08 fevereiro, 2016

Virando as costas para a arte

___O Masp tem conclamado, aos sete ventos, que seu acervo está “em transformação”. Como adoro museus, fiz questão de conferir. Para resumir em apenas uma frase, a transformação é simplesmente um vale a pena ver de novo

Vale a pena ver de novo

___O acervo do Masp continua ótimo: um número grande de peças inestimáveis, de diversas épocas e escolas. A transformação, no entanto, só fez com que as obras voltassem a ser colocadas nos “cavaletes de cristal”* de Lina Bo Bardi, tal qual foram expostas de 1968 a 1996. Essa reprise é interessante, pois possibilitou que eu assistisse os episódios de Caminho das Índias que eu havia perdido faz com que as obras sejam expostas de uma maneira diferente do que é tradicional nos museus (e ainda permite que pessoas estranhas como eu se divirtam vendo como é o quadro por trás). 

Cavaletes de cristal, de Lina Bo Bardi (1970)
Obras expostas em 1970.

Cavaletes de cristal, de Lina Bo Bardi (2015)
Masp hoje. 

___Por outro lado, o caráter didático do museu acabou sendo prejudicado. O modo como as obras foram expostas nos últimos 20 anos, colocadas em paredes, não apenas dividia mais claramente períodos, escolas artísticas ou temas, como, também, comportava um número maior de textos explicativos. Por mais simples que fossem, esses textos de parede serviam para ensinar algo que o público em geral não vai aprender simplesmente olhando um quadro. 

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___Cheguei ao segundo andar do museu e comecei a apreciar as obras. Enquanto olhava um quadro, percebi, na obra ao lado, uma moça de costas, tirando um selfie. Pouco depois ela chegou ao meu lado, arrumou o ângulo para que pudesse tirar uma foto só com ela e o quadro que eu estava olhando, sem que eu aparecesse. Tirou a fotografia e passou para a obra seguinte. 

Selfie no museu - Angélica e Júnior

___Curioso, comecei a observar a moça. Ela ia de quadro em quadro, posicionava-se e tirava o selfie. Repetia o processo a cada obra, sem perder nenhuma. O mais impressionante é que ela praticamente nunca ficava de frente para as pinturas. Chegava, ficava de costas, esticava o braço, arrumava a câmera (de modo que aparecesse o rosto dela e a pintura) e fotografava. De quando em vez, parava e postava um conjunto de fotos em alguma rede social. (Antes que alguém pergunte, eu sei dessa informação porque sou um curioso indiscreto que fingi olhar uma pintura enquanto esticava o olho para ver o que a moça fazia no celular em um momento em que ela havia parado.)
___Espero – mesmo – que, ao chegar em casa, ela olhe pelo menos algumas fotos dos quadros com mais atenção. Caso contrário, o passeio dela pareceu, simplesmente, uma visita narcisista, que só serviu para mostrar para os amigos, nas redes sociais, que ela foi ao museu.
___Olhem, leitores, eu também fui. 

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P.S.: Achei que valeu a pena ver as mudanças no acervo do Masp, mas, vale sempre reclamar, cobrar R$ 25 reais de entrada é de cortar a orelha direita.** 
P.P.S.: A melhor resenha que eu li sobre o Acervo em transformação é da Juliana Cunha, para a Folha


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* Que, na verdade, não são exatamente de cristal
** Lembrando que o Masp é gratuito às terças-feiras, durante todo o dia, e quintas, das 17h às 20h. 

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