28 maio, 2012

Dânae e a chuva dourada

___Querendo muito se divertir com o medo alheio, Apolo envia uma profecia para o rei Acrísio, alertando-o que seu neto o mataria. Sem demora, o monarca trancou sua filha Dânae em uma bem guardada prisão subterrânea. Como a garota ainda era virgem, ficar completamente enclausurada com seus próprios dedos a impediria de engravidar e, portanto, a profecia da morte do rei não se concretizaria.
___Como não poderia deixar de ser, Dânae era extremamente bela. Sendo assim, do alto do Olimpo Zeus conseguiu vê-la e ficou a morrer de vontade de trocar carícias com a donzela.
___O todo poderoso deus vestiu o seu melhor terno, aparou a barba, colocou o perfume Essência de Ambrosia nº 4,5 e se transformou em uma chuva dourada. Pouco depois, caiu pingando prisão adentro e engravidou a bela virgem.*


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___Eu sei que a estória de Dânae é apenas uma narrativa mitológica, mas, a não ser que ela curtisse algum tipo de golden shower, ainda acho muito estranho essa loucura de ter um caso com uma chuva dourada. Se eu fosse reescrever a lenda de maneira séria, acho que iria preferir a versão do Oglaf.


Dânae


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* O que foi? Alguém achou que essa história de engravidar virgens era privilégio do deus cristão?

21 maio, 2012

Novilíngua – e a ausência de Sociologia e Filosofia

Obediência: a função das palavras
___Você sabe qual é a função das palavras? Esqueça aquelas ideias bonitinhas de que as palavras existem para nos ajudar na comunicação, para expressar o que sentimos, para cantar axé ou sei lá mais para quê. A função das palavras é simples: servir quem as comanda. Normalmente, existem três tipos de seres que mandam nas palavras: burocratas, advogados e bons escritores. E digo mais: as palavras são obedientes e não importa qual o seu significado, esses artífices conseguem, sem grandes esforços, distorcer esses significados ao seu bel prazer.
___“Que maluquice!”, talvez você esteja pensando, “As palavras têm seus significados e não é um advogado ou escritor que poderá mudar isso.”. É mesmo? Pois, então, vá ler Guimarães Rosa ou enfrentar um advogado talentoso para ver como eles vão carinhar ou espancar as palavras até elas não parecerem mais o que um dia foram.


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Semana Paulo Freire
___Em um lindo lampejo de preocupação com o livre pensamento, a criticidade e o bem estar da população, em 2 de junho de 2008 o Governo Federal, por meio da Lei número 11.684, transformou Filosofia e Sociologia “disciplinas obrigatórias em todas as séries do ensino médio”.
___Infelizmente, alguns colégios desrespeitam a lei até hoje. Entre elas está a ETESP, escola administrada pelo Centro Paula Souza. Nela, apenas o segundo e o terceiro ano do Ensino Médio contam com aulas de Sociologia e Filosofia. No primeiro ano, segundo o que é dito aos estudantes, “todo” o conteúdo das duas matérias é teoricamente “ensinado” junto às outras disciplinas e em cinco dias alcunhados de “Semana Paulo Freire”.


Onde foi parar Sociologia e Filosofia?


___Aí está um exemplo de como os burocratas, facilmente, conseguem manipular as palavras. Escolheram exatamente o nome de Paulo Freire, o maior estudioso da Educação de toda a história do Brasil, para nomear uma semana que nada mais é do que um engodo pedagógico. O resultado é que, na ETESP, a Semana Paulo Freire é sinônimo de mentira, enganação, não de aprendizado.


Paulo Freire se revirando no caixão
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Homenagem de Laerte a Leandro Narloch
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Enrolando publicamente
___Incomodado por não ter disciplinas obrigatórias no primeiro ano, @PaulinhoTrii, um estudante da ETESP, twittou para o @paulasouzasp:


Tweet - @PaulinhoTrii


___Demonstrando atenção (pelo menos nisso), o perfil oficial do Centro Paula Souza respondeu:


Tweets - @paulasouzasp


___Infelizmente, apesar na presteza da resposta, ela se enquadra no campo das mentiras e das manipulações dos discursos. Vou demonstrar em três itens.
___(1) O caso mais básico de maquilar as palavras foi o doce “Etecs têm Filosofia e Sociologia no Ensino Mèdio como componentes curriculares e não como disciplinas”. São “componentes curriculares e não... disciplinas” pareceu até a assessoria de imprensa do governador Alckmin, depois do acidente do metrô (causado por uma placa eletrônica que deveria ter sido renovada, mas não foi por conta da falta dos investimentos prometidos), dizendo que não executar o orçamento não é o mesmo que deixar de investir.
___(2) Filosofia e Sociologia são “disciplinas obrigatórias em todas as séries do ensino médio”. A resposta do @paulasouzasp de que são componentes curriculares e não disciplinas, seria porcamente aceitável para o Ensino Técnico. Entretanto, a ETESP conta com Ensino Técnico e Ensino Médio completamente separados, plenamente independentes. Em outras palavras, para o Ensino Médio, o caso do aluno @PaulinhoTrii, Sociologia e Filosofia são obrigatórias.
___(3) A desculpa de que o parecer do MEC de janeiro do 2012 permite uma enganação pedagógica dessas também não cola. Sou professor na ETESP desde 2009 e durante 2009, 2010 e 2011 Sociologia e Filosofia também não foram disciplinas do primeiro ano.


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Sofismo
___Para ninguém achar que a manipulação discursiva desonesta terminou aí, o @paulasouzasp ainda soltou um argumento extremamente escroto que costuma ser disseminado pelos inimigos da Educação.


Tweet - @paulasouzasp


___Essa desculpa de que o conhecimento das áreas de Filosofia e Sociologia (ou de alguma outra área) “pode ser abordado em qualquer matéria e/ou de maneira interdisciplinar” é de uma desonestidade tão grande que chega a dar nojo. Ao invés de investir na contratação de profissionais ou no aumento do número de aulas, joga-se a responsabilidade para outras disciplinas. O principal perigo desse argumento é que ele pode ser usado para eliminar qualquer matéria ou campo de conhecimento. É uma arma muito poderosa para deixar nas mãos de burocratas.




___– Então, por meio deste novo decreto – anuncia o secretário da Educação – conseguimos eliminar mais uma disciplina. A partir de agora, os estudantes de Ensino Médio deverão ir à escola apenas para aprender Educação Física.
___Ao ser questionado pelos jornalistas, o secretário detalha um pouco mais:
___– Aprofundados estudos educacionais foram feitos e percebemos que Educação Física consegue suprir todas as outras disciplinas. Ao contar os pontos nas partidas, os alunos estarão estudando Matemática; ao arremessar uma bola, Física; ao suar, Química; ao trabalhar o corpo, Biologia; ao ouvir as instruções do professor, Línguas; ao interagir com os colegas, Sociologia; ao refletir sobre uma derrota, Filosofia; ao utilizar o solo das quadras, Geografia; ao jogarem esportes centenários, como o futebol, obviamente estarão estudando História. E mais, tudo isso de maneira interdisciplinar! Sem dúvida, os alunos não estarão perdendo nada. E mais, sem gastar com os especialistas desnecessários das outras disciplinas, os cofres públicos terão muito mais dinheiro para investir na Educação. Inclusive, já está em andamento a licitação para a compra de mais bolas...



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Palavras obedientes


O contrário de "vazio", por Laerte


___“Ah, mas quem me garante que você não está, aí, manipulando as palavras?”. Ninguém lhe garante isso, querido Padawan. E, para falar a verdade, não há a menor dúvida: eu também estou manipulando as palavras. Entretanto, entre o escritor e o burocrata, eu prefiro levar a sério o discurso do escritor. Quanto a você, aconselho que reflita, busque mais informações, estude Sociologia e Filosofia e chegue às próprias conclusões.


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Texto dedicado ao @PaulinhoTrii, ao Grêmio Estudantil Bertold Brecht e a todos os estudantes com algum senso crítico.

20 maio, 2012

Não faz sentido

___O dono chega à clínica veterinária e pede pelo seu cachorro, que ficou por lá durante a noite se recuperando de uma cirurgia. Alguns minutos depois, a atendente lhe entrega um poodle.
___Um tanto boquiaberto com a situação, o cliente diz: “É... Esse não é o meu cachorro. O Salieri é um são bernardo.”.
___A atendente se desculpa e leva o poodle para dentro. Em seguida, volta e entrega para o cliente dois gatos.


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42 - Nonsense-copy, por Ricardo Yoshio Okama Tokumoto
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___Sei que a historinha do cachorro parece um conto nonsense, mas, creiam ou não, algo levemente parecido aconteceu na última vez que eu pedi comida chinesa.
___Cerca de meia-hora depois de fazer um pedido simples (um yakisoba de carne e dois rolinhos de queijo), o porteiro interfonou avisando da chegada da entrega. Quando me sentei para comer, percebi que o yakisoba era de frango, não de carne. A confusão não me agradou, mas achei que era erro pequeno para arriscar ter o meu próximo pedido cuspido. Continuei comendo e, quando mordi um dos rolinhos, descobri que não era de queijo, mas, sim, primavera.
___Incomodado por ter o pedido inteiro errado, liguei para reclamar. Avisei que não haviam entregado nada corretamente. A atendente se desculpou e disse que entregaria o pedido correto em breve. Pouco depois, recebi a nova entrega, abri e fiquei impressionado de encontrar lombo de porco frito e nenhum rolinho.
___Pelo menos o lombo estava delicioso. Talvez tenha sido a cusparada.


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Patrocínio: Pepsi. ;-)

18 maio, 2012

Acidente no metrô...

... e os (não-)investimentos do governo do PSDB.


___Na última quarta-feira, pela primeira vez na história do metrô paulistano, ocorreu uma colisão entre dois trens. A placa eletrônica que deveria frear o trem automaticamente falhou e, ao invés de fazer toda a composição frear, acelerou-a. O acidente com mais de 100 feridos poderia ter sido muito pior se não fosse o operador Rogério que salvou muitas vidas ao acionar o freio de emergência.
___Esse é apenas mais um exemplo da importância de um operador dentro de cada trem do metrô. Infelizmente, o governo do PSDB não parece muito preocupado com a segurança da população, já que a Linha 4 - Amarela, a nova linha do metrô, funciona sem a presença de um operador (mesmo sob o protesto dos metroviários).
___“Ah, seu ignorante!”, dirão os viciados em tecnologia que choraram por um mês quando da morte do Steve Jobs, “O sistema utilizado pelos trens da Linha Amarela é bem mais seguro do que um maquinista. A chance de acidente com a tecnologia como segurança é incontáveis vezes menor.”. Ótimo, espero mesmo que seja. Mas, contar com a segurança extra de um operador, além do novo sistema, só demonstra um maior cuidado com os usuários do metrô. Caso o atual novo sistema falhe,* um maquinista no local pode ser o diferencial para salvar vidas.


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___Feita, acima, a reflexão mais séria, gostaria agora de demonstrar meu repúdio ao PSDB, partido que está no governo estadual faz mais de uma década e meia e, na teoria, deveria cuidar da manutenção do metrô. Quando apontado que o governador Geraldo Alckmin deixou de investir mais de 200 milhões na modernização do metrô em 2011, a assessoria de imprensa do governador contestou afirmando que “Dizer que deixamos de investir é uma informação tendenciosa, o dinheiro que não foi gasto continua nos cofres do Estado” e reiterou dizendo que não executar o orçamento não é o mesmo que deixar de investir.
___Certo, vamos olhar as coisas com calma. A não ser em termos náuticos, pelo que eu saiba, um orçamento governamental de modernização é exatamente uma promessa de investimento. Se esse investimento não foi feito, para mim parece exatamente o mesmo que “deixar de investir”. Mas, já que a assessoria de imprensa do governador Alckmin diz que não é o mesmo, eu gostaria de perguntar:
- Prometer investir na modernização do metrô e não o fazer não é o mesmo que desrespeitar os cidadãos?
- José Serra (outro político sem-vergonha do PSDB) prometeu ficar até o fim do seu último mandato e não cumpriu a promessa. Esse descumprimento não é o mesmo que enganar os seus eleitores?
- Falar inverdades sobre os investimentos estaduais nas escolas técnicas não é o mesmo que mentir?
- Não punir policiais que agiram com violência excessiva contra cidadãos não é o mesmo que compactuar com a atitude dessa polícia?
- Mandar o governador se foder por ser um safado não é o mesmo que mandá-lo tomar no cu?


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* O que não é impossível de acontecer, visto a manutenção deficiente que o governo dedica ao transporte público. A placa eletrônica que falhou estava com 30 anos de uso. Será que o tão seguro novo sistema será tão bom assim daqui 30 anos?

14 maio, 2012

Fondue de Nuggets

1- Chegue do trabalho cansado.
2- Abra a geladeira e sorria porque:
___a) você acaba de recordar bons momentos do fim-de-semana com a sua esposa.
___b) existem sobras do final-de-semana.
3- Olhe o resto dos nuggets do almoço anterior em uma tupperware.
4- Note que, na panela de fondue, ainda sobrou bastante queijo.
5- Coloque a panela de queijo no fogo e os nuggets no micro-ondas.
6- Ao invés de utilizar um pedaço de pão, tente mergulhar os nuggets no queijo.
7- Queime sua mão.
8- Pegue um garfo maior.
9- Mergulhe os nuggets no queijo.
10- Delicie-se.
___Porção para uma pessoa.


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P.S.: Se quiserem, também tenho uma receita de "Petit gâteau fast food".

11 maio, 2012

#VetaDilma, promessa de campanha?

#VetaDilma


___Muito tem se falado atualmente sobre as mudanças no Código Florestal brasileiro. Atualmente, o foco está em pedir para que a presidenta Dilma o vete. Meu problema é como as pessoas têm compartilhado isso.


#VetaDilma - Promessa de campanha


___Sinceramente, não lembro de Dilma falando sobre o assunto durante a campanha presidencial, não lembro de uma promessa de campanha sobre vetar mudanças no Código Florestal. Posso estar errado, mas não lembro mesmo e, também, não encontrei provas da então candidata falando isso. O que eu encontrei, foi o seguinte:


[embed width="500"]http://www.youtube.com/watch?v=qnb8UZN4KVY[/embed]


___Não é uma fala de campanha. Dilma falou tudo isso em maio de 2011, já presidenta, portanto. Mesmo assim, mostrou-se favorável ao veto. Espero que mantenha a posição.


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P.S.: Caso algum leitor tenha alguma prova da Dilma, em campanha, prometendo o veto, ficarei feliz em ser corrigido. Gostaria mesmo de vê-la falando isso.

07 maio, 2012

Nada de chapéu!

___Em uma cena divertida do desenho Os Incríveis, Edna E. Moda e o Senhor Incrível discutem sobre um novo uniforme de super-herói. Empolgado, ele diz:
___– É... Uma roupa clássica que nem a do Dinamite! Oooo... Ele tinha uma roupa legal. A capa e as botas...
___Quando a estilista o interrompe, jogando um papel na cara do herói e dizendo categórica: “Nada de capa!”. O Senhor Incrível tenta argumentar, mas Edna é inflexível e, para fortalecer a sua decisão, fornece vários exemplos de heróis que morreram por conta da capa. Vejam abaixo (até 1’41”).


[embed width="500"]http://www.youtube.com/watch?v=Tkok_YJGsn8[/embed]
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Tango, por Cris Vector


___Um adereço muito comum utilizado por dançarinos, principalmente em coreografias, é o chapéu. Até aí, nada de errado. O problema é que, obviamente, o chapéu tem chance de cair no meio da dança e isso desconcentra os dançarinos, atrapalha a performance e afins. Só para mostrar um par de exemplos, é possível ver naquela coreografia dos Irmãos Mario – que eu citei por aqui – o cavalheiro esquecendo a dama (de 44” a 48”) por conta do chapéu que caiu. Ou, como é possível perceber facilmente na salsa abaixo, mais de uma vez os dançarinos perderam o prumo ou saíram de formação por conta do adereço de cabeça.


[embed width="500"]http://www.youtube.com/watch?v=pLIcE4qJ_PQ[/embed]


___Não sou tão exagerado em relação aos chapeis quanto a Edna Moda em relação às capas. A cobertura na cabeça pode combinar com o que está sendo dançado, pode tornar a performance mais interessante, mas, se caiu, o dançarino tem de lembrar: o chapéu não é o ponto principal da dança, ignore-o. A não ser, é claro, que o dançarino tenha a desenvoltura de Arjay Centeno:


[embed width="500"]http://www.youtube.com/watch?v=KkcHzqr8a34[/embed]
Link do vídeo.

05 maio, 2012

“Só fiz o que qualquer um faria.”

___Uma amiga querida me emprestou um livro triste (pelo menos até o ponto em que eu já li) chamado Pequena Abelha*. Em determinado momento, uma personagem descreve a seguinte situação:




Havia duzentas pessoas espremidas dentro de cada vagão. Com o corpo imprensado e imóvel, ouvimos o rangido estridente das rodas de metal nos trilhos. Durante três paradas, viajei apertada de encontro a um homem magro vestido com um casaco de veludo cotelê que chorava em silêncio. Normalmente, teria desviado o olhar, mas minha cabeça estava imobilizada numa tal posição que só podia olhar para ele. Gostaria de ter passado um braço pelos ombros daquele homem – até um afago simpático em seu ombro teria bastado. Mas os outros passageiros não deixavam que movesse meus braços. Talvez alguns desses também tenham tido vontade de consolar o homem, mas estávamos todos comprimidos demais para nos movermos. O próprio número de pessoas bem-intencionadas tornava a compaixão algo embaraçoso. Um de nós teria de empurrar os outros para abrir caminho até ele e dar o exemplo para todos, o que teria sido uma atitude nada britânica. Eu não tinha certeza se seria capaz de manifestar ternura assim, num trem lotado, sob o olhar silencioso dos outros. Foi horrível para mim não ajudar o homem, mas eu estava dividida, oscilando entre dois tipos de vergonha. Por um lado, a vergonha de não cumprir uma obrigação humana. Por outro, a loucura de ser a primeira de uma multidão a ousar um gesto.
___Sorri, impotente, para o homem que chorava e não consegui parar de pensar em Andrew.
___Assim que se chega à superfície, claro, é fácil esquecer nossas obrigações humanas.



___Mais à frente, a mesma personagem conta um pouco sobre o enterro de Andrew, seu marido:




___Meu filho [vestido de Batman] se desvencilhou de meu abraço, soltou-se de mim. Aconteceu muito depressa. Ele foi até a extremidade do buraco. Olhou para trás, para mim, depois se virou e avançou, mas a grama que encobria a beirada do buraco cedeu sob seus pés e ele caiu, a bat-capa flutuando atrás dele, dentro do buraco. Aterrissou com um baque surdo em cima do caixão de Andrew. Houve um único grito agoniado de uma das pessoas presentes.
(...)
___As pessoas aglomeraram-se em torno da beira da sepultura, paralisadas com o horror daquela situação, daquela primeira descoberta da morte que era pior do que a própria morte. Eu tentava me debruçar mas havia mãos em meus cotovelos me detendo. Eu lutava para me soltar, olhava todos os rostos horrorizados ao redor do túmulo e pensava: Por que ninguém faz nada?
___Mas é difícil, muito difícil ser o primeiro.
___Finalmente, foi Abelhinha que desceu, que entrou na sepultura e segurou meu filho para os outros o puxarem para fora. Charlie dava chutes, mordia e esperneava ferozmente, a máscara e a capa enlameadas. Queria voltar para baixo. E foi Abelhinha, depois que a tiraram de lá, quem o abraçou e o conteve enquanto ele gritava, NÃO, NÃO, NÃO, NÃO, NÃO ...
(...)
___Ao lado da sepultura, quando os gritos cessaram, segurei Charlie junto ao meu corpo, a cabeça apoiada em meu ombro.
(...)
___Abelhinha ficou comigo. De pé ao lado da sepultura, nós nos entreolhamos.
___– Obrigada – disse eu.
___– Não foi nada – disse Abelhinha. – Só fiz o que qualquer um faria.
___– É, só que ninguém fez – repliquei.



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___Faz uns dias, um leitor me enviou o seguinte vídeo:


[embed width="500"]http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=TBvVeQKn-Js[/embed]


___Claro, a primeira coisa que chama a atenção é a demência do motorista que, covardemente, atropelou o pedestre de propósito. É o próprio retrato de um mundo que valoriza mais os automóveis do que a vida. Só que, além do absurdo básico da cena, outra coisa me chamou a atenção: tudo aconteceu e ninguém fez nada. Ninguém reagiu quando do atropelamento, ninguém tentou impedir a agressão e, por fim, ninguém socorreu o rapaz ao chão.
___Mas é difícil, muito difícil ser o primeiro.


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P.S.: Para não ficar só no exemplo do vídeo sul africano, vejam uma situação parecida, com um motorista agredindo uma idosa, aqui no Brasil.


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* De Chris Cleave. Edição da editora Intrínseca.

01 maio, 2012

Trabalhadores

___Escola particular paulistana de classe média alta, semana de provas. Três professores não chegam à tempo para a primeira aula. Como as avaliações são aplicadas em um horário rígido, por conta do imprevisto acabam entrando para tapar buraco nas três salas sem professores, uma coordenadora, um inspetor e uma faxineira, antiga funcionária da escola.
___Na sala que a Faxineira estava a tomar conta, um aluno – terceira fileira, quarta carteira – começa a consultar um livro por baixo da mesa. Inexperiente com a situação, mas percebendo a cola, a senhora se aproxima calmamente e fala para o estudante:
___– Meu filho, por favor, não faça isso... Colar só vai prejudicar o seu aprendizado... Estudar é muito importante para o seu futuro.
___Sem se abalar, o aluno levanta os olhos e fala:
___– Por quê? Se eu não estudar vai acontecer o quê? Eu vou virar faxineiro?


Limpieza General, por Boligan
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___O relato acima é verídico.* Agora vou contar um fictício sobre o futuro do moleque mal-educado.
___Sem nunca precisar estudar para passar de ano, o garoto se forma. Por exigência dos pais, faz cursinho pré-vestibular, mas nunca estuda e não frequenta metade das aulas. No fim das contas, passa em uma faculdade particular caça-níqueis, aquelas em que não é necessário nem ser alfabetizado para conseguir uma vaga.
___Na faculdade, acaba se mostrando tão interessado nos estudos quanto era no colégio. Forma-se sem ter lido um texto da faculdade, sem saber nada sobre a profissão da qual, agora, é diplomado. Mesmo completamente incompetente, termina empregado por um conhecido de seu pai, com um salário que o coloca entre os 10% mais ricos da população. Nunca tem de trabalhar de verdade, outros que recebem menos que o mal-educado fazem o trabalho.
___Por coincidência, a filha da Faxineira, desde criança muito estudiosa (mesmo estudando em péssimos colégios públicos), trabalha na mesma firma que o diplomado rapaz. Educada, esforçada e muito competente no próprio trabalho, a mocinha sempre chega cedo, de duas a três horas antes do mal-educado. E, todos os dias, ao encontrá-lo, diz: “Bom dia, doutor. Sua sala já está limpa.”.


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___Feliz Dia dos Trabalhadores para todos.


Feliz Dia da Trabalhadora, por Bennett


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* Presente de uma professora muito querida.

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