25 fevereiro, 2016

Fixação

___Sala dos professores. Um professor de Geografia, após os bons dias iniciais, pergunta:
___– Ulisses, é verdade que você trabalha com dança?
___– Sim. É verdade. 
___– Ah! Pensei que você fosse homem! –, fala, batendo nas minhas costas, meio que dando risada. 
___Dou um sorriso amarelo e saio para pegar água, pensando “E eu pensei que você não fosse homofóbico...”.  
___Animado, o geógrafo me persegue e continua a conversa:
___– Me fala, você tem que usar collant?
___– Só quando vou combater o crime. 
___– Ha, ha. Sério, você usa collant?
___Respiro fundo e respondo: 
___– Não. Eu pratico dança de salão. Costumo dançar com roupas comuns, mais ou menos com as mesmas que venho dar aulas de História. 
___– Ah bom... Puxa, achei que você dançava ballet. –, acrescenta o geógrafo, parecendo realmente aliviado.
___– Eu não danço ballet. Mas, dancei por dois anos, para melhorar minha postura como dançarino de dança de salão. 
___– ...
___O silêncio parece acabar com o papo. Eu, que, desde o início, não estava querendo continuar com aquela conversa, termino de encher minha garrafa de água e volto para o meu canto inicial. Pego um livro. Antes que eu conseguisse abri-lo, o professor de Geografia se aproxima novamente e pergunta:
___– Mas... Você usava collant?

19 fevereiro, 2016

Escravinhos de estimação

Todos os animais são iguais,
mas alguns são mais iguais
que os outros
(George Orwell, A revolução dos bichos)

___A capa do número 97 do Le Monde Diplomatique Brasil, publicada em julho do ano passado, serviu como base para várias atividades com meus alunos. A capa, é essa: 

Paródia dO Jantar, de Jean-Baptiste Debret, feita pelo Le Monde Diplomatique Brasil

___Caso alguém não conheça, ela é uma paródia dO Jantar, de Jean-Baptiste Debret, desenhado na primeira metade do século XIX.

O Jantar, de Jean-Baptiste Debret

___A análise das imagens foi uma daquelas gratas surpresas de sala de aula, com todos os alunos interessados. Mais digno de nota ainda foi que, em todas as salas, sempre havia um grupo de alunos interessado no detalhe das crianças/dos cachorros, na parte inferior da imagem. 

Detalhe dO Jantar, de Jean-Baptiste Debret

Detalhe da paródia dO Jantar, de Jean-Baptiste Debret, feita pelo Le Monde Diplomatique Brasil

___Alguns alunos disseram que foi uma ótima comparação. Outros, mesmo gostando da imagem do Le Monde, acharam que foi um exagero. Alguns, por fim, ressaltaram que foi uma comparação de mau gosto. Como professor, adorei ver todas essas reações. 
___As reações, positivas ou negativas, foram muito interessantes porque os estudantes quase sempre consideravam o detalhe uma simples comparação, um paralelo entre o século XIX escravocrata e a elite do século XXI. O fato, entretanto, é que o detalhe é mais do que um simples paralelo. 
___Debret, no seu livro Viagem pitoresca e histórica ao Brasil, afirma que as crianças cativas viviam, até os seis anos, em “igualdade familiar”*. Vale lembrar que era uma igualdade bem relativa, já que não eram vestidas como as crianças brancas e, na hora de dormir, as crianças escravas iam dormir com os outros escravos ou em algum canto qualquer da casa, não em uma cama própria. 
___Para não me pautar apenas no comentário do Debret, creio que vale dar voz a alguém com mais gabarito. No artigo “O cotidiano da criança livre no Brasil entre a Colônia e o Império”, Mary Del Priore afirma que “Os mimos em torno da criança pequena estendiam-se aos negrinhos escravos ou forros vistos por vários viajantes estrangeiros nos braços de suas senhoras ou engatinhando em suas camarinhas. Brincava-se com crianças pequenas como se brincava com animaizinhos de estimação.”** (grifos meus).
___Ter crianças cativas tratadas como animais de estimação é, obviamente, horrível. Mais medonho ainda é saber que, pouco depois dos seis anos, assim que a criança se mostrava capaz de executar tarefas, qualquer tipo de mimo dedicado a um bichinho de casa desaparecia. Restava apenas a exploração. 

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P.S.: Para quem se interessa pelo assunto, recomendo, também o  artigo “Crianças escravas, crianças dos escravos”, de José Roberto de Góes e Manolo Florentino.*** 


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* DEBRET, Jean-Baptiste, Viagem pitoresca e histórica ao Brasil. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp, 1978. p. 195.
** PRIORE, Mary Del, “O cotidiano da criança livre no Brasil entre a Colônia e o Império”. In.: PRIORE, Mary Del (org.), História das Crianças no Brasil. São Paulo: Editora Contexto, 2007. p. 96. 
*** GÓES, José R. e FLORENTINO, Manolo, “Crianças escravas, crianças dos escravos”. In.: PRIORE, Mary Del (org.), História das Crianças no Brasil. São Paulo: Editora Contexto, 2007. pp. 177-191.

08 fevereiro, 2016

Virando as costas para a arte

___O Masp tem conclamado, aos sete ventos, que seu acervo está “em transformação”. Como adoro museus, fiz questão de conferir. Para resumir em apenas uma frase, a transformação é simplesmente um vale a pena ver de novo

Vale a pena ver de novo

___O acervo do Masp continua ótimo: um número grande de peças inestimáveis, de diversas épocas e escolas. A transformação, no entanto, só fez com que as obras voltassem a ser colocadas nos “cavaletes de cristal”* de Lina Bo Bardi, tal qual foram expostas de 1968 a 1996. Essa reprise é interessante, pois possibilitou que eu assistisse os episódios de Caminho das Índias que eu havia perdido faz com que as obras sejam expostas de uma maneira diferente do que é tradicional nos museus (e ainda permite que pessoas estranhas como eu se divirtam vendo como é o quadro por trás). 

Cavaletes de cristal, de Lina Bo Bardi (1970)
Obras expostas em 1970.

Cavaletes de cristal, de Lina Bo Bardi (2015)
Masp hoje. 

___Por outro lado, o caráter didático do museu acabou sendo prejudicado. O modo como as obras foram expostas nos últimos 20 anos, colocadas em paredes, não apenas dividia mais claramente períodos, escolas artísticas ou temas, como, também, comportava um número maior de textos explicativos. Por mais simples que fossem, esses textos de parede serviam para ensinar algo que o público em geral não vai aprender simplesmente olhando um quadro. 

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___Cheguei ao segundo andar do museu e comecei a apreciar as obras. Enquanto olhava um quadro, percebi, na obra ao lado, uma moça de costas, tirando um selfie. Pouco depois ela chegou ao meu lado, arrumou o ângulo para que pudesse tirar uma foto só com ela e o quadro que eu estava olhando, sem que eu aparecesse. Tirou a fotografia e passou para a obra seguinte. 

Selfie no museu - Angélica e Júnior

___Curioso, comecei a observar a moça. Ela ia de quadro em quadro, posicionava-se e tirava o selfie. Repetia o processo a cada obra, sem perder nenhuma. O mais impressionante é que ela praticamente nunca ficava de frente para as pinturas. Chegava, ficava de costas, esticava o braço, arrumava a câmera (de modo que aparecesse o rosto dela e a pintura) e fotografava. De quando em vez, parava e postava um conjunto de fotos em alguma rede social. (Antes que alguém pergunte, eu sei dessa informação porque sou um curioso indiscreto que fingi olhar uma pintura enquanto esticava o olho para ver o que a moça fazia no celular em um momento em que ela havia parado.)
___Espero – mesmo – que, ao chegar em casa, ela olhe pelo menos algumas fotos dos quadros com mais atenção. Caso contrário, o passeio dela pareceu, simplesmente, uma visita narcisista, que só serviu para mostrar para os amigos, nas redes sociais, que ela foi ao museu.
___Olhem, leitores, eu também fui. 

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P.S.: Achei que valeu a pena ver as mudanças no acervo do Masp, mas, vale sempre reclamar, cobrar R$ 25 reais de entrada é de cortar a orelha direita.** 
P.P.S.: A melhor resenha que eu li sobre o Acervo em transformação é da Juliana Cunha, para a Folha


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* Que, na verdade, não são exatamente de cristal
** Lembrando que o Masp é gratuito às terças-feiras, durante todo o dia, e quintas, das 17h às 20h. 

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