04 julho, 2014

Prosa: A Divina Tradução

___A historiadora Anna Gicelle Garcia Alaniz faz um trabalho muito fofo e didático para quem se interessa por História no seu blog Compartilhando Histórias. Recentemente, em um dos vídeos da série “Cantinho da História”, a Anna falou sobre “O imaginário de Dante”, fazendo diversos comentários interessantes e fornecendo algumas indicações bibliográficas. No final do vídeo, entretanto, ela começou a dar dicas sobre o tipo de traduções da Divina Comédia que devem ser procuradas. Como eu discordo das escolhas que a Anna fez, achei que valia uma postagem com alguns comentários.*

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___A Anna diz que “É importante que [a tradução da Divina Comédia] esteja em verso.”. Já eu defendo que, para uma leitura de lazer (e até mesmo para a leitura crítica de um leitor comum), deve-se escolher uma tradução em prosa.** Por um lado, o formato do texto será diferente, a rima deixará de existir. Por outro lado, o leitor vai ganhar muito com uma tradução de melhor qualidade, com uma compreensão mais aprofundada da obra. 
___É óbvio que existem traduções em verso de ótima qualidade.*** Mesmo assim, o pobre infeliz que se prestou a traduzir a Divina Comédia em versos – quase um morador de algum círculo infernal – teve de se deparar com inúmeros problemas (14233 problemas, para ser exato) que os tradutores em prosa não se depararam. 
___Como a Anna bem lembrou, a poesia “é composta deliberadamente de escolhas, a escolha do verso, na rima”. Quem traduziu a Divina Comédia em verso precisou escolher a palavra final de cada verso para compor a rima. A tradução em verso também precisou obedecer a métrica. O resultado é que o tradutor teve de fazer diversos malabarismos literários (como escolher uma palavra obscura ou deixar as frases em ordem atípica) e o texto, com isso, acabou sofrendo.  
___As traduções em prosa não precisaram obedecer nenhuma métrica, não tinham de seguir uma rima. O tradutor, então, teve a chance de escolher as palavras que se encaixavam melhor ao que estava dito no original, mesmo que fosse uma palavra muito grande ou que não rimasse. A mensagem do texto é que se tornou o ponto principal, não um arroubo literário. 

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___Minhas reflexões sobre a validade de uma tradução em verso ou em prosa valem bem para a Divina Comédia – que se trata de um poema épico, de uma história com início, meio e fim. Provavelmente, eu poderia defender outros elementos se o assunto fosse algum poema cuja forma fosse mais importante do que o conteúdo. Essa avaliação tem de ser feita, literalmente, caso a caso. 
___De resto, mesmo com essa minha pequena discordância, volto a elogiar o trabalho da Anna. E, claro, também dizer o quanto acho admirável o trabalho dos pobres traidores tradutores. ;-)

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P.S.: Aproveitando o assunto, o Helder da Rocha fez um trabalho lindo traduzindo – online e gratuitamente – a Divina Comédia. Infelizmente, o trabalho está inacabado (ele parou no começo do Paraíso). Felizmente, a tradução é em prosa. 
P.P.S.: Caso alguém discorde de mim, por favor apenas comente. Não precisa me esfaquear

"Russo amante de poesia esfaqueia até a morte colega que defendeu a prosa"

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Atualização (7/VII/2014): A interessante resposta da Anna.

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* Minha postagem é exatamente para falar sobre a escolha de uma tradução. Claro que eu (como a Anna) defendo a leitura no original. Porém, não sendo possível, tomo a defesa dos elementos de que trato no texto. 
** Para empreender um estudo histórico ou literário aprofundado é obvio que o original é imprescindível. 
*** A minha preferida é a do Cristiano Martins, que ainda conta com um conjunto espetacular de notas de rodapé.

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