portanto, além de precisarem de outro para sobreviver, ainda o prejudicam. Mais do que isso: não há troca, o hospedeiro não ganha nada com isso, só sai perdendo. O mesmo acontece com a Educação, que vive sendo parasitada pela burocracia. 
___Eu trabalho em uma escola pública que, como é bem fácil de se imaginar fora das campanhas eleitorais, sofre com falta de recursos. Não é incomum faltar sabão e papel nos banheiros, material para consertar portas quebradas e goteiras do teto ou até mesmo livros para a biblioteca e giz para se escrever na lousa. Exatamente por isso, cada vez que um professor elabora uma prova o número máximo de páginas tem de ser duas. A falta de recursos para a escola faz com que os professores tenham de se deparar com esse limite muito pequeno de cópias por aluno. 
___Talvez algum leitor impaciente esteja pensando: “Já entendi, você está reclamando da falta de grana. Mas, por que atacar a burocracia no primeiro parágrafo e no título? O que a musa dos fabricantes de carimbos fez de errado?”. Calma, eu explico. 
___Por resolução da direção, ideia típica de burocratas educacionais que nunca entraram em uma sala de aula, agora os professores são obrigados a colocar, no início de cada prova, um grande elefante branco cabeçalho. 
A prova e o elefante branco (detalhe)
___Nome do aluno, número e série, eu admito, é algo necessário. O restante, entretanto, é ruído que só serve para ocupar o parco espaço da prova. Com a maior fonte da prova, os logos do governo e da sua autarquia; abaixo, menor, o nome da escola; data; nota. Curso, componente curricular e nome do professor, como se todas essas informações fossem grandes mistérios, insondáveis até mesmo para os alunos que fazem aquele curso e estudam aquela matéria com o professor que está, em sala, aplicando a prova. 
___Como se não bastasse, ainda é necessário colocar na prova as Competências/Habilidades e os Critérios de Avaliação. As primeiras são apenas um bando sentenças de efeito da área da Educação, buridiquez pedagógico para justificar os conteúdos ensinados e cobrados. Os Critérios de Avaliação servem para dar lastro para a correção dos professores caso algum aluno reprovado resolva abrir um processo por conta da nota ruim. 
A prova e o elefante branco
___Resumindo: por causa de bobeiras burocráticas perde-se praticamente metade de uma página. Lembrando que cada professor só pode pedir, às custas da escola, duas cópias por estudante. Perde-se um espaço importantíssimo que poderia ser utilizado para colocar textos, imagens ou qualquer outra coisa que pudesse ajudar a avaliar os alunos ou, mais tarde, para tornar mais didática a correção. E, mesmo se os professores não fossem utilizar para nada daquela metade da página, ela poderia muito bem servir para que os alunos escrevessem as suas respostas. Diagnóstico: para o governo a burocracia é mais importante que o ensino.

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___Escrevo tudo isso para denunciar e desabafar. Não vou pedir para que algum parasita da Secretaria da Educação* justifique a existência desses cabeçalhos inúteis e obrigatórios. Por que não? Porque, se por um milagre a resposta viesse, seria apenas um grande gasto de recursos públicos, com papeis que viriam em um buridiquez vazio para justificar o nada. Melhor assistir Seinfeld.
Seinfeld: "tudo sobre o nada"
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P.S.: Vale lembrar: no início deste ano, uma das palestras dadas aos professores foi exatamente sobre “Preenchimento e Entrega das Papeletas”. Não há dúvidas que a burocracia está vencendo. 

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* Ou, no caso, para da Secretaria de Desenvolvimento – que é quem “cuida” do Centro Paula Souza.

2 comentários:

  1. Não vejo nada de errado nisso. Acho que essas coisas são muito necessárias. Eu, por exemplo, não sabia que nas provas os professores iriam avaliar a clareza de ideias, argumentação consistente, etc. Eu também não sabia que para estudar história eu precisava analisar diversos textos interpretativos e teóricos. Essas coisas são muito úteis. Muito mesmo. Muito. Fico surpreso que só tenham inventado isso agora.

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    1. hahahahaha

      Obrigado, Anônimo. Vc entendeu exatamente o espírito da coisa.

      É exatamente pq não haviam inventado isso antes q a Educação ainda não foi para frente no Brasil. :-)

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