25 fevereiro, 2011

Direito sagrado

___Uma conhecida minha fez um curso técnico e conseguiu um emprego na área. Não gostou do trabalho, mas apreciou o dinheiro. Segundo ela, não havia problema: aquele salário iria ajudá-la a pagar um cursinho e, assim, ela conseguiria fazer o curso superior que estava querendo para seguir seus sonhos.
___Depois de meses sem vê-la, encontrei-a perto do Masp. Triste, contou que estava fazendo faculdade na mesma área, que não suportava mais o emprego, mas que tinha se acostumado com o padrão de vida.


Quadrinhos dos anos 10___Como ela parecia realmente chateada tentei trocar de assunto. Porém, depois de uns vinte minutos de conversa, percebi que era impossível: todos os assuntos convergiam para o seu insuportável cotidiano de trabalho.


Quadrinhos dos anos 10


___Tentando mudar a abordagem, contei dos empregos que eu adoro e que, mesmo pagando pouco, costumam me deixar feliz. Enquanto falava o quanto eu achava que a troca valia a pena, ela me interrompeu dizendo que aquilo era quimérico, irreal, que não dá para levar esse tipo de vida de verdade.
___Talvez impaciente com a interrupção, talvez incomodado com o modo como ela falou da minha vida, talvez simplesmente querendo acabar com o papo, eu disse:
___– Sinceramente, não entendo muito como alguém vive de alguma forma que não seja a minha. Mesmo assim, respeito. Todo mundo tem o sagrado direito de ser infeliz. – e dei a conversa por encerrada.


Quadrinhos dos anos 10

22 fevereiro, 2011

Precisa-se...

___Não saber regrinhas básicas de ortografia não é nenhum demérito.


Pamfleteiro


___Entretanto, se você quer contratar alguém para distribuir panfletos, se você faz panfletos, se você redige cartazes para colocar na frente da sua loja... Talvez faça bem conhecer um pouco.

20 fevereiro, 2011

Necessidades dos outros

___As pessoas que acordam todo dia tendo um teto sobre a cabeça, que podem comer três refeições por dia e têm água e eletricidade à vontade, muitas vezes não conseguem imaginar como certas políticas públicas são importantes.
___Certa vez, em pleno curso de Licenciatura, dividindo a sala com diversos outros colegas que também estavam a fazer aquilo para poder trabalhar livremente em sala de aula, presenciei um caso bem ilustrativo. Em meio a uma aula de Política Educacional Brasileira, a professora começou a falar sobre merenda escolar. Depois de poucos minutos de explanação, um aluno, muito alto e muito loiro, sentado no fundo da sala, levantou a mão. A professora parou a explicação e cedeu-lhe a palavra.
___– Porra, professora – começou educadamente o rapaz –, achei que aqui nós iríamos discutir Educação. Merenda escolar é assunto pra gente da cozinha.
___O que me impressionou nem foi o comentário absurdo do futuro “educador”, mas a aquiescência de alguns dos demais estudantes que estavam em sala. Eles não conseguiam pensar nem um pouco nos outros? Não percebiam que se alimentar é importante para uma boa educação? Aquela gente não se tocava que eles tiveram comida no prato a vida inteira, mas que nacos enormes da população não teve e que, sem comer, realmente é muito difícil frequentar a sala de aula?
___Suas necessidades não são as necessidades dos outros. Você ter o que comer não significa que todo mundo tem. Distribuição de merenda foi uma das mais importantes políticas públicas já feitas para que os mais pobres pudessem estudar.


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___No Ensino Superior trabalha-se muito com obras clássicas. Os mais importantes estudiosos de cada área são lidos, destrinchados; também se lê muito do que foi falado desses clássicos. No Ensino Fundamental e Médio eu sempre tento dar um pouco dos grandes historiadores para os meus alunos. Mesmo assim, a principal leitura de apoio para os estudantes costuma ser o livro didático.
___Quando em uma escola particular caríssima, o professor consegue imaginar as possibilidades financeiras de seus alunos, se eles podem comprar tal livro ou custear determinado passeio. Em uma escola pública, isso é sempre uma dúvida. Por isso mesmo, para ajudar no estudo dos alunos, a entrega de livros didáticos pelo governo é sempre bem vinda.
___O FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), conta exatamente com um programa que distribui livros para diversas escolas. Por conta dele, depois de três anos trabalhando na mesma escola estadual, pela primeira vez os meus alunos do primeiro colegial receberam livros didáticos da minha matéria: História: das cavernas ao terceiro milênio, de Myriam Becho Mota e Patrícia Ramos Braick (São Paulo: Editora Moderna, 2005). Não é o livro que eu escolheria, não é a melhor opção entre os livros didáticos disponíveis, mas, já que gastaram dinheiro público comprando o livro, dá para utilizar. De qualquer modo, vai ser um bom auxílio aos estudantes.


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___Imaginem estudantes de diversas faixas de renda em uma escola pública. A merenda é importantíssima para que alguns deles consigam acompanhar bem o andamento das aulas. O governo acerta em fornecer alimentação para esses alunos.
___O professor recebe uma caixa de comida para distribuir em sala. Quando o mestre abre a caixa, na frente da sala, descobre que existe alimento apenas para dois quintos dos alunos. Sem a habilidade de um messias para multiplicar o que existe dentro do recipiente, o pobre professor se vê em uma situação bizarramente sem graça.


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___Imaginem, agora, alunos de diversas faixas de renda em uma escola pública. Livros didáticos são importantíssimos para o aprendizado deles, mas nem todos podem comprar. O governo federal acerta em fornecer livros para os estudantes.
___O professor recebe uma caixa de livros para distribuir em sala. Infelizmente, ao contar os livros, o mestre descobre que o número é bastante insuficiente para o número de estudantes. Sem a habilidade de um Gutenberg para conseguir multiplicar o que existe dentro do recipiente, o pobre professor se vê em uma situação bizarramente sem graça.
___O que fazer? Não distribuir e prejudicar a todos? Escolher apenas alguns dos alunos? Descobrir (e escancarar para os outros) quais os alunos mais pobres e fornecer os livros apenas para esses? Colocar tudo na biblioteca que já conta com pouco espaço e dificulta a utilização do livro em casa?
___Seria tão bom que o governo trabalhasse com mais atenção (e competência) para não causar transtornos até quando tenta ajudar. Mas, tentar fazer direito é muito difícil e, talvez, essa seja uma necessidade que o governo não tem.


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P.S.: Eu me sinto super mal em aproveitar este espaço para passar um recado meio que particular, que tem pouco a ver com a maior parte dos leitores. No entanto, como sei que alguns ex-alunos da escola em que eu trabalho leem o Incautos, aproveito para pedir: caso algum deles tenha um exemplar antigo do livro didático adotado antes que eu virasse professor deles (História: das cavernas ao terceiro milênio, de Myriam Becho Mota e Patrícia Ramos Braick), mande para a escola. Claro que não gosto de vir aqui passar vergonha mendigando livros para os meus ex-alunos. Mas, a questão aqui não sou eu, não são as minhas necessidades, mas a necessidade dos meus novos alunos.
P.P.S.: Acho bom ressaltar para não deixar ninguém com dúvida. Não estou pedindo para os leitores em geral doarem nada para a escola que eu trabalho. Só estou pedindo a entrega de livros velhos para quem foi meu aluno, pois eles compraram esses livros antes que eu começasse a trabalhar na escola.


18 fevereiro, 2011

Pressa para casar

___Eu não sei me comportar como uma pessoa normal. Segurar minha língua em alguns momentos, por exemplo, é dificílimo. Muita gente me olha feio, briga comigo, mas eu raramente me arrependo. Principalmente quando minhas gafes me rendem algum texto.


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___Há um mês, chegou, toda feliz, a mãe de um conhecido, contando que o filho iria casar dali dois meses.
___– Que legal... É com aquela namorada nova?
___– Claro!
___– Mas, não faz nem cinco meses que eles estão juntos.
___– Estão apaixonados. Sabe como é, né?
___Achando estranho, perguntei:
___– Ela está grávida?
___– Ai, Ulisses, que absurdo! Isso é pergunta que se faça? É claro que não. Eles estão mesmo apaixonados. – respondeu, claramente me repreendendo.


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___Há dois dias, encontrei-a novamente. Tentando ser simpático, perguntei como iam os preparativos do casamento. Um pouco sem graça, ela respondeu:
___– Eles preferiram adiar.
___Sem conseguir me segurar, perguntei:
___– Desceu?
___Depois de um longo silêncio, sem olhar para mim, ela respondeu:
___– ... É...



15 fevereiro, 2011

Eternos casais

___Tunísia? Egito? Ronaldo? BBB? Nada disso! A notícia mais importante dos últimos tempos é que Barbie e Ken voltarão a namorar. Depois do término do namoro em 2004, a Mattel, fabricante dos bonecos, anunciou, no último Valentine’s Day, que os dois irão reatar. Aproveitando o clima, a reportagem do Incautos do Ontem resolveu entrevistar alguns outros famosos ex-casais, perguntando sobre a chance de reatarem.


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Bentinho e Capitu
___Com olhos de ressaca, Capitolina atendeu nossa reportagem em uma manhã de terça-feira, já segurando uma garrafa. Ela respondeu que tentou voltar, mas Bentinho, que já perdoou a traição, não aceita seu novo vício, o alcoolismo.


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Helena e Páris
___Ao perguntarmos à rainha Helena sobre as possibilidades de voltar com Páris, Menelau, seu marido, colocou a reportagem para correr, com cerca de trezentos espartanos em nosso encalço.


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Rick Blaine e Ilsa Lund
___Perguntado se existia chance de Ilsa abandonar Victor Lazlo para voltar aos seus braços, Rick respondeu para a reportagem do Incautos do Ontem que eles não pensam em retornar, mas que sempre terão Paris.
Nota: Ao obtermos a resposta de Rick, nossa reportagem concluiu que o caso de Helena e Páris está realmente terminado e que o príncipe troiano agora tem se ocupado com outro casal.


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Otelo e Desdêmona
___Procurada pela reportagem, Desdêmona foi enfática ao dizer que não pretende mais se relacionar com Otelo. Agressiva, ela disse que não quer vê-lo nem pintado de negro, pois, com ele, sente-se asfixiada.


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Júlio César e Cleópatra
___César afirmou nunca ter estado tão feliz. Ele vive, hoje, com Cleópatra e Marco Antônio (a quem passou a chamar, carinhosamente, de “Filho meu”) e revelou, orgulhoso, que causa mais efeito aos dois do que seu sobrinho Otávio Augusto.


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João e Teresa
___João, aquele que amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém, contou para nossa reportagem que voltou dos Estados Unidos dois anos depois que Carlos Drummond de Andrade publicou seu poema, converteu Teresa ao luteranismo e que, desde então, estão juntos e felizes.
Nota: Apesar do final feliz do casal, Teresa revelou à reportagem que, infelizmente, Lili e J. Pinto Fernandes acabaram por se separar no mesmo ano em que ela e João reataram. Os advogados de divórcio de J. Pinto Fernandes e Lili avisaram que seus clientes não estão autorizados a comentar o caso até o fim do processo.

13 fevereiro, 2011

Clava na cabeça

___Sempre achei um tanto incomodo homens mexendo com mulheres na rua. Atualmente, depois de muito ler o que a Lola escreve, tenho cada vez ficado com mais nojo desse tipo de atitude. Só que o mundo é um lugar estranho e nesta vida se vê de tudo. Deixem-me contar o que eu vi outro dia na rua.


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Link do vídeo.
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___Voltando do trabalho na academia de dança, em plena Avenida Paulista, sexta à noite, parei em frente a um barzinho com um mundarel de mesas e pessoas na calçada. Um grupo, com cerca de dez homens, com bebidas nas mãos, estava com as cadeiras encostadas em uma loja fechada, todos voltados para o restante da calçada. Cada mulher que passava, eles gritavam as notas que achavam que elas mereciam.
___– Credo! Essa aí merece menos que zero!
___– Porra, que gostosa! Só pelos peitões eu já dava nove. Mamava o dia inteiro.
___Daí para baixo. E eu lá, parado, esperando o farol abrir para atravessar a rua.
___Vem andando uma loira, cabelo preso em rabo-de-cavalo, calça branca e uma bolsa bem grande. O idiota da ponta, mais próximo da moça, apaga o cigarro e joga a bituca nela. Silêncio. Nenhum dos infelizes que antes estava a gritar abriu a boca.
___A mulher parou, viu que, perto da barriga, ela estava um pouco sujo de cinzas e começou a limpar, mexendo os dedos. O idiota que jogou a bituca gritou:
___– Deixa de charme, gata. Você vai ficar bem de qualquer jeito. Vem tomar um chope comigo.
___O restante dos homens praticamente começou a uivar.
___A mulher olhou e começou a andar na direção do idiota da bituca. Achando que poderia acontecer alguma coisa de errado, eu – até então catatônico com tudo aquilo – fiquei de costas para o farol e lentamente comecei a andar também em direção ao grupo, olhando tudo atentamente.
___Para o meu espanto completo, a loira, quando chegou perto, pegou uma cadeira próxima e sentou ao lado do cara da bituca. Ele ofereceu um copo; ela pegou e tomou um gole.
___Boquiaberto com um disparate daqueles, fiquei parado alguns segundos. Percebi, então, que o semáforo de pedestres já estava aberto. Virei as costas e fui embora.


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Link do vídeo.


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___Sei que a história, infelizmente, não teve nenhum grande final. Acho, inclusive, que nem é uma boa história. Mesmo assim, achei que valia dividir com os leitores. Vocês conseguem imaginar quão forte é o machismo da nossa sociedade para uns imbecis ficarem mexendo publicamente com mulheres na rua e não serem apedrejados? Imaginam o valor que as mulheres têm para um troglodita que joga uma bituca em uma moça como tentativa de paquera? Por fim, é possível imaginar os danos que nossa sociedade causa a algumas mulheres, a ponto de uma delas responder positivamente a um “flerte” desse tipo?


Older men fascinate me

11 fevereiro, 2011

Vela de aniversário

___Estudantes sabem ser muito doces e carinhosos. No entanto, todo professor tem ciência de que, mesmo se dando bem com os alunos, é importante ter cautela.

___Dito isso, conto o seguinte: uma aluna descobriu que hoje é meu aniversário e me deu de presente uma vela para colocar no bolo.

Vela de aniversário

___Vocês acham que eu devo acender?

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P.S.: Só aproveitei o aspecto divertido da velinha para fazer uma piada. Minha aluna –, uma moça divertida, inteligente, que se veste muito bem e de modo atípico, – é de completa confiança.

Vela de aniversário

07 fevereiro, 2011

Não-resenha de Um Lugar Qualquer, de Sofia Coppola

___Uma das coisas que mais me agrada no trabalho de professor, são os horários quebrados. Existem dias em que ensino de manhã e não à tarde; em outros só leciono à noite; noutros, dou três aulinhas no início da manhã e mais duas no fim da tarde. No fim das contas, sempre tenho um tempinho livre aqui ou acolá para mil outras coisas.
___Hoje, entre o trabalho do início da tarde e o da noite, eu tinha umas quatro horas e pouco livres. Perfeito!, o tempo ideal para ir para algum dos cinemas perto da academia de dança. Peguei, todo contente, as programações.
___Cisne Negro, que eu estava a fim, começaria tarde e, portanto, terminaria só depois da hora em que eu deveria estar no trabalho. Três outros filmes, com horários ideais, eu já havia visto. Só tinha um que, para mim, era inédito e com o horário perfeito, um tal de Um Lugar Qualquer (Somewhere).
___Antes de sair para o cinema, fui atrás do trailer no You Tube. Depois de dois minutos, fechei a janela e fui ler um livro. Um Lugar Qualquer não era uma opção. Um Lugar Qualquer, descobri então, é o novo filme da Sofia Coppola.


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___Quem gosta da filha do Francis Ford Coppola que me perdoe – ou que vá frequentar um psiquiatra. Assisti dois filmes dela – Encontros e Desencontros (Lost in Translation) e Maria Antonieta (Marie Antoinette) – e, tenho de dizer, foram momentos intermináveis da minha vida. Eu não sei exatamente quantos dias cada filme tem, mas sou capaz de jurar que, individualmente, eles duraram mais do que toda a trilogia dO Poderoso Chefão com cenas extras.
___Os filmes da senhorita Coppola são muito chatos. As personagens sofrem por não-motivos, a ação é uma inação e a história... bem, o Michael Ende que me perdoe, mas os filmes da Sofia Coppola são a verdadeira História Sem Fim. Além disso, dadas as conversas vazias, os silêncios-sem-graça e as não-conversas, parece que a pobre Sofia nunca aprendeu a escrever diálogos. Silêncios, ok, ela aprendeu, mas não são interessantes como os dos filmes do Kim Ki-duk.


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___Caso alguém tenha assistido Um Lugar Qualquer, pode elogiar aí nos comentários. Mas, para que eu vá assistir, tem de dizer que o filme ficou melhor que a trilogia clássica do pai da moça.


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P.S.: Se alguém gostou do Encontros e Desencontros ou do Maria Antonieta, nem adianta vir defender que eu não revejo esses filmes, nem se me pagarem. Mentira, se pagar bem eu vejo.
P.P.S.: Sobre o Encontros e Desencontros, recomendo um texto que eu acabei de ler e outro que eu reli faz pouco. O filme, ressalto, eu indico que vocês fiquem longe.


04 fevereiro, 2011

Como não falar com seu chefe

___Reunião de início de ano. Professores de Humanas reunidos, decidindo as principais atividades do ano letivo. Meu chefe, que ensina a mesma matéria que eu para salas diferentes, vira para mim e diz:
___– O que você acha, para desafiar os alunos, que eu faça algumas questões da sua prova e, você, algumas da minha?
___– Claro – respondi –, eu confio no seu trabalho.


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P.S.: Tenho também, caso alguém precise, uma receita simples de como perder o emprego.
P.P.S.: Ninguém precisa se preocupar, não perdi nenhum emprego neste ano. Pelo menos até agora.



01 fevereiro, 2011

O sofrimento da Virgem Maria... e do Batman.

___O comentário jocoso do último texto – perguntando se uma “intelectual-adulta” leria HQs se o autor fosse Michelangelo Buonarroti –, acabou me lembrando que o tema de uma das mais famosas esculturas do artista italiano, Pietà, foi usada à exaustão pelos quadrinhos. Como, graças às Musas, as HQs não são religiosomaníacas, usar bastante não é sinônimo de fazer cópias fiéis. Em outras palavras, não retrataram a Virgem Maria segurando Jesus Cristo morto, mas, sim, a posição-tema.

Pietà - Michelangelo

___São clássicas, nos quadrinhos, as capas com algum herói morto, sendo amparado por outro herói sofrendo.

Pietà - Batman

Pietà - Demolidor

Pietà - Thor

Pietà - Capitão Marvel

Pietà - X-Men

Pietà - Capitão Átomo

Pietà - Constantine

Pietà - Superman

___A ideia básica do tema de Piedade – Pietà – está toda aí: (I) alguém que apanhou até morrer; (II) outra pessoa, que tinha amor pelo morto, em agonia, amparando o corpo; (III) o conjunto da imagem suscitando pena. Só falta mesmo a temática religiosa. Se bem que, falando de heróis de histórias em quadrinhos, pode até rolar uma ressurreição depois de algum tempo.
___Vale dizer, inclusive, que a ideia original da Pietà é germânica, não italiana. Mais ainda, é uma temática medieval, não renascentista. E aí entra um ponto mais interessante ainda: ano sim, ano não, aparece algum chato reclamando do mau exemplo dos quadrinhos, da violência excessiva das HQs, flap, flap, flap. Só que algumas representações da Idade Média da Virgem sofrendo pela morte de Cristo são bem mais pesadas do que quase tudo que aparece nos quadrinhos. Vejam a minha preferida, essa Mater Dolorosa do início do século XIV:

Pietà - Medieval

___Não só a cara e a magreza das personagens são medonhas, como as feridas são tão bizarras que fariam até os guardas da Prisão de Guantánamo sentirem dó. Atentem para o sangue jorrando como de um chafariz das mãos e pés de Jesus. Além do sangue, percebam a cratera no tronco, no lugar em que Cristo tomou a lançada final. A Paixão de Cristo, do Mel Gibson, chega a parecer carinhosa.
___Como é que, depois de ver um treco desses, alguém consegue criticar quadrinhos pela violência?* Só pode mesmo estar atestando a própria ignorância.

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* Acho bom falar, antes que venha algum maluco e coloque palavras na minha boca. Não estou criticando nenhuma arte por ser violenta. Acho que filmes, pinturas, músicas, quadrinhos, danças e afins devem ter completa liberdade para falar do que bem entenderem, como bem entenderem. Quem não gosta que não veja.
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