23 janeiro, 2008

Evitando a humilhação alheia

Bobby Fischer

_____Há alguns anos, fui todo contente para a faculdade para assistir uma palestra de uma pesquisadora renomada, que estava aposentada fazia muito tempo. Eu já havia lido livros dela e sabia o quanto ela era talentosa. Fui empolgadíssimo para o evento. A palestra, entretanto, foi um fiasco. Para falar a verdade, foi uma humilhação pública. A palestrante até que começou bem, mas, pouco depois do início da sua fala, ela entrou em um devaneio louco e não parou mais. Perto do fim, depois que um monte de gente já havia se retirado da sala, ela começou a perguntar pelo seu gato com voz de choro. Fiquei até o fim e foi horrível. Morri de dó dela (por isso mesmo, prefiro, respeitosamente, ocultar seu nome).

_____Até hoje, não sei se os professores que convidaram a senhora para dar palestra estavam cientes, mas ela sofria de Alzheimer. Se os organizadores não estavam cientes, os responsáveis pela senhora é que deveriam ter impedido que ela aceitasse o convite. Prefiro guardar as lembranças que tenho dos ótimos momentos que tive ao ler os livros dela do que daquela palestra.

_____Semana passada, Bobby Fischer, um dos mais exemplares enxadristas do mundo, morreu.

_____Sinceramente, se eu acreditasse em inferno, torceria para que ele fosse para lá e tivesse de passar o resto da eternidade jogando damas. Ele não foi um ser humano admirável, foi escroto. Fischer tinha as mais tresloucadas opiniões, muitas vezes ambíguas e sempre mal argumentadas. Era mal-educado, preconceituoso, machista, anti-semita e um monte de outras coisas que nem vale à pena citar.

_____Já conversei com o Edney Souza, do InterNey.net, algumas vezes e, apesar da minha timidez na frente de pessoas que pouco conheço, foi bem legal. É um cara inteligente, simpático, que fala coisas interessantes. É alguém que, sem problema nenhum, eu convidaria para tomar algo e conversar; alguém que eu indicaria, caso pedissem ajuda com informática. Porém, obviamente, eu não o chamaria para dançar na academia de dança em que trabalho. Não quero que riam dele, prefiro não convidá-lo. Creio, também, que ele tem noção o bastante para evitar um programa desse tipo.


_____Deixar o Bobby Fischer falar em público era quase tão horrível quanto deixar o Edney dançar. Fischer era um boçal. Tirando suas partidas de xadrez, existe pouca coisa na vida dele digna de um mínimo de admiração. Tal qual a palestrante do início deste texto, não deveriam ter deixado ele se humilhar como ele freqüentemente fazia quando falava em público.

_____Sinceramente, acho que o ser humano nada admirável que Fischer era não deve ser esquecido. Entretanto, prefiro me lembrar dele pelas suas partidas, que muito estudei e admirei quando treinava xadrez.

P.S.: Muitos dos jogos do Bobby Fischer podem ser admirados no ótimo site ChessGames.com. Aconselho, principalmente, as partidas contra Boris Spassky no campeonato mundial de 1972.


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