26 novembro, 2013

Genoino e as prisões políticas em democracias

___Apologia da História ou o ofício do historiador é um dos livros mais belos e importantes para a historiografia mundial. Nele, Marc Bloch, seu autor, tenta explicar para que serve a História. Entre os vários pontos tratados, um que Bloch não deu a devida atenção foi que estudar História serve bastante bem para que as pessoas não passem vergonha dizendo bobagens.* Principalmente historiadores, jornalistas e comentaristas políticos.  

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___Após decretadas as prisões dos acusados do mensalão, José Genoino, antes de se entregar, publicou uma nota pública em seu site dizendo:
Aonde for e quando for defenderei minha trajetória de luta permanente por um Brasil mais justo, democrático e soberano.
Com indignação, cumpro as decisões do STF e reitero que sou inocente, não tendo praticado nenhum crime. Fui condenado porque estava exercendo a presidência do PT.
Do que me acusam, não existem provas. O empréstimo que avalizei foi registrado e quitado.
Fui condenado previamente numa operação midiática inédita na história do Brasil. E me julgaram num processo marcado por injustiças e desrespeito às regras do Estado democrático de direito.
___Antes de assinar, Genoino termina a nota dizendo que “Por tudo isso, considero-me preso político.”. E foi exatamente essa última frase que forneceu mais munição ainda para incontáveis jornalistas que queriam – mais – motivos para continuar com a surra pública.
___O teor de muitos comentários, como é possível ver nesta fala de Merval Pereira ou neste texto do Reinaldo Azevedo, é que “Nas democracias, não há presos políticos.”. É um modo fofo de ver as democracias. Fofo, cor de rosa e com fadinhas espalhadas por todos os cantos.
Fadinhas

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___Eu lamento informar, mas democracias também produzem presos políticos. Só neste ano de 2013, por conta da onda protestos, diversos manifestantes acabaram presos. Não estou nem falando de quem usou táticas black blocks e acabou sendo pego. Estou falando de pessoas que estavam apenas exercendo seu direito democrático – e pacífico – de protestar e acabaram sendo pegos injustamente pelas forças policiais. Tá aí o Rafucko que não me deixa mentir
___Até mesmo jornalistas amargaram um tempinho em prisões só porque estavam exercendo seu democrático direito de cobrir os protestos. Mesmo assim, a Folha de São Paulo mantém uma página que se propõe a explicar os trâmites do Direito a jornalistas e afirma que presos políticos só existem em ditaduras. Triste, não?

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___Um preso político é aquele que é privado de sua liberdade, de sua voz porque o governo em vigor quer impedi-lo de exercer sua cidadania plena. Alguém que discorda do poder público e tenta demonstrar isso sem cometer nenhum crime e acaba enclausurado – pelo tempo que for – é um preso político.** Não há dúvidas que presos políticos são mais comuns em ditaduras, mas dizer que eles não existem em democracias só pode ser demonstração de desonestidade intelectual ou ignorância histórica. 
___Para não ficar só nos exemplos de 2013, vale citar que Luís Carlos Prestes (que já havia sido preso político durante a ditadura de Getúlio Vargas) foi perseguido político – com direito a seu mandato de senador cassado e vida na clandestinidade – durante o período democrático de 1945 a 1964. O mesmo aconteceu com Carlos Marighella, a partir de 1948 – época, volto a ressaltar, em que o Brasil era um país democrático.
___A atualmente mais famosa democracia do mundo, a democracia norte-americana, é tão rica em exemplos de presos políticos que dá até vontade de deixá-la como café com leite. Porém, pelo bem da didática, vou citá-la. Entre os exemplos famosos, é fácil citar Jane Fonda e Susan Sarandon, presas por protestarem contra a Guerra do Vietnã. Para casos mais recentes, é só citar a Prisão de Guantánamo – que além de manter presos políticos, ainda os tortura. 
Jane Fonda presa (1970)

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___Acho que já exemplifiquei o bastante. 
___É até possível discordar de Genoino e dizer que ele não é um preso político. No entanto, continuar afirmando que não existem presos políticos em democracias é uma atitude tão cega quanto não enxergar que Joaquim Barbosa é muito talentoso na arte de fazer politicagens. 

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* Como eu disse, Bloch não deu a devida atenção a essa questão. Isso não significa, claro, que ele não a tenha abordado. Caso alguém se interesse, o tema é tratado no capítulo III. 
** Também é possível ser um preso político por conspirar (ou atos afins) contra um governo, mas aí é possível dizer que a pessoa cometeu um crime. Como esse ponto não cabe na atual reflexão, tomo a liberdade de deixá-lo de fora. 


15 novembro, 2013

Leitura obrigatória

___Logo no início da aula, falo para os alunos qual livro deve ser lido até o fim do bimestre. Tentando empolgá-los, conto curiosidades sobre a autora, provoco relatando uma parte com ação e leio um trecho interessante. Considero o resultado positivo.
___Ao fim da aula, um aluno, que normalmente parece desinteressado, vem falar comigo sobre a obra. 
___– Puxa, professor, pareceu bem bacana o livro que você escolheu!
___Feliz pela boa recepção, sorrio e agradeço. 
___– Queria perguntar uma coisa, continuou o aluno.
___– Diga.
___– Na prova vai cair alguma questão sobre o livro?
___Menos animado, respondo:
___– Sim, vai... 
___– Ah... Sabe o que é? Ando sem saco para ler atualmente. Será que o senhor pode me indicar um bom resumo? Assim eu não leio qualquer porcaria por aí...
___– ...

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P.S.: Quando recuperei a fala, disse para o aluno perguntar para uma especialista. Como sou muito bonzinho, indiquei a Hillé Puonto.


10 novembro, 2013

Ouça

___Lavar louça é uma atividade extremamente chata, inglória e interminável. Pior ainda, não dá para fazer quase nada de bacana enquanto aquilo não acaba. Com uma honrosa exceção: ouvir. É exatamente lavando panelas que ouço músicas novas para minhas aulas de dança e, também, que eu acabo ouvindo podcasts
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___Escrevo esta postagem simples com dois objetivos: primeiro, já que a louça parece se reproduzir como gremlins molhados (hum... será esse o problema?), gostaria de pedir indicações de podcasts para os leitores. O segundo objetivo é fazer uma indicação. 
___Ouço alguns podcasts mais famosinhos que contam com atualizações bem marcadas, como o semanal Nerdcast e, a cada 10 dias, o Papo de Gordo. Só que o meu preferido é um pouco menos conhecido e sem periodicidade alguma: quando um novo programa aparece é sempre uma surpresa. Foi exatamente essa surpresa que me fez sentar para escrever essa indicação: há dois dias, o Escriba Café lançou mais um episódio – no caso, sobre a Somália
___O patamar de meu podcast preferido foi atingido não apenas porque o Escriba Café fala de temas atípicos. O cuidado com a edição de cada episódio é admirável e, tal qual um programa de rádio da década de 1940, a sonoplastia deixa o podcast mais vivo e palpável do que muitos vídeos de televisão. Só para exemplificar, indico o episódio LXXIX, “O assassino do zodíaco”. Sinceramente, achei que valeu mais a pena escutá-lo do que assistir a última temporada do seriado Dexter
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___Espero que vocês gostem da indicação. E, para quem já ouve podcasts, por favor, não deixe de indicar algo também.
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P.S.: Caso alguém queira indicação de um programa de rádio tradicional, o meu preferido ainda é o Sala dos Professores, do Daniel Daibem. O programa infelizmente não existe mais, mas dá para ouvi-lo no arquivo da rádio Eldorado.

08 novembro, 2013

Teste de Rorschach

___Em pleno dia em que se comemora o nascimento do psiquiatra Hermann Rorschach, descubro que tem muita gente que o acha parecidíssimo com o Brad Pitt. Tanto que abundam pela internet imagens colocando os dois lado a lado. 
Hermann Rorschach e Brad Pitt
Hermann Rorschach e Brad Pitt
Hermann Rorschach e Brad Pitt
Hermann Rorschach e Brad Pitt
___Pessoalmente, não vejo tanta semelhança assim. Tá certo que eu nunca fui um bom fisionomista (tanto que até acabei comendo aquele pedaço de pão que talvez tivesse a cara de Jesus). 
___Pode ser que alguém provoque me dizendo que eu tenho sorte do Teste de Rorschach não valer nota. Meu retruque seria dizer para a pessoa prestar atenção na imagem abaixo de uma raposa com vontade de comer uvas. ;-)
Teste de Rorschach

05 novembro, 2013

Intervenção

___Existe tanta gente com problemas, precisando de apoio, de amparo. Ainda bem, em vários casos, existem grupos tentando ajudar. Infelizmente, não é possível saber da existência de cada uma desses esforços – quem dirá ajudá-los. No entanto, saber que alguém está lutando por determinada causa pode ser um importante passo inicial para, de alguma forma, engajar-se também. 
___Mesmo sabendo o quão importante é a questão indígena, eu só soube da existência da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, da Mobilização Nacional Indígena e do ótimo site A República dos Ruralistas por conta de uma intervenção artística. 
Intervenção artística na rua Apinajés - #DireitosIndígenas
___Uma estátua, um nome de rua, um feriado existe para, de alguma forma, manter a memória de determinado assunto. Só que essa memória não precisa ser apenas algo ligado ao passado, ela pode muito bem ser utilizada como parte de uma luta presente. Foi exatamente o que a bela intervenção artística acima me lembrou ao caminhar por uma rua com o nome de um povo indígena. 
___Algo lindo, necessário e que merece mais divulgação. #DireitosIndígenas

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Doações - D. Pedro II, por Tiburcio

03 novembro, 2013

Não foi privatização!

___Depois do meu textinho jocoso sobre o leilão para privatizar o Campo de Libra, apareceu um pobre governista nos comentários dizendo que não foi uma privatização. Para justificar tal afirmação, o anônimo usa o argumento de que a própria presidenta disse que não foi
___Se o comentarista justifica a sua afirmação utilizando a palavra da presidenta Dilma, eu justifico a minha com o maravilhoso Carlos Latuff.
Dilma e a privatização do Campo de Libra, por Carlos Latuff
___É só isso que eu tenho a dizer, por enquanto.

01 novembro, 2013

Temporal

___É delicioso ler livros escritos em outras épocas para ver como as pessoas pensavam, o que era aceitável naquele período e coisas do tipo. Em Caçadas de Pedrinho, ao contar que as onças planejam devorar a todos, Emília acrescenta: “Não vai escapar ninguém — nem Tia Nastácia, que tem carne preta.”*. Quando Monteiro Lobato publicou isso (e diversos outros comentários que denegriam Tia Anastácia por conta da cor da sua pele) em 1933, não se viu nada de mais. 
___Hoje, ainda bem, existem acadêmicos pedindo para que as editoras a insiram notas explicitando a existência de estereótipos raciais. Mais do que isso, para que uma personagem ficcional contemporânea possa produzir uma fala como a da Emília, ela teria de ser assumidamente racista.
Walter White e o nazista "tio" Jack Welker, do seriado Breaking Bad (2008-2013)
___Recentemente, lendo Razão e Sensibilidade, da Jane Austen, cruzei com outros exemplos interessantes. Em um deles, uma das personagens diz que “Os dois formariam um excelente casal, porque ele era rico e ela era bonita.”**. Claro que, do jeito que a nossa sociedade é imbecil, ainda é bem plausível se produzir – inclusive fora da ficção – uma frase assim. 
___O outro exemplo, graças a Clio, já é praticamente inaceitável. Ei-lo: 
___“– Uma mulher com 27 anos – disse Marianne, depois de fazer uma pausa momentânea – nunca poderá esperar sentir ou inspirar afeto novamente”***. 
___O início do século XIX poderia até produzir frases assim. Na nossa sociedade, entretanto, é completamente descabida a ideia de que uma mulher com 27 anos não iria nunca atrair ninguém ou, pior ainda, não seria nem mais capaz de gostar de alguém. É algo tão irreal, que se hoje uma autora produzisse um romance que se passa no século XIX e acabasse por colocar tal frase na boca de uma personagem, não faltariam leitores a chamá-la de exagerada, para dizer que aquele trecho era irreal e coisas do tipo.**** 
___Hoje, também seriam irreais na minha boca palavras que, há dez anos, me soariam naturais. Se alguém for ler o que eu já escrevi neste blog daqui uns cem anos, sem dúvida vão encontrar muito pelo que me censurar. Até lá, continuo, completamente datado, pintando o retrato surreal da minha época. Eu e todo mundo.
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P.S.: Outra citação literária interessante: no mesmo capítulo IV em que Emília-Lobato solta o escroto comentário racista sobre a Tia Anastácia, ela (-o autor) toma uma atitude feminista bem legal. Segue a citação:
___– Eles vão atacar a casa e comer toda a gente do sítio — disse o besouro com voz cautelosa.
___– Eles quem? – indagou Emília.
___– As onças, as irarás e os cachorros-do-mato.
___– Elas, então – disse Emília, que implicava muito com a regra de gramática que manda pôr pronome no masculino quando há diversos sujeitos de sexos diferentes. Elas vão atacar o sítio, não é?
___Para mais reflexões sobre o assunto, leiam o “mini-manual pessoal para uso não-sexista da língua”, do Alex. 

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* Capítulo IV.  
** Capítulo VIII. Grifos do livro.
*** Capítulo VIII.
**** Mesmo se a personagem fosse como Marianne: uma tresloucada, toda dirigida por seus sentimentos.

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