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31 de julho de 2017

De onde você é?

___Viajei para um enorme congresso de dança na Suécia, com gente do mundo inteiro. Por conta disso, ao se dançar com uma pessoa nova, era bem comum perguntar: 
___– De onde você é?
___As respostas eram os mais variados países: França, Moçambique, Argentina, China, Finlândia, Alemanha, Chile... Só havia uma variação. Quando a pessoa era norte americana, a resposta era sempre o seu estado de origem: 
___– Sou da Carolina do Norte. 
___– Sou do Texas. 
___– Sou de Nova Iorque.  

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___Uma grande surpresa para mim foi saber que as mulheres da China dançam lindy hop muito bem. Depois de fazer amizade com uma delas, comentei isso:
___– Nossa, quase todas as moças da China com quem eu dancei são ótimas dançarinas. Nunca imaginei isso. 
___– E eu nunca imaginei que sabiam dançar swing no Brasil. 

30 de julho de 2015

Ausência de faixas: entre o desrespeito e o cuidado

As faixas de pedestre esquecidas - Argentina (Bariloche)
As faixas de pedestre esquecidas - Argentina (Bariloche)

___Viajei recentemente para uma cidade argentina que, praticamente, não tinha faixa de pedestres. Para falar a verdade, de quando em vez, em algumas ruas era possível perceber uma faixa, no canto, quase toda apagadinha, relegada a um quase esquecimento.

As faixas de pedestre esquecidas - Argentina (Bariloche)

___Inicialmente, considerei o fato um desrespeito atroz. Como pode uma cidade ter tão pouco cuidado com os pedestres que nenhum lugar é feito para as pessoas atravessarem as ruas? Esqueceram os pedestres deste lugar? Que desrespeito. Maldito mundo carrocrata!
___Só que minha estada na cidade foi se alongando, fui conhecendo as pessoas e seus costumes e, então, comecei a ver alguns pontos extras. 
___Para começar, a velocidade marcada pelas placas parecia realmente respeitada. Não era como São Paulo – em que uma placa marca que aquela rua residencial deve ter uma velocidade de 30 km/h e os carros andam a 60 km/h. Os carros realmente pareciam não correr pela cidade. Além disso, seja por cuidado, por costume ou por dó, os motoristas diminuíam ou paravam quando as pessoas começavam a atravessar.*

As faixas de pedestre esquecidas - Argentina (Bariloche)

___Claro que esperar que o bom senso dos cidadãos resolva todas as questões (ainda mais no trânsito), não é o melhor caminho. Porém, não deixou de ser interessante perceber que, quando o desrespeito estatal foi muito grande, as próprias pessoas acrescentaram um pouco mais de cuidado.

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P.S.: É óbvio que este texto não se trata de um estudo científico sobre a reação dos motoristas em determinado lugar do mundo. Apenas dividi com os leitores deste blog um pouco da minha observação como pedestre em um local um tanto diferente da minha cidade. 
P.P.S.: Vale lembrar: o artigo 69 do Código de Trânsito Brasileiro garante aos pedestres o direito de atravessar uma via que não tenha nenhuma faixa.** Os motoristas é que tem a obrigação de parar e zelar pelos pedestres. Pena que é mais fácil um fusca falar do que encontrar algum motorista que conheça (e respeite) essa lei.  

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* Outra diferença se compararmos com Sampa, vale dizer. Por aqui, infelizmente, não é incomum que os motoristas deem uma acelerada ou uma roncada mais forte no motor para “ultrapassar” os pedestres ou vê-los terminar mais rapidamente de atravessar a rua –, mesmo na faixa. 
** Ou que a passagem ou faixa de pedestres esteja a uma distância superior a 50 metros.

31 de julho de 2013

Viagem a Salvador – Fotos e comentários esparsos

___Nunca fui muito fã de ficar vendo fotos de viagem. As pessoas insistem em mostrar um conjunto interminável de fotos que raramente são interessantes e nunca são bem tiradas. Sempre acho melhor olhar uma fotografia bem feita, de alguém que sabe tirar fotos, mas que eu não conheço, do que olhar a do meu amigo encobrindo com a cabeça a metade da estátua que ele resolveu fotografar. 
___Eu gostaria muito que as pessoas pegassem o costume de mostrar apenas as 10 melhores fotos da viagem. Ou, pelo menos, que tivessem sempre boas histórias ou comentários para cada uma das fotos. 
___Posso não ser um grande fotógrafo, mas tenho alguns comentários sobre algumas coisinhas que eu vi em Salvador. Portanto, caso alguém se interesse, segue o texto.
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Intolerância religiosa
___Apesar da postagem engraçadinha sobre minha “conversão” ao protestantismo, fiquei impressionado como até na Bahia existe uma intolerância cristã ativa contra o candomblé. Até mesmo no Dique do Tororó, famoso por suas estátuas de orixás.
___Como uma explicação turística para quem vai olhar as estátuas, foi colocada uma placa na margem do Dique falando um pouco de cada um dos orixás que estão no local. Algum religioso intolerante foi até a placa e a depredou. 
Intolerância religiosa no Dique do Tororó, Salvador (BA)
___Antes que alguém diga que foi uma depredação sem cunho religioso, aconselho uma olhada mais detalhada. Percebam como apenas o rosto das imagens e a fotografia das estátuas na água é que sofreram depredação. 
Intolerância religiosa no Dique do Tororó, Salvador (BA)
___Ah... é tão bom ser sempre lembrado de que “Deus é amor.”. 
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Carrocracia
___Infelizmente Salvador entra na lista das cidades em que os carros são tratados com mais cuidado e respeito do que as pessoas. Olhem o que acontece em diversas ruas:
"Cuidando" dos pedestres, Salvador (BA)

"Cuidando" dos pedestres, Salvador (BA)
___Para que os carros tivessem um liso e perfeito asfalto para trafegar, as ruas foram constantemente recapeadas. Para os automóveis, tudo às mil maravilhas; por outro lado, para os pedestres as coisas não andam tão bem. O recapeamento constante foi deixando o asfalto cada vez mais grosso, afastando-o do chão original. A sarjeta continuou na altura original, enquanto o asfalto foi ficando cada vez mais alto. 
___O resultado, como se pode facilmente perceber pelas fotos acima, foi a formação de uma pequena cratera entre a calçada e o asfalto. Se o objetivo do governo soteropolitano foi construir armadilhas para machucar pedestres por toda a cidade, podem apostar que ele foi bem sucedido. 
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Destruindo o passado
___Para uma cidade que tem o turismo como uma fonte de renda tão importante, não me parece muito inteligente a completa falta de cuidado ao se preservar o passado. É triste, por exemplo, ver como permitiram que o moralismo destruísse parte dos seios de uma das personagens desses azulejos portugueses, feitos por Bartolomeu Antunes de Jesus, no século XVIII. 
Azulejos portugueses de Bartolomeu Antunes de Jesus (século XVIII) depredados pelo moralismo, Convento da Igreja de São Francisco, Salvador (BA)

Azulejos portugueses de Bartolomeu Antunes de Jesus (século XVIII) depredados pelo moralismo, Convento da Igreja de São Francisco, Salvador (BA)
___O problema, infelizmente, não fica só na depredação. Mais triste ainda é notar que dificilmente devem contratar historiadores em Salvador para cuidar de museus, igrejas turísticas e afins. É possível perceber isso tanto pelas obras expostas sem indicações minimamente aceitáveis*, como, também, pela preservação inexistente de alguns locais. 
Túmulo não preservado, Igreja de São Francisco, Salvador (BA)

Túmulos não preservados e depredados por quem deveria cuidar deles, Igreja de São Francisco, Salvador (BA)
“Mármore antigo com alguma gravação? Túmulo? Dane-se! Eu tenho que passar um cano por aqui.”
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Fabricando o passado
___Costuma ser salutar desconfiar de homenagens públicas. Em Salvador, não são difíceis de encontrar algumas dessas homenagens ao ACM.
Homenagem ao escroto do ACM, Mercado Modelo, Salvador (BA)
___Para mim, placas como essa parecem simplesmente uma safadeza de um político usando o dinheiro público para forjar o passado. Como é fácil ver o que já passou de maneira mais positiva do que foi de verdade, nada como espalhar homenagens pela cidade para que visitantes, novos cidadãos ou pessoas de memória fraca passem a pensar “Puxa, com tantas homenagens... Esse homem deve mesmo ter sido mesmo bom.”. Já eu acredito que se trata muito mais de um caso próximo ao cara que compra um carro caro tentando compensar alguma coisa.
___De qualquer modo, o modo como eu encaro pode estar errado. Talvez a realidade pode ser muito mais triste, talvez realmente as pessoas quiseram homenagear o Antônio Carlos Magalhães. 

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* Com a honrosa exceção do Museu Náutico da Bahia, no Farol da Barra.  

14 de julho de 2013

Como eu me converti

___Quem duvidava do meu ateísmo, tinha muita razão. Eu me converti ao protestantismo mais rapidamente do que qualquer um poderia imaginar.
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___Neste mês de julho, vim passar uns dias em Salvador. Meu plano é me divertir nas férias escolares e, nesse ínterim, estudar dança de salão e pesquisar História. Só que, aqui em Salvador, a cada dez passos aparece algum jineteiro* tentando amarrar uma fitinha do Senhor do Bonfim no seu braço e, então, “guiar” você para os pontos turísticos mais legais da Bahia. 
___É uma experiência divertida deixar-se guiar por um maluco que quer mostrar mil conhecimentos histórico-populares, enquanto conta algumas anedotas pessoais ou reclama da prefeitura. Só que isso tem graça (e vale o dinheiro que o cara pede como contribuição “voluntária”) apenas umas duas, três vezes.
___Tentei me desvencilhar desses jineteiros de diversas formas. Ser educado, dizer que não é necessário, que eu já conheço a tal igreja ou que eu já fui ao Pelourinho umas oito vezes nesta semana, sempre é um processo lento. Ser mal-educado, virar as costas e ir embora, funciona, é rápido, mas não é uma atitude muito bacana. Eu estava em um impasse, até que descobri como resolver o assunto rapidamente, de maneira completamente doce: virei evangélico.
___Assim que aparece alguém querendo amarrar uma fitinha do Senhor do Bonfim no meu braço, logo respondo que a minha religião não permite, que, para mim, aquilo é pecado. Peço para que Jesus guie o rapaz, mas que infelizmente eu não posso ficar com ele. Magicamente, a insistência só dura mais umas duas frases e o jineteiro desaparece.
___Portanto, caros amigos, para todos os fins e efeitos, até sair da Bahia, eu sou evangélico. ;-)

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